Monthly Archives: dezembro 2013

Top 20: os melhores filmes de 2013

De um cabaré gay no Recife dos anos 70 até uma estação espacial na órbita da Terra. Da boleia de um caminhão argentino ao sempre bizarro interior dos Estados Unidos. Os cenários foram os mais diversos para o cinema em 2013. Neste ano que se encerra, tivemos uma quantidade impressionante de filmes brasileiros que entraram em circuito, entre eles o maior fenômeno cultural que nosso país produziu em muito tempo. Vimos estrear queridinhos dos festivais do ano passado e descobrimos surpresas vindas das mãos de diretores estreantes dos quatro cantos do mundo. No meio de mais de 350 longas que chegaram aos cinemas do país, muitas pérolas. Aqui fiz uma listinha com meus 20 filmes favoritos que estrearam no Brasil em 2013. Em ordem alfabética. Tem links para os textos que escrevi sobre 18 deles (os outros dois, fico devendo por enquanto). Cinco desses filmes serão os finalistas ao Frankie, meu prêmio pessoal de cinema, cujos indicados vão ser divulgados amanhã. Um abraço e até 2014!

As menções honrosas: Anna Karenina, de Joe Wright; Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão; Camille Claudel, 1915, de Bruno Dumont; Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan; O Exercício do Caos, de Frederico Machado; Juan dos Mortos, de Alejandro Brugués; Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-eda; A Parte dos Anjos, de Ken Loach; Questão de Tempo, de Richard Curtis; A Visitante Francesa, de Hong Sang-soo.

E os meus 20 favoritos:

Las Acacias

Las Acacias, Pablo Giorgelli

Amor Bandido

Amor Bandido, Jeff Nichols

Antes da Meia-Noite

Antes da Meia-Noite, Richard Linklater

A Bela que Dorme

A Bela que Dorme, Marco Bellocchio

Detona Raplh

Detona Ralph, Rich Moore

Doce Amianto

Doce Amianto, Guto Parente & Uirá dos Reis

Elena

Elena, Petra Costa

Um Estranho no Lago

Um Estranho no Lago, Alain Guiraudie

Frances Ha

Frances Ha, Noah Baumbach

Gravidade

Gravidade, Alfonso Cuarón

Invocação do Mal

Invocação do Mal, James Wan

La Jaula de Oro

La Jaula de Oro, Diego Quemada-Díez

Jogos Vorazes - Em Chamas

Jogos Vorazes – Em Chamas, Francis Lawrence

Killer Joe

Killer Joe, William Friedkin

Lincoln

Lincoln, Steven Spielberg

O Mestre

O Mestre, Paul Thomas Anderson

Na Neblina

Na Neblina, Sergei Loznitsa

O Som ao Redor

O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho

Tabu

Tabu, Miguel Gomes

Tatuagem

Tatuagem, Hilton Lacerda

Veja também minhas outras listas do ano:

- os melhores filmes fora de circuito de 2013
- Os piores filmes de 2013
- Os filmes mais superestimados de 2013

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Filmes do Chico Awards 2013

Última chance para eleger os melhores do ano no cinema em 2013. Na página do blogue no Facebook, eu criei uma série de ábuns-enquetes para que vocês apontem seus favoritos em algumas categorias. Para deixar sua opinião registrada, vote em quantas fotos quiser de cada álbum e, caso você não encontre seus filmes, diretores e atores favoritos entre os listados, deixe sua reclamação nos comentários. Valem apenas filmes lançados nos cinemas brasileiros em 2013. A votação vai até amanhã!

Filmes do Chico Awards

Seguem os links para as enquetes:

Quais os melhores filmes do ano?

Quais os melhores diretores do ano?

Quais os melhores atores do ano?

Quais as melhores atrizes do ano?

Quais os melhores atores coadjuvante do ano?

Quais as melhores atrizes coadjuvante do ano?

Quais os melhores filmes brasileiros do ano?

Quais as melhores animações do ano?

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Top 10: os piores filmes de 2013

Filmes ruins podem ser divertidos, mas filmes pretensiosos podem ser bem ruins. Os dez títulos abaixo têm uma coisa em comum: querem ser mais do que realmente são. E é essa pretensão que os colocou entre os piores filmes lançados nos cinemas brasileiros em 2013. Entre uma refilmagem que se aproveita do prestígio do original, um longa que se aproveita de portadores de síndrome de down, um épico musical que mais é uma epopeia cafona, um diretor que conseguiu emplacar dois filmes ruins no mesmo ano, quem ganha a medalha de ouro no ano é um longa que se pretende uma lupa sobre o americano médio, que se vende como uma investigação da violência que carregamos dentro de nós, um filme que parece orgânico, mas que se fundamenta sobre o truque barato das reviravoltas e que só sobrevive por uma quantidade tão imensa de lugares comuns, conceitos usados e estereótipos disfarçados que o pacote não poderia ser pior.

Duro de Matar 5

10 Duro de Matar 5, John Moore

Os Miseráveis

9 Os Miseráveis, Tom Hooper

Cinzas e Sangue

8 Cinzas e Sangue, Fanny Ardant

Caça aos Gângsters

7 Caça aos Gângsters, Ruben Fleischer

O Mordomo da Casa Branca

6 O Mordomo da Casa Branca, Lee Daniels

Carrie, a Estranha

5 Carrie, a Estranha, Kimberly Pierce

Obsessão

4 Obsessão, Lee Daniels

Colegas

3 Colegas, Marcelo Galvão

Pietá

2 Pietá, kim ki-duk

Os Suspeitos

1 Os Suspeitos, Dennis Vileneuve

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Cine Holliúdy

Cine Holliúdy

Não há como escrever sobre Cine Holliúdy sem, em algum momento, com essas ou outras palavras, dizer que o filme é uma declaração de amor ao cinema. O fato é que, com uma fórmula simples, com uma ingenuidade calculada ou não, Hálder Gomes fez uma homenagem maiúscula a quem faz e a quem ama filmes. E diferentemente de outros tantos “filmes cinéfilos”, este aqui não faz referência a diretores importantes ou filmes que ajudaram a construir a história da imagem em movimento. A celebração do longa é para o cinema popular, o filme de porrada, de artes marciais, o caubói, a comédia física, gêneros que a fina flor relega a um segundo plano, mas que foram a arma de resistência de grandes idealistas como o protagonista de Cine Holliúdy.

Porque o filme de Hálder Gomes não apenas cita filmes, mas reconstitui um movimento que entrou em decadência nos anos 70, o do cinema de bairro, dos pequenos estabelecimentos das cidades do interior, do cine mambembe e itinerante que, com saudosismo ou não, encerrou suas atividades com a chegada da televisão Brasil adentro. Hálder Gomes muito habilmente transporta a linguagem simples dos filmes que seu personagem principal projeta para seu próprio filme. Claro que ele ganha a sacada (e o suporte) da brincadeira com o cearensês como língua mãe, reforçado pela legendas em português, claro que recorre a uma fauna de personagens que estamos acostumados a ver tanto em esquetes de humor de programas de TV quanto em stand ups populares. Mas este pacote faz parte de um projeto – estético e de cinema – em que Gomes estiliza um humor tipicamente brasileiro, tipicamente nordestino.

Por isso mesmo, Cine Holliúdy me parece um filme extremamente pensado, planejado, o que tira um pouco da espontaneidade que se espera de uma obra com essas características. E talvez, por causa disso mesmo, ele seja ainda mais único dentro da cinematografia brasileira. Um filme que assume o que ele é, um pastiche, uma piada, uma brincadeira, mas que ainda assim consegue alcançar tanta gente, homenagear o cinema e a cinefilia, fazer referência a um modelo de mercado que o tempo engoliu e que nos transporta aos primórdios do cinema como experiência coletiva, onde o que estava em jogo não era a arte ou o comércio, mas a catarse.

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[Cine Holliúdy, Hálder Gomes, 2012]

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Top 20: os melhores filmes fora de circuito

Frankie 2013 Off Circuito

Da Bahia ao Cazaquistão. Da Romênia a Indonésia. E meu primeiro filme do Nepal. Em 2013, eu viajei muito pelo mundo (do cinema) e voltei destas viagens com algumas pérolas. Estes filmes foram vistos em festivais, home video ou surgiram na internet mais próxima. Alguns pousaram na minha vida dentro do avião mesmo. Destaques para os documentários, entre eles o vencedor do Oscar deste ano, Procurando Sugar Man. Alguns destes títulos têm previsão de estreia para o ano que vem, mas como nunca podemos confiar totalmente nas distribuidoras brasileiras, resolvi salvá-los na memória. Aqui estão meus vinte filmes favoritos, inéditos em circuito, entre os vistos em 2013. Em ordem alfabética.

O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer

Amor, Plástico e Barulho, Renata Pinheiro

Berberian Sound Studio, Peter Strickland

Bernie, Richard Linklater

Cães Errantes, Tsai Ming-Liang

Cold War, Lok Man Leung & Kim-ching Luk

Cortinas Fechadas, Jafar Panahi & Kambuzia Partovi

A Garota de Lugar Nenhum, Jean-Claude Brisseau

A Imagem que Falta, Rithy Panh

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, Joel & Ethan Coen

Instinto Materno, Calin Peter Netzer

Lições de Harmonia, Emir Baigazin

O Menino e o Mundo, Alê Abreu

Nebraska, Alexander Payne

Norte, o Fim da História, Lav Diaz

Procurando Sugar Man, Malik Bendjelloul

Riocorrente, Paulo Sacramento

Uma Família em Tóquio, Yôji Yamada

Vidas ao Vento, Hayao Miyazaki

Vote nos melhores do ano: filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, filme brasileiro e filme de animação.

E este ano, depois de duas décadas tendo um prêmio pessoal de cinema que mistura filmes que entraram em cartaz e títulos vistos em festivais, mostras, home video e na internet, uma mistura que só fazia sentido para mim (porque eu antecipava a escolha de filmes que só estariam nas listas de todo mundo no ano seguinte), eu resolvi mudar radicalmente a eleição dos Frankies, meus prêmios de melhores do ano. Esta lista abaixo, já com indicados e vencedores, contempla apenas filmes que não chegaram às salas de cinema do circuito comercial brasileiro. No dia 30, eu publico os indicados para os Frankies 2013, apenas com longas que estrearam nos cinemas neste ano.

Procurando Sugar Man

Frankies 2013 – Off Circuito

filme do ano
O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer
A Imagem que Falta, Rithy Panh
Norte, o Fim da História, Lav Diaz
>> Procurando Sugar Man, Malik Bendjelloul
Uma Família em Tóquio, Yôji Yamada

direção
>> Lav Diaz, Norte, o Fim da História
Malik Bendjelloul, Procurando Sugar Man
Peter Strickland, Berberian Sound Studio
Tsai Ming-Liang, Cães Errantes
Yôji Yamada, Uma Família em Tóquio

ator
Jack Black, Bernie
>> Lee Kang-Sheng, Cães Errantes
Michael Douglas, Behind the Candelabra
Oscar Isaac, Inside Llewyn Davis
Sid Lucero, Norte, o Fim da História

atriz
Kazuko Yoshiyuki, Uma Família em Tóquio
Leandra Leal, O Lobo Atrás da Porta
Luminita Gheorghiu, Instinto Materno
>> Maeve Jinkings, Amor, Plástico e Barulho
Nash Laila, Amor, Plástico e Barulho

ator coadjuvante
>> Aslan Anarbayev, Lições de Harmonia
Matthew McConaughey, Bernie
Rob Lowe, Behind the Candelabra
Tony Leung Ka-Fai, Cold War
Will Forte, Nebraska

atriz coadjuvante
Ann Dowd, Compliance
María Renée Prudencio, Club Sándwich
Shirley McLaine, Bernie
>> Thalita Carauta, O Lobo Atrás da Porta
Yann Yann Yeo, Ilo Ilo

elenco
>> Bernie
Club Sándwich
Lições de Harmonia
Nebraska
Uma Família em Tóquio

roteiro original
O Ato de Matar, sem crédito
>> Cães Errantes, Tsai Ming-Liang, Peng Fei Song & Chen Yu Tung
Cortinas Fechadas, Jafar Panahi
Norte, o Fim da História, Lav Diaz & Rody Vera
Riocorrente, Paulo Sacramento

roteiro adaptado
Bernie, Richard Linklater & Skip Hollandsworth
O Homem das Multidões, Cao Guimarães & Marcelo Gomes
Nós Somos os Melhores!, Lukas Moodysson
>> Uma Família em Tóquio, Yôji Yamada & Emiko Hiramatsu
Procurando Sugar Man, Malik Bendjelloul

cena do ano
“Avô e netos”, O Ato de Matar
“Canção”, Cães Errantes
“Chupa que é de uva”, Amor, Plástico e Barulho
“Coquetel molotov”, Riocorrente
>> “Jantar com Noriko”, Uma Família em Tóquio

filme de estreia
O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer
Depois da Chuva, Claudio Marques & Marilia Hughes
Lições de Harmonia, Emir Baigazin
O Lobo Atrás da Porta, Fernando Coimbra
>> Procurando Sugar Man, Instinto Materno

filme brasileiro
Amor, Plástico e Barulho, Renata Pinheiro
Depois da Chuva, Claudio Marques & Marilia Hughes
O Homem das Multidões, Cao Guimarães & Marcelo Gomes
O Menino e o Mundo, Alê Abreu
>> Riocorrente, Paulo Sacramento

fotografia
Cães Errantes
O Homem das Multidões
>> Lições de Harmonia
Nebraska
São Silvestre

montagem
Berberian Sound Studio
O Lobo Atrás da Porta
Lukas, o Estranho
>> Procurando Sugar Man
Riocorrente

direção de arte
>> Behind the Candelabra
Berberian Sound Studio
Inside Llewyn Davis
O Menino e o Mundo
Vidas ao Vento

figurinos
>> Behind the Candelabra
Inside Llewyn Davis
Michael Kohlhaas
Paradjanov
Walesa, o Homem da Esperança

maquiagem
>> Behind the Candelabra
Michael Kohlhaas
Paradjanov

trilha sonora
Amor, Plástico e Barulho
Berberian Sound Studio
>> O Menino e o Mundo
Nebraska
Vidas ao Vento

canção
“Amor, Plástico e Barulho”, Amor, Plástico e Barulho
“Are U OK?”, Diva
“Kelip-Kelip”, 29 Februari
“Please Mr. Kennedy”, Inside Llewyn Davis
>> “Snake Eyes”, Terra Prometida

som
>> Berberian Sound Studio
Escudo de Palha
O Menino e o Mundo
Riocorrente
São Silvestre

efeitos visuais
Cold War
Escudo de Palha
>> Paradjanov
Riocorrente
Os Últimos Dias

animação
Aya, Marguerite Abouet & Clément Oubrerie
O Menino e o Mundo, Alê Abreu
>> Vidas ao Vento, Hayao Miyazaki

documentário
O Ato de Matar, Joshua Oppenheimer
A Imagem que Falta, Rithy Panh
Manakamana, Stephanie Spray & Pacho Velez
>> Procurando Sugar Man, Malik Bendjelloul
São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen

Leia também:

Top 5 filmes mais superestimados do ano

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Top 5: os filmes mais superestimados de 2013

Que ninguém diga que eu não avisei, mas os cinco filmes que compõem esta lista são bons filmes – e todos eles foram assinados por autores de estirpe. Haneke, Tarantino, Kechiche, Del Toro e Jia Zhang-ke já nos brindaram com grandes títulos, mas eu realmente não comprei todo o amor que foi derramado sobre seus novos filmes. Entre falta “mojo”, soluções fáceis e fórmulas requentadas, estes são os cinco filmes que eu considero os mais superestimados entre os que estrearam em 2013 no Brasil.

Django Livre

5 Django Livre, Quentin Tarantino

Não existe uma grande cena em Django Livre. Uma daquelas sequências arrebatadoras de verdade que nos acostumamos a ver nos filmes de Quentin Tarantino. Se, ao longo de 20 anos, o cineasta mais influente de sua geração pariu pelo menos uma dezena de momentos de puro êxtase cinéfilo, seu novo trabalho traz, no máximo, cenas inspiradas, como a saída dos protagonistas do saloon ou o ataque da Ku Klux Klan. Talvez as regras do western tenham cerceado a liberdade do homem, talvez tratar de um tema como a escravidão tenha lhe dado inéditos pudores. O fato é falta uma coisa que sempre sobrou nos filmes dele: “mojo”.

Um Toque de Pecado

4 Um Toque de Pecado, Jia Zhang-ke

Esse registro do incômodo é incômodo. As quatro histórias de violência, violência extrema, parecem operar sempre num tom a mais, como se o cineasta usasse esse excesso como forma de expressão, de manifesto, e isso, embora haja realmente um prolongamento da temática do cinema de Zhang-ke em Um Toque de Pecado, parece uma solução mais fácil para um cineasta que sempre conseguiu um nível de elaboração de discurso tão refinado quanto autêntico. A proposta de cinema deste autor já não se resolve mais nem nos planos-sequência de O Mundo, nem nas ruínas de Em Busca da Vida. Jia Zhang-ke encontrou uma nova maneira de expressar sua voz, mas que, pelo menos para mim, deixa saudade de outros tempos, menos explícitos, mais intuitivos.

Círculo de Fogo

3 Círculo de Fogo, Guillermo del Toro

É justamente a identificação que faz a plateia ter por quem torcer. E é justamente a torcida que gera empolgação. Círculo de Fogo precisava ter isso para funcionar. Não tem. Há referências para todos os lados, mas elas parecem se inserir nesse contexto de pouca sensibilidade em que o filme se coloca – e sua força se dilui radicalmente. A cena do “soco-foguete”, por exemplo, é rápida, sem muito destaque e fica prejudicada pelo cenário turvo que predomina no filme e que frustra quem queria ver belos efeitos visuais. As lutas tem momentos divertidos, mas no geral são tão metálicas quanto os robôs. E olha que o visual dos monstros, completamente despudorado, é de longe o que de melhor tem o filme.

Azul é a Cor Mais Quente

2 Azul é a Cor Mais Quente, Abdellatif Kechiche

De uma forma geral, Azul é a Cor Mais Quente é muito bem filmado, mas a sensação é de que aquela é uma história ordinária, que já foi contada muitas vezes antes – e sob um foco parecido. Mesmo que seja baseado numa obra específica, o filme e seu cinema realista que decifra os personagens pela aproximação, que entende a vida como uma grande tragédia em movimento, não traz grandes novidades ao debate sobre o amor entre duas mulheres, sobre o amor entre duas pessoas, sobre o amor em si. Kechiche filma a grande tragédia da vida, os encontros e desencontros dos personagens, parando aqui e ali para se deixar seduzir pelo desejo. Será que sua intenção era realmente fazer algo novo?

Amor

1 Amor, Michael Haneke

A fórmula é de crueldade extrema, mas o tratamento gélido trata de oferecer dignidade à história e à maneira como a história está sendo contada. A personagem de Isabelle Huppert, a filha distante, em mais uma reprise de seus cacoetes, é desnecessário. Parece servir apenas para metabolizar o sofrimento. Haneke, mais uma vez, ainda que disfarce isso neste modelo de filme, tortura o espectador, enclausurado num apartamento, isolado entre quatro paredes, acompanhando velhinhos sofrerem. Amor não oferece a violência gratuita da maior partes dos filmes anteriores do cineasta, mas é tão manipulador quanto, sempre sobre a égide de mexer em temas delicados de forma “crua”.

Veja também os filmes mais superestimados de 2012, 2011, 2010 e 2009.

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Um Estranho no Lago

Um Estranho no Lago

Existe algo de fascinante em Um Estranho no Lago, que foi eleito como o melhor filme de 2013 pela revista Cahiers du Cinéma. E esse fascínio passa diretamente por como o diretor Alain Guiraudie consegue, a partir de um exercício de repetição, fazer uma das mais intensas investigações do desejo sexual que o cinema recente já produziu. Estamos diante de um filme de cenário único, as margens de um lago em alguma parte do interior da França, utilizadas pela população gay da região para fazer pegação. Guiraudie nos confina com aqueles homens naquela pequena faixa de terra, nas pedras e na mata ao redor.

A intenção do cineasta não parece ser simplesmente provocar, mas anestesiar o espectador. Anestesiar pela repetição. Guiraudie filma o fluxo dos personagens por aquele espaço sem romantismo, como se explicasse ao espectador que o sexo gay, por ser essencialmente masculino, não conversa necessariamente com um sentimento mais profundo. Não há espaço para delicadezas. Aqueles homens estão ali para se realizar sexualmente, já que em sua rotina diária, a sociedade não lhe permite o gozo. É um sexo macho que só encontra seu espaço num ambiente marginal.

E aqui, as margens podem, inclusive, ser uma moldura literal para marginal. O diretor parece ainda avisar ao espectador que, ao invadir aquele espaço, terá que conviver com o que existe nele. Guiraudie propõe uma operação curiosa: passa boa parte do filme sendo explícito – há nus frontais e de sexo oral, em cenas que dissecam um ambiente de pegação gay -, e repetitivo, causando a banalização dessas imagens. O cineasta, no entanto, parece apaixonado pelo movimento circular daqueles homens em busca de saciedade, como se a materialização do desejo, ou seja, o orgasmo, fosse uma meta não só dos personagens, mas de seu cinema.

Ele encontra numa estrutura de suspense a forma ideal para dar corpo a essa caçada por sexo, brincando tanto com a atração pelo desconhecido quanto pelo perigo como caminho para excitação. Este perigo no filme é essencialmente físico. Ele surge no corpo de um homem misterioso, cujo bigodinho remete a atores pornôs do passado, sobre o qual o protagonista sabe pouco, mas se sente extremamente atraído, mesmo que os rastros que este homem deixa indiquem riscos imediatos. A cena final, uma das melhores do ano, radicaliza a discussão sobre até onde vai o desejo (e talvez o amor). Ela não só valida todo o filme, como explica as motivações daqueles homens: as trilhas dentro das matas podem ser perigosas, mas são tudo o que eles têm.

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[L'Inconnu du Lac, Alain Guiraudie, 2013]

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Um Toque de Pecado

Um Toque de Pecado

Nas pouco mais de quatro décadas que tem de vida, Jiz Zhang-ke viu seu país, como poucos no mundo, sofrer uma transformação profunda, que mudou não apenas o modo de vida de sua população de milhões, mas a estrutura de uma sociedade. Em seus filmes, seja nos dramas, seja nos documentários, o cineasta registra essa mudança, algumas vezes, elegendo aspectos específicos; outras vezes, capturando o mal estar da China contemporânea, em que as pessoas tentam delinear seus caminhos, de uma maneira mais ampla. Em todos os casos, sendo extremamente delicado no retrato destes personagens.

De certa forma, Um Toque de Pecado parece ser a extensão natural do cinema de Zhang-ke. Depois de mapear a China e os chineses, ele apresenta o resultado da degradação de um país corrupto, em que as pessoas são engolidas pelo sistema, em que o macro devora o micro. E poucos cineastas filmam como este diretor. Neste longa, ele parece elaborar ainda mais seus movimentos de câmera e a maneira como apresenta e devolve seus personagens ao cenário em que eles pertencem. Nem a intenção, nem talento de Zhang-ke estão em questão, mas seus métodos. Se o diretor se propõe a registrar o momento em que o homem foge de si mesmo, a maneira mais correta seria perder sua delicadeza com que sempre trabalhou?

Esse registro do incômodo é incômodo. As quatro histórias de violência, violência extrema, parecem operar sempre num tom a mais, como se o cineasta usasse esse excesso como forma de expressão, de manifesto, e isso, embora haja realmente um prolongamento da temática do cinema de Zhang-ke em Um Toque de Pecado, parece uma solução mais fácil para um cineasta que sempre conseguiu um nível de elaboração de discurso tão refinado quanto autêntico. A proposta de cinema deste autor já não se resolve mais nem nos planos-sequência de O Mundo, nem nas ruínas de Em Busca da Vida. Jia Zhang-ke encontrou uma nova maneira de expressar sua voz, mas que, pelo menos para mim, deixa saudade de outros tempos, menos explícitos, mais intuitivos.

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[Tian Zhu Ding, Jia Zhang-ke, 2013]

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Doce Amianto

Doce Amianto

O espectador nem sempre é justo com o cinema. Do filme, em grande parte das vezes, é cobrado um posicionamento sobre o mundo, um pensamento sobre um tema, uma crônica dos tempos em que ele foi feito ou no qual a história se passa. História esta que, por sinal, limita as possibilidades criativas e centrifuga cineastas mais rebeldes, como se a rebeldia fosse apenas permitida dentro de um modelo pré-formatado. Um filme com temática homossexual naturalmente sofre mais com essas pressões. Como supostamente já mapeia um universo “diferente”, ao filme gay não parece ser permitido ir além da “revolução” de apresentar personagens “fora do padrão”: para ser aceito e reconhecido como um bom filme gay, a obra precisaria trafegar por um terreno dramaturgicamente e narrativamente seguro, como o correto e careta Milk, de Gus Van Sant, ou o acomodado Weekend,  de Andrew Haigh.

Em Doce Amianto, novo filme do coletivo Alumbramento, radicado no Ceará, seus realizadores não se preocupam em atender nenhuma demanda que não a de seu próprio fluxo de criação. Não existe a menor intenção de retratar uma situação, de dar voz a personagens marginais ou de fazer uma reflexão sobre uma questão específica. Não há também nenhuma vontade em fazer um filme fácil para o espectador comum, por assim dizer. Guto Parente e Uirá dos Reis (leia entrevista com a dupla aqui) abraçam os devaneios de sua personagem principal, sem nunca procurar contextos, dar explicações ou facilitar as coisas para quem não embarcar na atmosfera de delírio em que o filme opera. Os diretores determinaram que o universo em que vive a protagonista é um espaço de excesso e afetação. Esse conceito envolve absolutamente tudo no filme, desde a interpretação de Deynne Augusto, que nunca havia se travestido antes de fazer esse longa, até o cenário, ultracamp, colorido e idealizado.

Com uma proposta assim, seria de se esperar que Amianto fosse qualquer coisa, menos uma heroína romântica. E é justamente essa a melhor definição para a personagem: uma mulher – sabemos que se trata de uma travesti, mas isso nunca é colocado realmente em discussão – à procura de seu grande amor, um homem que a aceite como ela é. Os cineastas  não utilizam Amianto para representar ninguém, nenhuma classe, nenhuma condição. O que interessa para a dupla é como a protagonista mergulha na solidão por não conseguir encontrar um par. O cenário artificial traduz muito da personagem, que também se constrói para o mundo e para a materialização de seus desejos. O travestismo não é associado à prostituição ou ao espetáculo, duas linhas principais dos clichês ligados ao sexo do meio, mas é um canal para que Amianto exerça seus afetos. E como este filme é sobre a busca pelo afeto, por mais que o filme opere muitos tons acima, as escolhas dos diretores e o perfil da protagonista parecem bastante naturais, ou melhor dizendo, totalmente cabíveis.

Doce Amianto é uma variação de um poema que Uirá dos Reis fez para um amigo que tirou a própria vida. Mas, diferentemente do texto, no filme, Blanche, que seria esse amigo ausente, é uma espécie de fada madrinha para a personagem principal. É ela que visita Amianto em seus devaneios, que a consola em seu isolamento, que relativiza suas angústias. Blanche é vivida pelo próprio diretor-roteirista. Sua imagem também não se apega a uma definição apenas. O rosto extremamente maquiado e os cílios postiços longos contrastam com uma barba cheia, deixando claro que aqui não se procura um tom apaziguador, uma solução simples. Estamos num delírio audiovisual que encontra sua poesia própria. Sua pureza é resultado do encontro de uma personagem de melancolia discreta – porque Amianto não é triste, mas alguém à procura da felicidade – misturada a uma paleta de cores onírica que cria um universo completamente particular onde não há limites para amores, desejos, sonhos ou cinemas.

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[Doce Amianto, Guto Parente & Uirá dos Reis, 2013]

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Globo de Ouro 2013: indicados

Novas previsões para o Oscar 2014, já sob o impacto dos indicados ao SAG e ao Globo de Ouro.

O Globo de Ouro anunciou hoje seus indicados e 12 Anos de Escravidão, que não tinha começado bem a temporada de prêmio, mas se recuperou ontem com a lista do Screen Actors Guild of America, se firma como o favorito para o Oscar 2014. O longa de Steve McQueen recebeu indicações para as categorias de filme dramático, direção, ator, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro e trilha. Seu maior rival é Trapaça, de David O. Russell, que já tinha surpreendido com o prêmio dos críticos de Nova York, e recebeu menções em filme de comédia, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e roteiro. Capitão Phillips teve suas forças renovadas com indicações importantes, mas Walt nos Bastidores de Mary Poppins fracassou quase que totalmente, só sobrando espaço para Emma Thompson. Mas o grande perdedor do dia foi O Mordomo da Casa Branca, que não teve uma menção sequer, nem a esperada indicação para Oprah Winfrey, algo meio impensável diante da tendência da Associação dos Jornalistas Estrangeiros de celebrar estrelas, vide as indicações de Leo Di Caprio e Bradley Cooper. Surpreenderam as nominações de Greta Gerwig, por Frances Ha, e Julie Delpy, por Antes da Meia-Noite.

Quem ganha:

> Capitão Phillips, que andava meio desacreditado
Philomena, lembrado em três categorias
Rush, com uma surpreendente indicação a melhor filme
Idris Elba, Mandela: Long Walk to Freedom, que ganhou visibilidade inédita
Robert Redford, All Is Lost, esnobado pelo SAG
Barkhad Abi, Capitão Phillips, que agora se torna quase um lock entre os coadjuvantes
Julia Roberts, Álbum de Família, que também vira uma quase certeza
Sally Hawkins, Blue Jasmine, que ganha um impulso com essa menção

Quem fica na mesma:

12 Anos de Escravidão, que continua favorito
Trapaça, que permanece como ameaça
Ela, que se reafirma como azarão
Jared Leto, Dallas Buyers Club, firme como um dos favoritos

Quem perde:

O Mordomo da Casa Branca, zero indicações
Oprah Winfrey, O Mordomo da Casa Branca, que perde a condição de favorita
Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street, que não achou vaga entre os diretores
Tom Hanks, Walt nos Bastidores de Mary Poppins, duplamente ignorado por SAG e GG
Jonah Hill, O Lobo de Wall Street, que só ganharia forças para se lançar aqui
Octavia Spencer, Fruitvale Station, que parece ter sumido do mapa

Globo de Ouro

Novas previsões para o Oscar 2014, já sob o impacto dos indicados ao SAG e ao Globo de Ouro.

indicados ao Globo de Ouro 2013

filme dramático

12 Anos de Escravidão, Steve McQueen
Capitão Phillips, Paul Greengrass
Gravidade, Alfonso Cuarón
Philomena, Stephen Frears
Rush, Ron Howard

filme comédia ou musical

Ela, Spike Jonze
Inside Llewyn Davis, Joel & Ethan Coen
O Lobo de Wall Street, Martin Scorsese
Nebraska, Alexander Payne
Trapaça, David O. Russell

direção

Alexander Payne, Nebraska
Alfonso Cuarón, Gravidade
David O. Russell, Trapaça
Paul Greengrass, Capitão Phillips
Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão

ator dramático

Chiwetel Ejiofor, 12 Anos de Escravidão
Idris Elba, Mandela: Long Walk to Freedom
Matthew McConaughey, Dallas Buyers Club
Robert Redford, All Is Lost
Tom Hanks, Capitão Phillips

atriz dramática

Cate Blanchett, Blue Jasmine
Emma Thompson, Walt nos Bastidores de Mary Poppins
Judi Dench, Philomena
Kate Winslet, Labour Day
Sandra Bullock, Gravidade

ator comédia ou musical

Christian Bale, Trapaça
Bruce Dern, Nebraska
Joaquin Phoenix, Ela
Leonardo DiCaprio, O Lobo de Wall Street
Oscar Isaac, Inside Llewyn Davis

atriz comédia ou musical

Amy Adams, Trapaça
Greta Gerwig, Frances Ha
Julia Louis-Dreyfus, À Procura do Amor
Julie Deply, Antes da Meia-Noite
Meryl Streep, Álbum de Família

ator coadjuvante

Barkhad Abdi, Capitão Phillips
Bradley Cooper, Trapaça
Daniel Brühl, Rush
Michael Fassbender, 12 Anos de Escravidão
Jared Leto, Dallas Buyers Club

atriz coadjuvante

Jennifer Lawrence, Trapaça
Julia Roberts, Álbum de Família
June Squibb, Nebraska
Lupita Nyong’o, 12 Anos de Escravidão
Sally Hawkins, Blue Jasmine

roteiro

12 Anos de Escravidão, John Ridley
Ela, Spike Jonze
Nebraska, Bob Nelson
Philomena, Jeff Pope & Steven Coogan
Trapaça, David O. Russell & Eric Warren Singer

Azul é a Cor Mais Quente

filmes estrangeiro

Azul É a Cor Mais Quente, Abdellatif Kechiche
A Caça, Thomas Vintenberg
A Grande Beleza, Paolo Sorrentino
O Passado, Ashgar Farhadi
The Wind Rises, Hayao Miyazaki

animação

Os Croods, Kirk De Micco & Chris Sanders
Frozen – Uma Aventura Congelante, Chris Buck & Jennifer Lee
Meu Malvado Favorito 2, Pierre Coffin & Chris Renaud

trilha sonora

12 Anos de Escravidão, Hans Zimmer
All Is Lost, Alexander Ebert
Gravidade, Steven Price
Mandela: Long Walk to Freedom, Alex Heffes
A Menina Que Roubava Livros, John Williams

canção

“Atlas”, Jogos Vorazes: Em Chamas
“Let It Go”, Frozen
“Ordinary Love”, Mandela: Long Walk to Freedom
“Please Mr. Kennedy”, Inside Llewyn Davis
“Sweeter Then Fiction”, One Chance

Novas previsões para o Oscar 2014, já sob o impacto dos indicados ao SAG e ao Globo de Ouro.

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