Monthly Archives: maio 2014

Trailer: Guardiões da Galáxia

Guardiões da Galáxia
[Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014]

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X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Uma das melhores seqüências de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é estrelada por um Mercúrio um tanto desfigurado em relação à persona sisuda criada nos quadrinhos. A cena é, em todos os bons sentidos, exibicionista. Em sua estreia no universo dos pupilos de Charles Xavier nos cinemas, o personagem vivido por um abobalhado Evan Peters funciona, inclusive, como um alívio cômico para a trama, e, como o aproveitamento do velocista na história é leve, rápido e eficiente, Bryan Singer parece mandar um recado implícito para fãs radicais: mudar as coisas de lugar pode não ser tão ruim assim. O novo filme dos filhos do átomo nasceu como seus heróis, mutado, mutante, diferente de seu original.

Dias de um Futuro Esquecido, a história original das HQs, é uma das melhores aventuras dos X-Men e uma das mais bonitas tramas sobre viagens no tempo e futuros alternativos. Mas, como era de se esperar, dos quadrinhos, sobrou apenas o conceito do argumento, mudando protagonismos, contextos e se adaptando a – e tentando fazer convergir – uma cronologia mutante que já se estende por seis filmes. O novo longa, embora encontre seus fundamentos num dos momentos mais clássicos e inspirados do grupo, é primordialmente uma seqüência direta de X-Men: Primeira Classe, cujas estrelas são, mais uma vez, Charles Xavier, Magneto e Mística, em novas e belas interpretações de James McAvoy, Michael Fassbender e Jennifer Lawrence, com um espaço mais farto para o Fera e também para Wolverine.

É o herói das garras de adamantium que rouba de Kitty Pryde, ponta de luxo de Ellen Page, o protagonismo da viagem no tempo. Ele sai de um futuro distópico, que dizimou boa parte dos mutantes, onde os poucos X-Men que sobraram são perseguidos por sentinelas, para impedir um fato do passado que desencadearia o ódio aos portadores do gene x. Esse passado é o início da década de 70, pouco tempo depois dos fatos narrados em Primeira Classe. E o fato que precisa ser evitado não é mais o assassinato do senador Robert Kelly pela mutante Sina, mas a morte de Bolívar Trask, ponta de luxo de Peter Dinklage, pelas mãos de Mística.

O roteiro de Simon Kinberg, que trabalha sobre um argumento coescrito pelo diretor do filme anterior, Matthew Vaughn, faz o possível e o impossível para adequar as premissas dos quadrinhos ao universo instalado nos cinemas, possibilitando não apenas a continuidade da franquia, como seu diálogo com a trilogia original, da qual dois terços foram comandados por Singer. Este, por sinal, volta como diretor à série 11 anos depois de entregar X-Men 2, que ainda permanece como o melhor filme dos mutantes, igualmente mutado de uma trama específica dos quadrinhos, Deus Ama, O Homem Mata. Nem Singer, nem Kinberg deixaram de cobrir todos os buracos, mas X-Men: Dias de um Futuro Esquecido empolga mesmo assim.

Cientes de era preciso transformar ideias, os criadores resolveram não ter pudores em mudar alguns cânones e ainda acharam espaço para introduzir personagens clássicos dos quadrinhos no cinema. Blink, que aparece no grupo de mutantes do futuro, talvez seja a que melhor teve seus poderes retratados no filme, estrelando uma cena de ação empolgante, em contraste com seus poucos diálogos. O excesso de personagens continua sendo um problema porque há pouco espaço para todos, mas o golpe de Singer, de resgatar os mutantes dos filmes originais, captura o espectador num laço emocional em que a própria natureza do longa, de mostrar a ação em tempos paralelos, trata de justificar o pouco tempo em cena.

Halle Berry, Shawn Ashmore e, sobretudo, Ian McKellen e Patrick Stewart, retomam seus papéis no que é ao mesmo tempo uma maneira de resolver seus personagens e uma homenagem a esses intérpretes. E, por mais que este filme se volte para seu parente mais imediato, a vontade de dialogar com os primeiros longas atravessa toda a história. A viagem no tempo não está apenas no centro da trama de Dias de um Futuro Esquecido, mas em todas as entrelinhas, em todas as pontas de luxo, em todas as motivações. O melhor é que mesmo transfigurando a essência da HQ clássica, Singer encontrou equivalências e para oferecer novos horizontes para os mutantes no cinema numa história sólida.

No fim das contas, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido tem tanto a função de passagem de cetro, como revela a cena em que James McAvoy e Patrick Stewart dividem a tela, como a de memorial, como nos afirma a primeira – e imensamente emocional – das duas cenas escondidas nos créditos. Se a ideia era reorganizar a cronologia dos heróis no cinema, o filme cumpre sua premissa com honestidade e sem vergonha. Sem vergonha de se utilizar de um recurso que as HQs usam há décadas. Sem vergonha de ter chamado atores da primeira trilogia por pouco tempo para lembrar ao leitor que ele está num lugar seguro. Sem vergonha de puxar pelo emocional.

Afinal, os X-Men têm todos aqueles poderes, estrelam histórias complexas, são metáforas para tantas coisas, mas a gente gosta deles mesmo porque eles são nossos amigos, né? Então, se umas lagrimazinhas chatas insistirem em se formar nos seus olhos quando uma certa cena lembrar da época em que você entrou para uma certa escola e mostrar que dá pra mudar tudo sem se preocupar se a ciência confirma isso, tenha certeza de que você não está só nessa. Acreditar na fantasia está no sangue de qualquer mutante que se preze.

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[X-Men: Days of Future Past, Bryan Singer, 2014]

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Heli

Heli

O cinema mexicano cada vez mais tenta se afastar dos melodramas que fizeram sua época de ouro e dos conhecidos excessos de sua teledramaturgia. A solução seguida pela maioria dos diretores da nova geração é apostar na aridez e no explícito para criar um cinema, se não original, pelo menos uníssono. Heli, de Amat Escalante, que ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes, investe exatamente numa narrativa áspera para apresentar seus protagonistas, todos condenados à uma vida de miséria.

Escalante não quer que tenhamos pena de seus personagens. Parece mais genuíno para ele, assim como para seus colegas cineastas, que a própria natureza do México interiorano, arcaico, quase primitivo, comova os espectadores. Os atores são dirigidos para que economizem em suas interpretações, assim como o próprio diretor economiza em sua dramaturgia. O personagem-título e sua família entram numa sucessão de pequenas tragédias, filmadas com a crueza do deserto que os cerca, que ajudam a ilustrar como Escalante enxerga seu país.

Se renega os excessos dramáticos em favor de um cinema mais “direto”, Escalante comete outros excessos. As cenas de tortura são filmadas com brutalidade, muita brutalidade. A intenção pode ser chocar, denunciar a violência da situação específica e da situação social, mas o impacto desses excessos causam, como sempre, a impressão de que o cineasta quis fazer de seu filme, um filme importante, sincero, sem firulas, que vai direto ao ponto. Esse artifício denuncista incomoda, embora o filme pareça ter mais a dizer do que obras como Depois de Lucia, Ano Bissexto ou Batalha no Ceú. Todos mexicanos; todos com cenas chocantes.

Este último, por sinal, é assinado por Carlos Reygadas, que produz o filme de Escalante. O que Heli tem de diferente em relação a esses títulos é a importância que dá aos personagens principais, todos desenhados com certa profundidade. É curioso como o diretor empresta ao protagonista uma integridade quase inocente que não tem para onde crescer diante do cenário em que ele se encontra e que o torna maior do que o próprio filme. Heli é um rapaz que tenta viver sua vida da maneira que ele acha correta, mesmo que o México e o filme que leva seu nome pareçam torcer contra ele.

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[Heli, Amat Escalante, 2013]

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Praia do Futuro

Praia do Futuro

Todos os filmes de Karim Aïnouz – à exceção talvez do primeiro, Madame Satã – trabalham com aspectos de uma mesma questão: o desenraizamento, a sensação de não pertencer mais a um determinado lugar ou estilo de vida. Em maior ou menor grau, os protagonistas dos quatros longas que o cineasta cearense dirigiu desde então lidam com o conflito de desconhecer seus próximos passos. Esse sentimento pode ser fruto de uma vida errante pelas estradas do interior do país, como também pode surgir das mais variadas situações, como o fim de um casamento ou uma volta forçada para a terra natal.

Com esta última premissa, Aïnouz nos entregou aquela que talvez seja sua obra-prima, O Céu de Suely, um filme sobre uma mulher que não suporta a ideia de que mais uma vez está aprisionada no lugar e na vida que havia abandonado tempo atrás. Uma história com um poder simbólico tão forte que ecoa sobre praticamente tudo o que o diretor assinou nos últimos oito anos – e que sempre será motivo para comparação com cada nova obra do cineasta. Há ecos deste filme inclusive em Praia do Futuro, o mais recente trabalho de Aïnouz, um projeto que está em gestação há quase tanto tempo quanto seu filme mais celebrado tem de idade.

Aqui, o motivo para partir é muito semelhante: como Hermila, Donato não acha mais espaço para uma vida plena em Fortaleza. Ele é um salva-vidas. Resgata banhistas que se afogam, um trabalho essencialmente masculino que o transforma num herói e num modelo para o irmão. O encontro com Konrad, um alemão em visita ao Brasil, abre não apenas a possibilidade do exercício de sua sexualidade reprimida, mas representa a chance de reconstruir toda sua relação com o mundo a partir do anonimato. Anonimato onde os protagonistas de O Céu de Suely, O Abismo Prateado e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo também se refugiam.

Karim Aïnouz filma essa busca desesperada do protagonista por uma nova vida alternando cortes brutos (de cenas viris de sexo gay, que pouco mostram, sempre aprisionadas em closes tensos, mas muito revelam sobre o tom que o cineasta pretende para seu filme) com cenas longas (prolongadas até as imagens ganharem outro sentido, como se o filme quisesse assim transformar as coisas e anestesiar as dores do personagem). Essa concepção imagética é o que Praia do Futuro tem de melhor, herança direta do mais bem resolvido filme do cineasta. Mas Aïnouz prefere deixar os personagens sempre distantes, o que não facilita nosso relacionamento com eles, muito menos quando o filme sofre uma ruptura drástica, espacial e narrativa.

A passagem de tempo interrompe tanto a costura da relação entre os irmãos quanto a da relação entre os amantes, nenhuma totalmente desenvolvida, assim como passa por cima de aspectos importantes do próprio desenho do personagem. Wagner Moura, que parece cheio de vida quando seu personagem ainda está preso às convenções, definha, desaparece quando Donato teoricamente deveria estar pleno. Já Jesuíta Barbosa, que só surge no terceiro e último capítulo da história, aparece cheio de vigor para defender um personagem que precisava ter sido melhor definido lá atrás. Essa dicotomia talvez seja a melhor maneira para classificar uma fuga frustrada, que sacrificou tantos carinhos, carinhos que o espectador foi privado de ver, que pouco ou nada foram insinuados. Mas talvez essa seja a única maneira que o cineasta encontrou para manifestar a vida de privações do personagem: a gelidez germânica e as memórias que guarda para si podem ser o esconderijo mais adequado pra que Donato possa se proteger.

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[Praia do Futuro, Karim Aïnouz, 2014]

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Sob a Pele

Sob a Pele

Enquanto manobra um debate sobre onde termina o cinema existencialista e começa o filme-artifício, Sob a Pele parece mesmo estar à procura da imagem perfeita. Cada plano do terceiro longa de Jonathan Glazer é carregado tanto de simbolismos quanto de geometrias e o resultado disso é uma estranha e eficiente comunhão da plástica com a história da alienígena que atrai escoceses solitários para abatê-los em misteriosos rituais de sedução. As imagens, assim como a música macabra do filme, que gerou polêmica por causa do nu frontal de Scarlett Johansson, funcionam como um certificado de autenticidade imposto pelo diretor para validar sua experiência na ficção-científica.

Até mesmo as cenas em que a protagonista aparece nua são filmadas com jogos de luzes e sombras ou em cenários deliberadamente artificiais que trazem a sensualidade inerente à atriz para um campo etéreo onde o cineasta opera, à distância, suas excentricidades. Enquanto diretor, Glazer é um realizador bissexto, que volta ao comando de um longa-metragem quase dez anos depois de Reencarnação, filme que tem alguns laços estéticos e “de espírito” com esta nova obra. Ambos são extremamente apurados plasticamente e guardam pra si muitos de seus mistérios. Se um algo sobrenatural decretava o tom do filme estrelado por Nicole Kidman, um torpor cósmico parece ditar os caminhos da protagonista de Sob a Pele.

Glazer é um homem disposto a transgredir todas as certezas do espectador, dissociando os elementos do filme de seu lugar comum, da nudez ao suspense; ampliando o desconforto ao produzir cenas angustiantes fora do eixo central da ação, como a sequência do bebê; negando informações necessárias para que quem assiste ao filme possa traduzir para si mesmo aquela personagem, quais seus motivos e objetivos. Como tem sido praxe em adaptações, do livro de Michel Faber, sobrou pouco mais do que o conceito original, permitindo ao diretor conduzir a jornada da personagem como uma jornada de transformação a partir de descobertas simples, mas profundas.

O descarte de uma vítima selecionada por engano desperta novas sensações na protagonista e essa inédita sensibilidade, que Scarlett Johansson consegue introduzir com um tom de perplexidade à personagem, funciona em paralelo ao próprio estranhamento do espectador para com o filme. Se há um grande diferencial em Sob a Pele, ele não está exatamente no conteúdo, mas em sua própria estrutura, que assume a condição de obra aberta, rejeitando explicações e soluções para as angústias vividas pela alienígena. O conflito é interior e o diretor busca materializá-lo em imagens estranhas e ruídos que apenas ensaiam uma melodia, o que a rigor pode ser algo bastante banal nos dias de hoje, mas que estranhamente empresta alguma solidez a um filme que convida ao risco.

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[Under the Skin, Jonathan Glazer, 2013]

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Godzilla

Godzilla

A cena final de Monstros, primeiro longa-metragem de Gareth Edwards, é de uma beleza que parece incabível num gênero de cinema em que o foco, principalmente nos últimos anos, é o poder de destruição dos efeitos especiais. E essa beleza que encerra aquele filme vai muito além da plástica; invade o território da delicadeza numa espécie de balé da vida. Este momento finalmente encerra o mistério sobre os gigantescos invasores que o diretor conserva quase invisíveis durante a maior parte do longa. Um olhar mais atento mostra que Edwards tenta trazer esse conceito diferente de “filme de monstro” para Godzilla, guardando, literalmente, as devidas proporções.

Se seu longa de estreia era um filme independente, sem a missão de fazer dinheiro, espaço ideal para arriscar, este último trabalho é uma superprodução com todas as letras, compromissos e expectativas, que, além disso, carrega o peso de ser uma releitura do primeiro e maior monstro gigante do cinema. Mas mesmo diante dessa responsabilidade imensa, o cineasta inglês abre espaço para buscar beleza num filme de criaturas feias. Inversamente proporcional ao que Zack Snyder promove no rolo compressor O Homem de Aço, há vários momentos de prazer estético em Godzilla.

Um desses momentos é a cena em que, no meio das ações militares para a defesa do planeta, os paraquedistas partem para o ataque ao monstro, cena que Edwards filma como um melancólico mergulho no desconhecido. Outro, que vai além da plástica, é quando o diretor insinua a identificação entre o herói vivido por Aaron Taylor-Johnson e o monstro, uma relação de intimidade que o cineasta sabe que é impossível. Por essas e outras, Godzilla parece apostar nos efeitos visuais mais como forma de materializar a imaginação do que em espetacularizar as cenas de ação.

Gareth Edwards aponta o foco para capturar o lado B do ataque de criaturas gigantes, que é a base de Monstros, e faz isso apoiado num casting surpreendente, que vai dos ótimos Bryan Cranston e Elisabeth Olsen até uma inesperada participação de Juliette Binoche. Mas como em praticamente todo filme que tenta equilibrar o macro e o micro num momento de ameaça global, Godzilla abraça alguns lugares comuns, sobretudo na reprodução de dramas particulares dos personagens e na onipresença do herói. Edwards compensa isso costurando novas perspectivas à mitologia do monstro, sem arranhar seu currículo. Por sinal, o Godzilla de 2014 tem o mesmo rostinho do original de 60 anos atrás. Nem sempre dá certo, mas, para um gênero de filmes fadados a se tornarem gigantescas operações militares, Godzilla está bem acima da média.

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[Godzilla, Gareth Edwards, 2014]

Top 10 do Gareth Edwards
segundo a lista que ele mandou para a revista Sight & Sound em 2012

2001 – Uma Odisseia no Espaço [Stanley Kubrick, 1968]
Apocalypse Now [Francis Ford Coppola, 1979]
Baraka [Ron Fricke, 1992]
A Primeira Noite de um Homem [Mike Nichols, 1967]
A Felicidade Não se Compra [Frank Capra, 1947]
Tubarão [Steven Spielberg, 1975]
Cães de Aluguel [Quentin Tarantino, 1992]
Guerra nas Estrelas [George Lucas, 1977]
Taxi Driver [Martin Scorsese, 1976]
O Exterminador do Futuro [James Cameron, 1984]

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Hotel Mekong

Os filmes de Apichatpong Weerasethakul não oferecem respostas fáceis, mesmo para o espectador assíduo de festivais de cinema, acostumado a discursos e estruturas pouco convencionais. Mas o nível de experimentação do tailandês nunca havia ganho a dimensão que vemos em Hotel Mekong, um filme-ensaio em que o diretor passeia por múltiplas camadas de realidade, fragmentando, ou melhor, pulverizando qualquer possibilidade de se estabelecer uma linha narrativa.

A anarquia que toma conta do filme deriva de sua proposta: o cineasta decide usar o local, um hotel às margens do rio que separa a Tailândia do Laos, como cenário para ensaiar “Ecstasy Garden”, um filme que escreveu anos atrás. Mas Apichatpong não está mais interessado em apresentar a história da mãe vampira e de sua relação com a filha humana de uma forma linear. O diretor viu no material uma oportunidade de investigar o processo de criação de uma linguagem cinematográfica diferente.

Perto de Hotel Mekong, os filmes mais conhecidos do diretor, como Mal dos Trópicos e o vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, trabalhos elaborados e cheios códigos e simbologias, são um cinema mais perto do convencional. Ambos os filmes, mesmo diante de sua complexidade em trabalhar a memória e o fantástico, são realizados com um apuro visual e sonoro que traz um conforto inesperado ao espectador. São o ponto de apoio de quem assiste para receber o turbilhão de signos que o diretor oferece.

O novo filme rejeita esse conforto. Rodado em digital como se fosse um filme caseiro, parece retirar dos improvisos e das locações a matéria-prima para tecer sua estrutura. As inundações no rio Mekong servem como uma metáfora para o encontro dos níveis de representação da realidade que o filme oferece. É como se as águas fora de controle tivessem invadido as filmagens daquela obra que nunca existiu, abrindo espaço para a permissividade narrativa, varrendo a necessidade de se explicar. Compra a ideia quem quiser. Ou quem puder.

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[Mekong Hotel, Apichatpong Weerasethakul, 2012]

Texto publicado originalmente no Uol.

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Trailer: Sob a Pele

Sob a Pele [Under the Skin, Jonathan Glazer, 2014]

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Trailer: Planeta dos Macacos – O Confronto

Planeta dos Macacos: O Confronto
[Dawn of the Planet of the Apes, Matt Reeves, 2014]

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