Monthly Archives: abril 2014

Trailer: Boyhood

Depois de fazer a trilogia definitiva sobre o relacionamento, Richard Linklater não precisava provar mais nada, mas o trailer de Boyhood parece indicar que o filme deve ser um dos highlights de sua carreira. O projeto ambicioso durou doze anos e é uma história de ficção que acompanha a vida de um garoto desde que ele tinha 5 anos até chegar à maioridade. O cineasta reunia a equipe uma vez por ano para filmar. Patricia Arquette e o companheiro mais perene do diretor, Ethan Hawke, interpretam os pais do menino, vivido por Ellar Coltrane, que tinha 7 anos quando as filmagens começaram. A irmã dele é feita pela filha de Linklater, Lorelei. Assista ao trailer e me fala quais as chances de isso não ser incrível?

Boyhood
[Boyhood, Richard Linklater, 2014]

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Cães Errantes

Cães Errantes

O tempo em que as coisas se processam nos dias de hoje muitas vezes, na maioria delas, não permite que se enxergue muito além da primeira página. No cinema, por exemplo, as imagens são brutas e impactantes, a velocidade é acelerada, como se somente assim fosse possível retratar o mundo real, como se qualquer forma de expressão necessitasse desses parâmetros para dialogar com nossa época. Nesses tempos didáticos, a reflexão cada vez mais parece relegada a um plano utópico. As imagens se encerram em si, sem qualquer outro significado que não seu mais imediato. O espectador se acostumou a ignorar as entrelinhas até que as próprias entrelinhas começaram a ficar mais raras.

Em meio a tanto imediatismo, uma cena de Cães Errantes chama atenção. São dois planos fixos. No primeiro, um homem torpe e uma mulher emocionada, capturados por uma câmera estática, olham para algo que o espectador não consegue ver. Um incômodo angustiante numa época de imagens exatas. Não há movimento, a não ser o das expressões nos rostos dos personagens. São elas que denunciam sua perplexidade ao contemplar aquele mistério, que só desvendaremos 13 minutos depois, no plano seguinte, quando enxergamos o casal de costas diante de um imenso mural num prédio em ruínas, numa cena que ajuda a traduzir o espanto e a imobilidade do homem em frente ao mundo desmoronado que o filme retrata.

Tsai Ming-Liang preparou um desafio para aquele que ele mesmo anunciou como seu último longa-metragem. Ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre a forma como a sociedade opera para com seus párias, aqueles que ela própria expulsa de seu mecanismo cotidiano e que viram um incômodo expurgo, o cineasta nos desafia a encontrar um novo tempo para administrar e ressignificar as imagens que vemos. Cães Errantes parece uma extensão e um desmoronamento do cinema que o diretor pratica há duas décadas: personagens que não se comunicam nem encontram mais seu lugar no mundo, agora inseridos numa estrutura desordenada que abandona o começo-meio-e-fim para chegar mais próximo do que oferece uma instalação, justamente a que o cineasta afirma que vai se dedicar a partir de agora.

O protagonista do filme é um homem que mora num prédio abandonado de Taipei, capital de Taiwan, com seus dois filhos. Enquanto ele ganha uns trocados como homem-sanduíche, fazendo propaganda com cartazes colados ao corpo, as crianças vagam pela cidade, perseguindo comida e alguma higiene. A cada cena, o diretor deixa seu vilão mais claro: o capitalismo que distorce valores e que espalha uma espécie de caos que o filme assume para si. Mais do que necessidades imediatas, a família persegue humanidade, algo que eles não conseguem mais achar no mundo ou em si mesmos. Uma busca etérea, difícil de colocar em imagens, o que o cineasta resolve em planos muito longos, quase fixos e sem movimento, que tornam mais palpável o vazio em que vivem os personagens e que desafiam o cinema narrativo.

Lee Kang-Sheng, parceiro de toda a vida de Ming-Liang, é novamente o protagonista e, mesmo reprisando características de seus personagens ao longo de duas décadas, nos entrega uma interpretação de extrema sensibilidade, cujo ápice é uma cena em que canta uma música sobre uma China que não existe mais para uma câmera fixa, que captura seu rosto em close. A letra melancólica, a melodia triste, a chuva incessante, o vento, o barulho do trânsito e as lágrimas do ator massacram o espectador. Sem deixar qualquer possibilidade de fuga, o cineasta direciona e doutrina nosso olhar e obriga quem assiste ao filme a invadir o sofrimento e o desencanto daquele homem. No meio de um retrato tão amargo quanto desesperançado de uma realidade, aquele devaneio musical é quase um bálsamo de humanismo, mesmo que não ofereça respostas ou saídas.

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[Jiao You, Tsai Ming-Liang, 2013]

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A Vida Privada de um Gato

Alexander Hammid (ou Alexander Hackenschmied) foi um diretor nascido em 1907, no então Império Austro-Húngaro, que em mais de três décadas assinou 18 filmes obscuros, entre curtas, documentários e apenas uma ficção em longa-metragem em Hollywood. A Vida Privada de um Gato é um filme experimental de 22 minutos, em que o cineasta registra silenciosamente o dia-a-dia de seus gatos.

A Vida Privada de um Gato EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Private Life of a Cat, Alexander Hammid, 1944]

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Grey Gardens

Grey Gardens

Este documentário é um fruto do acaso. Os irmãos Maysles pretendiam rodar um filme sobre a irmã de Jacqueline Kennedy Onassis, quando conheceram a história da tia e da prima da ex-primeira dama. As duas, que já foram frequentadoras da alta sociedade nova-iorquina, moravam à época numa mansão caindo aos pedaços. Mãe e filha estavam falidas, isoladas e viviam de seu passado. Ou das cinzas dele. Esta história ganhou a catapulta de um escândalo: sem limpeza, o lugar começou a feder e incomodar os vizinhos. A prefeitura deu um ultimato para as duas: ou limpam ou saem. A imprensa fez festa e Jackie Kennedy ajudou a dar um tapa no lugar. É aí que entram os Maysles. Quando descobriram a história, desistiram do projeto anterior e embarcaram neste saborosíssimo mundo.

Os irmãos conquistaram a confiança de Big Edie e Little Edie e passaram dias e dias filmando o cotidiano das duas. À mesma medida em que mostravam a decadência da família, acompanharam a degradação psíquica de mãe e filha. O documentário adota uma política pouco intervencionista em relação a seu objeto. A equipe tenta ao máximo não interferir no dia-a-dia das duas e as informações sobre sua história, a não ser por uma breve sequência de recortes de jornais, saem das bocas perturbadas das retratadas. A opção tem duas consequências imediatas: por um lado, as entrevistadas ficam mais livres e tecem sua própria narrativa sobre os 50 anos em que viveram naquela casa e os desdobramentos de suas vidas.

Os Maysles estão entre os principais nomes do cinema direto o movimento que renovou o documentário americano nos anos 60, que prega o máximo de não-intervencionismo no retrato do objeto. As interações dos diretores com suas “atrizes” aparecem pouco no filme em si. As Bouvier Beale são convidadas a costurar sua própria história com suas memórias perturbadas. Contam o que querem contar e percebem claramente quando estão agradando, então, seu mundo paralelo entra em cena deixando completamente incertas as versões dos fatos. O grande diferencial deste filme é que, embora as informações sobre as personagens cheguem parceladas e o raio-x da vida de mãe e filha nunca pareça completo, o grau de intimidade que o espectador atinge com as duas é algo raramente visto num documentário. Aqui a história é menos importante do que a essência.

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[Grey Gardens, Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde, Muffie Meyer, 1975]

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Pelo Malo

Pelo Malo

O cinema de Mariana Rondón não é um cinema político, embora o país da diretora seja a República Bolivariana da Venezuela, um lugar onde as expressões artísticas, assim como todas manifestações em si, estão diretamente relacionadas ao manifesto político. Mas a cineasta não lava as mãos em relação a fazer observações sobre o lugar onde nasceu. Em Pelo Malo, enquanto parece se concentrar numa trama simples, a de um garoto que não gosta de ter o cabelo “ruim” do título original, a diretora abre pequenos espaços, escondidos no meio da narrativa, para se pronunciar sobre a falta de liberdade, o fanatismo e até as formas de marketing utilizadas pelo governo para se afirmar junto à população.

O posicionamento de Mariana Rondón aparece na maneira com a cineasta apresenta as imagens da cidade e em como mescla a história com pronunciamentos exibidos no rádio e notícias veiculadas da TV. Tudo cuidadosamente escolhido e discretamente costurado à narrativa. Essa postura, que pode passar despercebida, transforma a trama do filme em muito mais do que uma história bonita, pescada do cotidiano de uma grande cidade. A vida daquela família pobre vira um reflexo da rotina de um país. A luta pela sobrevivência – seja ela a sobrevivência física ou espiritual – está diretamente ligada a um contexto sócio-econômico sobre o qual Mariana não se debruça, mas não deixa passar em branco.

Esse contexto oprime os personagens e desenha uma relação de não aceitação para mãe e filho. Junior não aceita o fato de que não tem cabelos lisos para tirar a foto da escola, que ele quer que seja vestido como cantor. Já Marta não aceita perceber, a cada pequeno detalhe do dia-a-dia, as inclinações de sexualidade que o filho mais velho aparenta ter. Ela, que precisa alimentar duas crianças sozinha e que perdeu o emprego recentemente, enxerga na possível homossexualidade do filho um amálgama de todos os males de sua vida. Marta carrega em si a dureza e a rispidez que a vida nesta Venezuela sem grandes perspectivas lhe proporcionam. Nomear um único inimigo talvez seja sua única forma de se manter viva.

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[Pelo Malo, Mariana Rondón, 2013]

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

A homossexualidade parece finalmente ter encontrado caminhos de representação no cinema. Nos últimos anos, os filmes gays deixaram o peso da militância em prol de uma pluralidade de discursos e análises que tentam traduzir uma incrível variedade de personas e comportamentos. Da aspereza de Um Estranho no Lago ao realismo ostensivo de Azul é a Cor Mais Quente, passando pela libertinagem poética de Tatuagem, muitos trabalhos, de cineastas experientes ou diretores estreantes, gays ou não, transformaram a maneira como o audiovisual representa o homossexual. Não estamos mais numa época em que o cinema gay pertence exclusivamente à causa gay. O cinema gay, hoje, pertence ao cinema.

Embora as questões permaneçam as mesmas, é possível identificar um avanço na abordagem. Um Estranho no Lago é, em sua essência, um filme sobre desejo sexual e não um filme sobre pegação gay. Azul é a Cor Mais Quente devassa não uma relação lésbica, mas uma relação de amor. E Tatuagem é sobre liberdade num sentido muito mais amplo do que a liberdade de escolher um parceiro do mesmo sexo. Desta forma, seguindo uma lógica muito parecida, outro filme brasileiro chega aos cinemas relatando a descoberta do primeiro amor – e não necessariamente a primeira vez em que um menino se apaixona por outro menino. Um obra que tenta conversar com um público mais amplo, aquele que se emociona com um romance simples e delicado.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não faz nenhuma estripulia, não traz grandes novidades. Estamos diante da história do encontro entre Leo e Gabriel. Um é um adolescente cego, que vive as aventuras e desventuras comuns à vida colegial. O outro é um jovem recém-chegado à cidade grande. Ambos tentam descobrir o mundo, quando, de repente, acham um ao outro. Há maneirismos, lugares comuns, cenas que não se desenvolvem completamente, momentos truncados, mas se sobrepõe a isso uma visão que parece inocente, mas que diz muito sobre o que pretende o cinema de temática gay hoje em dia: este é um filme sobre diferenças, mas a homossexualidade é apenas um detalhe. Ela faz parte de um pacote. As diferenças são ressaltadas o tempo inteiro, mas o próprio protagonista brinca com elas.

O longa de Daniel Ribeiro é uma versão estendida de um curta dirigido pelo cineasta há quatro anos. Eu Não Quero Voltar Sozinho ganha em comparação com seu descendente: é um filme melhor que, em 17 minutos, desenvolve os personagens de maneira singela e resolve a trama com delicadeza e soluções simples. A versão em longa-metragem traz os mesmo trio de protagonistas, Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim, que interpreta a única amiga de Leo, Giovana, mas apresenta novos personagens e situações. Algumas cenas parecem espichadas do curta e outras, que mudam algumas das resoluções originais, deixam a desejar no desenvolvimento da trama.

A virtude do longa está mais no conjunto do que em momentos específicos, mas algumas cenas novas não apenas amenizam o reaproveitamento de ideias, como são extremamente representativas do recado que o diretor quer passar. Daniel Ribeiro não procura aceitação para seus personagens, mas quer que eles sejam amados pelas pessoas que são. Uma cena simples e bonita que diz muito do filme é aquela em que o pai, vivido por Eucir de Souza, ensina o filho a se barbear, ao mesmo tempo em que questiona o filho sobre o motivo dele querer fazer intercâmbio fora do país. O recado está implícito. Sem alarde. Há alguns momentos bem delicados na meia hora final do longa que fazem crescer tanto o filme quanto seus personagens. A catarse da cena que encerra a trama, a única em que o filme sai do armário, mais do que um panfleto é uma bela maneira de resolver uma história de amor.

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[Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2014]

Assista ao curta que deu origem ao filme:

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Capitão América: O Soldado Invernal

Capitão América: O Soldado Invernal

A essência do Capitão América é sua maior força e seu principal obstáculo. Criado como símbolo do patriotismo americano em plena Segunda Guerra Mundial, hoje o personagem vive uma dicotomia: ao mesmo tempo em que ainda representa o soldado nos campos de batalha, talvez o único lugar onde a inocência de sua concepção ainda caiba, sofre com a falta de espaço para uma figura com este perfil no mundo atual. Para funcionar no cinema, o herói precisava perder ser trazido para um patamar menos idealizado e dialogar com questões essencialmente contemporâneas, mas, o mais importante, sem perder os princípios que definem o personagem. Essa combinação difícil chega às telas em Capitão América: O Soldado Invernal.

Se o primeiro longa do heroi, caminhava por uma estrada mais inocente – como mandam os preceitos do herói, que estava sendo apresentado ali -, os irmãos Anthony & Joe Russo, diretores deste segundo filme que vêm de uma formação televisiva, transportam o personagem para o meio de uma guerra silenciosa, envolvendo uma trama de conspiração e pondo em cheque instituições de segurança americanas, algo que a TV tem feito melhor do que o cinema nos últimos tempos. O roteiro tanto trabalha a crise de confiança que molda nossa relação com nossos representantes quanto conversa com alguns grandes longas de espionagem do auge da Guerra Fria, criando um recheio menos óbvio para um filme de super-herói.

Recheio que fica mais encorpado com a adição de Robert Redford ao elenco. É impressionante que o papa do cinema independente americano tenha aceito um papel num blockbuster de super-heróis aos 77 anos, quando sua carreira parecia não precisar de nenhuma novidade. Cada cena em que Redford aparece na tela eleva o filme para outro plano de respeitabilidade. Essa tática da Marvel de rechear seus filmes de atores com assinatura é importante para diferenciá-los. Chris Evans retoma o papel principal dando conta do recado e Scarlet Johansson, menos sexy, mas mais à vontade, desmistifica a Viúva Negra. Sua presença e a introdução do Falcão de Anthony Mackie funcionam não apenas como apoio para o protagonista, mas servem para conectá-lo com os dias de hoje.

Mas não é somente isso. Aos Russo não falta bom humor para que o próprio herói ironize essa sua vinda de outros tempos, de outra época, de outra realidade. O próprio Capitão faz piada com sua origem e com tudo o que perdeu nos 70 anos em que ficou congelado. A lista de coisas a conferir que ganhou itens diferentes em cada país em que o filme foi lançado parece um simples alívio cômico, mas serve para mostrar que o personagem vive uma sensação incômoda de não-pertencimento. O homem é um estranho num mundo estranho, hostil, onde os princípios que o formaram não só saíram de moda como foram trocados pela desconfiança generalizada.

Ao Capitão cabe encontrar seu lugar nesse mundo novo. Aos irmãos Russo coube achar uma trama realista, contemporânea, mas que não compromete a fantasia do universo do herói, e um texto inteligente, pop, mas cheio de entrelinhas, que desafia o espectador que não viu os outros longa da Marvel e que desafia também o próprio herói a entrar em choque com o que está lá fora.

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[Capitain America: The Winter Soldier, Anthony & Joe Russo, 2014]

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Noé

Noé

Há dois aspectos interessantes em Noé que retiram o filme da carapaça do épico bíblico, embora não sejam suficientes para deixar a obra de Darren Aronofsky livres de suas obrigações religiosas e – por que não? – filosóficas. O primeiro é o completo despudor do cineasta em assumir os elementos mitológicos do material, dando vida e papeis importantes a seres fantásticos, o que tanto pode indicar que o diretor entende que a ficção está na base de toda e qualquer religião, inclusive as mais seguidas, como pode uma maneira de se salvaguardar contra ataques de quem quiser enxergar o filme como um veículo para o Cristianismo, o que está em desuso nos dias de hoje, principalmente entre os modernos.

O segundo aspecto é o tratamento que Aronofsky dá ao próprio personagem principal, que no decorrer do filme se rende a um fanatismo religioso absoluto, em que se enxerga como único portador da palavra do Criador, como o filme se refere a Deus, entre os homens. Em Noé, a palavra de Noé é lei. Essa opção, embora renda um punhado de tramas paralelas que se perdem no meio da missão oficial da família na porção final do longa, serve para humanizar o personagem, já que a interpretação de trator de Russell Crowe não cumpre muito este papel. Por outro lado, relativizar as certezas do capitão da arca do dilúvio – ou seja, trazer Noé pro “mundo real”- contrasta com a fantasia explorada sem dó no começo do filme.

Diante destas preocupações, que moldam num novo modelo de épico bíblico, mais condizente com nosso descrente mundo atual, Noé está mais para uma versão mais “filosófica” de Cruzada, de Ridley Scott, do que para o purismo de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. De Mille. Aronofsky parece temer afastar o espectador que não se interessa por temas religiosos, então adota uma câmera mais ágil, veste os atores com roupas que parecem trapos de 30 anos atrás e oferece ao personagem-título sem muita maquiagem, sem a aparência de um senhor que nosso imaginário coletivo cristalizou. O interessante é que o filme funciona bem melhor quando o diretor tenta fazer dele uma aventura mitológica, quase um guilty pleasure dos tempos arcaicos.

Quase porque nem muito divertido Noé consegue ser. Não tem muito sentido fazer o filme em 3D quando os efeitos especiais não são de Deus – e são relativamente poucos diante das mais de duas horas de mensagens divinas. A sequência do dilúvio é a que mais justificaria os óculos pesados não fosse tão decepcionante. Falta ação da mesma forma que falta estofo. Sabe como é, né? Épicos bíblicos, mesmo que carreguem elementos mágicos, seres mitológicos e dramas familiares têm contas a pagar com a religião. Haja pseudofilosofia das antigas sob a égide de pensamento puro misturada com momentos Cosmos e National Geographic. A picaretagem só vale para ver um Noé fanático religioso. De bom coração, claro, como todos os outros.

Noé EstrelinhaEstrelinha
[Noah, Darren Aronofsky,2014]

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