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Oscar 2014: Trapaça pode virar um dos maiores perdedores da história?

Trapaça

Trapaça é, junto com Gravidade, o filme com o maior número de indicações ao Oscar. São dez, que incluem tanto as principais (filme, direção e roteiro), as de elenco (quatro) e as técnicas (montagem, desenho de produção e figurinos). Com um currículo como este, o filme de David O. Russell se iguala em número de indicações a clássicos como Lawrence da Arábia e O Poderoso Chefão. É para tanto? O que longa de David O. Russell realmente representa na corrida deste ano: é um favorito, seria um azarão ou uma tentativa da temporada de prêmios de construir um placebo para tumultuar a disputa?

A verdade é que Trapaça parece ser uma ameaça em quase todas as categorias, mas não é favorito em nenhuma e pode terminar a noite de domingo como um dos maiores perdedores da história do Oscar. Assim como o filme anterior de O. Russell, Trapaça foi revelado ao mundo pouco antes da temporada de prêmio começar, causou rebuliço por ser um filme de época, ter vários nomes famosos no cast e parecer uma boa aposta em vários quesitos do Oscar, mas, pouco antes dos prêmios dos críticos começarem a ser revelados, o filme já estava meio em baixa nas apostas, saindo dos prognósticos de alguns sites dedicados ao assunto, o que mudou quando a prestigiada New York Film Critics Association abriu a temporada, chamando-o de melhor filme do ano.

Vieram outras indicações e o trabalho de O. Russell estava espalhado por todo lugar, mas o Screen Actors Guild deu um baque nas pretensões, ao ignorar Christian Bale e Amy Adams entre os melhores protagonistas. Quando os prêmios começaram a sair quase nada sobrou para o filme, a não ser que ele fosse relegado à categoria de comédia, onde levou dois Globos de Ouro, além do que foi para as mãos de Jennifer Lawrence, que sempre se apresentou como uma das preferidas para ganhar o prêmio de atriz coadjuvante. Quando o quesito misturava misturava dramas e comédias, os jornalistas estrangeiros em Hollywood escolhiam outro filme, caso de Ela, que venceu em roteiro, categoria em que Trapaça era favorito.

As dez indicações ao Oscar reativaram o burburinho sobre as chances do filme ganhar em várias categorias. Bale, Adams, Lawrence e Bradley Cooper conseguiram ser finalistas, fazendo com que O. Russell conseguisse indicar quatro de seus atores em dois anos consecutivos, mas Trapaça falhou bem onde seria um franco favorito, a categoria de maquiagem (agora “maquiagem e cabelos”). Mas a verdade é que, mesmo indicado em dez categorias, existe uma possibilidade forte de que ele saia da festa de domingo com as mãos abanando. Vamos analisar as chances do filme em todas suas indicações, começando com aquela onde mais se aposta nele: melhor atriz coadjuvante.

Uma vitória de JLaw, que na teoria seria um dos prêmios mais fáceis para o filme, poderia ser um miniescândalo. Na história do Oscar, só cinco intérpretes ganharam por dois anos consecutivos – Luise Rainer, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Jason Robards e Tom Hanks – e, na maioria dos casos, ou eles eram lenda vivas, ou estavam em situações muito específicas, como quando Hanks apareceu com um irresistível Forrest Gump um ano depois de ganhar um Oscar político. O fato é que Jennifer Lawrence, aos 23 anos, não parece ter esse cacife todo para convencer a Academia a premiá-la de novo um ano depois. E os votantes têm opções: a estreante Lupita N’Yongo, que aumentaria o leque de prêmios de 12 Anos de Escravidão, seria a primeira. Ou os votantes podem usar a categoria – e não seria a primeira vez – para eleger uma veterana até então desconhecida (June Squibb, de Nebraska) ou uma coadjuvante de prestígio (Sally Hawkins, Blue Jasmine).

Quando Amy Adams apareceu na lista de atrizes, derrubando Emma Thompson, que todo mundo dava como concorrente certa por Walt nos Bastidores de Mary Poppins, logo começou a se falar que ela poderia derrubar o favoritismo de Cate Blanchett. Mas quais as chances de uma atriz que não foi sequer indicada ao prêmio do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores, vencer o Oscar. Sindicato e Academia divergem muitas vezes, mas desde que foi criado o prêmio todas as vencedoras da categoria no Oscar foram pelo menos indicadas ao SAG. No mais, Blanchett foi elogiadíssima, ganhou todos os prêmios que pode, e não sofreu o mínimo abalo com as acusações que seu diretor, Woody Allen, recebeu de que teria abusado da filha, o que poderia manchar suas chances. Blanchett continua favorita e Adams está mais para um azarão, diferente de Christian Bale e Bradley Cooper, que têm chances zero de ganhar como ator e ator coadjuvante, respectivamente.

Na categoria de direção de arte, um dos trunfos do filme, Trapaça teria que passar por O Grande Gatsby, Gravidade e Ela, três vencedores dos prêmios do sindicato, além de 12 Anos de Escravidão, principal candidato a melhor filme. Bem difícil. No quesito de figurinos, em que tem mais chances, teria que derrubar o favoritismo de Gatsby e a possibilidade da Academia usar a categoria para aumentar o número de prêmios de 12 Anos. Em outros anos, o prêmio de montagem poderia ser uma aposta, ainda mais quando o longa ganhou um prêmio do sindicato, mas Trapaça só ganhou no sindicato porque foi eleito entre as comédias. É muito mais provável que Capitão Phillips, premiado pelos montadores como melhor edição de drama, divida as atenções com Gravidade, um filme onde a montagem é bem mais visível.

As maiores chances de Trapaça estariam então na categoria de melhor roteiro original, mas depois que Ela ganhou tanto o Globo de Ouro quanto o prêmio do sindicato dos roteiristas, é difícil imaginar que o Oscar vá por outro caminho, a não ser que resolva consagrar o filme. O Bafta preferiu o longa de O. Russell, nunca se sabe. Mesmo assim, a disputa não influencia na categoria de direção, onde o embate promete ficar restrito a Alfonso Cuarón, que ganhou tudo, e Steve McQueen, diretor do filme que tem todas as chances de ganhar a categoria principal. Por sinal, é em melhor filme que Trapaça pode ser chamado de azarão. Pode ser uma opção à briga entre 12 Anos de Escravidão e Gravidade, pode ser um filme mais americano para a disputa, pode ser uma aposta num filme com muitas indicações.

Para ganhar em melhor filme, Trapaça precisaria de uma conjunção de fatores. Se premiar o filme em atriz coadjuvante, a Academia mostra que gosta mesmo dele. Se escolhê-lo também em figurinos, reforça bem essa ideia, e, caso o eleja em montagem, transforma Trapaça num favorito. Um favorito isolado se o filme também ganhasse em roteiro original. Mas a maré não parece muito disposta a levar o filme de O. Russell para o palco não. Em todas as categorias em que ele teria mais possibilidades de vitória, há um empecilho bastante razoável para a vitória do filme. Trapaça corre um sério risco de voltar da festa com dez indicações e dez derrotas, empatando com Gangues de Nova York e Bravura Indômita, perdendo apenas para Momento de Decisão e A Cor Púrpura.

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Oscar 2014: a Academia está preparada para premiar Gravidade?

Gravidade

A maior surpresa que o Oscar pode nos dar neste domingo é premiar Gravidade como o melhor filme do ano. Embora o longa de Alfonso Cuarón seja um dos favoritos da noite – e sua vitória na categoria de melhor direção esteja praticamente certa – ganhar o principal prêmio deste ano revelaria que a Academia passa por um profundo processo de transformação. Não que Gravidade seja uma obra-prima, nem que seja um filme de arte “para poucos” e que ao elegê-lo o Oscar estaria se voltando para um tipo de filme mais elaborado e refinado. Gravidade está além destes conceitos porque ao mesmo tempo em que Cuarón nos entregou um reflexão sobre a vida, nos ofereceu também um espetáculo cinematográfico no sentido de grande show mesmo. Aí está a questão.

Em outros tempos, mas Gravidade teria mais chances de ganhar o Oscar caso os membros da Academia enxergassem o filme mais como uma obra ousada e séria do que como esse espetáculo do entretenimento. Isso poderia varrer para baixo do tapete um grande empecilho para a maior parte dos votantes do Oscar, a ideia de que filmes de gênero, sobretudo os que trabalham diretamente com a fantasia, como os de terror e os de ficção-científica, são filmes sem muito valor artístico e, assim, menos aptos a ser considerados para prêmios “sérios” como o da Academia, principalmente nas categorias principais. Indicar filmes com esse perfil não tem problema (eram cinco, agora até dez vagas para melhor filme), a questão justamente é premiá-los.

Na maioria das vezes em que o Oscar chegou perto de fazê-lo, voltou atrás. Veja o caso de Avatar, que há alguns anos se viu de favorito a relegado a prêmios técnicos. Mas, verdade seja dita, a Academia parece que ter se modernizado. Aqui e ali. Avatar inaugurou uma linhagem de filmes “virtuais”, cheios de efeitos visuais, que vem ganhando os Oscars de fotografia. A Invenção de Hugo Cabret e As Aventuras de Pi também venceram o prêmio, colocando a Academia numa espécie de vanguarda em relação a American Society of Cinematographers, o sindicato dos diretores de fotografia, que, apenas neste ano, se rendeu aos filmes com CGI, premiando Gravidade, que é o favorito para o Oscar no quesito, o que abriria espaço para voos mais altos.

O problema é que tanto Hugo quanto Pi eram filmes que têm o que a Academia acredita que dá mais estirpe para suas candidaturas: são baseados em livros, têm tom de fábula e são assinados por dois cineastas que o Oscar já premiou, Martin Scorsese e Ang Lee. E nem assim ganharam o prêmio principal. Gravidade, que é um roteiro original, e um cineasta que o Oscar só indicou como roteirista, teria mais chances? A questão é que nunca houve um precedente real para analisar as chances de Gravidade. Qual foi a última grande ficção-científica séria, premiada, sucesso de bilheteria e que pode ser chamada de marco no gênero? Mais ainda: que scifi ultrapassou as barreiras de gênero e também as do Oscar?

Portanto, uma vitória na noite de domingo coroaria uma momento da Academia: que deu muitos exemplos de que quer olhar pro futuro neste ano, eliminando quase que totalmente filmes como Walt nos Bastidores de Hollywood da lista de indicados, que deixou de indicar Robert Redford e Tom Hanks para apostar em Christian Bale e Jonah Hill, que pode não ter medo de premiar uma ficção-científica conceitual como melhor filme. Embora o histórico não favoreça Gravidade frente ao favorito 12 Anos de Escravidão (O Discurso do Rei x A Rede Social, por exemplo, mostra que quando o filme é mais convencional, a Academia geralmente opta por ele), o ineditismo desta condição (uma scifi realista, elogiada e frontunner) pode fazer lançar o filme de Cuarón para o alto e avante.

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Top 10 atrizes coadjuvantes que ganharam o Oscar

A lista com as dez melhores vencedoras do Oscar de atriz coadjuvante revelou que muitas injustiças aconteceram nesta categoria ao longo de todos estes anos. Poucas semifinalistas entraram em consideração e muitas que foram apenas indicadas mereceriam aparecer entre as dez. No fim das contas, uma atriz emplacou duas interpretações nesta relação, ambas sob a batuta do mesmo diretor.

10 Gloria Grahame, Assim Estava Escrito
[The Bad and the Beautiful, Vincente Minnelli, 1952]

9 Cate Blanchett, O Aviador
[The Aviator, Martin Scorsese, 2004]

8 Patty Duke, O Milagre de Anne Sullivan
[The Miracle Worker, Arthur Penn, 1962]

7 Ruth Gordon, O Bebê de Rosemary
[Rosemary's Baby, Roman Polanski, 1968]

6 Tatum O’Neal, Lua de Papel
[Paper Moon, Peter Bogdanovich, 1974]

5 Cloris Leachman, A Última Sessão de Cinema
[The Last Picture Show, Peter Bogdanovich, 1971]

4 Dianne Wiest, Hannah e Suas Irmãs
[Hannah and Her Sisters, Woody Allen, 1986]

3 Linda Hunt, O Ano em que Vivemos em Perigo
[The Year of Living Dangerously, Peter Weir, 1982]

As Vinhas da Ira

2 Jane Darwell, As Vinhas da Ira
[The Grapes of Wrath, John Ford, 1940]

1 Dianne Wiest, Tiros na Broadway
[Bullets Over Broadway, Woody Allen, 1994]

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Top 10 atores coadjuvantes que ganharam o Oscar

Listar meus dez atores coadjuvantes preferidos entre os vencedores do Oscar foi uma tarefa bem difícil. Tive que cortar três nomes que estão entre meus preferidos da última pré-relação. Por sinal, estou seriamente inclinado a concluir que esta é, entre as quatro de elenco, a categoria de onde saíram as melhores interpretações premiadas com o Oscar nos últimos tempos. Lembrando que Bardem, Ledger e Waltz ganharam em anos consecutivos (e Bale, que por pouco não entrou, foi o vencedor seguinte). Estes são meus dez favoritos nos momentos em que eles ganharam o prêmio:

10 Kevin Spacey, Os Suspeitos
[The Usual Suspects, Bryan Singer, 1995]

9 Charles Coburn, Original Pecado
[The More, The Merrier, George Stevens, 1943]

8 Joel Grey, Cabaret
[Cabaret, Bob Fosse, 1972]

7 Martin Landau, Ed Wood
[Ed Wood, Tim Burton, 1994]

6 George Sanders, A Malvada
[All About Eve, Joseph L. Mankiewicz, 1950]

5 Christoph Waltz, Bastardos Inglórios
[Inglourious Basterds, Quentin Tarantino, 2009]

4 Javier Bardem, Onde os Fracos Não Têm Vez
[No Country for Old Men, Joel & Ethan Coen, 2007]

3 Christopher Walken, O Franco-Atirador
[The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978]

2 Heath Ledger, Batman – O Cavaleiro das Trevas
[The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008]

1 Robert De Niro, O Poderoso Chefão – Parte II
[The Godfather - Part II, Francis Ford Coppola, 1974]

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Pompeia

Pompeia

Pompeia não tem estirpe alguma, mas funciona que é uma beleza. O filme que inaugura uma nova onda de épicos bíblicos no cinema de Hollywood tem um diretor genérico e astros que fazem sucesso, mas na TV. No entanto, embora se desenhasse como tragédia anunciada, o filme catástrofe de época assinado por Paul W.S. Anderson explode na forma de um guilty pleasure com todos – ou quase todos – os elementos no lugar.

Anderson reconta a tragédia da cidade de Pompeia, devastada pelo vulcão Vesúvio na Antiguidade, na melhor linha das reinvenções hollywoodianas para filmes ou séries de sucesso. Resgata a ideia, o conceito, e, se aproveitando da falta de certezas históricas, cria personagens, histórias, romances, heróis e vilões a seu bel prazer. O pior é que tudo isso dá certo se o espectador topar a proposta do diretor e se divertir no piloto automático.

Escorado em efeitos visuais melhores do que a média, inclusive com a preocupação rara em detalhes que credibilizam a catástrofe, o que raramente se vê em blockbusters do tipo, o filme é claramente feito para o espectador do cinema de ação. Todas as cenas, no terço final do filme, acontecem em cenários onde fumaça e fuligem são onipresentes, embora quase nunca um personagem se incomode de verdade com ela.

Mas realismo está fora dos planos de Anderson. O casal de protagonistas insosso (esperávamos mais de você, Jon Snow!) ganha força no contexto da catástrofe, inclusive com um desfecho coerente com o que se tem registrado da explosão do Vesúvio, embora o que se viu até ali seja puro delírio. O cineasta não nos poupa de liberdades históricas, simplificações e caricaturas. Tudo em função da construção de uma peça de entretenimento.

Kiefer Sutherland mergulha de cabeça na proposta e oferece um vilão à moda antiga, gente ruim mesmo. Está ótimo no papel. Curiosamente, Sutherland, o galã Kit Harington e até o principal coadjuvante, Adewale Akinnuoye-Agbaje, são atores cujas carreiras se solidificaram em séries de sucesso. 24 Horas, Game of Thrones e Lost, respectivamente, três exemplos de como a televisão reinventou o entretenimento audiovisual de qualidade.

Não que Pompeia possa ser comparado a estas séries, mas, enquanto diversão rasteira, Anderson entregou um trabalho bem coerente.

Pompeia EstrelinhaEstrelinha½
[Pompeii, Paul W.S. Anderson, 2014]

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Guia Oscar 2014: todos os filmes comentados

Já escrevi sobre muitos dos candidatos ao Oscar, entre eles sobre os nove indicados a melhor filme. Neste post, estão relacionadas todas as críticas que publiquei sobre os finalistas no Filmes do Chico.

filmes indicados na categoria principal

12 Anos de Escravidão

12 Anos de Escravidão, Steve McQueen

indicado em filme, direção, ator (Chiwetel Ejiofor), ator coadjuvante (Michael Fassbender), atriz coadjuvante (Lupita N’Yongo), roteiro adaptado, montagem, desenho de produção e figurinos.

Capitão Phillips

Capitão Phillips, Paul Greengrass

indicado em filme, ator coadjuvante (Barkhad Abdi), roteiro adaptado, montagem, mixagem de som e edição de som.

Clube de Compras Dallas

Clube de Compras Dallas, Jean-Marc Vallée

indicado em filme, ator (Matthew McConaughey), ator coadjuvante (Jared Leto), roteiro original, montagem e maquiagem.

Ela

Ela, Spike Jonze

indicado em filme, roteiro original, desenho de produção, trilha sonora e canção (“The Moon Song”).

Gravidade

Gravidade, Alfonso Cuarón

indicado em filme, direção, atriz (Sandra Bullock), fotografia, montagem, desenho de produção, trilha sonora, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais.

O Lobo de Wall Street

O Lobo de Wall Street, Martin Scorsese

indicado em filme, direção, ator (Leonardo Di Caprio), ator coadjuvante (Jonah Hill) e roteiro adaptado.

Nebraska

Nebraska, Alexander Payne

indicado em filme, direção, ator (Bruce Dern), atriz coadjuvante (June Squibb), roteiro original e fotografia.

Philomena

Philomena, Stephen Frears

indicado em filme, atriz (Judi Dench), roteiro adaptado e trilha sonora.

Trapaça

Trapaça, David O. Russell

indicado em filme, direção, ator (Christian Bale), atriz (Amy Adams), ator coadjuvante (Bradley Cooper), atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence), roteiro original, montagem, desenho de produção e figurinos.

fimes indicados em outras categorias

Além da Escuridão - Star Trek

Além da Escuridão – Star Trek, JJ Abrams

indicado em efeitos visuais.

Antes da Meia-Noite

Antes da Meia-Noite, Richard Linklater

indicado em roteiro adaptado.

O Ato de Matar

O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer

indicado em documentário.

Blue Jasmine

Blue Jasmine, Woody Allen

indicado em atriz (Cate Blanchett) e atriz coadjuvante (Sally Hawkins).

A Caça

A Caça, Thomas Vintenberg

indicado em filme estrangeiro.

A Imagem que Falta

A Imagem que Falta, Rithy Panh

indicado em filme estrangeiro.

Inside Llewyn Davis

Inside Llewyn Davis, Joel & Ethan Coen

indicado em fotografia e mixagem de som.

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Inside Llewyn Davis

Inside Llewyn Davis

As coisas simplesmente não acontecem para Llewyn Davis. As notas melancólicas do folk que ele toca não apenas são seus instrumentos de trabalho, mas parecem emoldurar seu espírito e, de certa maneira, traduzir sua essência. Músico talentoso, cantor de rara sensibilidade, o homem já está na batalha para ser reconhecido por sua arte há um bom tempo, mas, quando não se depara com os empecilhos da vida, do mercado, das gravadoras, encontra obstáculos em si mesmo. Llewyn Davis tem rígidos princípios éticos em relação a sua música, embora seu conceito de moral – quando a questão é sobrevivência – seja bastante elástico.

O homem comum sempre esteve no centro do cinema dos irmãos Coen, embora alguns dos personagens de seus filmes estivessem envolvidos em situações fora do normal. A trajetória do protagonista de Inside Llewyn Davis, longa que abre nesta quinta-feira a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, não abre espaço para grandes eventos ou cenas pouco ortodoxas. O homem comum deste filme é um homem comum mesmo. Os diretores parecem interessados em acompanhar a vida circular do personagem, uma odisseia construída a partir de pequenos fracassos. É desse espiral de desilusões que se repetem que surge a poesia irônica do filme.

O guatemalteca Oscar Isaac faz jus à melhor oportunidade que recebeu na carreira. Ele lança Llewyn Davis num intervalo idiossincrático entre a falta de pudores de um homem que pede, noite após noite, abrigo na casa de conhecidos ou desconhecidos e um artista que não admite fazer concessões. O personagem, inspirado na vida e na obra do músico Dave Van Ronk, é difícil de classificar: a fragilidade e a sutileza de suas apresentações musicais contrastam com a brutalidade de quando seu orgulho é ferido. Falta harmonia para Davis, sobra para Isaac.

O ator, que tem formação musical, assumiu, ele mesmo, os instrumentos que toca. O que seria um acessório se transforma em créditos para sua interpretação. A dedicação de Isaac para chegar até o âmago desse homem complicado que é seu personagem transparece na tela. É comum ver um artista empenhado em interpretar outro artista com tanta sinceridade no cinema. É raro vê-lo conseguir. Isaac transita com facilidade entre a melancolia daquele universo, daquela Nova York fria do início da cena folk, e o humor negro, marca dos Coen, que habita em todo o filme. Humor que se apodera da falta de sorte do protagonista para ajudar a traduzi-lo.

Na jornada de azar do músico, grande coadjuvantes cruzam a tela. Desde a namorada do amigo – Carey Mulligan deliciosamente furiosa, flertando com o overacting, mas sempre escapando por pouco – até o estranho chapado – John Goodman, literalmente alucinado, no que parece ser um personagem surgido apenas para provocar Llewyn Davis. Justin Timberlake e Adam Driver também dão as caras, ambos promovendo quase pequenas revoluções na vida do protagonista. O roteiro apresenta todos de maneira inusitada e os tira de cena do mesmo jeito.

Os Coen sempre tratam de quebrar nossas expectativas, seja com a má sorte crônica do personagem, seja com cenas que insinuam determinados desfechos, mas trombam com o imprevisível. Seja com uma curva que nunca é feita ou com o carinho que responde a uma grosseria, a imprevisibilidade parece ser um dos temas principais do filme: para os diretores, estamos todos, assim como – e junto – com personagem, sujeitos ao destino e à (boa ou má) vontade dos outros. As coisas às vezes simplesmente não acontecem.

Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Só EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Inside Llewyn Davis, Joel Coen & Ethan Coen, 2013]

Veja também:

Guia de sobrevivência na Mostra

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Clube de Compras Dallas

Clube de Compras Dallas

O mais interessante em Clube de Compras Dallas é que este é um filme para o qual não se guarda grandes expectativas e que surpreende o espectador o tempo inteiro. Primeiro porque dois atores que passaram carreiras inteiras sem impressionar ninguém – pelo contrário, sempre foram desacreditados – estão, se não no momento mais especial de seus currículos, pelo menos excepcionais. Segundo porque o diretor Jean-Marc Vallée se reinventa como contador de histórias de homens comuns, tornando cada capítulo da vida dos personagens um momento importante para o filme.

Estamos diante de uma história real, de pessoas que contraíram HIV numa época em que isso significava ser condenado à morte. O caminho natural para qualquer cineasta “sem assinatura” seria apostar no drama como maneira de cooptação de quem assiste ao filme, mas Vallée segue uma estrada bem diferente, economizando nos momentos tristes, apostando num cinema mais direto, o que tem um efeito realmente impressionante: consegue humanizar tanto os personagens que deixa suas histórias muito mais palpáveis, muito mais emocionantes.

Clube de Compras Dallas não é, quase nunca, um grande filme, mas, em cada pequeno diálogo, em cada imagem calculada, sempre oferece mais do que se espera dele. Tanto que a história de altruísmo que se segue, já que os dois personagens se tornam “traficantes” de medicamentos para outros pacientes, se torna mais um detalhe num retrato do cotidiano e da aproximação entre protagonistas tão diferentes, o que o cinema quase nunca consegue materializar sem recorrer aos lugares comuns.

Grande parte do talento para fugir do mais óbvio se deve ao trabalho delicado dos atores. O longa coroa o momento de Matthew McConaughey, um ator que construiu uma carreira em filmes de fácil digestão e que planejou uma volta por cima em interpretações mais complexas em trabalhos mais sofisticados, como Killer Joe e Amor Bandido. A entrega de McConaughey aqui, muito mais do que sua transformação física, está em cada detalhe de sua interpretação, capaz de devastar o espectador com um simples olhar.

Por outro lado, Jared Leto, que havia se aposentado das atuações para seguir sua carreira de rock star, surpreende com a medida exata para a afetação de sua personagem. O ator parece realmente apaixonado por xxx, validando cada um de seus trejeitos, valorizando sua alma feminina sem enquadrá-la em qualquer tipo de classificação. A primeira cena em que a personagem aparece, a leveza que Leto impõe para alguém tão maltratado pela vida enche Clube de Compras Dallas de uma beleza singela que contagia todo o filme.

Clube de Compras Dallas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dallas Buyers Club, Jean-Marc Vallée, 2013]

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RoboCop

RoboCop

Estamos em novos tempos. Não há mais espaço para uma mão explodindo na tela ou um corpo tendo os membros decepados a tiros de metralhadora. E a reinvenção de RoboCop saiu bem melhor do que encomenda. José Padilha nunca foi um dos favoritos da casa, mas é louvável sua disposição para mexer no vespeiro que é refilmar um dos longas mais célebres de Paul Verhoeven, por sua vez, um dos cineastas mais cultuados das últimas décadas. Onde o holandês fazia um cinema mais direto, com mais impacto, sem lançar reflexões profundas, o brasileiro aposta num roteiro um tanto mais sofisticado, que faz mais relações com o momento político atual.

Os dois Robocops são filmes que seguem caminhos diferentes, mas atiram em direções certas. Padilha traz muito dos temas que explorou em seus filmes brasileiros, sobretudo em seu melhor trabalho, Tropa de Elite 2, se dedicando a detalhar relações de poder e articulações políticas e suas implicações na vida do homem, do cidadão. Enquanto Verhoeven tratava do drama familiar do policial Alex Murphy em flashbacks que remontavam o convívio com sua mulher e seu filho, Padilha dá a estes dois personagens uma relevância maior, explorando seu protagonista de forma em nuances mais dramáticas.

O cineasta brasileiro não parece preocupado em entregar cenas de ação nos primeiros momentos do filme. Durante mais de meia hora, ele de dedica exclusivamente a reinventar detalhadamente a história de seu personagem, sua transformação e preparação para ser reinserido no “mundo lá fora”. Gasta o que pode para estabelecer relações, entregar bastidores e decifrar subtramas que garantam um background substancial em que possa trabalhar o protagonista, o que Verhoeven faz de maneira mais objetiva e mais bem humorada.

No entanto, o RoboCop sério de Padilha não parece didático demais, como poderia ser e abre espaço para que dois ótimos personagens entrem em cena: o cientista que conduz os experimentos que criam o novo policial, interpretado por Gary Oldman, que credibiliza a discussão moral que atravessa o personagem e o apresentador de TV vivido por Samuel L. Jackson, mutação do casal de jornalistas do filme original que tinham tanto a função de contextualizar o mundo em que vive o protagonista como eram respiros para que Verhoeven exercitasse seu humor negro. Jackson faz um personagem mais contemporâneo, tão perigoso quanto o apresentador de Tropa de Elite 2, que tem um envolvimento bem mais direto com a trama.

O plano de Padilha para deixar o projeto de um novo RoboCop mais relevante (ou para diferenciá-lo do original) funciona muito bem, inclusive como entretenimento. A escolha de Michael Keaton como vilão principal é um dos acertos. O ator assume bem o personagem, mas sua simples presença tira o peso que o filme poderia ter. O novo longa tem cenas de ação muito bem construídas, um visual excepcional, da direção de arte aos efeitos visuais, embora o figurino do policial do futuro seja mais questionável, e as colaborações dos brasileiros Lula Carvalho na fotografia, Daniel Rezende na montagem e Pedro Bromfman na trilha sonora, têm todas seus momentos de destaque. Bromfman, por sinal, reinterpreta o tema do filme original e cria uma trilha sinfônica bem diferente dos épicos que musicam longas de ação.

Provavelmente, os fãs de Verhoeven já estão no modo automático, prontos para alfinetar o filme de Padilha, mas a estreia do brasileiro em Hollywood, que ele mesmo classifica como a pior experiência de sua vida e que não emplacou na bilheteria, foi um bom começo para o diretor. Padilha parece ter conseguido se infiltrar nas engrenagens e, mesmo sem ter feito tudo o que queria, introduzir questões suas – com competência – num blockbuster hollywoodiano. E isso está longe de ser pouco.

RoboCop EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[RoboCop, José Padilha, 2014]

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Top 10 atrizes que ganharam o Oscar

O desafio foi fuçar o baú da Academia e apontar quais das mais de 80 atrizes que ganharam o Oscar de protagonista são as minhas favoritas. Separei dez, sacrificando algumas performances que adoro. Junto das minhas escolhidas, os vídeos do momento em que elas receberam o prêmio. Deixem nos comentários as favoritas de vocês.

10 Diane Keaton, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
[Annie Hall, Woody Allen, 1977]

9 Jane Fonda, Klute – O Passado Condena
[Klute, Alan J. Pakula, 1971]

8 Holly Hunter, O Piano
[The Piano, Jane Campion, 1993]

À Meia-Luz

7 Ingrid Bergman, À Meia-Luz
[Gaslight, George Cukor, 1944]

6 Jessica Lange, Blue Sky
[Blue Sky, Tony Richardson, 1994]

5 Kathy Bates, Louca Obsessão
[Misery, Rob Reiner, 1990]

4 Louise Fletcher, Um Estranho no Ninho
[One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman, 1975]

3 Frances McDormand, Fargo
[Fargo, Joel Coen, 1996]

Uma Rua Chamada Pecado

2 Vivien Leigh, Uma Rua Chamada Pecado
[A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951]

1 Meryl Streep, A Escolha de Sofia
[Sophie's Choice, Alan J. Pakula, 1982]

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