Monthly Archives: abril 2015

Winter Sleep

Winter Sleep

[com quilos de spoilers]

O novo filme do turco Nuri Bilge Ceylan, do belo Era Uma Vez na Anatólia, é rodado em seu país natal, mas poderia muito bem ser uma alegoria da situação política no Brasil, em tempos de disputas ideológicas tão extremas. O protagonista de Winter Sleep é um homem rico, culto, ilustrado, um ator aposentado que escreve colunas semanais para revistas, analisando temas amplos e complexos como religião, tristeza, o comportamento humano, a própria vida. Aydin não trabalha mais com arte, ganha a vida com o hotel onde mora e recebe hóspedes de todo o mundo e com os aluguéis de várias casas que herdou do pai na Capadócia, região da Turquia, o que garante um cenário único para o filme de Ceylan.

A condição confortável da personagem não o impede de explorar as pessoas pobres que moram em suas propriedades. Mas essa exploração é terceirizada por Aydin. Ele deixa com que seus correligionários cuidem das cobranças da maneira como acharem melhor. O método que eles utilizam para isso não necessariamente seria culpa dele, acredita. Esta é uma postura de vida para a personagem. Tudo o que lhe parece desconfortável é passado para terceiros, menos sua hipocrisia. Se se utiliza de seus preceitos (como “não dê o peixe; ensine a pescar”), preceitos que considera infalíveis para não conceder anistia ou algo que o valha para seus inquilinos devedores, Aydin se sente particularmente tocado quando uma fã de suas colunas escreve para ele para pedir ajuda financeira para um trabalho social. Caridade nunca foi seu forte. Aydin sempre ignorou o trabalho voluntário que a mulher, Nihal, faz há anos. Mas, desta vez, por algum motivo, parecia diferente.

Quando foi confrontado com essa idiossincrasia, Aydin corre atrás do altruísmo perdido. Ele oferece seu dinheiro para doações, ele oferece comida para o professor que vai fazer uma viagem de moto. Tenta até o último recurso buscar algo que o faça acreditar em suas boas intenções. Intenções que até então deveriam estar escondidas lá no fundo de seu coração. Quando a mulher - cujo trabalho social se tornou uma maneira para se sentir viva, indivíduo -, reclama de suas intervenções, o protagonista do filme se arma com um discurso bem articulado, em que se utiliza de toda sua formação e capacidade de oratória para deixá-la sem argumentos e “convencê-la” (ou convencer a si mesmo de que a convenceu) de que ele – e apenas ele – pode organizar o trabalho que ela já coordena há tanto tempo. Ganha no papo.

Essa arrogância de Aydin, que tenta puxar os projetos sociais da esposa para debaixo de suas asas, nos remete indiretamente a uma prática utilizada a rodo na campanha eleitoral do ano passado, aqui no Brasil. Reivindicar a autoria em cima dos frutos das conquistas alheias e reafirmar para si mesmo, no caso da personagem principal e de alguns personagens de nosso último pleito, sua suposta inclinação social, o que se cristaliza, em Winter Sleep, num longo e cruel diálogo do protagonista com sua irmã. Por princípio, o homem enfrenta quem tem opiniões contrárias às dele, seja sobre o mundo, seja sobre ele mesmo, como um inimigo a derrubar. E no automático. Para ele, é um “acinte” que alguém não reconheça que ele está certo. Para Aydin, o fundamental é ser manter no controle. Ele nem sempre percebe, mas se enxerga como um astro com todo o resto girando ao seu redor. Seu discurso é de ódio ao que não concorda com ele. O paralelo imediato é com o eleitor brasileiro. De qualquer lado que ele esteja, mas especialmente do menos favorável.

Encerrado seu espetáculo, Aydin volta ao palco para um ato final. E em mais um golpe de seu altruísmo deformado, insinua pedir desculpas para depois revelar sua mais nova ficção. Nada de surpreendente para um homem que escreve sobre religião, mas nunca vai a uma mesquita; que disserta sobre a tristeza, mas não chorou no enterro do pai; que se apropria do trabalho alheio para remodelar sua própria história. O senão de tudo isso é que há um certo maniqueísmo na apresentação da personagem e maniqueísmo, como a gente bem sabe, é uma arma política usada a esmo para vender seu candidato e sua ideologia. Aydin pelo menos usa suas armas, ainda que elas sejam questionáveis. A gente só não sabe se, caso “estivesse eleito”, ele chamaria o batalhão de choque para retirar sangue de quem não concorda com ele.

Winter Sleep EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Kis Uykusu, Nuri Bilge Ceylan, 2014]

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Pássaro Branco na Nevasca

Pássaro Branco na Nevasca

O novo filme do outsider Gregg Araki tem menos bizarrices do que os trabalhos anteriores do cineasta – quer dizer, melhor você chegar antes ao final deste aqui, sobre o desaparecimento de uma mulher, que aparentemente abandona o marido e a filha numa cidade do interior. Baseado no livro escrito por Laura Kasischke, o longa é estrelado por uma ótima Shailene Woodley, do igualmente ótimo Os Descendentes, que está no auge da beleza. Durante boa parte do filme, Araki mantém seus maneirismos indies em favor de criar um ambiente delicado para explorar os dilemas da adolescente, que, por sua vez, não são muito diferentes dos dramas que qualquer jovem da idade dela vive.

Parece querer ampliar o espectro do filme, que vive à sombra do sumiço da mãe de Kat, investigando muito mais do que o desaparecimento da personagem, mas a vida sem perspectivas numa cidade do interior dos Estados Unidos. Araki parece buscar a motivação escondida em cada pessoa que vive ao redor da protagonista. A trilha sonora assinada por Robin Guthrie, um dos fundadores do Cocteau Twins, dá um diferencial no estabelecimento dessa atmosfera. Oito das doze faixas compostas para o filme são de autoria dele e remetem diretamente à sonoridade de seu grupo de origem. De bônus, ainda ouvimos “Dazzle”, do Siouxise and the Banshees. O problema é que o universo que o diretor consegue criar enfraquece gradativamente à medida que a trama cobra o fim do mistério.

Pássaro Branco na Nevasca EstrelinhaEstrelinha
[White Bird in a Blizzard, Gregg Araki, 2014]

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Casa Grande

Casa Grande

O grande cinema brasileiro nos últimos tempos é aquele cuja narrativa ousada vira plataforma para o discurso político de seus autores. A ousadia na linguagem parecia ser o principal caminho para a revolução. Fellipe Barbosa, em sua estreia num longa-metragem de ficção, encontrou uma forma mais simples de fazer seu comentário sobre a situação econômica brasileira, transformando experiências reais vividas por ele mesmo num filme irônico e de discurso direto sobre a crise da classe média do país.

Filmou no bairro onde cresceu e na escola em que estudou – e utilizou no elenco pessoas que conhecem de perto a realidade que Casa Grande apresenta. O título, além de trazer o principal cenário do filme para a superfície, faz uma referência direta ao clássico da literatura brasileira Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Thales Cavalcanti interpreta o adolescente coxinha que estuda num colégio tradicional e se apaixona pela aluna de uma escola pública enquanto seu pai (Marcello Novaes, usando sua caricatura a favor de sua personagem) vive uma derrocada financeira.

Sem grandes arquiteturas de roteiro, Barbosa monta um mosaico que engloba a família, os colegas e os empregados da casa do protagonista. Os diálogos irônicos devassam os mínimos detalhes em relação a cada situação e a cada personagem. Todos, por sinal, são tratados com extremo carinho pelo diretor, como se ele buscasse entender suas motivações, mas se privar deixar de questioná-los.

A luta de classes ganha um exame em seus mínimos detalhes - e faz isso sem qualquer afetação. Poucas vezes um filme brasileiro tratou tão bem e tão amplamente de um tema tão complexo, com tantos braços e pernas e tentáculos. E o melhor: com um humor inteligente que não se nivela com a comédia rasa brasileira produzida a quilo por aí e que também não ameniza as coisas para nenhum lado. É possível fazer um cinema brasileiro popular e contestador, prova Fellipe Barbosa.

Casa Grande EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Casa Grande, Fellipe Barbosa, 2014]

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Noites Brancas no Píer

Noites Brancas no Píer

Paul Vecchiali elege a palavra como centro de seu cinema em Noites Brancas no Píer. A releitura da novela de Dostoievski tem uma cenografia mínima e um cenário único, o que ressalta o poder do texto do mestre russo. Livro e filme contam a história de um homem e uma mulher que se conhecem e passam a dividir segredos até que surge o amor. Uma história simples que ganhou uma tradução econômica em termos de produção, mas ambiciosa na maneira como foi confeccionada. O cineasta usa as limitações para dar força ao material. Trabalha apenas com dois atores (além disso, ele mesmo faz uma ponta no início e ainda há um flashback em que o protagonista conversa com a mãe). Parece reforçar que a encenação também está a serviço da palavra. Para o cineasta, quanto menos elementos adornarem os diálogos, mais eles se mostram essenciais para construir a relação entre os protagonistas. Quando os personagens não estão num plano aberto, emoldurados “pelo mundo”, a iluminação é alternada para escolher aquele que está “com a palavra”. Vecchiali não se preocupa em “traduzir” o texto de Dostoievski, o que pode desafiar um espectador que espera um filme mais palátavel. As interpretaçõessão são anti-naturalistas, em especial a de Pascal Cervo, mas, embora ele acompanhe o ritmo do longa, os holofotes se voltam para a presença magnética de Astrid Adverbe, que apresentou a sessão do longa na última Mostra de Cinema de São Paulo. Sua performance espetacular toma conta do filme e a atriz também é dona da cena mais bonita do longa, em que é a estrela de um balé para a câmera. Noites Brancas no Píer, que é o primeiro filme do diretor que chega ao circuito comercial brasileiro apesar de sua carreira já se estender por 50 anos, pode parecer excessivamente teatral, mas revela um cineasta singular, pouco interessado em tornar as coisas fáceis para quem assiste a seu cinema direto, pouco afeito a floreios.

Noites Brancas no Píer EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Nuits Blanches sur la Jetée, Paul Vecchiali, 2014]

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Últimas Conversas

Últimas Conversas

Últimas Conversas é infinitamente menos complexo do que Jogo de Cena, não tem um pingo da ousadia de Moscou, da força histórica de Cabra Marcado para Morrer ou da capacidade de retrato sociológico de Santo Forte e Edifício Master. É, inclusive, muito mais simples do que o muito simples As Canções, mas provavelmente o derradeiro filme assinado por Eduardo Coutinho tem, intrínseco a ele, um poder emocional jamais visto num documentário do cineasta, que desta vez envolve não apenas as histórias de seus entrevistados, mas a sua própria. Não é apenas seu último trabalho, mas ainda se assume como um filme-homenagem. Homenagem esta feita à revelia de quem o dirigiu.

A dicotomia é grande: Coutinho morreu antes de concluir o longa e cheio de dúvidas sobre o material. João Moreira Salles, seu discípulo no cinema e seu patrão no mundo dos negócios, assumiu o processo de finalização do filme e, ao lado da fiel escudeira do mestre, a montadora Jordana Berg, fez algo inédito: pela primeira vez em seu cinema, o maior documentarista do Brasil e um dos maiores cineastas do país, ele mesmo, se transformou em personagem, protagonista de seu próprio longa. A cena de abertura do longa é um depoimento do próprio Coutinho, gravado no mesmo cenário em que entrevistou jovens recém-chegados à vida adulta sobre o que os levou até ali e para onde eles pretendiam ir a partir dali.

Coutinho coloca em xeque a relevância do que ele havia gravado até então, sem saber que sua crise criativa seria um mote perfeito para Berg e Salles, “aposentado” da direção desde 2006, descortinassem seu cinema, revelando não só o processo, mas o homem por trás da câmera. A memória, que sempre foi tão fundamental para suas dissertações audiovisuais, desta vez, era também a sua. Ao longo de cada depoimento, seus parceiros elegem questões, comentários, dúvidas que ao mesmo tempo em que revelam um entrevistador completamente consciente de como conseguir a informação que precisa da maneira que precisa, ressaltam um homem completamente apaixonado pelo ser humano. As deixas, inclusive as que falam sobre a morte, são aproveitadas de forma quase didática, mas respeitosa e eficiente.

Naquele que talvez seja seu filme mais simples, de que ele nem imaginava o formato final, Coutinho, sem saber – e da maneira mais natural possível -, costura um imenso e interminável debate sobre religião, verdade, amor e honestidade. Os temas são tão amplos e complexos que poucos cineastas em sã consciência ousariam discuti-los num mesmo filme sob o risco da falta de profundidade. Mas esses assuntos surgem tão espontaneamente no bate-papo com os entrevistados e nunca com a pretensão de dar uma palavra final sobre o que quer que seja que isso nem chega a incomodar. Essa naturalidade, que sempre foi uma marca do cineasta e que lhe permitiu coletar belos e emocionados depoimentos, parece ter sido a mira da equipe que concluiu o filme.

Os riscos eram grandes, mas o resultado, acima da média, além de coerente com a obra de Coutinho, ainda homenageia o cineasta e é um presente para o espectador.

Últimas Conversas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Últimas Conversas, Eduardo Coutinho, 2015]

Trailer de “Últimas Conversas”, de Eduardo Coutinho

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O estranho caso de Manoel de Oliveira: um texto de despedida ao cineasta português

Manoel de Oliveira

Poucos cineastas duraram mais de cem anos. Ainda mais, trabalhando. Seu Manoel viveu até os 106 e chegou a assinar dois curtas em 2014, ano em que já não podia mais sair de casa. Foram inacreditáveis 80 décadas de serviços prestados ao cinema. Provavelmente um feito inédito. Se não for, um feito impressionante. Dos 62 títulos que entregou como diretor, 32 foram de longa-metragens feitos para a tela grande. O primeiro deles, Aniki Bobó, parece ter sido fortemente influenciado pelo neorrealismo italiano. Com a diferença de que o neorrealismo italiano só aconteceu alguns anos depois deste filme. Talvez para compensar os muitos anos do início de sua carreira em que só assinou curtas ou não dirigiu filmes, reservou 410 minutos para contar a história de O Sapato de Cetim.

Ao longo da carreira, dirigiu pérolas das mais variadas. De Benilde ou a Virgem Mãe até o mais recente, O Gebo e a Sombra, parindo algumas obras-primas no meio do caminho: Francisca, nos anos 80, Vale Abrãao, nos 90, Um Filme Falado, no século XXI. Manoel de Oliveira se arriscou, inclusive, na seara dos musicais e Os Canibais é um de seus melhores filmes.

Sua obra começou a correr o mundo mais nas últimas décadas de sua vida e de sua carreira. Virou figurinha fácil na Mostra de Cinema de São Paulo, para onde veio algumas vezes e onde teve uma retrospectiva completa de sua carreira até então. Foi quando incluiu Catherine Deneuve, John Malkovich, Michel Piccoli, Marcello Mastroianni, Irene Papas a seu elenco habitual, que, entre outros, pode ser muito bem representado pelos parceiros Luís Miguel Cintra e Leonor Silveira e pelo sobrinho, Ricardo Trêpa. Talvez o nomes que mais se repitam em seus filme. O prestígio permitiu ao cineasta uma ousadia. Retomar a história de um clássico de Luis Buñuel, A Bela da Tarde, no tocante Sempre Bela.

De 1990 a 2010, entregou pelo menos um filme por ano, a maioria longas. Para uns foi pressentimento; para outros, foi a vontade de deixar um presente pro mundo.

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