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Top 30: os melhores filmes de 2015 + indicados aos Frankies

Muita coisa boa chegou aos cinemas brasileiros em 2015, embora eu, pessoalmente, não ache que nenhum dos grandes filmes do ano seja uma obra-prima. Mas, fazendo um levantamento do nosso circuito (que lança muitos títulos, mas de maneira muito irregular e injusta), encontrei longas bastante especiais. Os dois eventos cinematográficos do ano foram a chegada de um filme de Lav Diaz aos cinemas brasileiros e a exibição do último filme de Jean-Luc Godard, em 3D!, nos multiplexes da vida. Na minha lista de melhores do ano, tem de filme iraniano rodado por cineasta herói condenado a prisão domiciliar até blockbuster estrelado por herói da Marvel. Tem Moby Dick, num dos filmes mais subestimados do ano; tem o melhor filme de espiões de 2015; animação americana, animação japonesa; terror cult; brasileiros de cunho social; russo de cunho social; melodrama alemão; Crime e Castigo filipino; memórias francesas; e retomada de duas das franquias mais amadas do universo pop. Ou seja, tem de tudo. De quebra, tem os indicados para a vigésima terceira edição dos meus prêmios de cinema, os Frankies. Deixem suas impressões e suas listas nos comentários.

Taxi Teerã

30 Taxi Teerã
[Taxi, Jafar Panahi, 2015]

Três Lembranças da Minha Juventude

29 Três Lembranças da Minha Juventude
[Trois Souvenirs de Ma Jeunesse, Arnaud Desplechin, 2015]

Mapas para as Estrelas

28 Mapas para as Estrelas
[Maps to the Stars, David Cronenberg, 2014]

Winter Sleep

27 Winter Sleep
[Kis Uykusu, Nuri Bilge Ceylan, 2014]

Adeus à Linguagem

26 Adeus à Linguagem
[Adieu au Langage, Jean-Luc Godard, 2014]

Kingsman

25 Kingsman – Serviço Secreto
[Kingsman: The Secret Service, Matthew Vaughn, 2014]

Jauja

24 Jauja
[Jauja, Lisandro Alonso, 2014]

Orestes

23 Orestes
[Orestes, Rodrigo Siqueira, 2015]

Casa Grande

22 Casa Grande
[Casa Grande, Fellipe Barbosa, 2014]

No Coração do Mar

21 No Coração do Mar
[In the Heart of the Sea, Ron Howard, 2015]

Phoenix

20 Phoenix
[Phoenix, Christian Petzold, 2014]

Star Wars - Episódio VII - O Despertar da Força

19 Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força
[Star Wars: Episode VII - The Force Awakens, JJ Abrams, 2015]

Foxcatcher

18 Foxcatcher
[Foxcatcher, Bennett Miller, 2014]

Macbeth: Ambição e Guerra

17 Macbeth: Ambição e Guerra
[Macbeth, Justin Kurzel, 2015]

Homem-Formiga

16 Homem-Formiga
[Ant-Man, Peyton Reed, 2015]

A Gangue

15 A Gangue
[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

Que Horas Ela Volta?

14 Que Horas Ela Volta?
[Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert, 2015]

As Mil e Uma Noite - Volume 1 - O Inquieto

13 As Mil e uma Noites – Volume 1: O Inquieto
[As Mil e uma Noites - Volume 1: O Inquieto, Miguel Gomes, 2015]

Acima das Nuvens

12 Acima da Nuvens
[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

Dois Dias, Uma Noite

11 Dois Dias, Uma Noite
[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre & Luc Dardenne, 2014]

O Conto da Princesa Kaguya

10 O Conto da Princesa Kaguya
[Kaguyahime no Monogatari, Isao Takhata, 2013]

O Ano Mais Violento

9 O Ano Mais Violento
[A Most Violent Year, JC Chandor, 2014]

A Terra e a Sombra

8 A Terra e a Sombra
[La Tierra y la Sombra, César Augusto Acevedo, 2015]

Selma

7 Selma – Uma Luta pela Igualdade
[Selma, Ava DuVernay, 2014]

Corrente do Mal

6 Corrente do Mal
[It Follows, David Robert Mitchell, 2014]

Os cinco primeiros colocados na minha lista de melhores do ano seguem em ordem alfabética porque, automaticamente, eles são os cinco indicados para a categoria principal dos Frankies, meus prêmios anuais e pessoais de cinema. Então, não dá pra revelar antes de conhecer todos os outros vencedores, o que vai acontecer no domingo, dia 3 de janeiro. Os indicados para a vigésima terceira edição dos Frankies são:

filme do ano

Diverta Mente

Divertida Mente
[Inside Out, Pete Docter & Ronnie del Carmen, 2015]

Leviatã

Leviatã
[Leviafan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

Mad Max: Estrada da Fúria

Mad Max: Estrada da Fúria
[Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015]

Norte, o Fim da História

Norte, o Fim da História
[Norte, Hangganan ng Kasaysayan, Lav Diaz, 2013]

O Pequeno Quinquin

O Pequeno Quinquin
[P'tit Quinquin, Bruno Dumont, 2014]

direção
Andrey Zvyagintsev, Leviatã
Ava DuVernay, Selma
Bruno Dumont, O Pequeno Quinquin
George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria
Lav Diaz, Norte, o Fim da História

ator
Bernarde Pruvost, O Pequeno Quinquin
David Oyelowo, Selma
Michael Fassbender, Macbeth: Ambição e Guerra
Oscar Isaac, O Ano Mais Violento
Sid Lucero, Norte, o Fim da História

atriz
Charlize Theron, Mad Max: Estrada da Fúria
Juliette Binoche, Acima da Nuvens
Maeve Jinkings, Amor, Plástico e Barulho
Marion Cotillard, Dois Dias, Uma Noite
Regina Casé, Que Horas Ela Volta?

ator coadjuvante
Edward Norton, Birdman
J.K. Simmons, Whiplash
Kristofer Hivju, Força Maior
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Sergey Pokhodaev, Leviatã

atriz coadjuvante
Andréa Beltrão, Chatô – O Rei do Brasil
Elena Lyadova, Leviatã
Julianne Moore, Mapas para as Estrelas
Kristen Stewart, Acima da Nuvens
Nina Kunzendorf, Phoenix

elenco
Acima das Nuvens
Birdman
Casa Grande
Leviatã
O Pequeno Quinquin

cena do ano
Bing Bong se despede, Divertida Mente
A fuga, O Conto da Princesa Kaguya
Furiosa descobre a verdade, Mad Max: Estrada da Fúria
A igreja, Kingsman
A ponte, Selma

roteiro original
Acima da Nuvens, Olivier Assayas
Corrente do Mal, Corrente do Mal,
Divertida Mente, Pete Docter, Meg LeFauve & Josh Cooley
O Pequeno Quinquin, Bruno Dumont
Selma, Paul Webb

roteiro adaptado
O Conto da Princesa Kaguya, Isao Takahata & Riko Sakaguchi
Macbeth: Ambição e Guerra, Jacob Koskoff, Michael Lesslie & Todd Louiso
As Mil e uma Noites – Volume 1: O Inquieto, Miguel Gomes, Telmo Churro & Mariana Ricardo
No Coração do Mar, Charles Leavitt
Norte, o Fim da História, Lav Diaz & Rody Vera

filme de estreia
O Desejo da Minha Alma, Masakazu Sugita
A Gangue, Miroslav Slaboshpitsky
Garota Sombria Caminha pela Noite, Ana Lily Amirpour
Shaun, o Carneiro, Mark Burton & Richard Starzak
A Terra e a Sombra, César Augusto Acevedo

filme brasileiro
Casa Grande, Fellipe Barbosa
Chatô – O Rei do Brasil, Guilherme Fontes
A História da Eternidade, Camilo Cavalcante
Orestes, Rodrigo Siqueira
Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert

fotografia
O Ano Mais Violento, Bradford Young
Corrente do Mal, Mike Gioulakis
Macbeth: Ambição e Guerra, Adam Arkapaw
No Coração do Mar, Anthony Dod Mantle
A Terra e a Sombra, Mateo Guzmán

montagem
Corrente do Mal, Julio Perez IV
Dois Dias, Uma Noite, Marie-Hélène Dozo
Leviatã, Anna Mass
Mad Max: Estrada da Fúria, Margaret Sixel
A Terra e a Sombra, Miguel Schverdfinger

direção de arte
Cinderela, Dante Ferretti
A Colina Escarlate, Thomas E. Sanders
Expresso do Amanhã, Ondrej Nekvasil
Mad Max: Estrada da Fúria, Colin Gibson
Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força, Rick Carter & Darren Gilford

figurinos
Cinderela, Sandy Powell
A Colina Escarlate, Kate Hawley
O Destino de Júpiter, Kym Barrett
Macbeth: Ambição e Guerra, Jacqueline Durran
Vício Inerente, Mark Bridges

maquiagem
A Colina Escarlate
Foxcatcher
Mad Max: Estrada da Fúria
No Coração do Mar
Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência

trilha sonora
A Colina Escarlate, Fernando Velázquez
O Conto da Princesa Kaguya, Joe Hisaishi
Corrente do Mal, Disasterpeace
Mad Max: Estrada da Fúria, Tom Holkenborg aka Junkie XL
Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força, John Williams

canção
“Bye, Bye, Amor”, Amor, Plástico e Barulho
“Glory”, Selma
“Inochi no Kioku”, O Conto da Princesa Kaguya
“Love Me Like You Do”, Cinquenta Tons de Cinza
“See You Again”, Velozes e Furiosos 7

som
Corrente do Mal
Mad Max: Estrada da Fúria
No Coração do Mar
Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força
Whiplash

efeitos visuais
A Colina Escarlate
Homem-Formiga
Mad Max: Estrada da Fúria
Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força
A Travessia

animação
O Conto da Princesa Kaguya, Isao Takahata
Divertida Mente, Pete Docter & Ronnie Del Carmen
As Memórias de Marnie, Hiromasa Yonebayashi
O Pequeno Príncipe, Mark Osborne
Shaun, o Carneiro, Mark Burton & Richard Starzak

documentário
Amy, Asif Kapadia
Cobain: Montage of Heck, Brett Morgen
Olmo e a Gaivota, Petra Costa & Lea Gloob
Orestes, Rodrigo Siqueira
Últimas Conversas, Eduardo Coutinho

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Top 10: os piores filmes de 2015

Noah Baumbach quase entrou na minha lista de piores filmes do ano com sua baboseira chamada Enquanto Somos Jovens, assim como Morten Tyldum e seu O Jogo da Imitação, mas teve coisa pior. E eu não estou falando de algumas das coisas mais óbvias como Busca Implacável 3, A Casa dos Mortos e a space opera mais calculadamente ruim dos últimos tempos, O Destino de Jupiter. Entre os meus piores, alguns filmes celebrados na última edição do Oscar, alguns indiezinhos manjados e algumas promessas de bilheteria que não se concretizaram. Todos me incomodaram muito mais do que os filmes ruins “clássicos” pela pretensão, pelos maneirismos ou pela falta de vergonha na cara mesmo. Deixem suas listas de piores nos comentários, mas com educação pra que elas sejam publicadas.

Quarteto Fantástico

10 Quarteto Fantástico
[Fantastic Four, Josh Trank, 2015]

Ou como estragar 50 anos de história e quatro das melhores personagens dos quadrinhos.

Eu Estava Justamente Pensando em Você

9 Eu Estava Pensando Justamente em Você
[Comet, Sam Esmail, 2014]

A segunda coisa hipster mais chata do universo de 2015.

Cala a Boca, Philip

8 Cala a Boca, Phillip
[Listen Up, Philip, Alex Ross Perry, 2014]

A coisa hipster mais chata do universo de 2015.

Love

7 Love
[Love, Gaspar Noé, 2015]

Honrando uma história de pretensões e desacertos.

Grace de Mônaco

6 Grace de Mônaco
[Grace of Monaco, Olivier Dahan, 2014]

Simplesmente inócuo.

Pixels

5 Pixels
[Pixels, Chris Columbus, 2015]

O filme que poderia ser o mais legal do mundo se não fosse o mais sem graça do ano.

Sob o Mesmo Céu

4 Sob o Mesmo Céu
[Aloha, Cameron Crowe, 2015]

Cameron Crowe perdeu o encanto, a graça, a melodia.

Caminhos da Floresta

3 Caminhos da Floresta
[Into the Woods, Rob Marshall, 2014]

Uma sessão de tortura até para quem gosta de musicais.

Invencível

2 Invencível
[Unbroken, Angelina Jolie, 2014]

Nem os Coen salvam este naufrágio no oceano da breguice.

A Teoria de Tudo

1 A Teoria de Tudo
[The Theory of Everything, James Marsh, 2014]

Todos os maneirismos, todos os maniqueísmos, toda a falta de cinema.

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Filmes do Chico #Melhores2015

O Filmes do Chico te convida a eleger os #Melhores2015 no cinema. Criei dez álbuns de fotos com as categorias do prêmio na página do blogue no Facebook. Para escolher seus favoritos, basta curtir as fotos. Pode votar em quantos quiserem. Seguem os links para as categorias:

Filme
Diretor
Ator
Atriz

Ator coadjuvante

Atriz coadjuvante

Filme brasileiro

Filme de estreia
Roteiro
Fotografia

Vote até 3 de janeiro!

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Norte, o Fim da História

Norte, o Fim da História

Fabian comete um crime. Joaquin recebe a culpa. Eliza fica com o fardo. As quatro horas e dez minutos de Norte, o Fim da História (e as cinco, oito, nove horas de outros trabalhos de Lav Diaz) fazem parte da estratégia do diretor para capturar a imensidão da vida. Grande parte deste longa (sendo longa uma palavra que não parece suficiente para dar conta de seus filmes) é dedicada a apresentar suas personagens, suas vidas, seus cotidianos. Os filmes do filipino são imensos. E não apenas por suas longas durações, mas por sua intenção de registrar tudo da maneira mais ampla e profunda possível.

Em boa parte das primeiras cenas, o cineasta não se preocupa com a velocidade, nem em fornecer todos os elementos da trama. O mais importante nesses longos momentos iniciais do filme é a capacidade de informar quem são e como vivem aquelas pessoas antes mesmo de começar a contar suas histórias. Essa paciência não é só fundamental para encontrar o tom de Norte, que não é um filme contemplativo como poderia se pensar, mas construir a base, digamos, filosófica para esta versão livre de Crime e Castigo, de Dostoievsky.

Do clássico russo, Lav Diaz retoma algumas temáticas: a amoralidade do planejamento de um crime, a crise ética do protagonista, o abismo social entre as classes. Premissas porque o filme parte disso para seguir seu próprio rumo, para desenhar suas personagens e entregá-los ao roteiro da vida. Fabian tem um discurso poderoso, raivoso, determinado, que na performance de Sid Lucero encontra uma porta-voz espetacular. O ator, que começou sua carreira trabalhando com Lav Diaz, entende, encarna e traduz a verdade da personagem, um trabalhador rural ilustrado e revoltado com o mundo, cujas ideias parecem deixar de ser nobres a partir do momento em que são colocadas em prática.

A intimidade com o diretor fez Lucero transformar os longos planos-sequência de Diaz em cenas cheias de ação, sobretudo de ação verbal, com debates entusiasmados, furiosos até, com quem está à volta do protagonista. O “primeiro tempo” de Norte, o primeiro filme do filipino a ser lançados nos cinemas brasileiros passa muito mais rápido do que supõe os que se assustam com sua longa duração. E o espectador se pega tão envolvido com a história e os dilemas do filme que não sente o peso desse tempo passar. A duração do filme parece absolutamente necessária. Ou, no mínimo, muito bem aproveitada.

Como faz em seus filmes, inclusive nos muito mais longos do que Norte, Diaz utiliza o tempo que julga necessário para compor esse mosaico, inclusive a monumental quantidade de eventos aproxima a cronologia do filme de uma “cronologia da vida”, em que a história de uma personagem reflete na dos outros, mas de maneira bem distante do jogral do mal, instituído por Paul Haggis, Alejandro Gonzalez Iñarritu e defendido por tantos cineastas nos últimos dez anos.

Se Fabian luta com seus dilemas e Eliza luta para sustentar a família, talvez a luta mais dura seja a de Joaquin, que encontra na prisão uma estrutura de poder tão violenta e repressora que parece uma metástase da que existe fora da cadeia. A violência, por sinal, aparece no filme em vários níveis. É física nos atos de Fabian e nos golpes recebidos por Joaquin. É uma violência social nos passos de Eliza, a mulher que abandonou o marido na prisão para reinventar sua vida. Se com suas três personagens, Lav Diaz tenta dar conta da relação de causa-e-efeito de um discurso, com elas também, ele parece traduzir sua própria luta pelo cinema.

Como Eliza, Diaz reinventa o tempo e se oferece uma nova narrativa. Como Joaquin, o diretor resiste ao massacre de mercado que não faz esforço para compreendê-lo. E, como o idealista Fabian, o filipino analisa o perigo de apontar onde está o mal. Norte pode ser um filme político poderoso e de forte cunho social, mas também é um exercício de auto-consciência.

Norte, o Fim da História EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Norte, Hangganan ng Kasaysayan, Lav Diaz, 2013]

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Entrevista: Lav Diaz

Lav Diaz

O filipino Lavrente Indico Diaz tem 57 anos, dirige filmes há 27, acabou de completar seu 25º trabalho, mas é um ilustre desconhecido no Brasil. Ilustre porque aqui, no ano passado, seu filme Do Que Vem Antes foi eleito o melhor da Mostra de Cinema de São Paulo, prêmio do público. Desconhecido porque nenhum de seus longa-metragens havia sido lançado nos cinemas brasileiros. Pelo menos até agora. Norte, o Fim da História, desde já um dos melhores filmes estreados neste ano, está em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, feito histórico para um filme que tem 490 minutos. Ou seja, quatro horas e dez minutos de duração. E este é um dos menores longas de Laz. Um de seus trabalhos mais conhecidos é Evolução de uma Família Filipina, que mais que o dobro desse tamanho. O cineasta gastou um tempinho para bater um papo com o Filmes do Chico e falar sobre seus filmes, seu método de trabalho e confessou que adora James Bond.

Norte, o Fim da História é seu primeiro trabalho lançado comercialmente no Brasil. Antes disso, alguns de seus filmes foram exibidos em festivais de cinema brasileiros. O que você espera deste namoro com nosso país?

Naturalmente, agora haverá mais exposição para Norte. Obrigado. Espero que isso abra uma porta para meus outros trabalhos e para outros filmes filipinos.

O Brasil conhece muito pouco do cinema filipino. E você? Conhece algo do cinema brasileiro?

Eu não tenho tanta familiaridade com o cinema do Brasil, mas vi alguns dos trabalhos de diretores como Glauber Rocha, Walter Salles, Eduardo Coutinho, entre outros.

Norte foi realmente inspirado em Dostoievsky? Como você criou esse script?

O Raskolnikov, de Crime e Castigo, foi uma inspiração pro personagem Fabian. Nós tínhamos um script na pré-produção, mas eu reescrevi mais de 90% do roteiro durante as filmagens. Meu processo de criação flui muito enquanto eu filmo.

Sid Lucero entrega uma performance excepcional em Norte. Ele começou a carreira com você e se tornou um ator famoso nas Filipinas. Como foi trazê-lo para o projeto?

Sid Lucero começou a carreira dele num filme meu, Heremias, rodado em 2005, quando ele ainda era muito jovem. Então, ele já estava bem familiarizado com meu processo de filmar em longos takes únicos, sem cortes. Quando nós nos reunimos para fazer Norte, foi fácil pra ele. E, desde o começo, pensamos exatamente no Sid para fazer o papel de Fabian.

Qual seu método de trabalho? Você planeja cada cena? É um trabalho monumental em filmes como os seus.

Eu sou muito aberto. Não há nada de muito definitivo na minha forma de trabalhar. Às vezes, tem um script; às vezes, não tem nada, embora procurar locações seja uma parte muito importante do meu processo. A partir do momento em que eu decido filmar em determinado local, ele se torna parte fundamental do meu planejamento estético e serve para ajudar a moldar tanto a narrativa quanto as personagens. Eu aceito e abraço assuntos e ideias que surgem durante o processo de criação, mas eu imponho um certo nível de disciplina na hora de inclui-las no roteiro final. Nós nos preparamos muito bem.

Os críticos geralmente elogiam bastante seu trabalho, mas você fica incomodado quando o foco das discussões é a duração de seus filmes em vez do conteúdo deles?

Não me incomoda que as pessoas me perguntem sobre a duração dos meus filmes. É um dado. As pessoas não estão acostumadas com filmes desse tamanho e eu preciso conviver com isso. O que me incomoda mais é perceber que as pessoas realmente estão condicionadas a aceitar a noção de que uma pessoa só consegue assistir filmes de 90 até 150 minutos. Esta duração foi imposta por interesses meramente comerciais e só existe para que se tire o máximo de lucro de um filme. Por causa disso, há um ressentimento quase automático em relação a filmes maiores. E eu sempre tenho que me esforçar para dizer para as pessoas que o cinema é uma das maiores forma de se expressar. Cinema é ARTE, então, é LIVRE.

Recentemente, eu assisti a uma cópia restaurada de Manila nas Garras da Luz, de Lino Brocka, uma obra de arte que parece muito com um certo cinema social brasileiro dos ano 70. O que é que você pensa deste filme?

Foi o filme que me inspirou a ser diretor. Eu assisti no primeiro ano da minha faculdade. Era 1975 e nós estávamos mergulhados na temporada mais dura e cruel da história do nosso pais havia três anos, uma época de lei marcial. Nosso professor pediu para que nós víssemos o filme e escrevêssemos sobre ele. E eu tive uma espécie de epifania depois de assistir ao filme. Percebi que queria ser um cineasta. E que o cinema poderia ser relevante, uma ferramente potente e efetiva para mudança.

De que tipo de cinema você gosta hoje em dia? Você tem diretores favoritos?

Eu assisto tudo, de James Bond a Pedro Costa até os primeiros trabalhos dos irmãos Lumière e o novo filme do Hou Hsiao-hsien. Sou viciado em cinema.

Última pergunta, talvez um pouco retórica, mas acho que ela pode ajudar a entender a profundidade de seu trabalho: o que te motiva a fazer filmes?

Eu tenho fé no cinema. É minha igreja. Realmente acredito nos filmes. Eu acredito que ele pode ajudar na luta da humanidade.

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Entrevista: Supo Mungam Films

Supo Mungam Filmes

Eugène Green, Paul Vecchiali, Lav Diaz. Cineastas com carreiras extensas e filmes que ampliam e transcendem os padrões do que é normalmente lançado nos cinemas brasileiros. Diretores que só este ano tiveram filmes exibidos em circuito no país. Tudo graças a um movimento ousado de uma distribuidora nova, que deu uma chacoalhada do estagnado chamado “circuito de arte” nacional. Comandada pelos cineastas Pedro Henrique Leite e Gracie P, a Supo Mungam Filmes foi a grande supresa do mercado cinematográfico do Brasil em 2015. Conversei com os dois

A Supo Mungam surgiu em 2015 com a proposta de lançar comercialmente filmes arriscados até mesmo para o chamado circuito “de arte”. Como e por que surgiu a ideia da distribuidora?

Pedro: Sempre discutimos as possibilidades cinematográficas aqui no Brasil. Observando a falta, no circuito brasileiro, de muitos filmes que consideramos importantes, decidimos criar a Supo Mungam, e melhorar um pouco este problema. É muito importante trazer obras de cineastas que já possuem uma extensa filmografia, mas que nunca tiveram filmes distribuídos por aqui, e também de cineastas que estão nos seus primeiros longas-metragens.

Gracie: A ideia de distribuição nunca havia passado pela minha cabeça antes. Em 2012, quando conheci o Pedro, estávamos filmando meu curta e foi nessa época que começamos a conversar sobre montar uma distribuidora. Tanto para distribuir nossos filmes quanto obras de outros países. Atualmente estamos na pré-produção do primeiro longa produzido pela Supo Mungam.

O circuito “de arte” está viciado?

Pedro: Filmes europeus, que fizeram milhões de espectadores em seus países, estreiam no Brasil com este selo, o “de arte”. O problema é o que isso gera na cabeça do espectador, pois quando ele for assistir um filme que foge dessas regras, a experiência será bem diferente, positiva ou negativamente. La Sapienza (de Eugène Green) e Noites Brancas no Píer (de Paul Vecchiali), dois filmes de cineastas nunca distribuídos no Brasil, causaram um pouco disso. Os filmes tiveram sessões com excelente público, mas sabemos que muitos saíram antes delas acabarem, alguns já nos primeiros minutos. Mas mesmo assim, semana a semana, os filmes continuaram lotando as salas. Saíram de cartaz, com as sessões cheias. Isso prova que boa parte dos espectadores está em busca de algo diferente. Isso é muito importante.

Gracie: O circuito “de arte” sempre busca o mesmo “estilo” de filme que normalmente ganha um grande espaço. Você encontra no cinema filmes assim quase toda semana. Essa semana tem um, na semana que vem tem outro, etc. É um vício que algumas vezes irrita o próprio público. Esse vício “de arte” está presente mesmo até em alguns festivais.

Qual o grau de dificuldade que uma distribuidora tão pequena tem para encontrar espaço pros filmes no circuito?

Gracie: Atualmente, são lançados muitos filmes. A disputa por espaço é muito grande. Todos querem os melhores horários e salas. Isso dificulta bastante. Sem contar a conversa com o exibidor. Ou seja, nem sempre ganhamos.

Pedro: Se em uma semana de estreia existir filmes de atores e diretores conhecidos e que tem uma grande divulgação, o nosso ficará na reserva, podendo ou não estrear. Passamos sempre por um processo de convencer o exibidor e de encontrar um bom espaço para o filme, sempre nas semanas da estreia. Quando isso não acontece, é realmente muito triste, pois às vezes interfere nos próximos filmes que lançaremos. O que precisa ter é um bom espaço e alternativas para que filmes como os nossos possam permanecer mais tempo em cartaz, para que o público tenha como descobri-los.

Vocês entraram no mercado num ano de crise. Qual foi o impacto disso para vocês? O investimento está valendo a pena? O quanto o primeiro fim de semana representa para a carreira do filme?

Gracie: Somos conhecidos como loucos pela proposta que temos. Independente de crise ou não, o impacto seria o mesmo. O investimento vale a pena, não apenas por fazer o que gostamos, mas também por saber que estamos formando um público. O primeiro fim de semana é importante para o filme, pois é o que define se ele continua. Isso depende muito do público.

Pedro: Recentemente a Ancine reajustou os valores da Condecine. E isso, para os filmes que distribuímos, não é bom. As taxas são desiguais, e ainda precisa ser feito algo quanto a isso. Quanto ao nosso investimento, fazemos sempre aquilo que dá para fazer. Sempre com um limite, para não ter nenhum tipo de problema. Isso serve para todos os filmes. Vale a pena pois é muito importante para nós lançarmos estes filmes no Brasil. Queremos oferecer algo novo para o espectador. Algo que pode mudar sua percepção quanto ao cinema. Para nossos filmes, o que ajuda é o boca a boca e, neste caso, temos que ter isso antes da estreia, pois assim o filme já entra em cartaz comentado.

Qual a maior bilheteria da Supo Mungam até agora? E qual o filme que mais tempo ficou em cartaz?

Gracie: A maior bilheteria e o filme que ficou mais tempo em cartaz foi o La Sapienza. O filme fez um excelente público em cada cidade que esteve. A cidade em que o filme ficou por mais tempo foi o Rio de Janeiro (9 semanas), seguido de Porto Alegre (7 semanas) e São Paulo (5 semanas).

Vocês lutaram durante muito tempo para lançar “Norte, o Fim da História”, o primeiro filme do Lav Diaz a entrar em circuito. O filme tem 250 minutos, o que é um marco para o circuito brasileiro. “Mistérios de Lisboa”, do Raúl Ruiz, tem 272 minutos, mas foi lançado pelo Cinesesc, que tem sala própria. O quanto a duração atrapalhou no lançamento? Como vocês chegaram à conclusão de que o investimento valeria a pena? E que estratégias a Supo Mungam está criando para lançar “Do Que Vem Antes”, outro filme de Diaz, comprado também por vocês, e que tem 338 minutos?

Gracie: As pessoas se assustam ao ver que um filme com essa duração está no circuito comercial. Teve exibidor perguntando para nós se seria possível dividir o filme. Claro que existem filmes que são divididos para estrear comercialmente. Mas não é o caso do Norte e muito menos o Do Que Vem Antes. A luta nunca acaba, só não queremos que essa luta se estenda e prejudique o lançamento do nosso próximo título do Lav Diaz.

Pedro: Sobre a duração, acho que isso também se deve a como o circuito está hoje, assim como a produção mundial, seguindo quase sempre um padrão. Distribuindo o filme, acreditamos que isso abrirá mentes e caminhos no circuito. Quanto ao investimento, sabíamos do risco desde o início. Foi um dos primeiros títulos adquiridos por nós. A ideia é que este filme valoriza o circuito e principalmente o Cinema. E também que este, assim como nossos outros filmes, possam ajudar na construção de um novo olhar em parte do público. Quanto ao Do Que Vem Antes, a estratégia será um pouco diferente, pois a duração deste é maior. Já estamos em busca de salas que possam exibí-lo. Tínhamos um pré-calendário para o primeiro semestre de 2016. Recentemente sofreu algumas pequenas mudanças, mas tudo está encaminhado. Do Que Vem Antes estreia no início do próximo ano, mas ainda estamos em busca de novas salas/cidades para o Norte. No geral, esperamos que muitos possam conhecer as obras de Lav Diaz no cinema, assim como as outras obras da Supo Mungam.

Lançados

Um Jovem Poeta, de Damien Manivel (Un jeune poète – França – 2014)
Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchiali (Nuits blanches sur la jetée – França – 2014)
O Desejo da Minha Alma, de Masakazu Sugita (Hitono Nozomino Yorokobiyo – Japão – 2014)
Top Girl ou Deformação Profissional, de Tatjana Turanskyj (Top Girl oder la déformation professionnelle – Alemanha 2014)
Party Girl, de Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis (Party Girl – França – 2014)
Rua Secreta, de Vivian Qu (Shuiyin Jie – China – 2013)
La Sapienza, de Eugène Green (La Sapienza – França/Itália – 2014)
Respire, de Mélanie Laurent (Respire – França – 2014)
Norte, o Fim da História, de Lav Diaz (Norte, hangganan ng kasaysayan – Filipinas – 2013)

Próximos lançamentos

Body, de Malgorzata Szumowska (Cialo – Polônia – 2015)
História da Minha Morte, de Albert Serra (Historia de la meva mort – Espanha/França – 2013)
Autorretrato de uma Filha Obediente, de Ana Lungu (Autoportretul unei fete cuminti – Romênia – 2015)
Do Que Vem Antes, de Lav Diaz (Mula sa kung ano ang noon – Filipinas – 2014)
É o Amor, de Paul Vecchiali (C’est l’amour – França – 2015)
Dois Rémi, Dois, de Pierre Léon (Deux Rémi, Deux – França – 2015)
DEMON, de Marcin Wrona (Demon – Polônia/Israel – 2015)

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Oscar 2016: reações ao SAG e ao Globo de Ouro

Que Horas Ela Volta?, embora bastante cotado, não conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, o que dificulta um pouco a estrada do longa para o Oscar, embora a lógica desta categoria no prêmio de Hollywood seja a mais maluca de todas. A exclusão do filme de Anna Muylaert é lamentável, mas dialoga com uma temporada cheia de altos e baixos, em que cada movimento muda quem está na dianteira nesta disputa. Com as listas de indicados ao Globo de Ouro e ao prêmio do Screen Actors Guild of America, o SAG, vejamos as percepções que tiramos pro Oscar:

1) Spotlight é o frontrunner para melhor filme, mesmo que não tenha a mesma vantagem que 12 Anos de Escravidão teve um par de anos atrás, por exemplo. Ao mesmo tempo, não tem um filme que pareça ser um grande obstáculo. Carol e Mad Max: Estrada da Fúria seriam esses títulos, mas ainda não houve um abraço geral neles. O segundo tem forte apoio dos críticos, mas só aparece no SAG em elenco de dublês, além de ser um filme de um gênero que academia costuma ignorar. O filme de Todd Haynes tem aparecido aqui e ali e o SAG indicou as duas atrizes, mas não o elenco.

2) Perdido em Marte não aconteceu, como se previa. A indicação de Ridley Scott como diretor se soma ao prêmio do cineasta na mesma categoria pelo National Board of Review, mas foi só isso. Deve arrumar uma vaguinha entre os dez filmes, talvez até entre em direção, mas acabou por aí. Brooklyn surgiu no começo do ano como um favorito, foi ao ostracismo, se recuperou com os primeiros prêmios de críticos, mas parece que só Saoirse Ronan tem chances de reais de indicação. O Quarto de Jack também parecia que iria mais longe, mas não deve entrar nem em direção.

3) A Grande Aposta foi o filme do terceiro ato em 2015. Elenco e ator coadjuvante no SAG, filme comédia e dois atores no Globo de Ouro. Mas onde vai parar Christian Bale? Em melhor ator, como quer o Globo de Ouro, uma corrida que já tem muitos players? Ou em ator coadjuvante, como o SAG prefere (e alguns críticos também), onde teria mais chances? Se os votos se dividirem vai ser complicado. O mesmo vale, em maior ou menor grau, para Rooney Mara, de Carol, e Alicia Vikander, de A Garota Dinamarquesa, ambas indicadas como atriz coadjuvante no SAG e atriz no Globo de Ouro (Vikander ainda concorre como coadjuvante por Ex Machina no Globo de Ouro, o que complica um pouco mais o negócio). As indefinições talvez já tenham decretado a morte das candidaturas de Michael Keaton e Mark Ruffalo, já que, de Spotlight, só Rachel Macadams concorre ao SAG. E ninguém concorre ao Globo de Ouro.

4) Trumbo foi o outro filme-surpresa do ano. Emplacou Bryan Cranston e Helen Mirren como ator e atriz coadjuvante no SAG e no Globo de Ouro. Tem tudo pra repetir no Oscar. E ainda teve uma indicação de elenco no prêmio dos atores, ou seja, prestígio (que Carol, por exemplo, não teve). Helen Mirren conseguiu ser finalista em atriz também, no SAG, num dos movimentos mais esquisitos do ano. O filme, um drama com ecos da Segunda Guerra, é bem fraquinho e ninguém havia cogitado nada para ela. Sarah Silverman também surpreendeu com um nod ao SAG de melhor atriz. Chances no Oscar pras duas? Bem poucas, mas tudo isso indica que Charlotte Rampling, de 45 Anos, uma virtual vencedora, está uns passos atrás na corrida.

5) Idris Elba está consolidado com sua performance em Beasts of No Nation: disputa Globo de Ouro e SAG. Parece que abraçaram o Netflix, o que era uma dúvida grande. Michael Shannon, de 99 Homes, é outro que emplacou nods nos dois prêmios. Essa dupla pode minar as chances de atores que tinham sido mais visados até então: Paul Dano, de Love & Mercy, Sylvester Stallone, de Creed, e Tom Hardy, de O Regresso, além de Keaton e Ruffalo. Isso só beneficia Mark Rylance, de Ponte de Espiões, que pode ser o come-quieto do ano.

Me parece que o negócio seria mais ou menos assim no Oscar:

filme

Spotlight, Tom McCarthy
Mad Max: Estrada da Fúria, George Miller
Carol, Todd Haynes
O Regresso, Alejandro Gonzalez Iñarritu
Brooklyn, John Crowley
Perdido em Marte, Ridley Scott
O Quarto de Jack, Lenny Abrahamson
Ponte de Espiões, Steven Spielberg
Beasts of No Nation, Cary Fukunaga
A Grande Aposta, Adam McKay

direção

Tom McCarthy, Spotlight
George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria
Todd Haynes, Carol
Alejandro Gonzalez Iñarritu, O Regresso
Ridley Scott, Perdido em Marte

ator

Leonardo Di Caprio, O Regresso
Michael Fassbender, Steve Jobs
Bryan Cranston, Trumbo
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa
Matt Damon, Perdido em Marte

atriz

Cate Blanchett, Carol
Saoirse Ronan, Brooklyn
Brie Larson, O Quarto de Jack
Jennifer Lawrence, Joy
Charlotte Rampling, 45 Anos

ator coadjuvante

Mark Rylance, Ponte de Espiões
Idris Elba, Beasts of No Nation
Michael Shannon, 99 Homes
Christian Bale, A Grande Aposta
Paul Dano, Love & Mercy

atriz coadjuvante

Rooney Mara, Carol
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Helen Mirren, Trumbo
Kate Winslet, Steve Jobs

roteiro original

Spotlight, Thomas McCarthy & Josh Singer
Os Oito Odiados, Quentin Tarantino
Divertida Mente, Josh Cooley, Pete Docter & Meg LeFauve
Ponte de Espiões, Matt Charman, Ethan Coen & Joel Coen
Joy, Annie Mumolo, David O. Russell

roteiro adaptado

Carol, Phyllis Nagy
Brooklyn, Nick Hornby
O Quarto de Jack, Emma Donoghue
A Grande Aposta, Michael Lewis & Adam McKay
Steve Jobs, Aaron Sorkin

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Oscar 2016: terceiro round de apostas

Oscar 2016

Os críticos resolveram falar. Três das principais agremiações anunciaram seus vencedores até agora (National Board of Review, New York e Los Angeles) e várias outras também lançaram suas listas (Boston, Boston Online, New York Online, Washington) e já dá para ter uma boa ideia de como está a corrida nas principais categorias. Spotlight, de Tom McCarthy, como previsto, é um do favoritos, com Carol, de Todd Haynes, ressurgindo depois de uma inexplicável onda de descrédito, e Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller, se consolidando como a grande surpresa do ano. Os três parecem ser locks na categoria principal, também têm tudo para emplacar seus diretores e ganham força como conjunto, ou seja, ficam mais sólidos nas demais categorias.

Brooklyn, bastante lembrado, parece igualmente ter uma vaga garantida em melhor filme, mas Perdido em Marte e O Regresso, que pareciam boas apostas para ganhar, agora devem lutar pela indicação. O Quarto de Jack sai fragilizado, mas ainda parece dentro. Ponte de Espiões e Divertida Mente correm por fora, como sempre correram. E os elogios a Creed podem fazer com que o filme roube a vaga de concorrente mais vistosos, como Os Oito Odiados, pouco lembrado, e Joy, quase esquecido. Steve Jobs confirmou o que as bilheterias disseram: não é a vez de Danny Boyle.

A categoria de melhor ator ainda é a mais bagunçada. Michael Keaton e Paul Dano ganharam prêmios como protagonistas, mas os estúdios tentam vendê-los como coadjuvantes. Difícil dizer se isso impulsiona suas campanhas no quesito de apoio ou se ajuda a dividir seus votos. A princípio, eles parecem fortes, mas não como principais, o que, por sinal, inflaria uma categoria já inflada. Se eles forem confirmados como coadjuvantes – vamos ver o que diz o SAG e o Globo de Ouro, Leonardo Di Caprio e Michael Fassbender são beneficiados. E como filme de Fassbender não tem grandes chances fora daqui, pode ser finalmente a vez de dar um Oscar para DiCaprio. Matt Damon ganhou o National Board of Review, mas não está garantido no Top 5. Johnny Depp poderia ter ganho mais apoio até essa altura.

Três atrizes dividem as atenções na categoria principal. Charlotte Rampling, Saoirse Ronan e Brie Larson. Parecem ser indicações bem sólidas, com Rampling, pelo histórico, despontando como uma favorita precoce. Cate Blanchett corre por fora, mas seu filme parece ter muitos fãs e ela mesma também tem. Deve entrar. A quinta vaga é que parece ser a questão e como J-Law é um evento em si e David O. Russell tem aquele talento para vender seus atores, ela pode se aproveitar da indefinição em relação a Rooney Mara e Alicia Vikander, que ganharam campanha como coadjuvantes, mas vão ser consideradas protagonistas pelo Globo de Ouro, por exemplo. Blythe Danner é outra possibilidade, mas seu filme é pequeno demais e ela teria que contar com muito apoio do SAG e do Globo de Ouro.

Dano e Keaton seriam locks entre os coadjuvantes se não houvesse a confusão de categorias. Ainda parecem estar nesse segundo escalão – e com destaque -, mas podem se prejudicar também. Já Mark Rylance e Sylvester Stallone estão bem fortes, com Sly parecendo ser uma indicação irrestível tanto para os críticos quanto para a indústria. Vamos aguardar o SAG. Tom Hardy e Mark Ruffalo parecem ser as principais opções para conquistar a quinta vaga. Do lado feminino, Mara e Vikander, que também sofrem com a indefinição de categoria, continuam como opções fortes, mas ganharam uma inusitada companheira, Kristen Stewart, que parecem ter fincado uma indicação com tantos prêmios e pode até ganhar. Jennifer Jason Leigh pode encontrar sua vaga, assim como Jane Fonda, sabe como é, né? Jane Fonda (apesar do filme ser horrível).

Minhas apostas para o Oscar 2016 estão atualizadas.

filme

Spotlight, Tom McCarthy
Mad Max: Estrada da Fúria, George Miller
Carol, Todd Haynes
Brooklyn, John Crowley
Perdido em Marte, Ridley Scott
O Regresso, Alejandro Gonzalez Iñarritu
O Quarto de Jack, Lenny Abrahamson
Ponte de Espiões, Steven Spielberg
Creed, Ryan Coogler
Divertida Mente, Pete Docter & Ronnie Del Carmen

direção

Tom McCarthy, Spotlight
Todd Haynes, Carol
George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria
John Crowley, Brooklyn
Alejandro Gonzalez Iñarritu, O Regresso

ator

Leonardo Di Caprio, O Regresso
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa
Johnny Depp, Aliança do Crime
Matt Damon, Perdido em Marte

atriz

Charlotte Rampling, 45 Anos
Saoirse Ronan, Brooklyn
Brie Larson, O Quarto de Jack
Cate Blanchett, Carol
Jennifer Lawrence, Joy

ator coadjuvante

Michael Keaton, Spotlight
Paul Dano, Love & Mercy
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Sylvester Stallone, Creed
Tom Hardy, O Regresso

atriz coadjuvante

Kristen Stewart, Acima das Nuvens
Rooney Mara, Carol
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Jane Fonda, Juventude

roteiro original

Spotlight, Thomas McCarthy & Josh Singer
Os Oito Odiados, Quentin Tarantino
Divertida Mente, Josh Cooley, Pete Docter & Meg LeFauve
Ponte de Espiões, Matt Charman, Ethan Coen & Joel Coen
Joy, Annie Mumolo, David O. Russell

roteiro adaptado

Carol, Phyllis Nagy
Brooklyn, Nick Hornby
O Quarto de Jack, Emma Donoghue
Perdido em Marte, Drew Goddard
Anomalisa, Charlie Kaufman

filme estrangeiro

O Filho de Saul (Hungria), László Nemes
Que Horas Ela Volta? (Brasil), Anna Muylaert
Cinco Graças (França), Deniz Gamze Ergüven
Labirinto de Mentiras (Alemanha), Giulio Ricciarelli
A Assassina (Taiwan), Hou Hsiao-hsien

filme de animação

Divertida Mente, Pete Docter & Jonas Rivera
Anomalisa, Charlie Kaufman & Duke Johnson
Shaun, o Carneiro, Mark Burton & Richard Starzak
O Bom Dinossauro, Peter Sohn
Kahlil Gibran’s The Prophet, Roger Allers

fotografia

Mad Max: Estrada da Fúria, John Seale
Carol, Edward Lachman
O Regresso, Emmanuel Lubezki
Os Oito Odiados, Robert Richardson
Perdido em Marte, Dariusz Wolski

montagem

Mad Max: Estrada da Fúria, Margaret Sixel
Spotlight, Tom McArdle
O Regresso, Stephen Mirrione
Perdido em Marte, Pietro Scalia
Ponte de Espiões, Michael Kahn

direção de arte

Mad Max: Estrada da Fúria, Colin Gibson & Lisa Thompson
Carol, Judy Becker
Ponte de Espiões, Adam Stockhausen, Rena DeAngelo & Bernhard Henrich
Brooklyn, François Séguin & Suzanne Cloutier
A Garota Dinamarquesa, Eve Stewart & Michael Standish

figurinos

Carol, Sandy Powell
Cinderela, Sandy Powell
A Garota Dinamarquesa, Paco Delgado
Brooklyn, Odile Dicks-Mireaux
A Colina Escarlate, Kate Hawley

maquiagem

Mad Max: Estrada da Furia
A Garota Dinamarquesa
Star Wars: Episódio 7 – O Despertar da Força

trilha sonora

Os Oito Odiados, Ennio Morricone
Carol, Carter Burwell
O Regresso, Alva Noto & Ryûichi Sakamoto
A Garota Dinamarquesa, Alexandre Desplat
Mad Max: Estrada da Fúria, Tom Holkenborg aka Junkie XL

canção

“One Kind of Love”, Love & Mercy
“See You Again”, Velozes e Furiosos 7
“Writing’s On the Wall”, 007 contra Spectre
“So Long”, Concussion
“Til It Happens To You”, The Hunting Ground

edição de som

Mad Max: Estrada da Fúria
Star Wars: O Despertar da Força
O Regresso
Evereste
Perdido em Marte

mixagem de som

Star Wars: O Despertar da Força
Mad Max: Estrada da Fúria
O Regresso
Perdido em Marte
No Coração do Mar

efeitos visuais

Star Wars: O Despertar da Força
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
A Travessia
Jurassic World

documentário

Amy, Asif Kapadia
O Peso do Silêncio, Joshua Oppenheimer
Listen to Me Marlon, Stevan Riley
Cartel Land, Matthew Heineman
Going Clear: Scientology and the Prison of Belief, Alex Gibney

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À Beira-Mar

À Beira-Mar

Existe uma coisa genuína em À Beira-Mar, mas, com o perdão do trocadilho, isso morre na praia. Cheia de referências a dramas europeus dos anos 70, situando sua história às margens do Mediterrâneo, Angelina Jolie quer fazer um filme introspectivo, de forte caráter psicológico, mas é incapaz de se aprofundar nos traumas de sua protagonista, mesmo reservando este papel para ela mesma. Jolie passa o filme inteiro tentando dar textura a essa personagem perturbada, mas nunca consegue sair do superficial. Suas tentativas de fazer uma montagem psicanalítica são simplórias. No máximo, premonitórias em relação às cenas seguintes. Um dos pecados da diretora é fazer da causa para a depressão de Vanessa um grande mistério, em vez de tentar analisá-la, decifrá-la e compreendê-la ao longo do filme.

Depois de alguns minutos de sessão, o filme entra num estado quase catatônico em que personagens, trama e espectador adormecem para o mundo. O voyeurismo, que poderia gerar discussões interessantes e salvar o projeto explorando a tensão ou invandindo a esfera da sensualidade, se transforma em comédia. É interessante como o filme se aproxima do ridículo, sem pudores, como se Jolie quisesse validar a descida ao inferno de sua protagonista. É ainda mais curioso com um casal tão famoso e aparentemente tão bem resolvido se permite tanta exposição, mas tudo isso parece bastante calculado. Ou seria à tôa que justamente quando dirige um filme em que atua ao lado do marido, Brad Pitt, coisa inédita em sua filmografia como cineasta, ela muda sua assinatura para Angelina Jolie Pitt. Ainda assim, ela parece entrar nessa seara da intimidade sem estar muito à vontade, então, tudo soa mais ingênuo do que corajoso.

À Beira-Mar EstrelinhaEstrelinha
[By the Sea, Angelina Jolie Pitt, 2015]

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