Monthly Archives: novembro 2013

Independent Spirit Awards 2013: indicados

Nebraska

Algumas omissões notáveis na lista de indicados ao Independent Spirit Awards, o Oscar dos filmes indies. A primeira é a Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, que não conseguiu vaga entre os melhores filmes, diretores e atores, restando ao terceiro capítulo da saga romântica Jesse e Celine menções para o roteiro e para a interpretação de Julie Delpy, que, curiosamente, perde para a de Ethan Hawke neste novo filme. Curiosamente, o longa de Linklater conseguiu ser lembrado justamente onde Frances Ha foi esnobado, nas categorias em que o filme era considerado forte, atriz e roteiro. Noah Baumbach também não entrou no quesito dos diretores, mas o filme concorre na categoria principal e em montagem.

Amor Bandido, de Jeff Nichols, aparece sozinho na lista do Robert Altman Award, que premia o conjunto de profissionais envolvidos no filme, talvez para tapear o fato de que o longa não foi indicado em nenhuma outra categoria que não diretor. Matthew McConaughey, no entanto, foi lembrado por Dallas Buyers Club, que também tinha chances de concorrer a melhor filme, mas ficou apenas no terreno das interpretações. Jared Leto também aparece na lista dos coadjuvantes masculinos. Com isso, as chances de que o longa emplaque alguma categoria que não estas duas o Oscar ficam bem menores. Mas se alguns perdem, outros ganham e 12 Anos de Escravidão e Nebraska saem fortalecidos para a disputa da Academia.

O longa de de Steve McQueen foi o mais indicado: concorre em filme, direção, ator (Chiwetel Ejiofor), atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o), ator coadjuvante (Michael Fassbender), roteiro e fotografia e se reafirma como favorito para o Oscar. Provavelmente reprisará todas as menções no prêmio da Academia Nebraska, de Alexander Payne, que já vinha crescendo bastante nas apostas nas últimas semanas, foi lembrado em filme, direção, roteiro de estreia, ator (Bruce Dern), atriz coadjuvante (June Squibb) e ator coadjuvante (Will Forte), que vem sendo bastante citado no buzz para o Oscar e pode se aproveitar do excesso de candidatos com chances medianas nesta categoria. O longa de Payne também tem possibilidades reais de emplacar todos estes indicados no Oscar.

Inside Llewyn Davis

O papa do indie Robert Redford concorre como melhor ator e viu seu All is Lost citado em filme, direção (J.C. Chandor) e fotografia. Com isso, tanto o longa quanto Chandor passam a ter chances concretas de indicação. Já Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, aparece em filme, ator (Oscar Isaac) e fotografia. O primeiro e o último parecem apostas certas. Isaac deu azar de o filme ter sido lançado num ano fortíssimo para atores. Sem menção de direção, os irmãos ficam mais fragilizados em sua própria categoria, mas ainda têm chances. Fruitvale Station não viu sua candidata mais celebrada, Octavia Spencer, entre as coadjuvantes (em seu lugar entrou Melonie Diaz, sua colega de elenco), mas recebeu nods em filme (de estreia) e ator (Michael B. Jordan), quesitos em que dificilmente será lembrado no Oscar.

James Gandolfini foi lembrado como coadjuvante por Enough Said, que entrou também roteiro. Essa homenagem póstuma pode não ficar só aqui.

filme

All is Lost
Frances Ha
Inside Llewyn Davis
Nebraska
12 Anos de Escravidão

diretor

J.C. Chandor, All is Lost
Jeff Nichols, Amor Bandido
Alexander Payne, Nebraska
Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão
Shane Carruth, Upstream Color

filme de estreia

Cadillac Azul
Concussion
Fruitvale Station
Una Noche
O Sonho de Wadjda

roteiro

Antes da Meia-Noite
Blue Jasmine
Enough Said
The Spectacular Now
12 Anos de Escravidão

roteiro de estreia

Afternoon Delight
Como Não Perder Essa Mulher
In a World
The Inevitable Defeat of Mister and Pete
Nebraska

atriz

Cate Blanchett, Blue Jasmine
Julie Delpy, Antes da Meia-Noite
Gaby Hoffman, Crystal Fairy e o Cactus Mágico
Brie Larson, Short Term 12
Shailene Woodley, The Spectacular Now

ator

Bruce Dern, Nebraska
Oscar Isaac, Inside Llewyn Davis
Michael B. Jordan, Fruitvale Station
Matthew McConaughey, Dallas Buyers Club
Robert Redford, All is Lost
Chiwetel Ejiofor, 12 Anos de Escravidão

atriz coadjuvante

Melonie Diaz, Fruitvale Station
Sally Hawkins, Blue Jasmine
Lupita Nyong’o, 12 Anos de Escravidão
Yolonda Ross, Go For Sisters
June Squibb, Nebraska

ator coadjuvante

Michael Fassbender, 12 Anos de Escravidão
Will Forte, Nebraska
James Gandolfini, Enough Said
Jared Leto, Dallas Buyers Club
Keith Stanfield, Short Term 12

fotografia

All is Lost
Computer Chess
Inside Llewyn Davis
Spring Breakers
12 Anos de Escravidão

montagem

Frances Ha
Museum Hours
Short Term 12
Una Noche
Upstream Color

documentário

O Ato de Matar
After Tiller
Gideon’s Army
The Square
20 Feet from Stardom

filme estrangeiro

Azul é a Cor Mais Quente
Gloria
A Grande Beleza
A Caça
Um Toque de Pecado

Robert Altman Award

Amor Bandido

John Cassavetes Award

Computer Chess
Crystal Fairy e o Cactus Mágico
Museum Hours
Pit Stop
This is Martin Bonner

Piaget Producers Award

Toby Halbrooks & James M. Johnston
Jacob Jaffke
Andrea Roa
Frederick Thornton

Someone to Watch Award

Aaron Douglas Johnston, My Sisters Quinceañera
Shaka King, Newlyweeds
Madeline Olnek, The Foxy Merkins

Truer than Fiction award

Kalyanee Mam, A River Changes Course
Jason Osder, Let the Fire Burn
Stephanie Spray & Pacho Valez, Manakamana

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Curta: Aningaaq

Nada está fora do lugar em Gravidade, de Alfonso Cuarón: dos cenários virtuais à maneira como a câmera enquadra os atores, tudo foi milimetricamente calculado para que esta fosse uma das maiores experiências cinematográficas deste ano. Principalmente, o texto, escrito pelo cineasta mexicano e por seu filho, Jonás. Coube ao Cuarón mais jovem dirigir Aningaaq, spin-off do longa, que mostra o outro lado da cena em que a personagem de Sandra Bullock consegue fazer contato via rádio com alguém na Terra. A câmera documental de Jonás apresenta o protagonista, que batiza o curta e tem sua rotina interrompida por uma ligação da qual ele desconhece a origem. Se no longa esta cena, propositadamente comprida, provavelmente já com o projeto do curta em mente, quebra um pouco da fluidez do filme, aqui, sob outro ponto de vista, ela não apenas se justifica, como fica encantadora. Em Gravidade, tudo o que o espectador tinha direito é a um diálogo em que só se entendia o que um personagem falava. Aqui, compreendendo o que estava por trás daquele rádio, é mais fácil entender porque aquela conversa durou tanto, porque ela foi tão importante para a personagem de Bullock e porque as coisas podem ser bem mais imensas do que imaginamos, inclusive os curtas.

Aningaaq EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Aningaaq, Jonas Fuarón, 2013]

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Jovem e Bela

Jovem e Bela

A adolescência é um período cheio de mistérios e François Ozon decidiu respeitá-los em seu último filme. Em vez de procurar desvendar estes enigmas, o diretor prefere usá-los para seduzir o espectador. A estrutura de Jovem e Bela, dividido nas quatro estações de um ano, não acrescenta muito a esta investigação sobre a sexualidade juvenil, embora este seja o melhor filme que o cineasta dirigiu nos últimos oito anos. Se o parisiense parece não ter encontrado uma moldura muito original para contar sua história – o corte em capítulos é lugar comum, inclusive -, sua reflexão sobre os dilemas de uma garota de classe alta que descobre as possibilidades de seu próprio corpo ganha ares existencialistas.

A protagonista é Isabelle, uma jovem de 17 anos que decide se transformar numa prostituta de luxo sem um motivo aparente. Diante de um ponto de partida como este, a opção mais lógica seria montar um mosaico de situações para identificar os motivos da personagem, mas Ozon rejeita esta fórmula. O espectador acompanha a protagonista durante um ano, conhecendo suas dúvidas e curiosidades, mas o diretor nunca impõe uma verdade para aquela adolescente. Parece querer descobrindo, junto com, ela, quais são seus desejos. Não existe questão social ou econômica envolvida, o que torna a trilha seguida pela protagonista mais sedutora. Tanto quanto a própria.

A modelo Marina Vacht, estreante, impressiona pela beleza e por conseguir traduzir tanto a frigidez quanto a fragilidade da personagem. Sua Isabelle parece querer experimentar. Assim como Ozon. Ele se utiliza de uma embalagem de suspense psicológico ajuda a manter a tensão e insinuar repostas, mas recusa a maneira mais fácil de conduzir a história. O espectador mergulha no universo complexo da protagonista, mas nunca tem real acesso a ela. O diretor parece usar Isabelle como porta-voz de uma geração confusa que não sabe ou não quer se comunicar.

Jovem e Bela EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [Jeune & Jolie, François Ozon, 2013]

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Blue Jasmine

Blue Jasmine

O conto moral, por sua própria natureza, tende a apontar culpados. Os protagonistas geralmente são submetidos às conseqüências dos atos que cometeram e, mesmo que o narrador se desdobre para apresentar todas as facetas de suas personalidades, os personagens parecem destinados a alguma estância de condenação. Partindo destes pressupostos, Blue Jasmine é um conto moral clássico, com sua personagem-título sendo submetida incessantemente a todo o tipo de provas. Situações que abalam seu emocional e sua própria sanidade – e que colocam o espectador naturalmente do seu lado.

Mas Woody Allen, manipulador experiente, assume o papel de algoz: o diretor não tem pudores em explicar em flashbacks didáticos demais o porquê de tudo o que está acontecendo na vida de Jasmine. Cate Blanchett interpreta uma ex-socialite de hábitos requintados que viu a vida de jantares, festas, compras e viagens ruir depois que sua família foi à falência e seu marido, preso. É obrigada a trocar uma Nova York de grandes apartamentos e ruas luxuosas pela São Francisco de cômodos apertados onde vive sua irmã nada refinada.

Às vésperas de completar 78 anos, Allen parece querer investigar um dos assuntos da moda, a crise financeira. Mal sabe ele que o tema já anda um pouco defasado e que adotar esse tom de acusação para anabolizar a culpa de sua protagonista não ajuda muito a dinamizar o novo filme. Blue Jasmine trabalha com opostos definidos e conceitos velhos (rico = vilão, desonesto, infeliz; pobre = mocinho, honesto, feliz). Essa fórmula incomoda o ponto de o filme, não poucas vezes, parecer uma reciclagem de temas e posturas explorados anteriormente – e melhor – tanto por Allen quanto por outros de seus cineastas favoritos.

Nos resta acompanhar a maneira encantada como o diretor filma Cate Blanchett, sempre gigante na tela, estando a câmera fechada em seu rosto ou acompanhando de longe seus movimentos. É apenas na forma como enquadra a atriz que Allen parece ter alguma consideração pela personagem. E Blanchett engole o texto e devora seus colegas de cena, todos bastante funcionais, mas a serviço de sua performance monstruosamente perturbada. Por causa desta grade atriz, a tragédia da triste Jasmine é finalmente humanizada.

Blue Jasmine EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Blue Jasmine, Woody Allen, 2013]

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Jogos Vorazes: Em Chamas

Jogos Vorazes: Em Chamas

Trocar de comando é sempre arriscado, seja no mundo dos negócios, seja no cinema – lembrando que, muitas vezes, esses dois campos são sinônimos. Ainda mais quando se está falando de uma franquia direcionada ao público adolescente, baseada numa coleção de best-sellers e cujo primeiro capítulo de sua versão cinematográfica fez um inesperado sucesso. Mesmo com tantos prós, Gary Ross não retornou à cadeira de diretor em Jogos Vorazes: Em Chamas. E por decisão dele mesmo. Os motivos que o fizeram declinar do convite pouco importam. O fato é que seu substituto, Francis Lawrence, fez muito melhor.

Na visão do novo diretor, o filme anterior cumpriu seu papel de introduzir o espectador àquele universo e isso é o suficiente. Em Chamas não tem nenhuma preocupação em contextualizar os personagens para quem não assistiu ao primeiro capítulo desta história, é um filme que se assume como sequência do começo ao fim. A decisão tem algo de surpreendente porque os grandes estúdios têm mania de tratar os espectadores com fraldas e chupetas, o que gera sequências desnecessárias e repetitivas e infla os filmes. Lawrence, sem qualquer pudor, faz a história correr e, em outra opção arriscada, coloca a ação em segundo plano.

Em sua essência, este novo longa é um filme político. Lawrence descreve com detalhes a transformação de Katniss Everdeen depois da vitória nos jogos. Gasta sequências inteiras para mostrar como a protagonista se acomodou em sua natureza inquieta, como ela parece disposta a aceitar o papel que lhe é imposto e como passa a perceber que não está sozinha. Jennifer Lawrence, pós-Oscar, ganha mais espaço para desenvolver a personagem e suas relações com o namorado Gale e o parceiro Peeta. O foco do diretor é nos bastidores e mecanismos da sociedade distópica em que a história acontece. Katniss é jogada nas engrenagens do sistema e colocada à prova.

Os novos jogos só entram em cena depois de uma hora e meia de filme. E, numa terceira decisão polêmica, Francis Lawrence não se interessa muito em mostrar as mortes dos participantes, o que o primeiro filme tinha de sobra e que costuma atender às expectativas de um público adolescente ávido por ação. Embora esta opção sacrifique alguns personagens – como Mags, que poderia ganhar mais tempo de filme e ser melhor desenvolvida – parece atender aos planos do diretor que se dedica a traduzir o crescente clima de insurreição em Panem.

De forma discreta, o filme ganha um tom épico que não esquece sua natureza de espetáculo, mas procura dar credibilidade a sua discussão sobre os excessos do poder. Ciente de suas obrigações para com os dois lados, Lawrence nos entrega um delicioso filme pop com 134 minutos de pouca ação e muita insinuação que fizeram uma sala de cinema vibrar em pleno início de feriadão. Poucas vezes, nos últimos tempos, Hollywood traduziu tão bem o “pão e circo”. E sem concessões.

Jogos Vorazes: Em Chamas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Hunger Games: Catching Fire, Francis Lawrence, 2013]

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Entrevista: Hilton Lacerda

O nome do pernambucano Hilton Lacerda ajudou a construir um certo cinema jovem brasileiro, que se desenha desde a segunda metade da década de 90. São deles os roteiros de filmes importantes como Baile Perfumado, Amarelo Manga e A Festa da Menina Morta. Parceiro de longa data de Cláudio Assis, Lacerda assinou os roteiros de todos os seus longas. A estreia na direção aconteceu com o documentário Cartola – Música para os Olhos, onde dividiu as rédeas com outro colaborador, Lírio Ferreira. O belíssimo Tatuagem, vencedor do Festival de Gramado, libelo libertário sobre um grupo de teatro dos anos 70, no Recife, é sua primeira ficção como diretor. Para falar do processo de criação do filme, bati um papo com Hilton, que vocês acompanham aqui.

Hilton Lacerda

Você tem uma longa experiência como roteirista. Como surgiu a vontade de virar diretor?

A idéia de ser diretor sempre esteve presente em meu horizonte. Já havia dirigido dois curtas (Simião Matiniano - O Camelô do Cinema e A Visita), além da experiência narrativa com Lírio Ferreira no Cartola, Música Para Os Olhos. Mas o roteiro terminou se tornando mais urgente, mais pontual – principalmente nas parcerias/cumplicidades que comecei a fazer, com Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Kiko Goifman, Matheus Nachtergaele… De certa maneira essa cumplicidade era uma contribuição muito intima nas minhas convicções narrativas. Mas existem alguns projetos que você elege como muito, mas muito, pessoais. E Tatuagem se insere aí: a necessidade de colocar em prática conceitos pessoais com relação ao modo e ao sentimento de determinada condução. E pode parecer um tanto estranho, mas adoro set de filmagem – não raro os roteiristas declaram aos cantos a repulsa estar presente a execução de seus roteiros. Vai ver que trabalhar com quem você se afina muda esse eixo. Vai ver que é isso.

Você demonstra muita segurança nesta ‘nova’ função. Filma cenas fortes com muita elegância e fluidez, mas sem perder um quê popular. Teve algo – ou alguém – que te inspirou?

O cinema nacional, principalmente o segundo momento do Cinema Novo e do cinema marginal, sempre me inspirou do ponto de vista de construir uma linguagem específica. Me incomoda o distanciamento que estamos tomando de nossa cinematografia. Claro que isso não é geral, mas é interessante como a cartilha universal, em muitos aspectos, tem direcionado uma conduta bastante espelhada em modelos aceitos, comprovados, aplaudidos – esteja isso no universo do cinema convencional, esteja isso dialogando com o cinema mais inventivo. Às vezes, acredito que estamos nos acostumando a dar conta ao olhar do outro. A cartilha pode ser muito útil e confortável, mas não me satisfaz. E acredito que deveríamos estar mais preocupados em corromper que em concordar.

E nesse processo muitos filmes foram importantes. Mas A Lira do Delírio (Walter Lima Jr) e Sem Essa Aranha (Rogério Sganzela), durante minhas buscas, foram fundamentais. Mas claro que (Tsai) Ming-Liang, Apichatpong (Weerasethakul), João Pedro Rodrigues, Carlos Reichenbach, (Pier Paolo) Pasolini, (Luis) Buñuel e todos aqueles que fizeram e fazem parte de minha educação sentimental estão, de certa forma, ali presentes. Acredito que apreender uma narrativa é manipular conhecimento em busca de um caminho próprio.

Tatuagem mantém um certo espírito “anarquista” que aparece mais violentamente nos filmes que você escreveu para Cláudio Assis. Mas no seu filme, essa anarquia tem outro tom, mais empático. Qual a diferença principal entre escrever um filme que o Cláudio dirigiria e um totalmente seu?

Os roteiros que escrevi para Cláudio Assis fazem parte de uma parceria bastante estimulante. Primeiro pela liberdade que tenho ao escrever e mudar eixos e explorar possibilidades. Esses projetos têm muito de pessoal. Mas existe um olhar também muito pessoal de Cláudio, uma forma bastante original de dirigir e colocar suas ideias. Coisas que coloco podem ganhar cores diferentes pelas mãos de Cláudio, e outras são aquelas que coloco certo grau de virulência, pois quando estamos trabalhando em parceria estamos trocando confianças e conhecer o outro faz parte desse processo. Assim, digamos que usamos de armas diferentes quando propomos nosso olhar.

O roteiro de Tatuagem apresenta o cu como o instrumento revolucionário máximo. Como surgiu essa idéia?

A idéia do cu faz parte dessa estratégia de transformar o próprio corpo em instrumento de mudança e de provocação. Mas tinha, desde o início, uma intuição em procurar por onde minhas idéias podiam ganhar uma dimensão banal e unificante. O cu não é uma sacada tão original, mas bastante interessante no âmbito específico do filme. Além de achar bastante curioso como o cu foi elevado a uma dimensão depravada no Brasil. Em Portugal o cu está em todo parte; o cu americano é quase um ente querido; na Rússia, tem cu que quer ter dentes; na França, ele tem valor intrínseco. No Brasil, ele é relevado. Elegê-lo como símbolo de resistência tem sua graça. E sua eficiência.

É impossível sair do cinema sem cantarolar “Polka do Cu”. Como surgiu a letra?

As letras e as idéias das letras estão sugeridas no roteiro. Quando chamei DJ Dolores para participar da composição do filme conversamos bastante sobre o que estava ali, enquanto palavra, e o que eu pretendia. A partir de nossas conversas, e com total liberdade de Dolores – somada a um talento bastante provocador – ele construiu essa polka. A única coisa que eu queria, e ele concordava – e até radicalizava – é que a composição precisava ter um apelo teatral popular, que fosse ouvida e logo depois ficasse colada na imaginação. Outra coisa que pedi era para não perder a brincadeira – bastante pobre – de aproximar o “tem cu” com o “thank you”.

Tatuagem tem um fortíssimo lado musical. Você escreveu as músicas? Quais as composições feitas para o filme?

Desde o início, quando estava mais ou menos fechado o argumento do Tatuagem, a idéia de uma musical rondava o projeto. Comecei a sugerir as composições, mas estava claro para mim que a trilha pertencia ao DJ Dolores, com quem tenho uma parceria bastante longa. As músicas dos espetáculos foram realizadas para o filme – mesmo aquelas de cunho popular foram revisitadas por Dolores e pelo grupo Chão de Estrelas. E precisávamos aprontá-las anteriormente, pois a maioria das músicas são cantadas ao vivo. As músicas dubladas são apenas as que fazem parte de espetáculo de dublagem. No caso a composição “Álcool”, que é do DJ Dolores, e no filme é dublada pelo ator Diego Salvador.

Outras composições foram feitas ou emprestadas ao filme a partir das escolhas de Dolores, como “Valete” (de Lirinha, e interpretada por Ângela Rô Rô, Otto e o próprio Lirinha), “Volta” (de Johnny Hooker, interpretada ao vivo por ele e seu guitarrista) e “Eu Vou Tirar Você da Cara” (do Feiticeiro Julião).

As músicas mais tradicionais, como “Esse Cara”, de Caetano Veloso (interpretada ao vivo por Irandhir Santos e acompanhada por Yuri Queiroga), “A Noite de Meu Bem”, de Dolores Duran, e “Bandeira Branca”, de Almir Rouche, na clássica versão de Dalva de Oliveira, estavam indicadas. Mas tudo fazia parte da construção musical, que procurava mergulhar numa visão bastante contemporânea de determinado tempo, revisitando standards e experiências (a última composição do filme, antes de “Bandeira Branca”, é uma homenagem a o músico Edgar Varèse.)

Seu filme oferece uma nova direção para o cinema com temática gay no Brasil. É um filme do qual se gosta facilmente talvez porque seja libertário e não panfletário. Você teve alguma preocupação em fazer um filme não agressivo para um público, digamos, convencional?

A questão da relação homoafetiva no filme faz parte da própria estrutura em que o momento que pretendia debater se insere. Claro que minha própria vivência no universo gay me estimula a um outro olhar, não menos excessivo, mas contornado de afetividade. E como o filme está mais para a bandeira libertária e da reflexão, me interessa não abrir exceção. Interessa, sim, corromper o eixo do olhar em relação a questões da sexualidade, do pós-gênero.

O Estado brasileiro, que preferiu uma aproximação conservadora para garantir apoio e governabilidade, tem se colocado muito distante de questões que realmente norteiam questões que devem ser confrontadas e não largadas ao balanço de uma democracia sem representação. Interessa saber quem tem o olhar constrangido. E duvido muito que um público “convencional” não ache o próprio mundo agressivo. Não consigo vislumbrar esse público – me parece uma questão bastante abstrata. Mas o próprio cinema – talvez a vida – está se mostrando bastante convencional para promover o conflito que nos leva a questões bastante importantes, como a construção da civilidade.

O cinema pernambucano tem produzido alguns dos filmes mais interessantes dos últimos tempos. Tanto filmes que renovam temas quanto renovam linguagem. A que você atribui esse momento criativo?

Creio que Pernambuco teve a felicidade de, em determinado momento, somar uma onda criativa, principalmente na música e no cinema, e chamar a atenção para uma produção que há muito está sendo alimentada. Não é algo novo, mas que tem, paulatinamente, se colocado em relação a novas possibilidades de construir narrativas e estimular conteúdos na cinematografia contemporânea. Mas claro que não é apenas de criatividade que nos alimentamos. A conquista de editais e leis, a partir da pressão de classe, talvez seja a força motriz para manter esse cinema atuante e livre.

Essa é uma junção fundamental e que termina por retroalimentar a produção. E, talvez o mais importante, acredito que Pernambuco, por necessidade, conseguiu “inventar” uma forma de produzir seus filmes, onde as possibilidades da estrutura conversa muito diretamente com a capacidade de criação. Nossas deficiências procuram soluções inventivas. Creio que esses três tópicos dêem pistas sobre a força do cinema realizado em nosso Estado.

Você pode apontar seus dez filmes favoritos?

Sempre acho difícil realizar um lista de dez filmes (fossem 100 teria a mesma dificuldade). Mas vou listar aquilo, que no momento, rodam aqui em volta da cabeça:

O Leopardo [Luchino Visconti, 1963]

Crepúsculo dos Deuses [Billy Wilder, 1950]

Rio 40 Graus [Nelson Pereira dos Santos, 1955]

O Anjo Exterminador [Luis Buñuel, 1962]

As Mil e Uma Noites [Pier Paolo Pasolini, 1974]

Anjos do Arrabalde [Carlos Reichenbach, 1987]

Mal dos Trópicos [Apichatpong Weerasethakul, 2004]

Ivan, O Terrível [Sergei Eisestein, 1944]

Terra em Transe [Glauber Rocha, 1967]

Memórias do Subdesenvolvimento [Tomás Gutierrez Alea, 1968]

Já comecei a engordar a lista, mas vou deixar de lado meu sentimentalismo. Afinal, toda a lista é feita para alimentar culpas.

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Tatuagem

Tatuagem

Onde Hilton Lacerda estava escondido nos últimos dez anos? Bastou o roteirista sair da sombra de Cláudio Assis, de quem escreveu todos os longas, para se revelar um provocador romântico com uma extrema consciência do mundo em que vive, mas com uma leveza para dar fluxo a suas ideias e uma sofisticação sem par para materializar as cenas que imagina. Tatuagem, sua primeira ficção, é um assombro. Seja pelo extremo cuidado com as imagens, a trilha e som; seja por causa do requinte do texto, atento ao Brasil de 1978, mas sem ranço sindicalista.

A sutileza, esse talento incomum que o diretor revela para movimentar sua história, deveria esbarrar na militância de Assis, para quem a provocação nunca foi suficiente. Era preciso ir para a guerra. Sem ter que dividir responsabilidades e méritos com o amigo, Lacerda fez um manifesto político apaixonado que, sem grandes eventos morais, acha numa pequena história sobre encontros e desencontros, o espaço ideal para dar voz ao autor. Ele veste as fantasias dos atores do grupo de teatro cuja trajetória acompanha para acomodar seu discurso libertário.

Várias vezes ao longo do filme, na boca de seu protagonista Clécio – Irandhir Santos, talvez o melhor ator brasileiro desta década -, o cineasta explica sua revolução. As apresentações e os números musicais que concebe em riqueza de detalhes para o filme são transgressão pura e simples. O mais radical deles é uma “ode ao cu”, reverenciado como instrumento revolucionário máximo. A cena, brilhantemente fotografada, assim como todo filme, é mais forte do que qualquer arroubo de Cláudio Assis. Lacerda contrapõe militares e artistas, mas são esses que se assumem como soldados. Soldados da mudança.

A cena de sexo entre Clécio e Fininha, personagem do novato – e ótimo – Jesuíta Barbosa, é belíssima: longa, coreografada como um balé, sensual e quase explícita. De uma ousadia que deixa qualquer Sergio Bianchi no chinelo. O momento, explosivo como quase tudo em Tatuagem, também é de uma delicadeza extrema como na cena em que o casal dança ao som de A Noite do Meu Bem. Mesmo quando recicla ideias e símbolos desgastados, como esta canção, Lacerda encontra o tom para encaixá-los na linha da vida de seu filme. História e trangressão caminham lado a lado. E de mãos dadas.

Da direção de fotografia ao desenho de som, da trilha sonora ao texto, das interpretações à montagem. Tudo é lindo e tudo é vivo em Tatuagem. Não existe escândalo na aproximação entre o diretor do grupo de teatro e o soldado. Não existe estranhamento no fato de um homossexual assumido ter tido um filho com uma mulher bem resolvida. Não existe tratamento diferente para as afetações e os trejeitos de personagens como Paulete. A viadagem também era a vida em 1978, diz Lacerda. Cabe ao mundo, atrasado, acompanhar.

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[Tatuagem, Hilton Lacerda, 2013]

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Palma de Ouro e filme de artes marciais de Keanu Reeves podem concorrer ao Globo de Ouro

O site The Wrap divulgou hoje uma lista com 58 títulos, que seria dos filmes pré-selecionados para o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Destes, 32 longas também são elegíveis para o Oscar. O prêmio da Academia e o Globo de Ouro usam padrões diferentes para selecionar os filmes que podem disputar vagas entre os estrangeiros. Para o Oscar, cada país precisa indicar oficialmente um candidato. Para o Globo de Ouro, os diretores ou produtores podem inscrever diretamente os filmes e exibi-los de alguma forma para os integrantes da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood. O candidato brasileiro ao Oscar, O Som ao Redor, [ao contrário do que eu havia afirmado anteriormente aqui], não pode concorrer neste ano porque já havia sido elegível no ano passado. O elogiado A Imagem que Falta, indicado da Camboja ao Oscar, e o mexicano Heli, representante do México,  também não aparecem na lista.

Por outro lado, alguns filmes que foram esnobados pela Academia são, segundo a relação do The Wrap, elegíveis para o Globo de Ouro de filme estrangeiro. O caso mais notável é o de Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, Palma de Ouro em Cannes, que perdeu a vaga da França no Oscar para o genérico Renoir. Os japoneses The Wind Rises, filme de despedida de Hayao Miyazaki, e Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-eda, ambos filmes elogiados, também concorreriam ao Globo de Ouro. The Lunchbox, da Índia, também ausente do Oscar, estaria elegível, assim como Os Amantes Passageiros, de Pedro Almodóvar. Um caso estranho é o de Alabama Monroe, que na lista dos Globos aparece como um filme holandês, mas que concorre ao Oscar pela Bélgica. Mas a inclusão mais notável é a Man of Tai Chi, filme americano falado em chinês – e dirigido pelo ator Keanu Reeves – que disputaria o prêmio, provando que os integrantes do Globo de Ouro não resistem a uma estrela. Resta saber se a lista é verdadeira.

Pais e Filhos

Veja a lista de filmes que podem disputar o Globo de Ouro de filme estrangeiro:

Alemanha: Duas Vidas[Zwei Leben, Georg Maas]
Arábia Saudita: O Sonho de Wajda [وجدة, Haifaa al-Mansour]
Argentina: Wakolda EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Wakolda, Lucía Puenzo]
Austrália: O Foguete EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [The Rocket, Kim Mordaunt]
Canada: Another House [L'Autre Maison, Mathieu Roy]
Canadá: Gabrielle [Gabrielle, Louise Archambault]
Chile: Gloria [Gloria, Sebastián Lelio]
Chile: The Vineyard [Tierra De Sangre, James Katz]
China: Back to 1942 [Yi Jiu Si Er, Feng Xiaogang]
China/EUA: Man of Tai Chi [Man of Tai Chi, Keanu Reeves]
China: Fall of Ming [Da Ming Jie, Wang Jing]
China: Um Toque de Pecado EstrelinhaEstrelinha½ [Tian Zhu Ding, Jia Zhang-ke]
Cingapura: Ilo Ilo EstrelinhaEstrelinha½ [爸妈不在家, Anthony Chen]
Coreia do Sul: Jovem Infrator [범죄소년, Kang Yi-kwan]
Dinamarca: A Caça EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [Jagten, Thomas Vintenberg]
Espanha: 15 Years and One Day [15 años y un día, Gracia Querejeta]
Espanha: Os Amantes Passageiros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Los Amantes Pasajeros, Pedro Almodóvar]
Filipinas: Vosso Ventre [Thy Womb, Brillante Mendoza]
Filipinas: Transit [Transit, Hannah Espia]
Finlândia: Above Dark Waters [Tumman Veden Päällä, Peter Franzén]
Finlândia: Disciple [Lärjungen, Ulrika Bengts]
Finlândia: 8-Ball [8-Pallo, Aku Louhimies]
França: Augustine [Augustine, Alice Winocour]
França: Azul é a Cor Mais Quente [La Vie d'Adéle, Abdellatif Kechiche]
França: Ernest and Celestine [Ernest et Célestine, Stéphane Aubier, Vincent Patar & Benjamin Renner]
França: A Datilógrafa [Populaire, Régis Roinsard]
França: Renoir [Renoir, Gilles Bourdos]
Grécia: O Garoto que Come Alpiste EstrelinhaEstrelinha½ [Το Αγόρι Τρώει το Φαγητό του Πουλιού, Ektoras Lygizos]
Grécia: What If… [An..., Christoforos Papakaliatis]
Holanda: Alabama Monroe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [The Broken Circle Breakdown, Felix van Groeningen]
Hong Kong: O Grande Mestre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [一代宗師, Wong Kar-Wai]
Hungria: Aglaya [Aglaya, Krisztina Deák]
Índia: The Lunchbox [The Lunchbox, Ritesh Batra]
Irã: O Passado [گذشته, Ashghar Farhadi]
Israel: Bethlehem [בית לחם,Yuval Adler]
Itália: A Grande Beleza [La Grande Bellezza, Paolo Sorrentino]
Itália: The Mother
Japão: Pais e Filhos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½  [Soshite Chichi ni Naru, Hirokazu Kore-eda]
Japão: The Wind Rises EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Kaze Tachinu, Hayao Miyazaki]
Letônia: Mother I Love You [Mammu, es Tevi Mīlu, Jānis Nords]
Líbano: The Attack [The Attack, Ziad Doueiri]
Marrocos: God’s Horses [يا خيل الله, Nabil Ayouch]
México: The Last Call [?]
México: Instructions Are Not Included [No se Aceptan Devoluciones, Eugenio Derbez]
México: We Are Nobles [Nosotros los Nobles, Gary Alazraki]
Moldávia: All God’s Children [All God’s Children, Adrian Popovici]
Noruega: I Am Yours [Jeg er din, Iram Haq]
Palestina: Omar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [عمر, Hany Abu-Assad]
Peru: The Cleaner [El Limpador, Adrián Saba]
Polônia: Walesa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Wałęsa. Człowiek z nadziei, Andrzej Wajda]
República Tcheca: Burning Bush [Horící ker, Agnieszka Holland]
Romênia: Instinto Materno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ [Poziţia Copilului, Călin Peter Netzer]
Rússia: Stalingrad [Сталинград, Fedor Bondarchuk]
Senegal/França: Hoje EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Tey, Alain Gomis]
Sérvia: Círculos EstrelinhaEstrelinha½ [Кругови, Srdan Golubovic]
Suíça: More than Honey [More than Honey, Markus Imhoof]
Turquia: The Butterfly’s Dream [Kelebeğin Rüyası, Yılmaz Erdoğan]

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100 cineastas elegem seus 10 filmes favoritos de todos os tempos

A cada dez anos, a revista inglesa Sight & Sound renova sua enquete sobre os melhores filmes de todos os tempos, iniciada em 1962. São produzidas duas listas: uma é resultado da votação de críticos; a outra sai das relações de centenas de cineastas. A última enquete foi publicada no ano passado e contou com os votos de 358 diretores das mais variadas origens, idades e históricos. Pesquei do site da revista as listas pessoais de 100 deles (traduzi todos os títulos para as versões brasileiras), de grandes nomes do cinema norte-americano, como Woody Allen e Quentin Tarantino, a autores asiáticos como Tsai Ming-Liang e Hirokazu Kore-eda. Alguns brasileiros que foram consultados também estão aqui, como Walter Salles e Tata Amaral.

Nas listas, algumas curiosidades: Francis Ford Coppola escolheu dois filmes de Martin Scorsese entre seus dez favoritos, mas o colega não lembrou de nenhum filme dele. Bruce LaBruce, famoso por seus filmes com cenas de sexo explícito, citou filmes de Pasolini e Godard. Terry Jones, do Monty Python, elegeu Toy Story 3 e o diretor de Superbad, Greg Mottola, defendeu 2001. Matthew Vaughn, de X-Men: Primeira Classe, foi de Rocky III, enquanto Michael Mann abraçou Avatar e Biutiful. O argentino Lisandro Alonso votou no tailandês Apichatpong Weerasethakul que votou no húngaro Béla Tarr. Veja as listas dos diretores no original, em inglês, aqui.

Os dez filmes favoritos dos cineastas foram estes:

1 Era uma Vez em Tóquio
[Tokyo Story, Yasujiro Ozu, 1953]

2 2001 – Uma Odisseia no Espaço
[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968]

2 Cidadão Kane 
[Citizen Kane, OrsonWelles, 1941]

4 8 ½
[8 ½, Federico Fellini, 1963]

5 Taxi Driver
[Taxi Driver, Martin Scorsese, 1976]

6 Apocalypse Now 
[Francis Ford Coppola, 1979]

7 O Poderoso Chefão
[Francis Ford Coppola, 1972]

7 Um Corpo que Cai 
[Vertigo, AlfredHitchcock, 1958]

9 O Espelho
[Zerkalo, Andrey Tarkovsky, 1974]

10 Ladrões de Bicicletas
[Ladri di Biciclette, Vittorio De Sica, 1948]

Abaixo as listas individuais de 100 cineastas:

Armadilha do Destino

Abel Ferrara
de Maria

Armadilha do Destino [Roman Polanski, 1966]
Os Demônios [Ken Russell, 1971]
Gaviões e Passarinhos [Pier Paolo Pasolini, 1966]
Prisão [Ingmar Bergman, 1949]
Lolita [Stanley Kubrick, 1962]
Os Esquecidos [Luis Buñuel, 1950]
Ran [Akira Kurosawa, 1985]
A Marca da Maldade [Orson Welles, 1958]
Uma Mulher sob Influência [John Cassavetes, 1974]
Zero de Conduta [Jean Vigo, 1933]

Agnieszka Holland
de Filhos da Guerra

Barry Lyndon [Stanley Kubrick, 1975]
Diamonds of the Night [Jan Nemec, 1964]
Fanny & Alexander [Ingmar Bergman, 1982]
Caché [Michael Haneke, 2005]
Marketa Lazarová[Frantisek Vlácil, 1967]
O Espelho [Andrei Tarkovsky, 1974]
Odd Man Out [Carol Reed, 1947]
A Rainha Margot [Patrice Chereau, 1994]
Sangue Negro [Paul Thomas Anderson, 2007]
Trono Manchado de Sangue [Akira Kurosawa, 1957]

Aki Kaurismäki
de O Homem Sem Passado

A Idade do Ouro [Luis Buñuel, 1930]
O Atalante [Jean Vigo, 1934]
Ladrões de Bicicletas [Vittorio de Sica, 1948]
Boudu Salvo das Águas [Jean Renoir, 1932]
Em Busca do Ouro [Charles Chaplin, 1925]
Meu Tio [Jacques Tati, 1958]
Nanook, o Esquimó [Robert J. Flaherty, 1922]
Aurora [F.W. Murnau, 1927]
Era uma Vez em Tóquio [Yasujiro Ozu, 1953]
Z [Costa-Gavras, 1969]

Alejandro Agresti
de Valentín

Se Meu Apartmento Falasse [Billy Wilder, 1960]
O Segredo das Joias [John Huston, 1950]
Os Melhores Anos de Nossas Vidas [William Wyler, 1946]
Cidadão Kane [Orson Welles, 1941]
O Pecado de Cluny Brown [Ernst Lubitsch, 1946]
Hannah e Suas Irmãs [Woody Allen, 1986]
Ainda Há Fogo Sobre as Cinzas [Jack Lemmon, 1971]
Trágico Amanhecer [Marcel Carné, 1939]
Rio Vermelho [Howard Hawks, 1947]
Almas em Chamas [Henry King, 1949]

Amos Gitai
de Kadosh

O Dinheiro [Robert Bresson, 1983]
Alemanha Ano Zero [Roberto Rossellini, 1948]
O Desprezo [Jean-Luc Godard, 1963]
Os Desajustados [John Huston, 1961]
A Sala de Música [Satyajit Ray, 1958]
O Fundo do Coração [Francis Ford Coppola, 1982]
Depois do Vendaval [John Ford, 1952]
Saló ou os 120 Dias de Sodoma [Pier Paolo Pasolini, 1975]
Paixões que Alucinam [Samuel Fuller, 1963]
O Garoto Selvagem [François Truffaut, 1969]

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Mostra SP 2013: seis filmes brasileiros

Riocorrente

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[Riocorrente, Paulo Sacramento, 2013]

“As ideias precisam voltar a ser perigosas”, afirma a protagonista de Riocorrente, filme de Paulo Sacramento escolhido pelo júri da Abraccine como o melhor da Mostra de Cinema de São Paulo. A frase, além de traduzir a inquietude das personagens do primeiro longa de ficção do diretor, parece ser uma pista das intenções do próprio cineasta na realização de seu filme. Poderoso retrato da opressão da metrópole sobre o homem, Riocorrente assume um lugar diferenciado na recente produção cinematográfica brasileira. Seus simbolismos, ao mesmo tempo em que conversam com um cinema de “mestres malditos” de outras gerações, emolduram um debate completamente contemporâneo. Sacramento ousa no discurso e ousa ainda mais na forma. O cineasta está disposto a provocar e, para isso, não se acanha em materializar suas “ideias perigosas”, explosivas, que revelam um homem inconformado com o status quo, um artista em perpétuo desconforto e, mais do que isso, um cinema que não se contenta em ser um só.

Depois da Chuva

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[Depois da Chuva, Cláudio Marques & Marília Hughes, 2013]

Essa inquietude aparece também em outro longa de estreia presente na Mostra: Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes. Mas no filme que abre espaço para outra frente de produção no cinema nordestino, a Bahia, o incômodo dos personagens – e dos cineastas – é diferente. É um incômodo com as convicções. O protagonista, criado a partir das experiências pessoais de Marques, não encontra respostas nem no clima de esperança fabricado pelo movimento Diretas Já, nem no discurso empírico do grupo de anarquistas a que se junta. A fúria silenciosa do personagem só encontra voz no fortíssimo movimento punk rock baiano do início dos anos 80, praticamente desconhecido fora do estado e recriado com certa ousadia pelos diretores. Marques e Hughes abriram mão do quase irresistível estereótipo baiano para fazer um filme sem sotaque, mas com outros temperos. Eles apontam para uma Bahia diferente, de classe média, que não é afro, onde as pessoas escutam rock. Os passos do protagonista nesse terreno tanto universal quanto particularmente soteropolitano são tão surpreendentes quanto algumas opções dos diretores.

De Menor

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[De Menor, Caru Alves de Souza, 2013]

A opção é justamente o que dá o diferencial a De Menor, filme da também estreante Caru Alves de Souza. Filha da cineasta Tata Amaral, a diretora evita os caminhos mais tradicionais – e mais fáceis – para tratar de uma das questões mais exploradas pelo cinema brasileiro, a do jovem que se envolve com o crime. Caru oferece um novo olhar para o tema ao escolher lidar com o problema por dentro. Ela evita mostrar a ação em si para tratar de suas consequências na relação entre dois irmãos e decide também esmiuçar o processo jurídico. O único senão ao filme é o didatismo, em alguns momentos excessivo. O texto decorado, quase declamado, na primeira cena da defensora diante do juiz tem momentos constrangedores, mas não impede que a cineasta construa um roteiro cheio de delicadeza e intimista, que encontra em Santos um cenário original para um filme com um tema como este. Esta vontade de escapar da obviedade, mesmo que possa frustrar o espectador, ávido por acompanhar a ação, é uma das particularidades do filme.

Amor, Plástico e Barulho

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[Amor, Plástico e Barulho, Renata Pinheiro, 2013]

Outro longa que trabalha a frustração em sua premissa – de história e de cinema – é Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro. A pernambucana, que estreia em ficções, invade a gigantesca cena da música brega no Recife, criando um espécie de versão “cultura popular” de A Malvada, onde uma jovem dançarina não mede esforços para chegar à condição de estrela, que ela acredita que sua musa inspiradora já alcançou. A frustração aparece tanto na tentativa da aspirante quanto na desilusão da veterana – e Renata a utiliza também como método de cinema: para traduzir a efemeridade desse universo, a diretora arquiteta uma série de situações para, na hora h, frustrar as expectativas e não permitir catarses. O espectador não tem chance de ver o “nascimento” da estrela, mas em contrapartida é bombardeado por uma série de imagens de YouTube, como se a cineasta dissesse que ali está seu futuro. O duelo de interpretações é excepcional. Tanto Nash Laila quanto Maeve Jinkings, uma das melhores atrizes brasileiras do momento, estão excelentes em seus papeis.

O Lobo Atrás da Porta

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[O Lobo Atrás da Porta, Fernando Coimbra, 2013]

O elenco cheio de talentos é um dos grandes trunfos de outro filme, O Lobo Atrás da Porta, estreia de Fernando Coimbra na direção. Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento e Juliano Cazarré chamam a atenção, mas o filme é bem mais do que seu casting. Em seu primeiro longa, Coimbra revela um impressionante domínio de cena. É raro ver um filme brasileiro que se propõe a fazer um cinema narrativo clássico com tanta competência, principalmente em se tratando da reconstituição de uma história real – e bastante conhecida. O roteiro abraça um ritmo tranquilo, o que O filme é extremamente bem fotografado, tem uma montagem e um roteiro exemplares, rigorosos, mas cheios de fluidez, e um trabalho sonoro que captura as interferências externas para dentro da história principal.

O Exercício do Caos

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[O Exercício do Caos, Frederico Machado, 2013]

O som é um dos personagens principais de O Exercício do Caos, belo filme de estreia de Frederico Machado, primeiro longa maranhense que ganha distribuição nacional. O cineasta aposta numa narrativa com poucos diálogos, mas que encontra numa excelente composição sonora a forma ideal para traduzir a anestesia da rotina da família que protagoniza o filme. O som ambiente, sempre alto, ultrapassa a realidade daquelas pessoas, como se servisse de cortina e de clausura para os personagens. Machado consegue capturar um certo elemento fantasmagórico que coabita a fazenda onde a trama se passa. O filme tem um dos conjuntos técnicos mais harmônicos e rigorosos entre os longas brasileiros exibidos na Mostra, o que, num trabalho mais conceitual, corre o risco de virar matéria-prima, mas que em O Exercício do Caos emolduram um projeto sólido, com um algo existencialista, ambicioso sem dúvida, mas que não cede à afetação.

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