Monthly Archives: junho 2015

Jauja

Jauja

Jauja é um lugar mítico onde, diz a lenda, as pessoas não precisam trabalhar e há abundância e felicidade. Lisandro Alonso invade o mito transportando seus elementos para uma Argentina de paisagens improváveis no século 19. Em sua Jauja, o protagonista, encarnado pelo norte-americano Viggo Mortensen, é um dinamarquês enviado para o novo mundo com sua filha. Tanto ele quanto ela parecem perdidos numa terra estranha até que ela se deixa encantar por um morador local e foge. É então que o cineasta transforma Jauja, o filme, num road movie em que tempo e espaço se confundem, uma jornada existencial que dura uma eternidade e onde o presente pode visitar o futuro e os personagens podem se perder na imensidão. Essa jornada do protagonista, vivido por um dedicado Mortensen, essa busca em si, parece importar mais a Alonso do que a personagem ou a amarração da trama. Depois de algum tempo de procura, a exaustão do caminho inóspito leva Gunnar Dinesen para um estado de transe onde a realidade é o que menos interessa. Talvez tenhamos finalmente chegado em Jauja.

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[Jauja, Lisandro Alonso, 2014]

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O Último Poema do Rinoceronte

O Último Poema do Rinoceronte

A presença da musa italiana Monica Bellucci indica que o cinema de Bahman Ghobadi está mais internacional do que nunca, mas, embora a obra do iraniano guarde muitas delicadezas e alguns posicionamentos de protesto, raramente seus filmes “de festival” assumiram uma postura política tão direta contra o governo de seu país. O Último Poema do Rinoceronte é muito mais prático e convencional em relação aos filmes anteriores do diretor, que abusam de uma espécie de exotismo mágico que às vezes funciona, mas em outras parece pura perfumaria. A história é a do poeta curdo que é libertado depois de trinta anos de prisão e descobre que sua esposa acha que ele está morto. Enquanto evoca o thriller político, mais documental, mesmo em sua bagunça cronológica, a “temporada de rinocerontes” segue mais interessante do que quando Ghobadi tenta aplicar cores mais pessoais e liberdades poéticas, que destoam do conjunto. Um trabalho válido que pisa em falso aqui e ali.

 

O Último Poema do Rinoceronte EstrelinhaEstrelinha½
[Rhino Season, Bahman Ghobadi, 2013]

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Jurassic World

Jurassic World

O cinema pode ser bem mais simples do que a gente imagina e, muitas vezes, cobrar de um filme intenções que ele nunca teve revela muito mais quem não entrou na brincadeira do que problemas concretos na obra. Numa época em que o número de reboots, continuações e spin offs é maior do que nunca, nosso olhar parece condicionado a esperar o pior desses roteiros poucos originais. Mas isso nem sempre é verdade. Jurassic World não passa de um remake não assumido – e em escala maior – do neoclássico Jurassic Park. E é exatamente essa suposta falta de imaginação que deixa o filme tão atraente.

Colin Trevorrow, que assina a direção e a coautoria do roteiro, parece mais do que tudo um devotado fã do longa de Steven Spielberg. Tanto que praticamente clona, em maior ou menor grau, cada aspecto da história do filme original, reimaginando todas as principais cenas, do bote do T-Rex em cima das crianças até a sequência final, na parte construída do parque. O conjunto de referências, incluindo o reaproveitamento de uma personagem secundária e a intenção de trazer os principais protagonistas animais do primeiro longa para o centro desse novo filme, fazem de Jurassic World uma obra de reverência explícita.

Assumir-se como filme homenagem é o grande trunfo do longa de Trevorrow, que recicla inclusive a premissa mais básica proposta por Spielberg, que há 22 anos já questionava os limites éticos do uso da tecnologia e reavivava o velho dilema do homem que tenta ser Deus. Essa honestidade do novo longa, que renova os votos a essa ingenuidade tão essencialmente spielberguiana, e que ainda tem como protagonistas uma dupla de irmãos que parece saída diretamente de um filme dos anos 80 (Ty Simpkins está particularmente adorável) e um casal de namoradinhos que vive brigando (Chris Pratt e Bryce Dallas Howard em ótima forma), no melhor estilo dos filmes de aventura de “antigamente”, deixa muito claro que nostalgia é a matéria-prima aqui.

E olha que há algumas boas ideias novas, como o ataque dos “pássaros” no melhor estilo hitchcockiano, com direito a mortes que talvez não estivessem num filme de Spielberg. Mas o que conta mais é ouvir o tema do John Williams pra voltar duas décadas atrás e se divertir pra caramba com T-Rexes e velociraptors voltando à ativa com força total. E qual é o problema em querer lembrar dos velhos tempos, não é? Os U$ 500 milhões de dólares que o filme fez no seu fim de semana de abertura provam que muita gente está disposta a abraçar a memória. Então, vamos relaxar. Saudosismo e culpa não precisam andar de mãos dadas.

Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Jurassic World, Colin Trevorrow, 2015]

P.S.: meu sobrinho de seis anos adorou o filme. Eu acho que ele conversa muito bem com as novas gerações.

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Retorno à Ítaca

Retorno à Ítaca

Diretor de filmes excepcionais como A Agenda e Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet pousou em Cuba para fazer o típico filme sobre o reencontro de velhos amigos. À primeira vista, o filme tem a agilidade e a cadência de uma rumba, apresentando as personagens, literalmente, em pequenos goles, fazendo observações bem conscientes e independentes sobre liberdade e política no país, envolvendo o espectador com aquele encontro de histórias. Havana é filmada de maneira documental do topo do edifício onde mora um dos cinco protagonistas e a cidade invade as conversas, brincadeiras e danças do grupo de uma maneira natural e cheia de vitalidade como poucos diretores conseguem fazer. A tática coloca o espectador tanto na posição de observador da cidade, do país, da Cuba socialista que deu e não deu certo, quanto nas peles daqueles amigos. A questão é que, a partir de determinado ponto, os inevitáveis conflitos entre as personagem afloram no melhor estilo do gênero e a roupa suja é lavada ali na laje mesmo, com direito a pelo menos uma “grande revelação”, que atropela muito o ritmo e a fluidez do filme.

 

Retorno a Ítaca EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Retour à Ithaque, Laurent Cantet, 2014]

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Top 40: os melhores filmes gays de todos os tempos

Somente nas duas últimas décadas, o largo espectro de temas homossexuais conseguiu encontrar um variado e substancioso conjunto de representações no cinema. Gays, lésbicas, bissexuais, drag queens, travestis, entre outros, podem ser encontrados, hoje, em larga escala, em filmes que ultrapassaram o gueto do cinema de classe e que assumem tanto as estruturas de gêneros clássicos, como dramas, comédias e filmes de suspense e de terror, como trazem a orientação sexual para um campo de normalidade que permite se ater a detalhes antes soterrados porque a questão maior já era a ousadia do tema em si.

Embora o cinema gay tenha conseguido renegociar sua posição na produção de filmes, ao longo desses 120 anos de cinema, houve muitos projetos que foram pioneiros em explorar as questões ligadas ao comportamento e ao universo homossexual. Há críticos que insistem que um dos primeiros filmes, o curta-metragem The Dickson Experimental Sound Film, de William Dickson, um filme sonoro realizado mais de 30 anos antes do som chegar de fato ao cinema, teria personagens com um comportamento nitidamente homossexual. No filme, que você pode assistir abaixo, dois homens dançam ao som de um instrumento musical.

Há bastante controvérsia. Alguns estudiosos dizem que o registro da dança entre dois homens teria chocado plateias, enquanto outros afirmam que aquele comportamento seria comum entre homens na época. A época é, no caso, 1895, o ano da “invenção do cinema”. Forçação de barra ou não, outros exemplos de possíveis manifestações homossexuais no cinema podem ser conferidos – e geram polêmica – nos anos seguintes. Em 1907, Georges Méliès dirigiu O Eclipse: Ou a Corte do Sol à Lua, em que um astro-rei viril seduz uma lua efeminada. Alguns estudos dizem que sol e lua seriam do gênero masculino e que o momento do eclipe seria, de fato, uma relação homossexual. A primeira do cinema.

Nos anos seguintes, as comédias flertaram com os temas gays. Algie, The Miner, de Alice Guy-Blaché, mostra um homem efeminado que precisa se livrar do estigma de que “beija cowboys” para conseguir namorar a filha de um ricaço. Charles Chaplin usou roupas femininas em A Mulher e seduziu vários homens. E em A Florida Enchantment, de Sidney Drew, uma mulher engole uma semente mágica que a transforma em homem e seu noivo faz o mesmo e vira um homem “afetado”. Todos estes filmes são da primeira metade da década de 1910 e todos têm um quê de brincadeira. Mas pouco depois disso começaram na Europa as primeiras tentativas de se fazer filmes “sérios” sobre o assunto.

Na Suécia, Mauritz Stiller adaptou o romance Mikaël, de Herman Bang, sobre a relação entre um pintor aclamado e seu pupilo, abalada pela chegada de uma condessa que seduz o jovem, em The Wings, de 1916. O dinamarquês Carl Theodore Dreyer refilmou o livro em 1924 usando o título original, Mikaël. Pela primeira vez, se a história não engoliu algum pioneiro, temos personagens gays representados no cinema. Em 1919, numa Alemanha onde a Constituição considerava a prática homoafetiva como crime, Richard Oswald se une ao físico e sexólogo Magnus Hirschfeld para rodar Diferente dos Outros, que também conta a história de um artista, um músico, e um homem mais jovem. A chantagem contra os homossexuais, algo que era comum no país na época, é um dos temas centrais do filme.

Nas décadas seguintes, censurados ou não, usando subtextos ou sendo mais explícitos, muitos diretores, alguns bastante conceituados, no auge de suas carreiras e heterossexuais, resolveram contar histórias de homoafetividade. De simples romances ao retrato de comportamento de guetos, de cidadãos “comuns” a estereótipos, muitos deles foram bastante felizes em dar sua contribuição para o gênero no cinema. A lista que você acompanha a partir de agora abre uma série de Top 40s que eu devo publicar até o fim de 2014, quando eu completo 40 anos, que vão tentar vasculhar os mais variados aspectos do cinema, juntando meus filmes preferidos e aqueles que escreveram a história da sétima arte.

Basta clicar no link abaixo para acessar minha lista com os 40 melhores filmes com temática homossexual de todos os tempos.

Aqui tem a versão da lista com 100 títulos, mas sem comentários.

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