Monthly Archives: novembro 2015

Oscar 2016: segundo round de apostas

Depois de muito tempo sem voltar ao assunto, seguem minhas apostas atualizadas para a lista de indicados ao Oscar 2016. Resolvi não colocar as alternativas para cada categoria, o que faço tradicionalmente, para acelerar os trabalhos e colocar o post no ar. A ordem de cada lista obedece a minha expectativa em relação às chances de cada contender. Quem, na minha opinião, tem mais chances está na frente. Para mim, Spotlight é o frontrunner, com O Regresso ainda mantendo as expectativas, O Quarto de Jack continuando sólido, assim como Ponte de Espiões, que sem nunca ser um astro da competição, se manteve estável mesmo depois das quedas de Steve Jobs e Carol. Perdido em Marte é o único filme que fez sucesso de público, o que faz muita gente apostar no filme de Ridley Scott e Brooklyn parece que foi redescoberto. A ideia é postar uma atualização dessas apostas no começo de dezembro.

Oscar 2016

filme

Spotlight, Tom McCarthy
O Regresso, Alejandro Gonzalez Iñarritu
Ponte de Espiões, Steven Spielberg
O Quarto de Jack, Lenny Abrahamson
Brooklyn, John Crowley
Steve Jobs, Danny Boyle
Carol, Todd Haynes
Perdido em Marte, Ridley Scott
Joy, David O. Russell
Divertida Mente, Pete Docter & Ronnie Del Carmen

direção

Tom McCarthy, Spotlight
Alejandro Gonzalez Iñarritu, O Regresso
Steven Spielberg, Ponte de Espiões
Lenny Abrahamson, O Quarto de Jack
Ridley Scott, Perdido em Marte

ator

Michael Fassbender, Steve Jobs
Leonardo Di Caprio, O Regresso
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa
Johnny Depp, Aliança do Crime
Will Smith, Concussion

atriz

Brie Larson, O Quarto de Jack
Cate Blanchett, Carol
Jennifer Lawrence, Joy
Saoirse Ronan, Brooklyn
Charlotte Rampling, 45 Anos

ator coadjuvante

Michael Keaton, Spotlight
Benicio Del Toro, Sicario
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Tom Hardy, O Regresso
Paul Dano, Love & Mercy

atriz coadjuvante

Rooney Mara, Carol
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Kate Winslet, Steve Jobs
Jane Fonda, Juventude

roteiro original

Spotlight, Thomas McCarthy & Josh Singer
Divertida Mente, Josh Cooley, Pete Docter & Meg LeFauve
Ponte de Espiões, Matt Charman, Ethan Coen & Joel Coen
Joy, Annie Mumolo, David O. Russell
Os Oito Odiados, Quentin Tarantino

roteiro adaptado

O Quarto de Jack, Emma Donoghue
Steve Jobs, Aaron Sorkin
A Grande Aposta, Adam McKay
Brooklyn, Nick Hornby
O Regresso, Alejandro G. Iñárritu & Mark L. Smith

filme estrangeiro

O Filho de Saul (Hungria), László Nemes
Que Horas Ela Volta? (Brasil), Anna Muylaert
Cinco Graças (França), Deniz Gamze Ergüven
Labirinto de Mentiras (Alemanha), Giulio Ricciarelli
A Ovelha Negra (Islândia), Grímur Hákonarson

filme de animação

Divertida Mente, Pete Docter & Jonas Rivera
O Bom Dinossauro, Peter Sohn
Anomalisa, Charlie Kaufman & Duke Johnson
Kahlil Gibran’s The Prophet, Roger Allers
Shaun, o Carneiro, Mark Burton & Richard Starzak

fotografia

O Regresso, Emmanuel Lubezki
Mad Max: Estrada da Fúria, John Seale
Os Oito Odiados, Robert Richardson
Perdido em Marte, Dariusz Wolski
Ponte de Espiões,Janusz Kaminski

montagem

Spotlight, Tom McArdle
Perdido em Marte, Pietro Scalia
Mad Max: Estrada de Fúria, Margaret Sixel
Ponte de Espiões, Michael Kahn
O Regresso, Stephen Mirrione

direção de arte

A Garota Dinamarquesa, Eve Stewart & Michael Standish
Ponte de Espiões, Adam Stockhausen, Rena DeAngelo & Bernhard Henrich
Brooklyn, François Séguin & Suzanne Cloutier
O Regresso, Jack Fisk & Hamish Purdy
Star Wars: O Despertar da Força, Rick Carter, Darren Gilford & Lee Sandales

figurinos

A Colina Escarlate, Kate Hawley
Carol, Sandy Powell
A Garota Dinamarquesa, Paco Delgado
Cinderela, Sandy Powell
As Sufragistas, Jane Petrie

maquiagem

Mad Max: Estrada da Furia, Lesley Vanderwalt, Damian Martin & Elka Wardega
Aliança do Crime, Joel Harlow & Gloria Casny
A Garota Dinamarquesa, Carmel Jackson & Jan Sewell

trilha sonora

A Garota Dinamarquesa, Alexandre Desplat
Os Oito Odiados, Ennio Morricone
Star Wars: O Despertar da Força, John Williams
O Regresso, Alva Noto & Ryûichi Sakamoto
Ponte de Espiões, Thomas Newman

canção

“One Kind of Love”, Love & Mercy
“See You Again”, Velozes e Furiosos 7
“Writing’s On the Wall”, 007 contra Spectre
“So Long”, Concussion
“Til It Happens To You”, The Hunting Ground

edição de som

Mad Max: Estrada da Fúria
Evereste
Star Wars: O Despertar da Força
Perdido em Marte
O Regresso

mixagem de som

Star Wars: O Despertar da Força
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
No Coração do Mar
O Regresso

efeitos visuais

Perdido em Marte
Star Wars: O Despertar da Força
A Travessia
Jurassic World
Mad Max: Estrada da Fúria

documentário

O Peso do Silêncio, Joshua Oppenheimer
Malala, Davis Guggenheim
Amy, Asif Kapadia
Listen to Me Marlon, Stevan Riley
Os Irmãos Lobo, Crystal Moselle

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 11

Um Caminho para Dois

Um Caminho para Dois EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Two for the Road, Stanley Donen, 1967]

Um Caminho para Dois, de certa forma, resume os anos 60, trazendo para o seio de Hollywood uma visão libertária do amor, das relações e do casamento. A máscara é de comédia maluquinha, mas o filme abre um debate profundo sobre assuntos muito sérios. Audrey Hepburn já era a namoradinha da América havia quase 15 anos e Albert Finney acabara de se tornar um astro com As Aventuras de Tom Jones. Os dois estão impressionantes ao dar voz a cada cena escrita pelo roteirista Frederic Raphael, um texto tão irônico quanto delicado sobre as transformações do amor ao longo de um relacionamento. Cabe ao mestre Stanley Donen dar movimento a esse encontro de propostas, o que ele faz com o mesmo ritmo delicioso de seus mais alucinados musicais. As cenas de estrada, que atravessam, fora de ordem, a cronologia de viagens do casal, invadem umas as outras, fornecendo uma inesperada melodia extra à narrativa. Audrey Hepburn desfila um figurino de algum megaestilista cada vez que aparece na tela, mas o que poderia emprestar ao filme um tom mercantilista, que ele não ignora mesmo,  se transforma em mais uma das brincadeira de Donen. Dono de vários clássicos, aqui ele realizou um de seus projetos mais especiais, que talvez fosse o filme definitivo sobre o amor, se o amor fosse tão definitivo assim.

Manila nas Garras da Luz

Manila nas Garras da Luz EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Maynila: Sa mga kuko ng liwanag, Lino Brocka, 1975]

Os olhos de Julio dizem muito sobre ele. Seu olhar triste, mas cheio de esperança tem um compromisso certo, dia após dia. O rapaz passa horas encarando fixamente aquela janela na Rua da Misericordia. Julio chegou na capital há alguns meses. Saiu sem avisar da vila de pescadores onde nasceu. Tudo por causa de Ligaya Paraiso. O namoro com a moça mais linda da região era proibido. A mãe dela não gostava muito da ideia de Ligaya se envolver com alguém tão pobre quanto ela. Por isso, ficou até feliz quando uma senhora chegou à vila para recrutar jovens para trabalhar em Manila. Seria uma chance de ganhar dinheiro, ajudar a família e se arrumar na vida. Ligaya ainda olhou pra trás quando entrou naquela jangada. Para depois sumir para sempre. Julio decidiu ir atrás de seu grande amor. Existem dois protagonistas em Manila nas Garras da Luz, esse monumento do cinema mundial dirigido há 40 anos por Lino Brocka: um é Julio, o homem; o outro é Manila, a cidade. Desde o primeiro momento, Brocka deixa claro que este é um daqueles contos do homem contra a cidade, do amor contra o mundo. Nos 125 minutos seguintes, Julio e Manila vão duelar até um sufocar o outro. Nessas pouco mais de duas horas, Brocka faz um inventário das tragédias da cidade: com Julio, discute o subemprego, a violência, a habitação irregular, o mercado do sexo masculino, o mercado do sexo feminino, entre dezenas de outras questões. O impressionante é que a abordagem do cineasta nunca cai num discurso meramente panfletário porque Brocka amarra todas suas discussões à jornada de Julio em busca de Ligaya. E a aridez da vida na capital das Filipinas ganha um inesperado contorno melancólico, que torna qualquer debate demasiadamente humano. Tanto quanto a bela interpretação de Bembol Roco, à epoca Rafael Roco Jr., um estreante tão virgem em frente às câmeras quanto sua personagem em frente a Manila.

O Show Deve Continuar

O Show Deve Continuar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[All That Jazz, Bob Fosse, 1979]

Alan Heim ganhou um Oscar pela montagem de O Show Deve Continuar. E mais do que a música, mais do que os figurinos, mais até do que incrível performance de Roy Scheider, é justamente a montagem a alma do filme-testamento de Bob Fosse. Os cortes incrivelmente rápidos, que escondem cenas que duram alguns segundos, traduzem a urgência de um protagonista que atravessa o filme flertando e negociando com a morte. Joe Gideon, personagem de Scheider, é uma espécie de alter ego de Fosse, que teria tido a ideia de fazer o filme depois de um ataque cardíaco, e vários dos coadjuvantes do longa são inspirados em personagens reais da Broadway. Em certo momento, Angelique, a morte vivida por uma lindíssima Jessica Lange, pergunta para Gideon: “você acredita no amor?”. E ele responde: “eu acredito em dizer ‘eu te amo’. A ironia presente em todos os trabalhos de Fosse aqui atinge o nível do sarcasmo que contamina todo o projeto e é a maneira com que o diretor traduz os bastidores do teatro musical americano. Este talvez seja o maior feito de All That Jazz: ao mesmo tempo em que é um filme sobre a intimidade de um homem e um retrato crítico de um universo, Fosse fez um musical que dá sentido à palavra espetacular.

Meu Único Amor

Meu Único Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[My Best Girl, Sam Taylor, 1927]

A cena que introduz a personagem de Mary Pickford em Meu Único Amor já leva o filme para um nível acima das comédias românticas da época. É quando Maggie, que trabalha como estoquista numa loja, surge com as panelas que precisam ser repostas para a venda. Ela caminha lentamente tentando carregas tanta coisa. Uma panela vai ao chão. Maggie consegue abaixar uma mão e pegá-la de volta. Dá um passo. Duas panelas caem no chão. Com o pé, ela as cata os objetos mais uma vez. Dá mais um passo. Três panelas caem no chão. O diferencial desta cena clássica de filmes mudos é que, durante seus muitos segundos, a câmera está fixa nos pés de Pickford, só se move para atrás, acompanhando os movimentos das personagem. O diretor de fotografia, Charles Rosher, é o mesmo de Aurora, o filme mais impressionante do mundo. Ao longo de Meu Único Amor, ele aprontaria mais uma ou duas vezes, como no passeio na Maggie e Joe na carroceria do caminhão ou no encontro dos namorados dentro de uma das caixas do estoque. Se as imagens tiram o filme do lugar comum, o roteiro, uma história de príncipe encantado como tantas outras, encontra no diretor, Sam Taylor, um defensor de sua ingenuidade. Ele cria gags com repetições, edições e dirige lindamente o ótimo elenco. O filme, exibido numa noite deliciosa na área externa do Auditório do Ibirapuera, foi o último filme silencioso da atriz e ainda tem um caráter premonitório porque Pickford se casou, tempos depois, com seu par romântico.

O Bandido Giuliano

O Bandido Giuliano EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Salvatore Giuliano, Francesco Rosi, 1962]

O mais interessante de O Bandido Giuliano é a perspectiva que Francesco Rosi escolhe para desenvolver sua narrativa. No filme, ele não é uma personagem propriamente dita,  mas uma espécie de fantasma, uma sombra que acompanha os coadjuvantes de sua história de fora-da-lei que matou um policial para os italianos e herói que distribui comida para os sicilianos. O ponto de partida do filme já é um tanto revolucionário: na primeira cena, Salvatores Giuliano já está morto e, bem próximo de um cinejornal, o longa segue toda a repercussão do assassinato, a caça a seus companheiros e o julgamento onde são apontados os responsáveis pela emboscada que tirou sua vida. O diretor utiliza uma herança neorrealista para adotar um tom extremamente documental, reforçado pela fotografia em preto-e-branco e pela câmera, muitas vezes na mão, misturando cenas reais gravadas nas ruas à encenação naturalista do pós-morte de Giuliano. O efeito é a martirização do anti-herói, que ganha um status de mito da luta pela separação da Itália.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 10

Aliança do Crime

Aliança do Crime EstrelinhaEstrelinha
[Black Mass, Scott Cooper, 2015]

Aliança do Crime é tão artificial quanto a maquiagem incômoda que Johnny Depp carrega durante todo o filme. Falta a Scott Cooper a grandiosidade que um Coppola consegue emprestar a sua obra ou a intimidade com que Scorsese investiga os laços entre os mafiosos. Depois de mais de duas horas de filme, a impressão que fica é que Cooper nunca consegue entrar realmente naquele universo nem criar uma cena marcante mesmo disposto a contar uma história tão rica e cheia de nuances quanto a de James “Whitey” Bulger. A fotografia, levemente azulada, parece emular um terceiro cineasta, Michael Mann, um ideólogo da imagem, mas neste filme não há justamente uma imagem sequer que permaneça na memória por muito tempo. A interpretação elogiada de Depp parece bem ordinária se comparada a um repertório de atores que já fizeram grandes criminosos e o restante do elenco segue essa mesma lógica. O ator mimetiza trejeitos de dezenas de outras grandes personagens e o roteiro não ajuda a levantar a bola para que ele possa utilizar seu tiques psicóticos que funcionaram tão bem em Sweeney Todd. Joel Edgerton, geralmente um ator bom, está em overacting desde a primeira cena em que aparece. A distribuição de papéis complementares para atores bastante conhecidos, como Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Dakota Johnson e Juno Temple parece ser uma estratégia para atrair mais atenção e publicidade, mas nenhum deles ganha profundidade e, muito menos, relevância na trama. Peter Sarsgaard, que tem um dos papéis mais interessantes, aparece pouco e não tem uma chance real de mostrar que veio. Não há cenas de ação que fujam do básico e a trilha ostensiva e excessiva de Tom Holkenborg tenta preencher todas as lacunas que o filme deixa, mas não consegue. Os créditos finais, em vez de curiosidade, geram mais alívio.

A Bruxa

A Bruxa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Witch, Robert Eggers, 2015]

A Bruxa talvez assuste menos do que deveria, mas o horror que o diretor Robert Eggers procura é outro. Embora o fantástico, o místico, o sobrenatural assombrem as personagens do filme de maneira muito concreta, o terror maior do longa de Eggers é o provocado pelo homem. A história se passa em 1630, na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, um lugar tomado à força de seus verdadeiros moradores, que tiveram suas terras e seus deuses roubados em troca da truculência de uma cultura e de uma religião que elegem demônios diante do menor motivo. O horror de A Bruxa é o horror de apontar culpados, de ignorar laços familiares, de ignorar o amor em prol de uma fé cega. A família de William é expulsa de uma cidade por questões religiosas, muda-se para um campo ao lado de uma floresta e, num piscar de olhos, o caçula da família, o bebê Sam, desaparece enquanto brincava com a irmã mais velha, Thomasin. Diante de uma situação sem explicação, o luto da família é trocado, literalmente, por uma caça às bruxas, onde sussurros e brincadeiras podem ser mal interpretados. A formação de Eggers é como diretor de arte, então, existe uma preocupação clínica com a reconstituição de época, o desenho de produção, os figurinos e a plástica do filme como um todo, que é impecável, embora resulte num excesso de solenidade e numa frigidez que só é quebrada pelas interpretações. Anya Taylor-Joy e, sobretudo, Harvey Scrimshaw são excelentes. A expressão Katie Dickie, revelada em Game of Thrones, e a voz de trovão de Ralph Ineson ajudam a manter a atmosfera de incertezas. Se o filme não dá os sustos que poderia, aterroriza pela maneira que mostra o ser humano.

Bridgend

Bridgend EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Bridgend, Jeppe Rønde, 2015]

Mesmo que não seja exatamente um grande filme, Bridgend foi uma das grandes surpresas desta edição da Mostra de Cinema de São Paulo. O diretor, um dinamarquês, atravessou o Canal da Mancha e cruzou a Inglaterra para pesquisar o mistério dos jovens suicidas na cidade que batiza o filme, no País de Gales. Jeppe Rønde mostra muito talento em construir uma atmosfera quase sensorial de opressão psicológica para o filme, buscando compreender qual é a herança maldita que assombra aqueles adolescentes. A fotografia tem elementos fantasmagóricos, jogando muito com a luz ou a falta dela e criando quadros de excepcional beleza que também têm a função mostrar que aqueles meninos praticamente vivem numa dimensão à parte da realidade que os cerca, quase se como criassem uma nova velha civilização. A utilização da trilha sonora, cheia de interferências e esquisitices, para estabelecer o suspense empresta ao longa um componente místico, que Rønde usa para aproximar o comportamento do grupo de adolescentes aos rituais de uma seita, o que deixa os efeitos dessas escolhas ainda mais interessantes.

Três Lembranças da Minha Juventude

Três Lembranças das Minha Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Trois Souvenirs de ma Jeunesse, Arnaud Desplechin, 2015]

Arnaud Desplechin arranja as memórias de seu protagonista como melhor lhe convém, transformando a estrutura irregular de Três Lembranças da Minha Juventude numa experiência íntima e muito genuína, bem próxima à maneira com a qual organizamos os tópicos de nossa história. Isso dá um conforto grande em relação ao filme, um inventários de impressões e efeitos com momentos de algum lirismo truffautiano. Mathieu Amalric, em sua sexta, salvo engano, colaboração com o diretor, interpreta um homem que tenta voltar à França, é barrado na imigração e olha para três momentos de seu passado, que ganham tamanho de acordo com a importância que o cineasta dá a cada uma, mesmo que elas não sejam fundamentais para explicar a situação inicial do filme. Há um punhado de lugares comuns que Desplechin martela e que não deixam o filme ser tão brilhante quanto Reis e Rainha ou Um Conto de Natal, mas essas cenas ajudam a dar essa textura falível, tão humana, ao longa. Os jovens atores são todos bons, especialmente o protagonista, Quentin Dolmaire, e “seu grande amor”, Lou Roy-Lecollinet, ambos estreantes no cinema, mas a cena mais memorável de Três Lembranças da Minha Juventude não tem seu protagonista ou seus coadjuvantes principais. É quando a irmã do jovem Paul, uma espécie de Dakota Fanning francesa, num momento que nada acrescenta à história, mas que tudo significa para a memória da personagem, chega para o pai e pergunta: “pai, por que eu sou feia?”. E ele responde: “você não é feia, mas seus irmãos ocupam espaço demais”. Esta variação de foco absolutamente desnecessária lembra os grande momentos do cinema de Desplechin, em que ele tira o óbvio do foco e aposta na periferia. Mesmo sem esse lampejos de genialidade, o novo filme do cineasta ainda bem à frente da atual produção francesa que chega ao nosso circuito “de arte”.

O Verão de Sangaile

O Verão de Sangaile EstrelinhaEstrelinha
[Sangailé, Alanté Kavaïté, 2015]

Uma das preocupações principais deste segundo longa da lituana Alanté Kavaïté é que cada imagem tenha embutida uma grande carga poética. Ela explora ao máximo os belos cenários do condado de Vilnius, sua terra natal, e faz várias composições com a de imagens jogando com a luz natural. Isso funciona até certo ponto, mas peca pelo excesso, que não esconde os maneirismos do filme, uma espécie de história de amor de verão entre duas adolescentes: a Sangailè do título, uma jovem retraída, com uma relação de amor e ódio com a mãe, uma ex-bailarina, e Auste, uma promessa de estilista/fotógrafa/decoradora que transborda simpatia e criatividade. Auste surge na história de Sangailè como a intrusa que quer se aproximar, quebrando o mundinho reservado em que vive a protagonista. Mas, de corpo estranho, ela rapidamente se torna a personagem mais interessante do filme, muito mais sólida do que a dona do papel principal, versão pálida de tantas outras com o mesmo perfil. O encontro entre as duas serve para dar novo fôlego para a protagonista dentro e fora da roteiro, mas, por mais que seja cuidadosa com a composição visual do filme, Alanté Kavaïté nunca consegue tornar verdadeiramente interessante ou original a história que está contando.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 9

Os Campos Voltarão

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[Torneranno i Prati, Ermanno Olmi, 2014]

Um soldado canta do alto de uma trincheira. Sua voz poderosa, que cruza os campos num raro momento de paz no front, ganha elogios de seus inimigos, que pedem mais uma. É assim, com este absurdo de guerra, que Ermanno Olmi inicia seu novo filme, que fala sobre o absurdo da guerra. Entre longas e curtas, este é o 84º título da carreira de um cineasta de 84 anos: são apenas 80 minutos que valem muito mais do que os últimos dez anos de filmes sobre conflitos mundiais. A guerra de Os Campos Voltarão é a primeira das grandes, mas que o diretor apresenta de dentro para fora. Praticamente todas as cenas do filme acontecem dentro do bunker em que a tropa italiana tenta resistir ao inimigo. A guerra em si se resume a explosões perto de onde estão os soldados e “fogos de artifício” no céu. Os diálogos são sobre a guerra, mas são mais ainda sobre a vida, o medo, a incerteza. O humano vem antes da política para Olmi, que desbota as cores do longa até bem perto do preto-e-branco e envolve seu filme numa trilha sonora improvável composta pelo jazzista Paolo Fresu. A paleta pálida e a música estranha ajudam a encenação algo teatral a transportar aquela história para uma espécie de dimensão diferente, reforçando o lado bizarro do conflito com uma poesia triste e dura, estranha e de beleza esquisita. A batalha dos soldados de Olmi acontece mais dentro deles do que do lado de fora. É uma batalha contra um inimigo invisível, um fantasmas onipresente e sem forma definida, o horror da guerra.

O Rei da Comédia

O Rei da Comédia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The King of Comedy, Martin Scorsese, 1982]

O Rei da Comédia é uma fábula do absurdo. E, por mais absurdo que seja, permanece completamente atual em seu retrato do culto à celebridade. Há mais de trinta anos, Martin Scorsese se reuniu mais uma vez com seu favorito Robert De Niro para investigar o desejo pela exposição na figura de Rupert Pupkin, um homem cujo sonho é se tornar um comediante de stand up da televisão. Para falar de humor, resgatou uma das maiores lendas do cinema, Jerry Lewis, que havia tempos não fazia nada realmente relevante. Jerry aqui interpreta a inspiração, o objetivo e o alvo de Pupkin, Jery Langford, apresentador de um talk show de sucesso na TV. O encontro inusitado das duas personagens mexe profundamente com Pupkin, cuja mitomania faz com que ele transite entre a fantasia da conquista e a realidade para onde sua mãe o chama no meio de cada uma de suas viagens. Para ele, Langford é mais do que uma passagem para a fama e o reconhecimento, é a chance de ver seu sonho realizado. O roteiro de Paul D. Zimmerman, um dos três que ele escreveu na vida, atravessa os limites entre a comédia proposta desde a primeira cena e o estudo sério da personagem com muito jogo de cintura, sem perder a fábula, sem abrir mão da melancolia. De Niro tem uma coleção de interpretações maravilhosas, mas seu Rupert Pupkin oferece uma vitalidade até então nova para seu repertório. Ele defende a farsa de Pupkin com muita verdade, cheio de nuances, encontrando pertinência para cada transtorno do protagonista. A seriedade de Jerry Lewis também impressiona e o contraste com a personagem deliciosamente alucinada de Sandra Bernhard cria algumas cenas excelentes perto do final. O Rei da Comédia nunca foi reconhecido como a obra-prima da sutileza que é.

Sob Nuvens Elétricas

Sob Nuvens Elétricas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Pod Elektricheskimi Oblakami, Aleksey German Jr., 2015]

Um prédio moderno, de curvas ousadas, mas abandonado no esqueleto é a imagem mais recorrente de Sob Nuvens Elétricas. Estamos na Rússia, apenas dois anos à frente, em 2017, centenário da revolução que levou Lênin ao poder. E sob os ecos desta história tão massacrante, que eliminou o humano em prol do conjunto, experenciamos a visão de futuro de Aleksey German Jr. Um futuro tão fracassado quanto a experiência socialista. Em sua pálida distopia, o que seduz não são as personagens, que parecem tão perdidas na paisagem como o protagonista do primeiro dos sete capítulos do filme, um imigrante quirguiz que vaga por ruínas, pelo gelo e pelas ruas da cidade com um rádio quebrado. A sedução também não vem da história, que German libera a conta-gotas, em diálogos codificados, nos intervalos das imagens de cores esmaecidas, de quadros que materializam a solidão, a desesperança, o incompreensível. É na plástica que German traduz seu pessimismo discreto com o que a Rússia construiu para si, é na estética congelante que mora seu grito de horror em relação ao futuro de seu país, é num prédio lindíssimo, imponente e pela metade que encontra a imagem perfeita para cristalizar a catástrofe de uma promessa.

O Evento

O Evento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sobytie, Sergei Loznitsa, 2015]

De seus vinte títulos como diretor, dezessete filmes do bielorrusso Sergei Loznitsa são documentários. O Evento, seu longa mais recente, é uma costura de imagens em found footage coletadas de diversos cineastas independentes sobre os eventos em Leningrado, em 1991, que levaram à dissolução da União Soviética. As imagens da multidão na praça central da cidade são não apenas a opção formal, mas a linha narrativa do filme. Elas são sobrepostas por entrevistas, depoimentos, pronunciamentos de rádio e TV e discursos, estes os únicos que não aparecem em off, para dar corpo e volume para seu retrato do movimento contra-URSS, como consequência de um desejo coletivo da população, que pergunta porque a televisão só exibe o Balé Bolshoi e que quer saber se Mikhail Gorbachev está realmente morto, como dizem os boatos. O preto-e-branco onipresente em todo o filme oficializa o tom de documento histórico, além de dar peso e textura ao discurso, que Loznitsa deixa a cargo do espectador, mas que parece muito claro quando o cineasta nos afirma que aquele movimento nasce e cresce nas ruas.

A Volta

A Volta Estrelinha½
[Elämältä Kaiken Sain, Mika Kaurismaki, 2015]

Depois da bela surpresa de A Jovem Rainha, Mika Kaurismaki enterra a boa impressão em A Volta, comédia dramática com ecos de filme de suspense, envolta numa onda de clichês e reviravoltas rocambolescas que nunca diz exatamente a que veio. Baseado no livro de Petri Karra, o filme tenta encontrar um equilíbrio entre o lugar comum da frieza do comportamento nórdico e um certo calor latino provavelmente herdado da passagem do cineasta pelo Brasil, onde morou por anos. Ele tenta capturar o drama familiar da mulher que resolve se mudar para a casa do pai no interior junto com o namorado e a filha dele, mas nunca desenvolve as distância entre as personagens de maneira realmente eficiente, e aposta num romance em que parece não acreditar, inserindo uma subtrama policial que parece cair do céu para dar algum movimento ao material. Todas as personagens têm algum grau de estereotipia, principalmente a adolescente gótica e o velho rabugento. As belas imagens à beira de um lago não salvam esse novelão da nulidade.

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