Monthly Archives: agosto 2013

Marina Abramović: Artista Presente

Marina Abramovic: The Artist is Present

A época em que nós vivemos transforma o nosso olhar para a obra de arte. Num tempo em que nossa interação com o mundo se resume a curtir fotos, opinar sobre qualquer assunto em 140 caracteres e compartilhar vídeos engraçados e curiosos, é notável que a cena em que Marina Abramović reencontra seu ex-amante, Ulay, depois de mais de vinte anos de separação, tenha virado um hit na internet. O recorte ganhou contextos alterados, mas a força de sua imagem, a força de sua ausência de palavras, emocionou muitas pessoas. Pessoas que nunca haviam ouvido falar de Abramović e que talvez nem saibam que esta cena é um pequeno trecho de um documentário sobre a artista.

Marina Abramović: Artista Presente basicamente acompanha todo o processo de criação e vivência da performance de mesmo nome que a sérvia levou para o Museu de Arte Moderna de Nova York, em 2010, um fenômeno que atraiu mais de 750 mil pessoas durante seis dias em cartaz. A performance consistia na artista, parada, em silêncio, ao longo de sete horas por dia, à medida em que 1.400 visitantes ganhavam direito a alguns minutos na cadeira em frente a ela. O encontro de olhares despertava as mais diversas reações, desde risadas sem graça até incontroláveis crises de choro. Esta emotividade atravessa todo o documentário.

O diretor do filme, Matthew Akers, utiliza a experiência, inclusive os bastidores como guia narrativo, mas abre espaço para explicar sua personagem. O espectador leigo descobre que Marina Abramović é uma performer que, desde os anos 70, realiza obras provocativas, geralmente baseadas em atividades com o corpo, que desafiam a relação entre artista e público. Akers adota uma postura curiosa de não-reverência em relação seu objeto, muitas vezes explicitando a natureza mimada e o gênio forte de Abramović.

Como dessacraliza a posição da artista, Akers humaniza seu documentário que envolve o espectador numa manta de intimidade com relação a Marina Abramović. Desta forma, é fácil entender seu imenso poder de sedução e o fascínio que esta mulher desperta. Depois de cerca de uma hora entendendo quem é aquela mulher, aparece na tela o hit da internet. O reencontro com Ulay, a cena mais forte do filme, perde sua novidade, mas é metabolizada num certo nível emocional. Já estamos tão presos ao universo daqueles dois personagens, conhecemos sua relação um com o outro e de ambos com a arte e a vida que olhamos o encontro dos dois, entendemos, aceitamos e choramos sua despedida. Envolvidos, emocionados, mas sem lamentar.

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[Marina Abramovic: The Artist is Present, Matthew Akers, Jeff Dupre, 2012]

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Cinco filmes de Georges Méliès

Thomas Edison e os Lumiére – e mais alguns outros – podem até ter inventado o cinema, mas quem o transformou em espetáculo foi Georges Méliès, como mostrou A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese. Durante duas décadas, o francês dirigiu centenas de filmes, sempre com a missão de transportar o espectador para um mundo de fantasia. Aqui eu reuni cinco dos trabalhos mais legais de Méliès, que podem ser vistos gratuitamente na intenet.

A Lua a um Metro
[La Lune à un Mètre, Georges Méliès, 1898]

O Ovo Mágico Prolífico
[L'Oeuf du Sorcier/L'Oeuf Magique Prolifique, Georges Méliès, 1903]

O Trovão de Júpiter
[Le Tonnerre de Jupiter, Georges Méliès, 1903]

A Maravilhosa Variedade da Vida
[Le Merveilleux Éventail Vivant, Georges Méliès, 1904]

O Jogo Ilegal
[Le Tripot Clandestin, Georges Méliès, 1905]

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Flores Raras

Flores Raras

O peso da verdade é quase sempre a maior maldição das histórias baseadas em fatos reais. No cinema, a expressão chega a assustar porque, não raramente, significa filmes engessados por suas responsabilidades históricas. O compromisso em narrar os fatos pode, muitas vezes, ultrapassar o próprio desenvolvimento dos personagens. Quando um cineasta reconhecidamente mais tradicional como Bruno Barreto se aventura por um projeto desta natureza, a desconfiança é natural, mas Flores Raras, apesar de seu academicismo, tem algumas pequenas delicadezas.

Barreto nunca foi muito afeito a correr riscos, é preciso ter isso em mente. Então, somente o fato de ter escolhido um romance homossexual como tema de um longa seu já é aventura suficiente para o diretor. E ele assume isso: o casamento gay entre a poeta americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares está sempre em primeiro plano, mesmo quando Barreto se vê na obrigação de contextualizar o espectador.

Curioso perceber que este é um filme em que há política em torno de tudo, mas o diretor parece assumir uma postura apolítica. Sua contribuição parece ser o próprio filme em si, bem fotografado, bem musicado, com algumas sequências – por que não dizer? – ousadas, como uma cena de sexo entre as protagonistas. O filme começa forte com o desenho da aproximação entre as personagens. Todas as cenas que mostram como começou a relação entre as duas são atraentes, com Barreto reservando o tempo necessário para que essa história se desenvolva e para que o espectador acredite nela.

Começa aí um trabalho delicado de direção das atrizes. Miranda Otto, sem fazer muito esforço, encontra a intensidade certa para mostrar a fragilidade da poeta. Já Glória Pires consegue dar a volta numa personagem que poderia facilmente cair na caricatura por causa dos trejeitos masculinizados. Mesmo que não pareça totalmente à vontade interpretando 95% do tempo em inglês, a atriz consegue humanizar sua personagem embora o filme às vezes pareça querer simplificar demais as coisas. Nas cenas de apoio, ela está brilhante. A impressão de um overacting deixada pelo trailer não se confirma.

Enquanto o filme está entregue às atrizes, funciona bem, mas o maior problema é quando Barreto resolve seguir os fatos, revelar a crise no casamento, atropelando a narrativa com explicações rápidas sobre o que acontece a seguir na vida das duas personagens, do Brasil e do mundo. É quando o tal peso da verdade entra em cena e cobra rigor histórico. Barreto, acadêmico, segue a cartilha e abre espaço para o que deveria ser sua assinatura, mas genérico como ele consegue ser muitas vezes, transforma este espaço em metáforas desnecessárias e morais da história. Sorte dele que, até ali, ele já havia conseguido namorar com a beleza da alma feminina.

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[Flores Raras, Bruno Barreto, 2013]

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Almas Silenciosas

Almas Silenciosas

Existe uma intenção pictórica em cada plano de Almas Silenciosas. O filme russo foi planejado e executado para ser (ou ao menos parecer) uma obra de arte, quadro a quadro. O resultado é uma sucessão de imagens belíssimas, emolduradas numa fotografia azulada, que tenta traduzir o cenário frio do interior do país. Mas o que é arquitetado para ser a maior qualidade do longa termina o enclausurando em sua proposta estética. O cineasta Aleksei Fedorchenko parece tomar para si a missão de emocionar o espectador, mas nem sempre consegue.

Miron pede ajuda a Aist para que possa fazer o funeral de sua mulher recém-falecida de acordo com as tradições da cultura méria, uma etnia que vivia às margens do Mar Negro e que guardava costumes de origem escandinava. O cadáver de Tanya se torna um personagem do filme, passando por todo o processo de preparação para a cerimônia de despedida, sequência que o diretor filma com a mesma beleza mórbida que tenta imprimir em todo o filme. A morte faz parte da vida, parece explicar Fedorchenko, que utiliza a premissa do falecimento de Tanya para revelar verdades tanto sobre ela quanto sobre a base da relação entre aqueles dois homens.

Existe uma fórmula em sua narrativa, que envolve desde a maneira didática e solene como Miron apresenta a história até uma certa insistência com pássaros que são comuns à região, que se revelam metáforas para os personagens vulgares que escondem segredos. Fedorchenko trata esse espaço misterioso entre os dois homens como um fim em si, não uma maneira de decifrá-los. Seu objetivo parece ser tão somente abrir clareiras no meio da floresta invisível que ele pinta no interior de seu país. Parece orgulhoso em expor seus personagens, desmascará-los, trazê-los para a luz do dia, não necessariamente para julgá-los, mas para condená-los por seus crimes, como se ao fim do filme, a única possibilidade de “justiça” tivesse sido feita. Da maneira mais plástica que poderia haver.

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[Ovsyanki, Aleksei Fedorchenko, 2012]

http://www.youtube.com/watch?v=KwITu17zD6w

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Sete pequenos filmes do Festival de Curtas 2013

Vi muito pouca coisa do Festival Internacional de Curta-Metragens de São Paulo deste ano. Cerca de 20 filmes, entre eles os brasileiros O Que Lembro, Tenho, de Rafhael Barbosa, e O Olho e o Zarolho, de René Guerra (leia entrevista aqui) e Juliana Vicente, sobre os quais escrevi separadamente. Selecionei neste post alguns dos curtas estrangeiros, entre os que me impactaram para o bem ou para o mal.

A Lamparina de Óleo de Iaque

O título sugere mais um daqueles filmes étnicos que se vendem pela beleza das pequenas coisas, mas A Lamparina de Óleo de Iaque, que até tem um pouco disso, se revela aos poucos um cuidadoso trabalho que se se transforma num pequeno mosaico e numa grande homenagem aos moradores do Himalaia. O filme parte de uma ideia simples – a da foto de família posada -, mas Wei Hu consegue renová-la o tempo inteiro para, com humor e inteligência, reservar um golpe final poderoso que divaga sobre a força de uma imagem e mostra como a “primeira vista” pode enganar.

A Lamparina de Óleo de Iaque EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Lampe au Beurre de Yak, Wei Hu, 2013]

Come and Play

Come and Play é um filme cheio de intenções. Daria Belova parece querer fazer um tratado definitivo sobre os efeitos psicológicos de uma guerra e se cerca por uma série de colaboradores eficientes, sobretudo o diretor de fotografia que entrega um dos pretos-e-brancos mais bonitos dos últimos muitos anos (e uma das cenas de terror mais assustadoras também; uma que envolve braços e árvores). Mas a diretora não acerta em dar textura a sua “mensagem”, que sempre parece ser defendida como panfleto, a partir de símbolos impactantes. O resultado é mais cosmético do que profundo.

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[Komm und Spiel, Daria Belova, 2013]

Agit Pop

A impressão inicial é de que estamos numa indie-hipster-colorida, mas Nicolas Pariser arrasta por tanto tempo seu filme sobre o último dia de uma revista de cultura francesa que consegue traçar um desenho mais do que satisfatório das várias personagens e instalar um clima melancólico sincero no cenário estilizado. Agit Pop tem 31 minutos, mas eles passam rápido por causa do texto inteligente, das várias referências e de seu inesgotável bom humor. Coisas que Wes Anderson deixou escapulir em Moonrise Kingdom.

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[Agit Pop, Nicolas Pariser, 2013]

A Fuga

Urso de Ouro em Berlim, este filme prova como os grandes festivais ainda cobram dos curtas uma estrutura de longa-metragem. Embora seja bem dirigido e tenha uma narrativa dramática forte, A Fuga não acrescenta muito aos modelos dos longas de cunho social dos irmãos Dardenne ou de Abdellatif Kechiche. Jean-Bernard Marlin, em seu segundo trabalho, compensa essa falta de inventividade com muito rigor na história do assistente social que tenta recuperar uma menor infratora, o que deixa seu filme extremamente coeso. O final, bem escrito, garante sua pontuação.

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[La Fugue, Jean-Bernard Marlin, 2013]

Abu Rami

Uma ideia simples: o problema num carro faz um casal ter uma discussão em que segredos são revelados. Simples, mas executada com frescor. A simpatia dos dois atores, bem gente como a gente, o cenário, um Líbano bem parecido com Brasil, e o texto bem humorado ajudam a justificar os 17 minutos de Abu Rami e criam uma relação do espectador com os personagens. A sacada final é o golpe certo para conquistar de vez.

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[Abu Rami, Sabah Haider, 2012]

Gloria Victoria

Esta animação canadense tem um dos conjuntos plásticos mais bonitos deste ano. Durante seis minutos, Theodore Ushev usa música erudita, sempre alta e difícil de escapar, e imagens clássicas do surrealismo e do cubismo para, literalmente, pintar um quadro vivo sobre o que é a guerra e como a arte pode ser um veículo tanto para afirmá-la como para atacá-la. As imagens em cores fortes e o traço sempre marcado, cheio de contornos, capturam esse discurso, deixando Gloria Victoria mais forte e impetuoso.

Gloria Victoria EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Gloria Victoria, Theodore Ushev, 2013]

Montanha em Sombra

O único pecado deste belo trabalho de Lois Patiño é que sua duração diminui seu impacto visual. E Montanha Sem Sombra é basicamente uma experiência de linguagem criada a partir da capacidade de ilusionismo. Durante alguns bons minutos, o espectador acompanha os movimentos de esquiadores num cenário gelado, confuso sobre se está assistindo uma animação ou um filme em live-action. A incerteza ajuda a povoar a sucessão de imagens deste curta espanhol com um questionamento sobre o lugar do humano no meio da imensidão.

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[Montaña en Sombra, Lois Patiño, 2013]

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Charles Bronson: há dez anos, o cinema ficava menos macho

Charles Bronson

Nem John Wayne, nem Clint Eastwood, o maior macho do cinema americano se chamou Charles Bronson. Aliás, Charles Dennis Buchinsky. Que o diga minha saudosa tia Leninha, que foi sua maior fã viva, e que, diante de qualquer filme do ator, sempre repetia o mantra: “que coroa charmoso”. Apesar dos olhos verdes, Bronson não era exatamente um homem bonito. Nem exatamente, nem mais ou menos, mas era a essência do H maiúsculo no cinema: um cara comum, gente como a gente, que partia para cima de quem quer que fosse, ainda que os motivos não fossem tão nobres como uma vingança.

Desejo de Matar, de Michael Winner, não é seu melhor filme, mas é seu melhor exemplo. O ano era 1974 e ele interpretava um pai de família, que depois de ter a mulher violentada e morta por um grupo de agressores se transforma num vigilante. O filme fez tanto sucesso que gerou não uma, mas quatro sequências, lançadas num período de vinte anos. Bronson, que no momento do primeiro longa já tinha quase 25 anos de carreira, se transformou num astro do cinema policial.

Veja álbum de fotos de Charles Bronson

Mas o descendente de lituanos tinha um rosto de multidão: foi índio, pistoleiro, prisioneiro de guerra, soldado, lutador de rua. Seu personagem mais marcante, ao menos para mim, é “Harmonica”, o lobo solitário de Era Uma Vez no Oeste, do gigante Sergio Leone, que sempre aparecia em cena tocando sua gaita. Ao lado de Jason Robards, Claudia Cardinale e Henry Fonda, todos excelentes, Bronson achava seu espaço na imensidão daquelas imagens. Fez uma, duas, umas dez das cenas mais importantes de sua carreira somente ali.

Sua obra parecia menor diante de tantos atores mais talentosos, mas o misterioso homem dos olhos verdes sempre que podia aparecia em filmes que marcavam época. Seja na Segunda Guerra Mundial de Fugindo do Inferno, de John Sturges, e Os Doze Condenados, de Robert Aldrich; seja na Grande Depressão de O Lutador de Rua, de Walter Hill. Todos filmes de macho, dirigidos por diretores machos. Seu último longa foi justamente o último Desejo de Matar, um filme ruim, mas que encerrou a carreira de Bronson num universo que ele construiu para si mesmo.

Há dez anos, Charles Bronson morria. Há dez anos, o cinema ficava menos macho.

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O Estranho Caso de Angélica

O Estranho Caso de Angélica

Enquanto O Gebo e a Sombra, último filme de Manoel de Oliveira, não chega aos cinemas brasileiros, o longa anterior do cineasta mais velho do mundo finalmente desembarca em circuito comercial. E esta obra, cheia de efeitos especiais, compõe um ponto à parte na filmografia do diretor, parecendo conversar com a própria natureza fascinante e assustadora do cinema. O centenário diretor parece se prostrar diante da figura da personagem-título como alguém que não é capaz de resistir ao fascínio de uma imagem.

Oliveira cria uma história de amor que transcende a morte em O Estranho Caso de Angélica, um respiro em seus filmes mais densos, uma brincadeira conduzida com suavidade, apesar do diretor sempre fazer questão de dar corpo ao sentimento de seu protagonista. Angélica é uma jovem recém-falecida que o personagem, um fotógrafo, precisa registrar. Mas a imagem daquela bela mulher sem vida e seu sorriso indecifrável como o da Mona Lisa se tornam uma obsessão para ele e passam a persegui-lo em fantasmagóricas aparições que nosso cineasta centenário filme lindamente.

O roteiro abraça o fantástico e as imagens incorporam a ideia sem pudores em algumas das cenas mais lúdicas entre os trabalhos recentes do cineasta. O filme, embora contraponha a fantasia fantasma com a realidade cruel da vila onde a história se passa, também é farto de bom humor, mesmo quando Manoel faz suas citações de praxe, elegendo temas curiosos para uma mesa de almoço. A iluminação precária reforça o poder daqueles planos, evoca cinemas antigos e afirma a vocação do diretor para compor quadros que abusam da estática. Angélica, seu fantasma, seu sorriso, representariam tanto a força sedutora da imagem, do cinema, quanto um ponto de fuga para outras imagens, para outros cinemas.

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[O Estranho Caso de Angélica, Manoel de Oliveira, 2010]

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Trailer: Serra Pelada

A superprodução Serra Pelada, dirigida por Heitor Dhalia, revelou seu primeiro teaser. O elenco é promissor, com Wagner Moura, Matheus Nachtergaele e Julio Andrade, e as imagens parecem bem bonitas à primeira vista. Resta saber se desta vez o diretor ofereceu algo mais do que plástica, como no irregular À Deriva.

 

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O Olho e o Zarolho

O Olho e o Zarolho

Todas as famílias são iguais, parecem bradar os diretores René Guerra e Juliana Vicente. O Olho e o Zarolho é uma tentativa de contemporeizar a discussão sobre as novas formas de relacionamento, partindo de um princípio simples: as dúvidas e questionamentos são os mesmos para todos. O filme, destaque do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, revela um amadurecimento do cinema brasileiro em tocar na questão. O maior mérito de René e Juliana é não contar a história pelo viés do espetáculo, mas abordar a poética do cotidiano, extrair o melodrama da banalidade. A dupla tem consciência do poder social de seu trabalho, concebido conscientemente num ambiente escolar, e termina por aumentar a força de seu discurso em imagens delicadas. Não existe uma busca pelo choque, não existe uma bandeira a levantar, o que de certa forma levanta a bandeira mais alto ainda.

A maneira como o “mundo comum” encara a homossexualidade já havia sido tema do primeiro trabalho do diretor, Os Sapatos de Aristeu, que acompanha uma travesti morta sendo preparada para o enterro por suas amigas e a consequente desconstrução dessa preparação pela família do personagem-título. O apuro visual veio com Quem Tem Medo de Cris Negão?, curta seguinte de René Guerra, mistura de documentário e ficção mais engajado, do qual este novo filme é uma espécie de herdeiro plástico. Sereno que só ele, O Olho e o Zarolho dá seu recado sem cobrar nada em troca, só um pouquinho de sensibilidade.

O Olho e o Zarolho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[O Olho e o Zarolho, René Guerra & Juliana Vicente, 2013]

Mostra Brasil 6

27/08 – Terça – 21:00 – Museu da Imagem e do Som
28/08 – Quarta – 17:30 – CineSESC
29/08 – Quinta – 15:00 – Centro Cultural São Paulo

Leia a entrevista de René Guerra aqui.

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Entrevista René Guerra

René Guerra

“Não se preocupe, a culpa foi minha”, avisa René Guerra. Recado – e mantra – do diretor alagoano para seus colegas mais próximos, os atores. É assim que as peças de teatro e os curtas, que vieram depois, foram feitos, em parceria. Depois de duas incursões pelo universo dos transsexuais, o novo filme do cineasta, codirigido por Juliana Vicente, discute as novas famílias, em especial, as famílias gays, pelo olhar de uma criança. O Olho e o Zarolho (leia a crítica) é um dos destaques do Festival de Curtas de São Paulo. No meio do furacão do evento, René deu uma entrevista para o Filmes do Chico, onde falou sobre o cinema gay brasileiro, seus filmes favoritos e sobre como o mundo das travestis o fascina.

Como surgiu a ideia para O Olho e o Zarolho?

Chico, o argumento surgiu em 2002, como exercício de faculdade. Demorou muito, né? Mas você acredita que eu só poderia dirigir esse filme, com todos esses desafios, hoje? Acompanhado com a Juliana, nessa experiência quase de casamento. Eu tenho uma pequena obsessão pela mães, por esse vínculo poderoso de engrandecer ou atrofiar. Acho que independe, inclusive do sexo, mas o ser que se apropria desse arquétipo é o ser detentor da vida e da morte de quem é alimentado, esse papel gera muitas ambiguidades, por que muitas vezes as maiores atrocidades são chamadas de amor, como por exemplo não deixar o seu filho assumir o seu papel de gente, de indivíduo. Amo esse arquetipo e a antitese dele também.

É seu primeiro trabalho sob um olhar infantil. Que preocupações você tomou para entrar nesse universo?

Muita pesquisa, como sempre. Uma escolha intuitiva e meio passional pelos atores. Eu acredito muito na intuição da Juliana. Ela vê os potenciais dos atores em estado bem bruto, ela tem fé nessa intuição. Amo trabalhar com atores. E uma equipe pontual para essa jornada.

O ornitorrinco, o animal bonito e esquisito, é uma espécie de metáfora para tantas questões delicadas que despertam visões e reações diferentes, como a educação de uma criança, uma relação homossexual e até preconceito?

A Juliana Vicente tem um vinculo pessoal com o Projeto Casulo, que é uma ONG que protege as crianças da comunidade do Real Parque e do Jardim Panorama, protege o tempo de ócio delas com arte, entre outras ações de inserção ao mercado de trabalho e a cidadania.

Escolhemos esse projeto para simbolizar uma escola utópica. Uma escola que olhe as diferenças como as crianças fazem, sem julgamento. Aconteceu uma situação de preconceito na aula de música do Projeto Casulo e o professor, Renato Gama, tratou a questão através de uma composição coletiva com as crianças. Essa é a história dessa música. De alguém que é diferente e é lindo.

Acreditamos que a escola é, sim, o palco mais importante para essa discussão atual sobre a família gay, a própria questão do que foi chamado de forma bem preconceituosa “kit gay”. Os países com políticas mais retrógradas do mundo usam sempre essa desculpa, não tocar nesse assunto, por que tratar é propagandear.

Precisamos lidar com a representatividade de uma nova construção de família, sem melindres, de forma aberta e clara. Na escola, uma casal gay vai ter que ser inserido na reunião de pais, sim, não por que é direito nosso, apenas, mas por que existimos, físico, emocional e afetivamente. Essas famílias não são invenção e nem moda, elas são fato. Incluo também outras construções de família. E é nesse palco que as pessoas de bem dizem, aquele “outro”, aquela outra formação de família existe sim.

Um filha de uma amiga perguntou pra mãe: – mãe, menina pode namorar com menina? A mãe respondeu: – claro que sim, filha. – Pois alguém precisa avisar pra mãe da Bianca que ela não tá sabendo disso não, foi a resposta da menina. As crianças são bem mais inteligentes do que a gente imagina.

Você assina a direção junto com a Juliana Vicente. As funções foram separadas?

Concebemos o filme juntos, e vivenciamos funções em posicões diferentes: eu, o pássaro que olha, e ela, o pássaro que bica. Digo que eu dirigi de fora pra dentro e ela de dentro pra fora.

Seus filmes mostram um grande cuidado visual. Como você decide que cara vai ter um filme seu?

Existe um rigor formal nos quadros que parte do que me emociona mesmo. É claro que quando dois diretores dirigem juntos, um dos pressupostos é que esses temperos sejam equilibrados pra nós dois. Eu sou mais apolíneo e Juliana á mais dionísiaca, ela gosta da confusão, de colocar tempero nas coisas e depois ver o que de vida surgiu. Não dá pra comer só uma banda da acarajé, por que a Juliana apimentou demais o outro lado, né?. Então a nossa parceria encontra nessa relação entre forma e caos. Eu nunca me meteria com um grupo de 30 crianças sozinho. Tudo bem que eu já dirigi uma cena com 30 travestis, que quase são tão danadas quanto. Encontramos juntos algumas referencias estéticas que sobrevivessem a esse tipo de mise en scene. Nesse caso, foi um grande aprendizado olhar filmes onde a câmera flutuasse na busca de algo, de algum momento, qualquer coisa que sinalizasse vida.

Os Sapatos de Aristeu e Quem Tem Medo de Cris Negão? são filmes em que os transsexuais estão no centro da trama. O que te fascina nesse universo?

As travestis são minhas heroínas. Quando olho para elas, sinto o quanto as minhas escolhas ainda são ditadas pelo olhar dos outros. Ironicamente, as “bunitas” são construídas para esse lugar do ser olhado. Mas a questão é muito maior do que essa pequena parte. Elas são essa construção e elas apontam pra mim que eu também sou. Ao invés de achar que elas são loucas, o que é verdade, e eu também estou na mesma turma, eu olho a construção delas e penso que eu posso estar mais livre em me reconstruir.

Ela me lembram isso, que tanto o homem quanto a mulher podem se reconstruir sem necessariamente mudarem de gênero.

Como você vê a homossexualidade sendo discutida no cinema brasileiro?

Acho que estamos muito bem obrigado. Temos pessoas incríveis, subvertendo de formas diferentes. O Hilton Lacerda marca a história do cinema brasileiro com um dos filmes mais libertários que eu já vi na minha vida, tão libertário que eu nem sei se fala só pros gays. Acho o Tatuagem é trans tudo. O Armando Praça com as travas romeiras e católicas rezando e lendo Caio F., Marcelo Caetano cada vez mais subvertendo esteticamente as barreiras do afeto e do corpo, o Daniel Ribeiro que ao fazer um filme gay num formato mais clássico faz com que essa discussão entre sem revolução para a mesa, o Gustavo Vinagre com o seu post-porn imobiliário, a Claudia Priscilla cujo trabalho amo tanto e que está mergulhada na mesma seara afetiva e transgressora que a minha. E tantos outros, somos um povo corajoso pra caralho.

Você tem planos para os próximos projetos? Quem sabe um longa?

Meu filme de estréia é o Lili e as Libélulas, somos o representante brasileiro de um dos Laboratórios de desenvolvimento de projetos mais importantes do mundo, O Framework do Festival de Torino. Acho que eu, a Ju e todas as travas vamos nos graduar com esse longa.

Você começou sua carreira no teatro. Como foi sua transição do palco para a tela?

O teatro me ensinou coisas pra caralho, me ensinou a dialogar com o ator, com estar do seu lado, segurando na mão e dizendo, que eu também sei, que é foda estar vivo no meio de tanta parafernália, no meio de tanta câmera, mas que a gente precisa saltar nesse lugar, nessa queda livre, mas que eu caio junto e se a gente se estatelar no chão, “não se preocupe, a culpa foi minha”. Minha e da Juliana (risos).

Quais são suas influências no cinema? E seus filmes favoritos?

Chico, eu sou aquele que bebe dos “deuses do melodrama”, se sente culpado pelo escândalo causado, pede desculpa, reza um pouco, entra em depressão e depois faz outro barraco. Então minha relação quase obsessiva gira em torno do universo Sirkiano, ele mesmo Deus Douglas Sirk, Mike Leigh, do Fassbinder, nego muito o Almodovar, mas de tanto negar sei o quanto ele me influencia por negação, Joaquim Pedro de Andrade, Jane Campion, Bob Fosse, acho que se houver lista clichê de diretor gay, eu devo ter alcançado nota máxima. Amo, muito, James Ivory e muito do Kitchen Sink Drama, movimento do cinema inglês dos anos 60.

Meu top 10 é:

1 Minha Adorável Lavanderia [Stephen Frears, 1985]
2 Segredos e Mentiras [Mike Leigh, 1996]
3 Um Anjo em Minha Mesa [Jane Campion, 1990]
4 Uma Janela para o Amor [James Ivory, 1986]
5 O Medo Devora a Alma [Rainer Werner Fassbinder, 1974]
6 Tudo que o Céu Permite [Douglas Sirk, 1955]
7 O Padre e a Moça [Joaquim Pedro de Andrade, 1966]
8 Matador [Pedro Almodóvar, 1986]
9 Os Amantes da Pont Neuf [Leos Carax, 1991]
10 Noites de Cabíria [Federico Fellini, 1957]

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