Monthly Archives: outubro 2015

Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 8

Sabor da Vida

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[An, Naomi Kawase, 2015]

Sob praticamente todos os prismas, Sabor da Vida é um filme mais convencional do que o anterior de Naomi Kawase, O Segredo das Águas, em que a cineasta japonesa retomava um cinema narrativo ficcional que havia abandonado em troca de documentários e filmes mais experimentais. Mas se o último longa da diretora ainda tinha sido construído em terreno árido, este novo projeto parece ter como alvo um público bem maior. Kawase costura aqui três subgêneros que costumam apostar na capacidade de emocionar o espectador: o filme de velhinhos, o filme de comida e o filme de doença. Partindo do livro de Durian Sukegawa, ela conta a história de Tokue, uma senhora de 76 anos que pede emprego numa pequena loja de dorayakis, um popular doce japonês à base de pasta de feijão, comandada por um homem que tenta superar seu passado e frequentada por uma adolescente com problemas com a mãe. A partir daí, Kawase desenha uma trama em que a comida serve como elo para unir as três personagens, que, escondem, cada uma, um segredo e um mal estar em relação ao mundo. Como tem uma tendência ao realismo em seus filmes, a diretora tem uma relação diferente com os momentos mais melodramáticos do texto. Nunca pesa a mão na condução emocional das cenas essencialmente emocionais, o que ao mesmo tempo em que causa um estranhamento, revela uma tentativa de dar sua identidade ao material. Kirin Kiki, que interpreta Tokue e já havia sido vista em filmes Hirokazu Koreeda, entrega uma personagem bastante palpável, que seduz o espectador pela simplicidade de sua interpretação. Como no filme mais recente de Kiyoshi Kurosawa, Sabor da Vida mostra como a relação da cultura japonesa com a morte é muito mais complexa do que no Ocidente. Aqui, mais uma vez, Naomi Kawase, que ainda não voltou a seus momentos mais brilhantes, investiga o poder transformador da morte para quem fica por estas bandas.

Chronic

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[Chronic, Michel Franco, 2015]

Este texto sobre Chronic estava sendo “escrito mentalmente” durante a última sequência do filme de Michel Franco e o tom seria de que, perto do maniqueísmo maldoso de Depois de Lucia, longa anterior do diretor mexicano, este novo filme era até decente, mas parece que o cineasta achou que não tinha sido “visceral” o suficiente e comete um golpe final que não tem outra função senão catalisar catástrofes. O cinema atual está cheio de filmes assim, sem qualquer respeito com suas personagens, que parecem duvidar da capacidade de discernimento do espectador ao apostar em imagens e situações “fortes”, como se houvesse coragem em distribuir desgraças. E Michel Franco parece querer um posto de comando neste movimento. Ele filma com segurança, sabe bem administrar espaços, concebe quadros com bastante rigor, mas essa sua investigação do caos parece gratuita, perversa e oportunista. Franco estreou nos Estados Unidos, com um filme falado em inglês, estrelado por Tim Roth, que interpreta um enfermeiro de pacientes terminais. Sua relação com a morte vai se desenhando aos poucos e revela alguma coerência, embora o diretor acredite que forçar o espectador a ver imagens desagradáveis seja uma forma de revolução. Como um masoquista, Franco força o dedo na ferida e nos convida a ser cúmplices de suas obsessões. Aceita quem quiser.

Body

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[Cialo, Malgorzata Szumowska, 2015]

A morte parece ser um elemento comum e importante para vários filmes da Mostra. Body, da polonesa Malgorzata Szumowska, tem uma das abordagens mais interessantes porque dialoga com o sobrenatural sem nunca realmente transformá-lo num objetivo ou numa escada para chegar ao espectador. Os três protagonistas lidam das maneiras mais diferentes com o luto. De um lado temos o investigador criminal Janusz, que para lidar com a perda da mulher, transforma os corpos mortos que encontra todos os dias em meros objetos de trabalho, enquanto sua filha, Olga, estraga o próprio corpo como uma espécie de rebelião contra o mundo. Do outro lado, a psicoterapeuta Anna, que, oito anos depois, ainda busca na espiritualidade uma maneira de compensar a morte do filho. Szumowska amarra estas três histórias com imagens delicadas que ora sugerem uma abraço no sobrenatural, ora buscam desmentir essa relação. O elenco é todo muito bom, mas o destaque vai para a excelente performance de Maja Ostaszewska, atriz polonesa que iniciou sua carreira no cinema com um pequeno papel de A Lista de Schindler, cuja personagem é admiradora do médium brasileiro Divaldo Franco. É bem curioso como a diretora encerra o abismo que existe entre pai e filha, de uma maneira simples, como se mostrasse que não existe artifício mais eficiente para aproximar duas pessoas do que o bem e velho olho no olho.

O Muro

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[Mur, Dariusz Glazer, 2015]

Quando não está realizando alguma atividade ilegal, Turek ganha a vida destruindo para construir. Sozinho, ele realiza reformas completas em apartamentos de Varsóvia. Mas a lógica do ganha-pão de Turek não serve para a vida pessoal do rapaz, que tem uma relação fria e distante com a mãe. O Muro é a estreia de Dariusz Glazer como diretor de longa-metragens, depois de realizar um curta e escrever um longa para outro cineasta. A pouca experiência não impediu o polonês de dirigir um filme simples e forte sobre um tema bastante visitado pelo cinema, o abismo entre pais e filhos, também abordado por outro filme da Polônia na Mostra, Body. A brutalidade da personagem, bem defendida pelo ator Tomasz Schuchardt, o coloca em conflito diário com a mãe, que não facilita o convívio. Glazer, que também assina o roteiro, passeia por alguns lugares comuns, mas, sem colocar panos quentes, encontra boas soluções para levar a relação para outros caminhos sem deixar de manter as características do protagonista.

Intermezzo

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[Intermezzo, Gustaf Molander, 1936]

A primeira imagem do rosto de Ingrid Bergman sob um feixe de luz em Intermezzo explica porque o poderoso David O. Selznick rescolveu contratá-la logo depois de assistir ao filme de Gustaf Molander. Bergman já era uma atriz moderna em 1936, tinha uma beleza impressionante e uma performance naturalista difícil de se encontrar à época. E olha que todo o elenco do longa é bem competente. Bergman, que tinha apenas 21 anos quando o filme foi lançado, interpreta Anita Hoffman, uma jovem e talentosa pianista que dá aulas para a filha do famoso violinista Holger Brandt, que fica impressionado ao vê-la em ação. Surge uma admiração mútua e, consequência disso, o amor. Molander já tinha mais de 15 anos de experiência como diretor e brilha na primeira metade de Intermezzo, combinando a apresentação da história e das personagens com momentos musicais esplendidamente montados e fotografados. As cenas são longas, dando tempo para a música assumir o protagonismo. O filme cai para o convencional à medida que os protagonistas se envolvem. O roteiro naturalmente passa a dar mais atenção ao drama de adultério e, em segundo plano, a música some do filme, cujo final moralista não incomodou David O. Selznick, que refilmou o longa em Hollywood para que ele fosse a estreia da atriz em língua inglesa. Bergman ainda fez mais quatro filmes na Suécia antes de atravessar o Atlântico, três dirigidos por Molander. Nenhum deles fez metade do sucesso de Intermezzo.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 7

A Jovem Rainha

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[The Girl King, Mika Kaurismaki, 2015]

O finlandês Mika Kaurismaki morou no Brasil durante muito tempo, conhece bem a língua portuguesa e reclamou da tradução da Mostra para um de seus novos filmes, A Jovem Rainha, em que biografa a polêmica e extravagante Kristina, da Suécia. No original, o longa se chama The Girl King, algo como O Rei Menina, que comporta bem melhor o espírito de sua protagonista revolucionária, já vivida por Greta Garbo no clássico Rainha Christina. Ela foi nomeada monarca aos seis anos, passou outros dois tendo que dar boa noite ao pai embalsamado por uma mãe louca, foi criada como um menino, se apaixonou por livros, filósofos, pensadores e por uma mulher. E ainda desafiou o luteranismo, religião oficial de seu país. Diante da história de uma mulher de tantas paixões febris, Kaurismaki parece também ter incorporado uma possível herança de sua passagem pelo Brasil, a dramaturgia televisiva que assistimos no filme. A Jovem Rainha é um novelão histórico, artificial, fake, que potencializa as conspirações de corredor, os relacionamentos proibidos e as reviravoltas com closes fechados, interpretações afetadas, flashbacks explicativos e outra seleção de truques para dar volume ao suspense. Malin Buska encarna a protagonista com muita propriedade, embarcando na ideia de Kaurismaki de transformar Kristina exatamente numa personagem. Nas cenas em que faz discursos para a corte, Buska declama suas falas quase que como um padre faz sua ladainha dominical. Combina perfeitamente com o que o filme pretende para sua rainha.

Mistress America

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[Mistress America, Noah Baumbach, 2015]

Brooke Cardinas é uma típica personagem de Woody Allen só que às avessas. Simpática, verborrágica, cheia de planos, completamente indecisa. Brooke nunca fez faculdade, não tem o estofo de sua quase irmã, Tracy, cuja mãe vai se casar com o pai de Brooke e saiu da cidade pequena onde nasceu para morar em Nova York, onde por sinal, Brooke mora. Tracy faz faculdade e quer entrar num grupo de literatura, fechado, cheio de códigos secretos. Precisa de uma boa história, verdadeiramente original, para isso. E descobre quando conhece Brooke. Em seu segundo roteiro feito a quatro mãos, Noah Baumbach e Greta Gerwig, um casal na vida real, reproduz um pouco do espírito libertário e naive de Frances Ha, primeira parceria dos dois, mas sem o mesmo acabamento que aquele longa entrega. Se Frances também era uma personagem errática, mas que se mantinha fiel a sua essência ao longo de todo o filme, até porque o filme é ela, Brooke é apenas uma coadjuvante em Mistress America e Tracy, a verdadeira protagonista está sempre a sua sombra, mesmo que pareça o contrário. Essa relação desigual entre as duas ocupa um espaço grande demais na resolução do filme, que abre mão de muitas possibilidades em relação ao desenvolvimento das personagens, mas ainda consegue se sustentar como comédia indie inteligente, embalada por uma trilha deliciosamente triste e alegre, alegre e triste.

Rashomon

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[Rashomon, Akira Kurosawa, 1950]

Rashomon foi feito há 65 anos e ainda impressiona pela complexidade com que Akira Kurosawa via o mundo. Nesse estudo sobre o intervalo entre a verdade e a mentira, o cineasta parece afirma que é ali exatamente que acontece a vida. O roteiro, que confundiu os atores que procuravam Kurosawa para entender o que ele queria com aquilo, alterna as versões de uma história sobre um mesmo fato. Uma história contada e debatida aos pés do portal Rashomon, em pleno Japão medieval, enquanto três homens aguardam o fim de um temporal. Ali, Kurosawa introduz uma montagem com base em flashbacks que se revezam oferecendo novos pontos de vista para o assassinato de um samurai. Ganhou o Festival de Veneza e abriu os olhos do mundo para um cinema japonês que se transformava. Da simples discussão sobre uma morte, Kurosawa abre um debate mais amplo, mais intenso, sobre alguns dos temas mais universais e complexos disponíveis no mercado: o poder do desejo, a honestidade e a própria natureza do ser humano.

Cordeiro

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[Lamb, Yared Zeleke, 2015]

Em toda parte do mundo, existe um movimento de países que não tem uma cultura cinematográfica forte para tentar fazer filmes que possam encontrar espaço num circuito internacional, mesmo que seja um circuito de festivais. Cordeiro é a terceira indicação da Etiópia para o Oscar de filme estrangeiro e foi o primeiro filme do país a ser exibido no Festival de Cannes. Como cinema, o longa de Yared Zeleke, formado pela Universidade de Nova York, é todo corretinho: um elenco amador bem dirigido, fotografia cuidadosa e um roteiro eficiente, principalmente em se tratando de provocar identificação com o espectador. Mas o diretor aposta numa uma história convencional, a de um garoto deixado pelo pai com parentes para que ele não tenha o mesmo destino da mãe morta pela seca, que pelo apelo universal tem chances de dialogar com o espectador mundo afora. Zeleke ainda adiciona uma personagem adicional para a fórmula, a ovelha Chuni, o “melhor amigo” do pequeno Ephraïm, por quem ele vai lutar diante de todas as dificuldades. Um esforço louvável que resulta num filme bonitinho, redondinho, mas que sempre é mais do mesmo.

Beira-Mar

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[Beira-Mar, Filipe Matzembacher & Marcio Reolon, 2015]

Da mesma maneira que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, é um filme que promete mais do que cumpre por fazer apostas muito seguras. Desde o começo, por menos que explique quem são aqueles dois jovens, os diretores parecem apostar que o espectador quer que eles fiquem juntos. A viagem da dupla até uma praia do Rio Grande do Sul para resolver um assunto ligado à herança de um deles é embalada por uma trilha melancólica, paisagens tristes, festas cheias de momentos de silêncio e muitos olhares. Essa embalagem tem uma construção delicada e até funciona, mas culmina no grande lugar comum do encontro entre dois amigos bêbados. O resultado é um filme bonito, que certamente vai criar uma empatia com o público jovem, mas que poderia ser bem mais ousado em vez de apenas seguir o plano inicial à risca.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 6

Campo Grande

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[Campo Grande, Sandra Kogut, 2015]

Há oito anos, numa Mostra de Cinema como esta aqui, a cineasta Sandra Kogut estreava na ficção com uma arriscada e acertada adaptação de Guimarães Rosa. Miguilim, um dos contos de Campo Geral, se transformou em Mutum, uma obra delicadíssima sobre a brutalidade do sertão para com quem ainda não tem idade para entender o mundo. À época, a diretora já revelava um enorme talento para dirigir uma criança. A interpretação do pequeno Thiago da Silva Mariz no filme é encantadora, dona de nuances impressionantes para quem ainda nem tinha chegado à adolescência. Demorou quase uma década para Sandra voltar à direção. E mais uma vez ela invade o universo infantil e revela não um, mas dois atores mirins. A primeira que aparece em cena é a belezinha Rayane do Amaral, que Kogut nos faz acreditar que vai ser a protagonista do filme, mas que depois de alguns minutos entrega o posto para Ygor Manoel, que faz seu irmão no filme. Como o Thiago de Mutum, Ygor também interpreta um Ygor. Ele e a irmã, meninos pobres, foram deixados pela mãe na porta de um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro. É lá onde mora Regina, personagem de Carla Ribas, uma mulher que começa a empacotar os móveis para deixar o lugar onde viveu durante muitos anos. Onde seu casamento começou e terminou e onde nasceu sua filha, que decidiu morar com o pai. O encontro dos meninos com Regina, um encontro filmado por Sandra Kogut com delicadeza, mas de maneira bastante realista é o que move Campo Grande. Se Thiago foi forçado a crescer diantes das agruras do Sertão no filme anterior da diretora, desta vez é Ygor que tem que encarar o mundo no meio da desesperança de uma cidade grande. A procura pela mãe, cheia de imprevisibilidades, é filmada com um olhar documental, graças ao trabalho de um dos maiores diretores de fotografia do país no momento, Ivo Lopes, que registra as ruas do Rio sem maneirismos. Um dos pontos fortes de Campo Grande é como Kogut conduz sua narrativa, sem se preocupar em amarrar cada momento desta procura pela mãe, sem fechar arestas ou desatar nós, sem a necessidade de didatizar a identificação entre a mulher e o menino, sem se render à tentação de deixar as duas crianças, treinadas pela preparadora de elenco Fátima Toledo, juntas o tempo todo. Carla Ribas talvez seja a grande atriz do ano, comovente em todas suas cenas. O filme é cheio de elipses e de pequenas histórias que não se completam, mas que não fazem falta ao propósito da diretora: registrar um Rio em obras (dos Jogos Olímpicos), uma mulher em reconstrução e dois meninos que querem apenas recomeçar suas vidas. A sequência final de Campo Grande aborta qualquer compromisso com um desfecho convencional. O filme se despede triste, mas feliz.

Desde Allá

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[Desde Allá, Lorenzo Vigas, 2015]

O desfecho de Desde Allá pode ter antecipado pelo espectador se ele começar a elencar possibilidades lá pelo meio do filme. Mas isso não diminui a força e a coerência do primeiro longa de Lorenzo Vigas, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em meio a vaias preconceituosas. O filme tem a produção do assumidamente fatalista cineasta mexicano Michel Franco, que também produziu a estreia de Gabriel Ripstein como diretor, 600 Milhas, e como o representante mexicano no Oscar de filme estrangeiro, Desde Allá não se deixa contaminar pelo pessimismo de seu financiador. O conto de Vigas sobre o homem que caça jovens pelas ruas de Caracas para serviços sexuais é pesado, triste e sombrio, mas parece amarrar todas essas características numa trama honesta consigo mesma do começo ao fim do filme. O chileno Alfredo Castro, dos filmes de Pablo Larraín, interpreta Armando, um homem de 50 anos que guarda mágoas nunca explicadas do pai que não vê há muito tempo e que volta a morar na cidade. Numa de suas tentativas de encontros sexuais, topa com Elder, um rapaz violento do subúrbio, uma cria das ruas e de uma família desestruturada. A violência passa a ser a base da relação entre os dois. Ela é a única forma de expressão que o jovem conhece e é ela que Armando busca. Vigas constrói esse duelo entre as personagens sempre como um embate duro, mas que abre espaço para que cada um demonstre suas fragilidades. O desfecho de Desde Allá pode até ser previsível, mas nunca deixa de fazer muito sentido.

Pardais

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[Sparrows, Rúnar Rúnarsson, 2015]

Existe uma cena, aliás, uma sequência de duas cenas, perto do final de Pardais que transforma o segundo filme do islandês Rúnar Rúnarsson. Até então, o vencedor da Concha de Ouro, prêmio máximo no Festival de San Sebastian, parecia mais um drama de coming of age (perda da inocência, numa tradução aproximada) sobre um adolescente filho de pais separados que precisa voltar a morar com o pai numa cidadezinha ao norte do país depois que a mãe decide se mudar com o marido. Rúnarsson tem uma mão boa para dirigir atores, mas os temas que encontra não são muito diferentes dos dramas que já vimos em dezenas de filmes: o vácuo entre filho e pai alcoólatra, o sentimento de não pertencimento, as rixas com os jovens da mesma idade, a descoberta do amor e do sexo, o primeiro emprego (com uma participação sem muito sentido do croata Rade Serbedzija). Uma Islândia de paisagens espetaculares ajuda a manobrar os lugares comuns em mais uma história de um garoto que começa a sentir a chegada da vida adulta. Porém, é na sequência próxima ao final, que poderia facilmente cair num maniqueísmo hollywoodiano bem em voga nos últimos tempos, mas que é belamente concebida e dirigida por Rúnarsson, que o diretor encontra uma maneira simples e fortíssima de falar sobre o amadurecimento de Ari. O menino não vira adulto depois da primeira vez que faz sexo ou quando perde um parente de quem gosta bastante (outra cena bonita), mas quando toma uma decisão difícil apenas para fazer o bem a outra pessoa. É quando Ari “vira homem” e quando sentimos orgulho dele.

Vulcão

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[Volcano, Rúnar Rúnarsson, 2011]

Sob o pretexto de fazer um Foco Nórdico, a 39ª edição da Mostra reprisa também o primeiro longa-metragem de Rúnarsson, que já havia sido exibido anos atrás. Se Pardais encontra suas delicadezas numa história cheia de clichês, Vulcão peca pelo excesso e pelo tom assumidamente pessimista. O filme que representou a Islândia na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro em 2010 é mais um daqueles exemplares do cinema nórdico que mostram como os vikings gostam de celebrar sua tristeza e desesperança. O protagonista é um velho rabujento que, no ocaso da vida, começa a passar por uma série de provações sem abrir mão de suas particularidades e excentricidades. Sofre bastante, muito mesmo. E o diretor parece celebrar esse sofrimento. A trama parece ter “inspirado” a história de Amor, de Michael Haneke, realizado um ano depois e muito mais celebrado, A realização é convicente e o casal de protagonistas, Theodór Júlíusson e Margrét Helga Jóhannsdóttir, bastante talentoso, mas o filme não consegue oferecer nada além do que este subgênero, “o filme de idosos”, não tenha nos mostrado ao longo dos últimos cento e tantos anos de cinema.

Paulina

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[La Patota, Santiago Mitre, 2015]

Paulina ganhou o prêmio da Semana da Crítica em Cannes muito por causa das polêmicas que alimenta em relação à violência sofrida por sua protagonista. Santiago Mitre, roteirista de três filmes de Pablo Trapero, sabe bem como levar os dilemas ao extremo, alimentando cada situação com uma postura discutível de sua protagonista, que ganhou uma ótima intérprete em Dolores Fonzi. Um dos pontos delicados do longa é quando percebemos o quanto Mitre é afeito a truques: ele abre o filme com uma discussão ideológica entre pai juiz e filha, que quer largar uma carreira promissora para fazer trabalhos sociais numa região pobre, afastada dos grandes centros. Esse dilema parece que vai estar na espinha dorsal da trama, mas Mitre transfere as discussões para uma questão mais impactante, a da violência sexual. Aborda todos os aspectos e tenta frustrar as expectativas do espectador com comportamentos e reações de Paulina. Um jogo um tanto maniqueísta, mas ainda assim interessante.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 5

Um Dia Quente de Verão

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[Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991]

Assistir a obra-prima de Edward Yang no cinema é uma das experiências máximas que um apaixonado por filme pode ter na vida. O diretor, que morreu prematuramente aos 50 anos, transformou a história real de um crime num mosaico maravilhoso da sociedade taiwanesa dos anos 60, uma sociedade formada por imigrantes da China continental que ainda procuravam seu lugar e sua identidade entre os nativos de uma ilha que ainda se dividia entre a democracia e o regime comunista. Como num daqueles quadros que ocupam paredes inteiras, Um Dia Quente de Verão emoldura não apenas a história de seu protagonista os movimentos de cada um a sua volta, numa rotina de observação que acompanha os passos do estudante Xiao Si’r e sua paixão pela colega de escola, Ming, que acontece em paralelo à violência das gangues os jovens taiwaneses buscavam, mesmo que sem muita consciência disso, segurança e liberdade de expressão, e ao envolvimento do pai em questões políticas. Os planos geralmente muito abertos tentam emoldurar tudo o que pode para traduzir um estado de tensão que cresce muito mais por causa da investigação silenciosa de Yang sobre a vida de Xiao Si’r e a situação do país do que necessariamente por causa de cenas nervosas, embora a sequência do massacre, realizada à meia-luz, seja assombrosa. Em meio a um punhado de personagens profundos, se destacam Gato, o menino cantor apaixonado por Elvis, que emociona em seus agudos de Are You Lonesome Tonight?, que empresta um verso para batizar o filme, e a própria Ming, um protótipo feminista que segue sua própria lógica e se move de acordo com o que quer e o que precisa.

Mate-me, Por Favor

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[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

Não existe um adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os atores em cena são adolescentes ou, quando muito, o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a questão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Autorretrato de uma Filha Obediente

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[Autoportretul unei Fete Cuminti, Ana Lungu, 2015]

Dos filmes romenos deste ano, Autorretrato de uma Filha Obediente pode não ser o melhor, mas é certamente o mais surpreendente (embora um western do leste europeu esteja na disputa). Surpreendente porque é dirigido por uma mulher, que entra num mundo bem fechado de Cornelius, Radus e Catalins, e oferece uma visão de mundo mais original e mais radical do que todos eles, e também por apresentar proposta diferente do que se espera do cinema romeno, onde geralmente se parte de um fato (um crime, uma proposta, um mistério) para se fazer uma observação do comportamento daquela sociedade. Ana Lungu concentra as coisas em sua protagonista, uma estudante que nunca vemos realmente estudar, que não trabalha, que sobrevive com a ajuda dos pais, mas se sente livre. Complexa e interessantíssima, sua história não segue um roteiro propriamente dito, mas uma sobreposição de cenas que não têm grande relação entre si, mas que aos poucos dizem para o espectador muito sobre quem é aquela mulher. Sua relação com o pai, um acumulador compulsivo de objetos culturais, renderia uma tese de doutorado, mas no filme rende os diálogos mais deliciosos, amorais e inteligentes diante da verborragia sarcástica do velho.

A Montanha Mágica

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[La Montagne Magique, Anca Damian, 2015]

Apesar de incrível esforço para realizar um filme que alterna diversas técnicas de animação, A Montanha Mágica funcionaria bem melhor se fosse uma curta ou talvez um média-metragem. Pinturas, gravuras, colagens, sobreposições, rabiscos e outra infinidade de técnicas ajudam a compor a saga de uma vida do alpinista Adam Jacek Winker. A cineasta romena Anca Damian se apropria dessas diversas possibilidades para dar ritmo e agilidade a seu filme e a combinação de estilos funciona como motor durante um bom tempo. Durante seus 90 minutos, o filme mostra que o polonês, radicado em Paris, foi ativista político por toda a Europa, mas se desencantou com seu país depois que viu a aprovação popular do Partido Solidariedade. Terminou encontrando refúgio no Afeganistão, onde se transformou num combatente de campo no conflito do país com a União Soviética, assumindo o lado afegão. A trajetória do protagonista é impressionante, mas à medida que ele vira um guerrilheiro radical, o filme, que passou por três estúdios para ser concluído, vai ficando cada vez mais cansativo e menos interessante e a criatividade no uso das técnicas de animação vira perfumaria. A cena final recupera a atenção, mas não a empolgação inicial com o projeto.

Armadilha

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[Taklub, Brillante Mendoza, 2015]

Os letreiros iniciais revelam que o novo filme de Brillante Mendoza foi patrocinado por um ministério, por um órgão ligado à presidência e até por um senador filipino. A desconfiança logo se confirma quando Armadilha começa a revelar a vida de risco de quem mora nas regiões litorâneas do país, que são frequentemente alvo de tufões e furacões. Somos apresentados a uma série de personagens que tiveram as vidas afetadas por tragédias relacionadas a essas catástrofes naturais: uma mulher da qual só vemos um dos filhos; três irmãos que perderam os pais; um homem que carrega literalmente uma cruz. Embora Mendoza tenha algum talento na composição de algumas cenas (outras são puras peças publicitárias), o sentimento que o filme desperta é de que todo o projeto é um filme de propaganda que serve como alerta para que as pessoas evitem áreas de risco, mesmo que em alguns momentos, Mendoza queira demonstrar independência, criticando a burocracia governamental. Faz um bom tempo desde que o filipino não faz um filme minimamente interessante. A boa forma não voltou com Armadilha.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 4

Boi Neon

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[Boi Neon, Gabriel Mascaro, 2015]

Num bate-papo pós-sessão, Gabriel Mascaro disse que um dos fundamentos do filme era criar expectativas para depois quebrá-las. Embora talvez esse não deve ser um objetivo, mas uma consequência, está nessa frustração de expectativas um dos maiores trunfos de Boi Neon, segunda ficção propriamente dita de Gabriel Mascaro. Propriamente dita porque seus documentários sempre circularam pela intersecção entre os dois gêneros, o que trouxe para seus roteiros ficconais uma naturalidade rara de se encontrar. A primeira grande negação de Mascaro é com o Nordestes idealizado. O filme nunca coloca seca, miséria ou a vida “pitoresca” do nordestino no centro da trama. Pelo contrário, isso praticamente não existe no filme, que se move em torno da personagem principal, um vaqueiro que sonha em ser costureiro, sem dar muita bola para as explicações ou os desdobramentos dessa situação. Iremar nunca tem a orientação sexual questionada. Por sinal, sua masculinidade é reforçada em vários momentos, seja na cena de sexo, seja na aliviada matinal, seja no banho coletivo. Mascaro examina o corpo de seu protagonista da mesma maneira que ele utiliza os corpos dos manequins que coleta para vestir suas criações. Juliano Cazarré está impecável: bruto e delicado ao mesmo tempo, com um sotaque pernambucano irrepreensível. Virou mesmo um grande ator. Ao seu lado, Maeve Jinkings interpreta uma caminhoneira sem trejeitos, discreta. O elo mais fraco do elenco é Vinícius Oliveira, que embora se esforce como o silencioso Junior raramente acerta no acento e fica apático durante a maior parte do filme. A quimíca entre o trio de atores profissionais com os dos vaqueiros que compõem o time principal de personagens é essencial para que Boi Neon funcione como um recorte de uma região que raramente consegue ser representada com tanto desprendimento.

Juventude Transviada

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[Rebel Without a Cause, Nicholas Ray, 1955]

O título original de Juventude Transviada, “Rebelde Sem Causa”, é injusto com seu protagonista. Jim Stark é um adolescente que não consegue dar conta de suas angústias tal como toda uma geração de jovens de meados dos anos 50, quando o pensamento americano começava a ensaiar uma grande transformação. Stark tinha não apenas uma, mas muitas causas para sua revolta: está no centro de uma família desestruturada; é o exemplo de uma juventude que busca respostas; é um garoto romântico demais para caber num mundo cada vez mais violento. Nicholas Ray captura esse incômodo tanto nas despropositadas lutas de faca e nos rachas perigosos quanto na agressividade com que Stark despeja contra sua família. Em James Dean, que aqui virou símbolo sexual, modelo de comportamento, espírito de um tipo de jovem americano, Ray encontrou a tradução mais fiel para este mundo em crise. O trabalho de restauração feito pela The Film Foundation ajudou a recuperar as cores e a intensidade do filme de Ray que ainda guarda uma outra performance espetacular. Como o tímido e furioso Plato, Sal Mineo entrega uma das interpretações mais comoventes do cinema, a de um adolescente “abandonado” pelos pais que encontra em Jim Stark, esperança, segurança e proteção. Dono de um desespero e de uma tristeza genuínos, é a personagem de Mineo que literalmente dá cabo ao filme, materializando toda aquela fúria contida.

Olmo e a Gaivota

Olmo e a Gaivota EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Olmo e a Gaivota, Petra Costa & Lea Glob, 2015]

A câmera sempre está muito perto de Olivia e Serge. Eles são um casal de atores que trabalham juntos numa nova montagem do Théâtre du Soleil para A Gaivota, de Tchekhov. O filme registra os dois nos bastidores da peça e em casa, tanto quando descobrem que ela está grávida quanto quando contam a novidade para o resto do grupo, que decide afastar Olivia de uma turnê depois que ela sofre um sangramento. A câmera está lá também quando o casal discute porque Serge continua no projeto. E aí, então, entra uma voz que pede para que eles repitam a cena. Há alguns anos, Eduardo Coutinho investigou os limites da representação em Jogo de Cena, uma obra-prima sobre interpretação, encenação, verdade, mentira. Agora, Petra Costa invade o mesmo universo em Olmo e a Gaivota, um filme que navega entre o documentário e a ficção e entre o teatro e o cinema num fluxo invejável e com bastante humor. A virada do filme, o jogo de cena que revela a presença de alguém que pode estar interferindo no que o espectador viu até então, muda o pacto entre o que está na tela e quem está assistindo. Onde termina a realidade e começa a encenação? O fato de termos dois atores em cena e na berlinda confunde mais as coisas e deixa o enigma mais interessante. Petra Costa transita com muita naturalidade nos intervalos entre as possibilidades do filme, que deixa as decisões sabiamente para o espectador.

Ixcanul

Ixcanul EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ixcanul, Jayro Bustamante, 2015]

Existe um certo conformismo dos países que não têm grande tradição cinematográfica com sua própria condição de exceção, como se o filme fosse uma anomalia que se justificasse unicamente por seu exotismo e suas particularidades étnicas. Jayro Bustamante gasta bastante tempo de seu filme situando o espectador, explicando a cultura que está mostrando para finalmente oferecer uma proposta além da pura antropologia, mas o diretor se diferencia pela maneira pouco usual com que constrói sua história, usando a câmera de forma inteligente e pensando em cada quadro. Ixcanul demora um pouco para acontecer e parece destinado a circular acerca das curiosidades dos remanescentes maias – é a língua falada no filme -, mas o longa consegue levar a história da menina que vai casar com um desconhecido aos pés do vulcão Ixcanul para um debate sociológico sobre a situação da Guatemala, a miséria e as condições de vida das populações indígenas e o tráfico humano. Tudo isso sempre com o foco nas personagens. Ponto para um país com uma história cinematográfica praticamente nula que encontrou a relevância olhando para dentro de si.

Para o Outro Lado

Para o Outro Lado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Kishibe no Tabi, Kiyoshi Kurosawa, 2015]

A relação da cultura japonesa com a morte é um universo à parte de possibilidades que dificilmente pode ser traduzido com fidelidade para quem tem um pensamento ocidental. Kiyoshi Kurosawa, que tem uma longa experiência com o fantástico, desta vez se aventura por um melodrama sobrenatural em que os mortos caminham entre nós. Mizuki é uma professora de piano tímida que recebe a visita do marido, desaparecido há três anos e que confessa estar morto. Juntos, os dois embarcam numa viagem em que irão visitar pessoas que passaram pela vida dele até que cheguem ao local onde os dois devem se despedir. Embora se passe todo no presente, Para o Outro Lado guarda semelhança com a animação As Memórias de Marnie, dos Estúdios Ghibli. Ambos passeiam pela relação entre vivos e mortos com delicadeza e naturalidade. Kurosawa adota um tom bem mais clássico do que seu habitual para explorar as histórias de fantasmas, perdas e arrependimentos que encontra pelo caminho. O contato da protagonista com as pessoas que abrigaram Yusuke ajuda a encontrar respostas para sua própria dor, sentimento que o diretor entrega aos poucos, explorando um cotidiano incrivelmente comum nas viagens do casal. Embora esse “romance espírita”, mal classificando, pareça bastante genuíno, faltou ao diretor uma assinatura mais forte, como em seu maior drama contemporâneo, o exemplar Sonata de Tóquio.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 3

A Terra e a Sombra

A Terra e a Sombra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Tierra y la Sombra, César Augusto Acevedo, 2015]

Existem pelo menos dois cinemas muito tentadores na América Latina: o cinema do exotismo, que explora a curiosidade do cotidiano de comunidades específicas, ainda isoladas ou simplesmente desconhecidas de boa parte do mundo, e o cinema social, que denuncia situações de exploração, subememprego e miséria. Esses subgêneros são tão atraentes que muitos cineastas desenham seus filmes unicamente de acordo com as regras e os padrões de um desses tipos de cinema, condenando-os a um lugar comum e confortável, sem se preocupar muito em desenvolver as personagens. Em A Terra e a Sombra, o colmbiano César Augusto Acevedo faz exatamente o contrário. A situação de exploração dos trabalhores nas plantações de cana de açúcar oferecem a base e o entorno para que um pequeno melodrama familiar se desenvolva. O filme começa com a volta de Alfonso para a casa que deixou há muitos anos, onde ficaram a mulher e o filho dele, que hoje é casado e pai de de um menino. A distância entre os integrantes daquela família vai diminuindo à medida que suas histórias vão se explicando. O roteiro sempre traz o aspecto social amarrado aos movimentos das personagens, mas nunca como protagonista da história. O humano interessa muito mais à câmera de Acevedo, um diretor estreante, do que as implicações políticas daquela situação e essa opção é mais política do que qualquer outra. A composição visual do filme é belíssima. Cada plano tem um sentido e um significado, cada movimento tem um propósito. Tudo parece estar examinar as relações entre homem e terra e entre pai e filho. O tom é solene em alguns momentos, como na queima do canavial ou na despedida do menino, o que tira um pouco do realismo duro do projeto, mas não compromete o conjunto. Os atores, treinados pela brasileira Fátima Toledo, entregam performances bem vivas, sobretudo as mulheres do elenco. Apostar nas personagens em detrimento à denúncia social foi o caminho mais digno para encontrar a humanidade naquele canavial colombiano.

Sindicato de Ladrões

Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[On the Waterfront, Elia Kazan, 1954]

Sindicato de Ladrões é uma experiência completamente diferente do que se fazia no cinema até então. O filme é a primeira grande celebração do naturalismo no cinemão norte-americano, com todos os atores interpretando “gente do povo” como “gente do povo”. Marlon Brando comete uma das maiores interpretações da História, a maior de sua carreira. Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger e Eva Marie Saint seguem de perto. Mas o filme que vira uma denúncia sobre a ação criminosos dos sindicatos nos portos da América vai muito além do papel social. Kazan usa o filme como maneira de dar sua palavra sobre a delação, que move a trama central e pela qual ele foi crucificado por dedurar companheiros comunistas durante o macarthismo. O poder simbólico da sequência que encerra o filme é brutal. Pode conquistar ou repelir o espectador. Mas até ela chegar, Kazan filma com tanta maestria, cria cenas tão imponentes, como o discurso do padre no cais, ou tão simples como o beijo que leva o casal ao chão, com tanta delicadeza que transforma este filme num dos maiores já feitos pelo cinema norte-americano.

É o Amor

É o Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[C'est L'amour, Paul Vecchiali, 2015]

Os protagonistas de É o Amor parecem embriagados. Encharcados de sentimentos tortos e conflituosos, nunca completamente explicados porque não existe muita regra para sentimentos. O contador, sua mulher, seu amante, o amante deste seu amante, todas as personagens do filme parecem completamente apaixonados, mas sem saber exatamente o que fazer com isto. Paul Vecchiali comanda o longa como maestro de uma melodia curta, encantadora e meio maluca, que brinca com a métrica e com a perspectivas das cenas. O diretor, um provocador por natureza, escolhe como uma das personagens principais um ator que teria ganho o César depois de fazer um filme sobre pegação gay, numa claríssima alfinetada ao recente Um Estranho no Lago. Talvez o cineasta não enxergue afeto no drama árido de Alain Guiraudie, talvez prefira encher seus protagonistas de sentimentos conflituosos que deixam seus passos menos prováveis, mais interessantes. Duas atrizes coadjuvantes roubam as únicas cenas em que aparecem: a mãe de Odile, cuja participação musical é encantadora, e a agente de Jean, num momento de comédia que enche o filme de esperança.

O Quarto Proibido

O Quarto Proibido EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Forbidden Room, Guy Maddin, 2015]

Guy Maddin nunca foi um cineasta despretensioso, mas este O Quarto Proibido é seu projeto mais ousado. Aliás, ousado é um adjetivo inadequado para uma experiência visual e sonora tão espetacular como esta. Maddin parece se estruturar em cima do conceito de pastiche: nada está ou aparece sozinho no filme. Para cada história que se sobrepõe a outra, existe muitos experimentos sensoriais. Cada cena é uma obra de arte isoladamente, onde o diretor muda a iluminação, usa filtros, sobreposições, modifica texturas, além da direção de arte, que já é impressionante e de tudo isso vir acompanhado por um trabalho estudadíssimo de som, trilha e efeitos visuais elaborados. O senão para o projeto é que, na tentativa de, talvez, deixar sua experiência mais palatável, Maddin adota um tom burlesco para a história e as interpretações (perdidos no elenco enorme estão Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin), o que adiciona informações demais para o filme e deixa a sessão bem exaustiva.

Coração de Cachorro

Coração de Cachorro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Heart of a Dog, Laurie Anderson, 2015]

Laurie Anderson surpreende com um documentário-soneto sobre o mundo, a vida, a morte e uma cadelinha chamada Lollabelle. Uma costura difícil, mas que a compositora de O Superman, conduz com bastante graça, anotando observações sobre tudo o que está a sua volta. O documentário em primeira pessoa tem ecos do trabalho de Jonas Mekas, talvez sem o mesmo tom pitoresco, mas divaga igualmente para os assuntos mais abstratos e mais distantes do que vinha imediatamente antes. Animações, colagens, texturas mostram uma preocupação em fazer um trabalho sofisticado que poderia fazer sentido apenas para Laurie, mas que terminam criando uma fartura de pontos de identificação com o espectador. Embora abra o coração para falar de sua intimidade muitas vezes, incluindo sua relação distante com a mãe, a diretora nunca macula a imagem de seu companheiro, Lou Reed, que morreu há dois anos e que dividiu a vida com Laurie até os últimos dias.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 2

Dheepan

Dheepan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dheepan, Jacques Audiard, 2015]

O mais interessante em Dheepan é a proposta de formar uma família com pessoas que não se conhecem. Homem, mulher e filha que nunca haviam se visto, mas que são forçados a fingir que são parentes para escapar de um Sri Lanka em guerra. O filme de Jacques Audiard realmente começa na França, para onde os três são levados depois da fuga e onde precisam manter a farsa para que suas identidades novas lhes ofereçam uma chance de reconstruir as vidas. Enquanto aponta a câmera para as dificuldades de adaptação do trio no novo país e um com o outro, o diretor cria um painel bem vivo de como a luta pela sobrevivência pode transformar as pessoas, mas quando amplia seu foco para fazer um “cinema social”, as coisas mudam. Dheepan pertence a um “gênero” de filmes que o cinema francês estabeleceu há algumas décadas e que produz aos montes: o filme de imigrantes. A ideia de comover o espectador com os percalços do três protagonistas diante de um país hostil a eles é antiga, mesmo que o tom utilizado seja mais realista do que melodramático. A França onde a família montada foi parar é uma França de gângsters, de pobreza e de violência. Audiard não faz muito esforço para encontrar uma personalidade para o filme, que se confunde com outros tantos, a não ser pela questionável sequência final, inspirada pelos “heróis da vida real” do cinema americano ou não, mas tão esquisita ao corpo do filme que pode até ser lida como um devaneio necessário para sobreviver. Quando mira no micro, Audiard é feliz. Quando passa para o macro, o cinema de gênero vira cinema genérico.

Aconteceu Naquela Noite

Aconteceu Naquela Noite EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[It Happened One Night, Frank Capra, 1934]

Em toda sua história, o cinema nos presenteou com casais inesquecíveis, mas poucos tiveram a mesma química que a de Clark Gable e Claudette Colbert em Aconteceu Naquela Noite. Frank Capra coloca os atores num duelo de egos que dura a maior parte do filme e permite cenas de incrível sarcasmo, como aquela em que os dois dormem sob o mesmo teto, separados por um lençol, “a Muralha de Jericó″, e outras de profunda doçura, como o momento sobre o feno. Gable não faz um herói romântico clássico, afinal ele é um jornalista e quer a história sobre a filha do milionário que fugiu para encontrar o amante, e a “mocinha rica e mimada” de Colbert desaba depois de algumas cenas, suficientes para que o conflito se estabeleça. Capra ambienta sua história de amor agridoce num país ainda falido depois da Queda da Bolsa, com golpes, trapaças e praticamente todos os coadjuvantes lembrando do caos financeiro em cenas que parecem menores, mas que ajudam a dar um tom mais realista ao filme. Há muitas cenas antológicas, como a que Gable aparece de peito nu, que, reza a lenda, teria levado a indústria de camisas de baixo à falência, ou a mais clássica, em que Colbert mostra a perna para conseguir uma carona. A sequência final é especialíssima porque nos últimos 10 ou 15 minutos do filme, os protagonistas não parecem juntos, mas nós sabemos exatamente o que aconteceu com os dois.

Nômade Celestial

Nômade Celestial EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sutak, Mirlan Abdykalykov, 2015]

Nômade Celestial é um filme sobre heranças e tradições. O diretor Mirlan Abdykalykov, em seu primeiro trabalho, parece perguntar até onde existe a responsabilidade de carregar o peso do passado e dar continuidade ao trabalho dos ancestrais. Shaiyr vive num vale encrustrado entre as montanhas do Quirguistão, um lugar tão isolado quanto incrivelmente bonito. Mora com os pais do marido morto há alguns anos e com a filha pequena. Seu filho mora e estuda na cidade mais próxima e visita a tenda onde vive a mãe, a irmã e os avós. A família nômade cria cavalos e o único vizinho é o “vagabundo”, segundo a sogra de Shaiyr que trabalha com previsão do tempo e que tem uma queda por ela. Sutak, título original de Nômade Celestial, é uma lenda que fala sobre uma mulher que mora com os sogros e é transformada em pássaro depois de ser vista ao lado de outro homem. O filme parece atualizar o mito, entregando a Shaiyr o papel da mulher pé no chão, aos sogros a função de alimentar as tradições e a pequena Umsunai, de 7 anos, a missão de flutuar sobre esses universos tão distantes. Abdykalykov costura com delicadeza e muita segurança na direção esta história tão parecida com tantas outras. Quando ele era uma criança, foi o protagonista de O Filho Adotivo, dirigido pelo pai dele e exibido, na edição de 1998 da Mostra de Cinema de São Paulo.

Lo Que se Lleva el Río

Lo Que se Lleva el Río EstrelinhaEstrelinha
[Dauna. Lo que lleva el Río, Mario Crespo, 2015]

Mario Crespo acerta algumas boas vezes em Lo Que Se Lleva el Río: cria um conto feminista sobre uma mulher que enfrenta as tradições de seu povo e da Igreja Católica para colocar sua sede de conhecimento em prática e dá voz aos warao, a tribo que vive em palafitas no delta do Rio Orinoco, o que garante um cenário exuberante e diferente. O grande problema é que Crespo é bem quadrado na maneira de contar esta história, um melodrama bem fiel aos padrões hollywoodianos de reviravoltas e idas e vindas no tempo. E os lugares comuns não param por aí: as cores esmaecidas indicam um presente mais “real” e o filme guarda uma dose de exotismo, simpática ao mercado internacional, dando vida a fábulas em forma de animações, bonitas, mas meio clichês e mal amarradas à trama. A encenação é funcional na maior parte do filme, mas a falta de experiência do elenco (e uma certa mão pesada do diretor) não ajuda(m) numa das cenas mais cruciais do filme, quando a protagonista, Dauna, briga com o marido. Curioso, mas limitado.

O Cidadão

O Cidadão EstrelinhaEstrelinha
[Obywatel, Jerzy Stuhr, 2014]

Jerzy Stuhr é um dos atores mais conhecidos da Polônia. Trabalhou com Kieslowski e Nanni Moretti e também se aventurou como cineasta um punhado de vezes. Em O Cidadão, assume as funções de protagonista, roteirista, produtor, além de dirigir o filme, uma espécie de “tragédia de um homem ridículo” que atravessa algumas décadas de história de seu país. Stuhr tenta dar a sua personagem ares de “Forrest Gump”, substituindo as coincidências pelo azar para colocá-los em momentos importantes da política polonesa, mas não consegue encontrar muito bem o tom para casar sua crônica com uma comédia de humor negro que não acerta muito bem no alvo. Para tentar dar agilidade ao filme, adota uma cronologia do acaso para voltar aos momentos cruciais da vida do protagonista, que coloca em mais situações absurdas do que uma história comum poderia conter. Exagera no tom, acerta na boa intenção. Sua reflexão fica pela metade.

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Mostra SP 2015: meu diário de bordo – post 1

Son of Saul

Son of Saul EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Saul Fia, László Nemes, 2015]

A principal diferença entre Son of Saul e os outros filmes sobre o Holocausto é que a câmera de László Nemes está sempre interessada em vivos, não em mortos. O húngaro não tenta fazer mais uma denúncia histórica, prefere não deixar outra opção para o espectador a não ser olhar nos olhos do protagonista, em vez de passear por montanhas de corpos ou mostrar tortura e assassinatos. É uma bela maneira de revisitar o clichê. Os planos são muito fechados, sempre capturando o rosto, o perfil ou a nuca de Saul, o judeu preso num campo de concentração, onde sobrevive limpando a câmara de gás usada para o genocídio de seu povo. A cena final da apresentação da personagem mostra o horror de Auschwitz de uma perspectiva bem diferente do que se viu até agora, convidando o público a dividir com o protagonista e seus pares o sofrimento forçado de estar ao lado da morte. Saul fica abalado quando encontram um garoto que ainda respira mesmo depois de conhecer o principal abatedouro de pessoas da Segunda Guerra Mundial e parte numa missão que é a única coisa que o diretor leva a cabo durante todo o filme. Todas as pequenas histórias, tramas paralelas ou ensaios de histórias e tramas paralelas não chegam a se desenvolver, interrompidas pelo mecanismo da guerra, o que dá ao longa uma naturalidade bem incômoda. Nemes filma em 1.37:1, formato de tela meio abandonado no cinema, mas que ainda resiste nas TVs analógicas, o que limita o campo de ação, espreme as personagens e aumenta a sensação de claustrofobia e a angústia nas cenas mais aceleradas. A escolha do diretor funciona bastante para seu propósito e a câmera é bem competente em criar um filme plasticamente bonito e dramaticamente forte, embora o dispositivo caminhe no automático à medida que a trama fique mais nervosa. O desfecho, simples, resolve a história sem muito brilho, mas com bastante delicadeza.

Aferim!

Aferim! EstrelinhaEstrelinha½
[Aferim!, Radu Jude, 2015]

Os letreiros iniciais, a trilha sonora da abertura e a fotografia em preto-e-branco aproveitando belíssimas paisagens de uma Romênia que raramente aparece no cinema indicam a intenção do diretor Raul Jude de desenvolver uma espécie de western europeu, incorporando elementos clássicos dos faroestes hollywoodianos para um cenário histórico de seu país. A questão é que esse casamento acontece apenas na proposta inicial, que em seguida vai cedendo espaço mais para uma investigação de como funcionava a sociedade rural romena na primeira metade do século XIX. Novamente curiosamente, Jude concebe este encontro da história do país com os trejeitos do western – o filme é um road movie, por sinal – num tom de humor debochado, em vez do tradicional sarcasmo silencioso e fruto da repetição, com muitos palavrões e um tom relaxado de amoralidade que nem sempre parece o suporte ideal para a ideia de Aferim!. Escolha esquisita diante do esforço e do tamanho do filme. A produção é enorme e tem um elenco é estelar, com destaque para Teodor Corban, recentemente visto em No Andar de Baixo, Toma Cuzin, papel principal de O Tesouro, e com direito até a uma ponta de Luminita Gheorghiu, protagonista de Instinto Materno. Mas a dimensão do projeto, que representa a Romênia no Oscar, parece estancar nas belíssimas locações. Entre a tentativa de crônica de uma época, a comédia que sai do tom e as referências tão imediatas quanto ralas ao cinema de gênero, Aferim! é está mais para uma bagunça que ataca para todos os lados e, fora um take ou outro, nunca justifica de verdade a opção de ter sido rodado em preto-e-branco.

O Apóstata

O Apóstata EstrelinhaEstrelinha
[El Apóstata, Federico Veiroj, 2015]

O maior senão deste terceiro filme do uruguaio Federico Veiroj é nunca conseguir transformar o protagonista numa personagem realmente interessante. Durante boa parte dos rápidos 80 minutos de O Apóstata, o sentimento é muito mais de repulsa do que de identificação ou curiosidade para com Gonzalo Tamoyo, o homem que decide procurar a igreja em que foi batizado para se apostatar, ou seja, se desligar oficialmente de qualquer relação com a doutrina católica. A ideia partiu do ator que interpreta a personagem principal, Álvaro Ogalla, que vive um universário que nunca consegue se formar e ganha a vida como professor particular, além de fazer alguns trabalhos para o pai, com quem tem uma relação fria e distante. Ogalla dividiu o roteiro com o diretor e mais duas pessoas, mas o texto a oito mãos nunca consegue realmente dimensionar o incômodo do protagonista com o mundo a seu redor, nem justificar sua cruzada para abandonar a religião, exceto, talvez, na cena em que lê uma carta explicando sua decisão. Paralelamente a isso, falta desenhar melhor os contornos de sua relação com prima, dar mais substância ao flerte com a mãe de seu aluno e cenas mais especiais como aquela em que ele encontra o amor no ônibus.

Califórnia

Califórnia EstrelinhaEstrelinha
[Califórnia, Marina Person, 2015]

A estreia de Marina Person como diretora de ficção é uma simpática história de coming of age em que todos os elementos parecem estar no lugar, mas onde falta uma certa ambição. O objetivo central de Califórnia parece ser contar uma história do início dos anos 80, época em que a diretora era adolescente, coletando músicas e referências pop em geral para reproduzir comportamentos, condições e passar rapidinho pela situação política do país na época. Esse contexto musical se sobrepõe a tudo no filme porque é quando Marina está sendo mais nostálgica e pessoal. Pelo menos umas 15 canções escolhidas a dedo pela cineasta movimentam as cenas mais importantes do filme, como “The Caterpillar”, do The Cure, ou “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division (e tem Smiths, Cocteau Twins e Echo and the Bunnymen), e é nesses momentos em que Califórnia é mais sincero e o espectador se aproxima mais da história da jovem que sonha com a viagem para os EUA para encontrar seu tio preferido enquanto se envolve com dois garotos da escola. No mais, o filme não acrescenta muito a temas como “primeira vez” ou AIDS. O que realmente conta para Marina Person é a nostalgia de um tempo em que as músicas faziam mais sentido e as coisas pareciam bem mais simples.

Zoom

Zoom Estrelinha
[Zoom, Pedro Morelli, 2015]

Cinema adolescente com roteiro adolescente, piadas adolescentes e uma sensação adolescente de que tudo aquilo é extremamente original. Pedro Morelli tinha feito um trabalho consideravelmente melhor em Entre Nós, que nem era um grande filme, mas pelo menos era mais coeso e bem menos pretensioso. Talvez o pulo para uma produção internacional tenha redimensionado as coisas – pro lado errado. Trabalhar com um elenco internacional e majoritariamente em inglês pode ter influenciado em encontrar uma trama mais truqueira, que reprisa aquela velha máxima das histórias paralelas que têm relação entre si – relação esta que aqui encontrou o pior gancho possível. Mariana Ximenes ficou robótica atuando em inglês e a virada de sua personagem é a mais tosca do filme. Allison Pill, sempre simpática, tenta encontrar algum caminho mais interessante embora sua personagem seja boba demais. O maior acerto é deixar a narrativa de Gael García Bernal toda em animação, mas isso não é suficiente para fortalecer o conjunto.

Veja todos os filmes comentados aqui.

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Mostra SP 2015: todos os filmes vistos

Boi Neon

Desde que eu desci do ônibus vindo de Maceió em 1999, não consegui mais largar São Paulo. Mesmo morando longe durante um bom tempo, outubro foi sempre época de arrumar as malas e partir pra um circuito de salas entre a Avenida Paulista e as ruas Augusta e Frei Caneca, com direito a algumas adjacências. Esta é minha décima sexta Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Esta é a minha época do ano. E, desta vez, depois de muitos anos, resolvi tirar férias para acompanhar meu festival de cinema favorito, com direito a uma permanente integral para escolher quantos filmes eu quiser. Minha programação inicial inclui mais de 70 sessões nas próximas duas semanas, mas a idade e o cansaço deve reduzir este número. Mas meus passos serão registrados aqui, comentários sobre todos os filmes que eu vir no evento. Serão posts diários com pelo menos 4 ou 5 novos títulos avaliados por mim. Vamos começar esta jornada?

filmes novos

Aferim! EstrelinhaEstrelinha½, Radu Jude
O Apóstata EstrelinhaEstrelinha, Federico Veiroj
Armadilha EstrelinhaEstrelinha, Brillante Mendoza
Autorretrato de uma Filha Obediente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Ana Lungu
Beira-Mar EstrelinhaEstrelinha, Filipe Matzembacher & Marcio Reolon
Body EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Malgorzata Szumowska
Boi Neon EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Gabriel Mascaro
California EstrelinhaEstrelinha, Marina Person
Campo Grande EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sandra Kogut
Os Campos Voltarão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Ermanno Olmi
Chronic Estrelinha½, Michel Franco
O Cidadão EstrelinhaEstrelinha, Jerzy Stühr
Coração de Cachorro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Laurie Anderson
Cordeiro EstrelinhaEstrelinha, Yared Zeleke
Dheepan EstrelinhaEstrelinha½, Jacques Audiard
Desde Allá EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Lorenzo Vigas
É o Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Paul Vecchiali
O Evento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sergei Loznitsa
Ixcanul  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Jayro Bustamante
A Jovem Rainha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Mika Kaurismaki
Lo Que Se Lleva el Río EstrelinhaEstrelinha, Mario Crespo
Mate-me, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Anita Rocha da Silveira
Mistress America EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Noah Baumbach
A Montanha Mágica EstrelinhaEstrelinha½, Anca Damian
O Muro EstrelinhaEstrelinha½, Dariusz Glazer
Nômade Celestial EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Mirlan Adbykalylkov
Olmo e a Gaivota EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Petra Costa & Lea Glob EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Para o Outro Lado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Kiyoshi Kurosawa
Pardais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rúnar Rúnarsson
Paulina EstrelinhaEstrelinha½, Santiago Mitre
O Quarto Proibido EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Guy Maddin
Sabor da Vida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Naomi Kawase
Sob Nuvens Elétricas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Aleksei German Jr.
Son of Saul EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, László Nemes
A Terra e a Sombra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, César Augusto Acevedo
O Verão de Sangaile EstrelinhaEstrelinha, Alanté Kavaïté
A Volta Estrelinha½, Mika Kaurismaki
Vulcão EstrelinhaEstrelinha, Rúnar Rúnarsson
Zoom Estrelinha, Pedro Morelli

clássicos

Aconteceu Naquela Noite EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Frank Capra
Um Dia Quente de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Edward Yang
Intermezzo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Gustaf Molander
Juventude Transviada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Nicholas Ray
Manila nas Garras da Luz EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Lino Brocka
Rashomon EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Akira Kurosawa
O Rei da Comédia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Martin Scorsese
Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Elia Kazan

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Festival do Rio 2015: diário de viagem – post 13

À Tarde

À Tarde EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Na Ri Xia Wu, Tsai Ming-Liang, 2015]

Faz dois anos que Tsai Ming-Liang anunciou sua aposentadoria e, desde então, entre curtas, médias e longas, fez mais 5 filmes. Diante de tanta produção remanescente, é difícil lembrar que a proposta de À Tarde é um encontro de despedida entre o cineasta e seu parceiro de toda a vida, o ator Lee Kang-Sheng, estrela de todos os seus filmes. O registro desse evento é feito da maneira mais simples possível: os dois sentam em cadeiras colovcadas uma ao lado da outra numa casa em ruínas, com vista para uma floresta. E lá, durante mais de duas horas, esses dois homens apaixonados um pelo outro falam sobre seus caminhos, suas ambições e afeições. Os dois revelam detalhes de uma intimidade que ajuda a explicar a simbiose que vimos em filmes excepcionais como Vive L’Amour, O Buraco e Adeus Dragon Inn ao longo das duas últimas décadas. Kang-sheng começa visivelmente constrangido em se expor diante da câmera, curioso para um ator que despiu em tanto filmes de Ming-Liang, mas a nudez que ele evitava é a nudez do coração. O constrangimento do ator tem muito a ver com a também visível insistência do diretor em receber um declaração “de amor” como a que está fazendo. Esse embate é longo porque Kang-Sheng é resistente e, nos intervalos dessa discussão, entendemos uma grande história de amor.

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

Clarisse ou Alguma Coisa sobre Nós Dois EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, Petrus Cariry, 2015]

A trilha sonora, pesada, solene, anuncia a tensão que rege todas as relações em Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois. No novo filme de Petrus Cariry, Sabrina Greve é uma mulher que não está mais assombrada com os fantasmas do passado, mas guarda um enorme ressentimento em relação aos fatos que determinaram sua história. Numa interpretação rígida e dura, a atriz dá forma a uma personagem que não consegue mais se conter diante do peso da história e decide reencontrar o pai, que está velho, com a saúde bastante debilitada, para acertar as contas de um relacionamento frio e distante, marcado pelas mortes da mãe e do irmão da protagonista. Petrus Cariry, que já havia impressionado em seus trabalhos anteriores, O Grão e Mãe e Filha, aqui é ainda mais rígido na construção das imagens, com planos bem estudados que mostram tanto o isolamento do local (uma fazenda no interior do Ceará) quando o abismo entre as duas personagens principais. A fotografia tem cores fortes, mas prefere os tons escuros, quase que transcrevendo os sentimentos da protagonista. Cariry nunca se esquiva de mostrar o ressentimento que Clarisse carrega. Um sentimento que cresceu e ficou silenciosamente violento. Essa construção de personagem às vezes ganha tons excessivamente solenes, com a ajuda das imagens claustrofóbicas e da música tensa, quase que criando explicações didáticas demais sobre os sentimentos da protagonista. Mas como nunca trabalha numa intensidade diferente, o cineasta parece sempre coerente com seu projeto e com sua personagem, que só explode para o mundo através de um dos motores primais da vida, o sexo. É nessa belíssima e aterrorizante cena final que o sangue significa libertação.

A Colina Escarlate

A Colina Escarlate EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Crimson Peak, Guillermo del Toro, 2015]

Embora insinuar pareça mais nobre do que mostrar na história do cinema de terror, a qualidade dos efeitos visuais atingiu um nível tão alto que os diretores parecem concordar que não há mais nada que esconder. Se isso é um ponto a favor na ambientação do suspense, isso depende de cada obra, mas no geral transformar um fantasma numa figura clara e recorrente diminui um pouco de seu charme. Os fantasmas de A Colina Escarlate se revelam desde as primeiras cenas. Por sinal, estes primeiros momentos do filme de Guillermo del Toro garantem alguns calafrios ao espectador, mas, abraçados com os mortos, seguimos em frente numa história que promete mais do que oferece. Del Toro é muito fiel à ambientação do filme, que se passa no final do século XIX. Mais do que uma reconstituição de época, o filme empolga com a construção perfeccionista de uma atmosfera que evoca o das grandes novelas de terror. Tudo é exuberante e grandiloquente e isso funciona em muitas instâncias, mas não segura a trama até o fim. Mia Wasikowska e Tom Hiddleston estão excelentes, mas Jessica Chastain trabalha na caricatura o tempo inteiro e está sempre um tom acima de todo o resto.

Kiri - Profissão Assassino

Kiri: Profissão Assassino EstrelinhaEstrelinha
[Kiri: Shogugyô Koroshiya, Koichi Sakamoto, 2015]

Koichi Sakamoto tem uma extensa carreira como diretor de filmes para a TV estrelados pelos Power Rangers, pelos Kamen Riders e pelo Ultraman. Essa bagagem num produto de ação feito para crianças e adolescentes ajuda a entender qual é o público de Kiri – Profissão Assassino. A ideia é bem interessante: pessoas comuns são contratados através de um site para cometer assassinatos. Quem topar fazer o serviço pelo menor valor, leva. Sakamoto cria uma dinâmica interessante em mostrar quem são estas pessoas e o porquê delas fazerem esse tipo de trabalho. Há uma boa sequência de cenas de ação, bem exageradas, mas condizentes com o universo que o filme apresenta. O problema maior é quando Sakamoto tenta dar um peso dramático ao filme criando a figura de um assassino psicopata que aceita os serviços por um real. Tudo relacionado a essa personagem carrega demais nas tintas e cria um embate com a frivolidade do projeto.

Longe Deste Insensato Mundo

Longe Deste Insensato Mundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Far From This Madding Crowd, Thomas Vintenberg, 2015]

Passam-se os anos e o melhor trabalho do dinamarquês Thomas Vintenberg ainda é o filme que o revelou, Festa de Família, marco zero do Dogma 95. Sempre interessado por temas polêmicos e conflitantes, como no recente A Caça, o cineasta resolveu agora mostrar uma nova faceta e adaptar um clássico da literatura inglesa, o maior sucesso da carreira de Thomas Hardy, Longe Deste Insensato Mundo. O livro, que já havia se transformado em filme algumas vezes anteriormente, sendo a mais célebre a versão de John Schlesinger de 1967, é um exemplo da literatura realista do fim do século XIX, que apostava numa visão mais fiel das personagens para que elas realmente representassem o comportamento da época. Vintenberg parece bem interessado nessa ideia e faz uma adaptação naturalista de Hardy, embalada por uma lindíssima trilha de Craig Armstrong e pelas belas imagens de Charlotte Bruus Christensen, que aproveita o cenário e a iluminação natural para compor a atmosfera para que a história se desenrole. Carey Mulligan encarna com propriedade sua Bathsheba Everdene, não muito diferentemente das jovens altivas que já interpretou, e o belga Matthias Schoenaerts, que trabalha cada vez mais em língua inglesa, consegue traduzir a sutileza de Gabriel Oak. Vintenberg acerta em escolher um tom solar para o filme, não se contaminando pelas muitas viradas dramáticas na história. O realismo de boa parte de seus longas encontrou nessa adaptação de um texto clássico um terreno mais fértil do que poderia se imaginar.

Micróbio e Gasolina

Micróbio e Gasolina EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Microbe et Gasoil, Michel Gondry, 2015]

Pouco a pouco, Michel Gondry vai encontrando sua personalidade no cinema. Pouco a pouco porque depois de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, sua parceria com Charlie Kaufman, lançada há 11 anos, o francês demorou a fazer um filme realmente especial. O que se ensaiava em seu longa anterior, A Espuma do Dias, uma busca por um cinema comercial com assinatura, se cristaliza em Micróbio e Gasolina, o filme infanto-juvenil mais delicioso dos últimos tempos. E isso se deve principalmente aos personagens altamente complexos e completamente adoráveis interpretados por Ange Dargent e Théophile Baquet. Os garotos excelentes dão vida a Daniel e Théo, o Micróbio e o Gasolina do título, dois adolescentes que não fogem ao clichê do “descobrindo a vida”, mas cujo roteiro escrito por Gondry os livra de dezenas de lugares comuns com um texto inteligente e discussões sobre a vida tão profundas quanto as que acontecem frequentemente em filmes franceses para “adultos”. Gondry respeita a idade das personagens, mas nunca as subestima. Seus protagonistas são crianças inteligentes e isso não significa ser afetadas. As obsessões visuais do diretor se resumem à casa-carro que os dois constroem para sair pelo mundo. Curiosamente, depois que eles deixam a cidade o filme perde um pouco do impacto inicial, mas até aí o espectador já está encantado com os dois meninos que olham para a vida com mais maturidade do que seus pais, mas que sabem bem respeitar suas idades.

No Andar de Baixo

No Andar de Baixo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Un Etaj Mai Jos, Radu Muntean, 2015]

No Andar de Baixo revela uma certa crise do cinema romeno e não porque o novo filme de Radu Muntean seja ruim. Pelo contrário, é uma história bem interessante e bem contada, mas que obedece a uma fórmula cada vez mais massificante entre os cineastas daquele país: estilo documental, fotografia limpa, sarcasmo tímido, estrutura sem grandes manobras e uma crítica à burocracia e ao comportamento médio da sociedade romena. Tudo isso funciona bem no filme de Muntean, mas mostra um comodismo quase constrangedor. Seu longa anterior, Terça, Depois do Natal, era bem mais cheio de nuances ao contar a história de um homem com duas famílias. Aqui, o protagonista descobre que a vizinha do andar de baixo foi morta, mas resolve não revelar que a viu discutindo com outro homem. O diretor se concentra em tentar entender e desdobrar essa decisão do protagonista, mas não oferece muito além de um motivo “escondido” que o espectador já conhece desde que a polícia bate em sua porta. Desta vez, embora o registro seja preciso e apurado, falta personalidade ao filme.

O Peso do Silêncio

O Peso do Silêncio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Look of Silence, Joshua Oppenheimer, 2014]

Em 2012, Joshua Oppenheimer entregou ao mundo O Ato de Matar, documentário em que convida paramilitares responsáveis pelo genocídio de um milhão de pessoas na Indonésia a reencenar os assassinatos que cometeram sob o pretexto de estar livrando o país dos comunistas. É o maior filme de terror da década e um dos registros documentais mais assustadores já feitos. O impacto do longa foi enorme e Oppenheimer resolveu fazer uma espécie de continuação ou ainda um filme complementar. Se o primeiro longa aposta no encontro com os assassinos, que defendem orgulhosamente os crimes que cometeram e se sentem verdadeiras celebridades ao reconstruir as cenas das mortes, O Peso do Silêncio elege Adi, o irmão de uma das vítimas, como interlocutor com os criminosos. Ele utiliza sua profissão, de oftalmologista, para se aproximar dos assassinos e colocá-los contra a parede. Embora os encontros sejam bastante fortes, há um certo nível de maniqueísmo na condução de boa parte das cenas, desde a expressão sempre consternada do protagonista até o constrangimento de parentes dos paramilitares. A postura do filme é corajosa porque o governo que ainda domina o país é o mesmo que ordenou a execução dos contrários ao regime. Além disso, há cenas bastante tensas, uma bela construção visual e o longa ajuda a levantar muitas questões como papel da religião no conflito, mas em vários momentos Oppenheimer parece querer ganhar mais uns tostões em cima do seu filme anterior, para o qual este perde em impacto, como registro e, sobretudo, na originalidade.

A Rua da Amargura

A Rua da Amargura EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La Calle de la Amargura, Arturo Ripstein, 2015]

Há muitos cineastas que passam todas suas carreiras tentando falar a linguagem das ruas, documentar a decadência do homem e chegar às profundezas da sociedade e não raramente chegam a registros estereotipados e simulacros imprecisos que revelam suas visões rasas ou distantes desse universo paralelo. Bastam algumas cenas de A Rua da Amargura para notar que Arturo Ripstein parece saber bem do que está falando. O preto-e-branco da fotografia ajuda a criar um ambiente genuinamente sujo, in lato e strictu sensu. As personagens tem sua ética corrompida pela situação de completa miséria em que vivem e Ripstein consegue capturar a essência maculada das histórias escondidas nesses becos, que abrigam velhos homossexuais enrustidos, anões que são astros de luta livre e prostitutas da terceira idade. Estas, interpretadas pelas veteranas Patricia Reyes Spíndola e Nora Velázquez, que lideram um elenco que ajuda a dar esse tom autêntico ao filme. Silvia Pasquel e Alejandro Suárez também têm performances especialíssimas. O filme funciona em muitas formas, mas, enquanto documenta essa realidade, num misto de melodrama tipicamente mexicano e cinema noir de cunho social, Ripstein faz um trabalho impecável. As coisas só ficam mais banais quando um crime é inserido à história e o filme se concentra mais em seu desenrolar do que em suas personagens. Mas, até lá, o cineasta veterano já havia nos entregado um pequeno estudo da alma humana.

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