Monthly Archives: agosto 2014

Mais um Ano

Mais um Ano

Nem um prêmio em Cannes, nem uma indicação ao Oscar de roteiro original. Nada foi suficiente para que o elogiadíssimo Mais um Ano, filme que Mike Leigh lançou em 2010, conseguisse a sorte de ganhar espaço no circuito comercial brasileiro. Somente quatro anos depois, o longa conseguiu interromper esse boicote, que se estendeu até aos festivais de cinema brasileiros (o Festival do Rio só exibiu o filme em 2012). Uma injustiça com o belo trabalho, de um diretor cujos últimos seis títulos tiveram lançamento no Brasil.

Mais um Ano é uma obra peculiar na filmografia de Mike Leigh. Criador de personagens sempre envoltos numa melancolia que geralmente dá o tom dos filmes, aqui o diretor aposta em um casal solar de protagonistas, que dilui o peso das angústias trazidas pelos coadjuvantes. Esse contraste empresta ao longa a leveza de um romance que deu certo e que dura anos, décadas. É um filme romântico por natureza, onde Leigh exibe mais uma vez sua habilidade no comando do melodrama.

Emboras os elogios tenham caído principalmente no colo da boa Leslie Manville, que interpreta uma mulher com sérios problemas de auto-estima, são os desempenhos de Jim Broadbent e Ruth Sheen, ambos inspiradíssimos, que chamam atenção. Seus personagens oferecem ao espectador uma esperança que diferencia o longa de obras como Segredos e Mentiras e Agora ou Nunca, filmes belíssimos, mas cujo pessimismo é quase determinista. Tom e Gerri, versões light da protagonista de Simplesmente Feliz, estão cercados por gente problemática e vidas caóticas, mas nada parece abalar o casal, cujo principal objetivo parece ser mediar conflitos e oferecer um ombro amigo.

O título do filme os resume bem: um ano a mais em seu casamento sólido, um ano a mais em sua “missão” de ouvir os problemas e administrar as crises alheias. Mas também reflete a própria obra de Leigh, um homem dono de um texto direto e vigoroso, um diretor que, filme após filme, reassume um compromisso com um cinema simples, cheio de personagens complexos e incrivelmente reais.

Mais Um Ano EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Another Year, Mike Leigh, 2010]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha

Lucy

Lucy

Existem cineastas que alimentam uma aura de criador competente e adentra os círculos alternativos durante décadas sem realmente ter feito um só filme bom. Kevin Smith? OK, talvez Procura-se Amy. Luc Besson? Com alguma condescendência, podemos lembrar de Subway ou Nikita. Mas a verdade é que o francês mais internacional dos diretores de cinema ou pula no raso quando quer fazer filme profundo, como Imensidão Azul ou Joana D’Arc, ou disfarça suas limitações em diversões ligeiras que demoram demais e divertem de menos, como O Quinto Elemento ou o recente A Família. Dito isso, é preciso fazer justiça ao novo trabalho do cineasta: Lucy, o thriller de ficção-científica estrelado por Scarlett Johansson, talvez seja seu melhor filme.

As primeiras cenas do longa, com uma viagem temporal aos princípios da vida humana na Terra, remetem de imediato aos momentos mais viajandões de A Árvore da Vida, com o espectador sabendo que, por mais que tentasse, Besson nunca chegaria à complexidade de um Terrence Malick. A impressão se desfaz quando a trama chega em terra firme e se estabelece como um guilty pleasure que mantém o pé no acelerador até seu último minuto. Besson acerta em cheio em levar a sério a história de uma loira burra que acidentalmente se vê obrigada a ingerir uma nova droga que amplia sua capacidade mental. Levar a sério, mas só até a segunda página. Porque, por mais que flerte com algum existencialismo, Lucy é feito para divertir.

Scarlett Johansson, cada vez mais à vontade como heroína de filmes de ação, incorpora a angústia de uma personagem que tenta correr contra o tempo para repassar o conhecimento que adquiriu, mas não tem capacidade de manter. Na melhor cena do filme, talvez a que mais tenha algum cuidado científico, conceitualmente falando, sua Lucy tenta se manter literalmente inteira no banheiro de um avião. Besson, que é o autor do roteiro, parte do princípio do mito de que utilizamos apenas 10% do cérebro e encontra ganchos leves, mas bem amarradinhos para transformar a história da personagem num thriller delicioso, onde a velocidade é tão ou mais importante do que as ideias de que o filme se aproveita.

Em tempos de filmes sérios, com cineastas preocupados em não ofender ninguém e em encontrar explicações científicas para tudo – sobretudo para não serem acusados de levianos -, são justamente as leviandades que o diretor cometeu em Lucy, enfileiradas num esqueleto coerente e funcional e com o suporte de soluções visuais bonitas e bem resolvidas, que servem tanto como respiro descompromissado para estes filme orgulhosamente baseados nos livros de ciência quanto como prova inquestionável de que precisamos de apenas 10% do cérebro para entender e nos divertir com um filme de Luc Besson. Sem culpa, sem vergonha nenhuma.

Lucy  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Lucy, Luc Besson, 2014]

17 Comments

Filed under Resenha

Metéora

Metéora

Metéora é o nome de um complexo de seis mosteiros que ficam sobre imensos picos rochosos na região central da Grécia, uma paisagem única que inspirou o cineasta Spiros Stathoulopoulos a criar uma história de amor bem particular, batizada com o mesmo nome do lugar. Metéora, o filme, é um respiro no cinema recente grego, que adotou a demência para se expressar sobre a condição político-econômica do país, um dos mais abalados pela crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. Stathoulopoulos encontra no cenário natural da região a matéria-prima para criar um libelo contra o desespero, que parece ser a metáfora perfeita para falar da Grécia.

O filme é protagonizado por dois monges, um homem e uma mulher, que vivem em mosteiros diferentes, um de frente para o outro, separados pelo abismo que divide as montanhas que os guardam. Mesmo à beira do abismo, como o povo grego, os dois se encontram e se apaixonam. Fogem escondidos, se encontram em terra firme e se amam. O diretor aproveita essa história para revelar os habitantes da região e costurar lendas e tradições ao amor proibido dos dois monges, muitas vezes recorrendo à animação como recurso para ilustrar esse peso histórico. Cria cenas de uma beleza clássica e refinada, envolve os personagens num manto de culpa para depois afirmar que o desespero é a única coisa que não tem jeito. Serve para os monges, serve para a Grécia, serve para o mundo.

Metéora EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Metéora, Spiros Stathoulopoulos, 2012]

2 Comments

Filed under Mostra SP, Mostras, Resenha

Amantes Eternos

Amantes Eternos

“A beleza não tem causa. É. Quando a perseguimos apaga-se. Quando paramos – permanece”. O pensamento é da poetisa norte-americana Emily Dickinson e pode ser aplicado a boa parte da produção artística dos dias atuais. A busca pela plástica não raramente abate o conteúdo e mesmo o objetivo estético fica comprometido pelo excesso de filtros e pelas ideias vazias que se resolvem em si mesmas. Esta pequena elocubração serve para apresentar o texto sobre o novo filme de Jim Jarmusch, um diretor cuja obra sempre teve uma marca bastante distinta, tanto em seus aspectos visuais quanto em temáticas e visões de mundo. Em maior ou menor grau, o cineasta encontrou a beleza com alguma sorte e bastante sensibilidade.

Amantes Eternos, embora trate novamente de um microcosmo, tem maiores pretensões do que outros longas de Jarmusch porque evoca uma maldição milenar, lida com conceitos etéreos e místicos como herança e destino e tem representações externas. Tom Hiddleston e Tilda Swinton, dois dos atores mais delicados e versáteis dos últimos anos, vivem Adam e Eva, um casal de criaturas imortais que há séculos deixou de lado uma sina sanguinária para procurar novas formas de permanecer vivos. Mas a reflexão que o filme lança vai muito além dos meios que uma espécie encontra para garantir sua longevidade. O tempo não é apenas fio condutor da história, mas o elemento definidor dos preceitos e das decisões dos personagens. Adam e Eva não são reféns do tempo. Há muito fizeram as pazes com ele e nele encontraram sabedoria que os mantém.

No filme de Jarmusch não há guerras pelo poder nem conflitos entre raças. Não há lados, mas posturas. O cineasta utiliza sua alegoria, que recicla figuras clássicas da literatura de fantasia, para refletir sobre o próprio fluxo da vida. Martin, de George A. Romero, pode ter sido uma influência para o diretor. Aqui há a mesma consciência do vampirismo como uma doença contemporânea. Os protagonistas buscam nos porões desse mundo atual soluções para suas deficiências. Assumem suas condições de marginais, vivem à margem. Fatigados pela própria história, preferem o conforto do anonimato, vivem um presente eterno até que o presente acabe, sugam da vida o que não sugam dos outros. Encontraram equilíbrio e alguma dignidade, coisas que nem sempre são fáceis de se administrar.

Esse caminho inusitado empresta a Amante Eternos uma singeleza bastante particular, que Jarmusch tenta cultivar em imagens delicadas, uma trilha blasé e cenários que se não são artificiais traduzem uma vida artificial, a vida que foi possível. A mistura parece intangível, mas convida a um reflexão existencialista sobre o propósito de continuar vivo. Há uma certa beleza em perceber certas sutilizas, em entender o sacrifício e a privação pelos quais aqueles personagens e em constatar que a veradeira maldição milenar dos vampiros de Jarmusch é a própria vida.

Amantes Eternos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Only Lovers Left Alive, Jim Jarmusch, 2013]

1 Comment

Filed under Resenha

Lauren Bacall, o último clássico de Holywood

Lauren Bacall

Em 1997, Lauren Bacall era a favorita para ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. O filme era a comédia O Espelho Tem Duas Faces, dirigido e estrelado por Barbra Streisand. Bacall fazia a mãe da protagonista e utilizava um senso de humor refinado para dar molho ao longa. Mas Hollywood tinha comprado a proposta de O Paciente Inglês e pareceu irresistível entregar o prêmio para outra candidata nobre, a francesa Juliette Binoche, que ficou chocada quando foi anunciada como vencedora e, utilizando uma sinceridade e uma delicadeza genuínas, deixou bem claro que achou que a veterana atriz dos filmes noir, viúva de Humphrey Bogart, lenda viva do cinema americano ganharia a estatueta. “E eu acho que ela merece”, disse Binoche.

Foi a única vez em que o Oscar lembrou da atriz, que somente 13 anos depois mereceria um prêmio pelo conjunto da obra. Justamente numa época em que estas homenagens pela carreira eram feitas em festas menores, ganhando apenas uma menção na cerimônia principal. Lauren Bacall não pode agradecer ao vivo. Apareceu na plateia, acenando. Um descaso e tanto para uma intérprete que nunca foi uma atriz excelente, mas estrelou filmes de Howard Hawks, John Huston, Sidney Lumet e Robert Altman, e foi coestrela de Gary Cooper, Gregory Peck, Henry Fonda e Tony Curtis, entre muitos outros.

Seu primeiro filme, Uma Aventura na Martinica, lhe rendeu fama e um marido. Bogart não resistiu aos encantos da loira e os dois foram casados por mais de doze anos, até a morte do ator, em 1957. Mas não foi só o astro de Casablanca que se deixou seduzir pela atriz. O charme de Bacall lhe garantiu o status de musa do filme noir, com destaque para À Beira do Abismo e Paixões em Fúria. Fez comédias deliciosas, como Teu Nome é Mulher e Como Agarrar um Milionário e, já madura, protagonizou O Fã – Obsessão Cega, suspense rodado nos anos 80, que brinca com sua própria capacidade de sedução.

Não havia mais lugar para Lauren Bacall nesse mundo sem glamour. Sua morte leva a atriz para o lugar ao qual ela pertence, um mundo onde a fantasia da clássica Hollywood vai viver pra sempre.

7 Comments

Filed under Comentário

The Rover – A Caçada

The Rover

John Hillcoat, que nunca leia este texto, mas faz algum tempo que o cinema australiano não tinha um diretor tão promissor quanto David Michôd. Há quatro anos, o cineasta apresentou seu primeiro filme, o excelente Reino Animal, obra que chamou a atenção e arrebatou elogios e prêmios por onde passou. O antiépico conto sobre uma família de criminosos resgatou Jackie Weaver, “revelou” Joel Edgerton e Sullivan Stapleton e, mais do que tudo isso, deu um novo fôlego a uma temática que havia caído num imenso poço de lugares comuns. O diretor emprestou a aridez das paisagens de seu país para dar o tom da relação entre uma mãe e seus filhos e entre uma família e o mundo. Impregnado de uma melancolia masculina bem diferente da maioria dos filmes destes tempos atuais, mereceu um lugar na lista de melhores primeiros longas de todos os tempos (veja aqui).

Não era de se esperar pouco de seu trabalho seguinte e The Rover, embora não tenha metade do impacto de seu filme de estreia, traz um dos cinemas mais interessantes que chegaram ao circuito brasileiro neste ano. Michôd, que escreveu o argumento original com seu parceiro Joel Edgerton, dá vida a um despretensioso conto sobre o acaso em pleno deserto australiano, que assume tanto um certo espírito de faroeste moderno quanto reformula elementos de filmes sobre anti-heróis solitários. O letreiro inicial indica que esta história se passa dez anos após um colapso financeiro global, mas as referências não vão muito além disso. O status do personagem vivido por Guy Pearce é o de homem desolado por sua própria história, um passado que será informado em golpes lentos e nunca muito exatos para o espectador. Sua natureza misteriosa virá à tona quando uma gangue roubar seu carro e ele inesperadamente se juntar ao irmão do líder do grupo, deixado para trás.

A caçada que virá a seguir e que o título brasileiro didaticamente adiciona ao original, algo como “O Vagabundo”, mostra que Michôd flerta com uma série de gêneros e temáticas que são velhas conhecidas do espectador, mas que formam uma colcha de retalhos esquisita e, por isso mesmo, muito interessante. Os cenários desolados, que reforçam os efeitos da crise, remontam aos desertos de um parente distante de The Rover, o policial Mad Max, mais distópico, mas que também se dedica a mostrar uma sociedade que tenta se reestruturar depois do caos. Os personagens que o protagonista encontra às margens da estrada parecem retirados de filmes de terror sobre vilas macabras e a determinação do personagem em encontrar seus inimigos remete às caçadas de uma série de westerns intimistas, onde o filme parece se inspirar.

Guy Pearce emula uma série de anti-heróis silenciosos, que têm sido redescobertos pelo cinema recentemente, mas adiciona a essa herança o peso de um homem com um passado trágico que parece sempre prestes a explodir. O ator, que já havia feito uma participação menor em Reino Animal, tem aqui sua melhor e mais desafiadora interpretação desde o Monty Beragon da série Mildred Pierce, mas se vê ofuscado por seu colega de elenco, Robert Pattinson. O ex-vampiro da Saga Crepúsculo, que parece firmemente dedicado a mudar os rumos de sua carreira, faz o parceiro inusitado do protagonista, o irmão com limitações intelectuais do líder da gangue. Pattinson encontra uma maneira exata e discreta para caracterizar seu personagem apostando em movimentos de corpo e expressões faciais bem surpreendentes para o que seu talento tinha nos oferecido até agora.

A estranha comunhão entre os dois personagens nasce de uma química inusitada entre os dois atores e oferta ao espectador um mínimo de conforto, aquilo que os cenários e a trajetória de The Rover insistem em negar desde os créditos iniciais. Estamos num mundo sem perspectivas, em que nunca temos a verdadeira dimensão das tragédias, sejam elas macro ou microscópicas e encontrar um parceiro, se não alivia o desespero, ao menos ajuda a alimentar o instinto de sobrevivência. Segundo David Michôd, em tempos de catástrofe, de perda de parâmetros, é preciso ter um objetivo para encontrar sentido para esta caminhada por um futuro tão incerto, mesmo que este objetivo pareça minúsculo ou esteja trancado no porta-malas de seu carro.

The Rover – A Caçada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Rover, David Michôd, 2014]

2 Comments

Filed under Resenha