Monthly Archives: julho 2013

Antiviral

Antiviral

A herança cobra seu preço. O filho que escolhe a profissão do pai vive uma dicotomia: enquanto se aventura por uma área que sempre esteve ali, próxima, se sujeita à eterna comparação. Quando o pai em questão é um artista de renome o julgamento é bem mais cruel. Sofia Coppola surgiu no cinema à sombra de Francis Ford Coppola – foi massacrada como atriz -, mas, em sua carreira como diretora, procurou seguir um caminho próprio. Estabeleceu uma linguagem e um universo. Ganhou respeito e um Oscar.

Se Brandon Cronenberg não quisesse ser comparado com seu pai, que tivesse feito um filme bem diferente de Antiviral. O primeiro longa-metragem do canadense reúne tantos ecos e interferências do trabalho de David Cronenberg que é impossível dissociar um do outro. Embora pareça se esforçar para entregar um filme de impacto, Brandon fez um “genérico” do pai.

Cronenberg, o original, é um cineasta com uma assinatura muito forte. Suas marcas são reconhecidas facilmente: exames pessimistas da humanidade, linguagem visual transformando corpo e mente dos personagens, paixão pela ficção-científica. Quando Brandon cria uma trama envolvendo o comércio de vírus de famosos num futuro próximo, passeia pelos mesmos temas, visitando o mesmo universo e evocando inclusive alguns maneirismos que o pai já abandonou.

E as referências não param por aí. O ator Caleb Landry Jones parece muito com Ronald Mlodzik, protagonista dos primeiros longas de David Cronenberg, inclusive no modelo econômico e apático de interpretação. Sarah Gadon também está em Cosmópolis, último filme do pai de Brandon.

Isso tudo poderia estar em segundo plano se Antiviral funcionasse como um só, mas a proposta do longa – a radicalização do culto às celebridades –, apesar de abrir uma discussão interessante, não se sustenta. O diretor recorre a simplificações e utiliza uma estética de choque para incomodar, jogando a falta de elaboração do roteiro para debaixo do tapete. A trama se dilui num papo pseudo-intelectual/filosófico/científico que deixa evidente a falta de experiência de Brandon para concluir sua reflexão.

Antiviral EstrelinhaEstrelinha½
[Antiviral, Brandon Cronenberg, 2012]

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Alpes

Alpes

A crise financeira que assola a Grécia nos últimos anos não interrompeu a produção cinematográfica do país. Pelo contrário, o caos enfrentado pela nação europeia parece ser inspiração para que uma nova geração de diretores lance reflexões sobre a terra natal. Cineastas identificam a demência como uma espécie de estado de espírito da população grega e a utilizam como motor narrativo para suas experimentações de linguagem, que muitas vezes parecem pouco mais do que protestos adolescentes.

Giorgios (Yorgos) Lanthimos é o diretor que melhor exemplifica o atual momento do cinema no país. Há três anos, ele dividiu opiniões com Dente Canino, filme que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro e ganhou o prêmio da seção Um Certo Olhar no Festival de Cannes. A história da família que protege os filhos adultos do mundo exterior – tratando-os como crianças débeis – seria uma metáfora meio torta de uma Grécia que não consegue enxergar além do próprio umbigo e tem medo de arriscar. O limite do cineasta está além do ridículo, que não raras vezes assume o comando e desperta desconfiança quanto à originalidade do filme.

Alpes mostra que o diretor grego está mais controlado, apesar de ainda se dedicar a temas pouco convencionais. O título se refere a um grupo de pessoas — que usam nomes de montanhas – e oferecem seus serviços para famílias que tiveram perdas recentes, assumindo por um tempo os papéis dos entes queridos falecidos. O filme assume os traços surrealistas que o ponto de partida sugere e reprisa o padrão de comportamento dos personagens do longa anterior de Lanthimos, mas sem a opressão do modelo que ele mesmo ajudou a criar.

No entanto, apesar da trama esdrúxula, o cineasta consegue materializar melhor seu objetivo em “Alpes” e faz uma interessante reflexão sobre a perda. À medida em que os quatro protagonistas invadem consentidamente casas, roupas e vidas alheias, eles despertam suas fragilidades e desejos, sentimentos capazes de induzi-los a um estado de completa alienação — talvez mais uma alegoria à situação da Grécia, cuja crise teria colocado em xeque a identidade da nação. Curiosamente é com uma solução de roteiro mais convencional que Lanthimos refina seu discurso, o que pode não agradar aos fãs de Dente Canino.

Alpes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Alpeis, Giorgos Lanthimos, 2012]

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Wolverine Imortal

Wolverine Imortal

A melhor notícia sobre Wolverine Imortal é que, diante da primeira aventura solo do x-man, esse novo longa não tinha como não ser melhor. Mas o filme vai além disso: James Mangold realmente consegue entregar um trabalho decente, que tenta reinventar o personagem enquanto lobo solitário, embora tenha tomado muitas liberdades em relação aos acontecimentos nas HQs. Os fãs de quadrinhos já devem estar vacinados para assimilar as transformações porque passam personagens e arcos de histórias nos cinemas e o novo longa do mutante canadense não poupa perfis, identidades e fatos da saga de Wolverine no Japão, em que o filme é baseado.

Mas quem deve mais sofrer com isso é o fã radical já que as novas amarrações do roteiro, assinado pelos ótimos Scott Frank e Christopher McQuarrie, são bastante sólidas e conseguem dar algum refresh no personagem, já desgastado em quatro filmes (cinco se contarmos com a ponta em X-Men: Primeira Classe). Mangold, que há alguns anos deu roupa nova a um western clássico em Os Indomáveis, também fez um trabalho correto aqui: se a história não é tão fiel às HQs, o espírito do personagem e a paleta de cores da série, mais sombria, se mantêm preservados, mesmo diante de uma vilã kitsch com Madame Hidra.

O filme, no entento, ainda é tímido no desenvolvimento do personagem. Ele aponta para o lado certo, mas fica na superfície boa parte do tempo. Mas ganha pontos por guardar espaço para cenas que homenageiam o cinema japonês, com ninjas, yakuzas e até robôs gigantes. Há várias sequências de luta, algumas deliciosas, onde os atores podem demonstrar como foram bem coreografados, com destaque para a Yukio, de Rila Fukushima, personagem completamente transfigurada pelo roteiro, o que diminuiu seu impacto, mas que encontrou uma reinterpretação interessante. A melhor cena de ação do longa, no entanto, é estrelada mesmo por Hugh Jackman no topo de um trem bala, cheia daquelas mentiras que todo mundo adora assistir.

Mangold não poupa Mariko Yoshida nem o Samurai de Prata em sua reinvenção da saga, mas ambas as mudanças oferecem novas perspectivas para os personagens e reforçam um olhar do diretor sobre o Japão. Wolverine Imortal não usa o país apenas como cenário, mas se aproveita da combinação única entre o novo e o antigo, o tecnológico e o tradicional, como ambiente para que os conflitos internos do personagem ganhem tradução. Funciona, mas sem mergulho. Com um pouco de boa vontade, dá até para perdoar o excesso de participações de Famke Janssen no filme. Jean Grey não é apenas um amor do qual Logan não consegue se livrar. Ela catalisa a mutação secundária pelo qual nosso herói precisa passar.

Wolverine Imortal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Wolverine, James Mangold, 2013]

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Amor Pleno

Amor Pleno

O intervalo entre os lançamentos de Amor Pleno e A Árvore da Vida, o filme anterior de Terrence Malick, foi de um ano e quatro meses. É o menor tempo de espera por um longa do cineasta, que dirigiu apenas seis filmes nos últimos 40 anos. Coincidentemente ou não, Amor Pleno é o trabalho mais irregular de Malick, um filme que parece não conseguir sair ileso do conflito entre o micro e macro, algo que permeia a filmografia do diretor e que neste longa se reflete, principalmente, em como as imagens grandiosas contrastam com a história intimista que se vê na tela. A

O filme parte da relação entre os personagens de Ben Affleck e Olga Kurylenko, do encantamento à desilusão, para que o diretor lance uma espécie de reflexão filosófica sobre o amor. A estratégia é a mesma que Malick utilizou em seu filme anterior, em que questiona a essência do ser humano a partir da história de uma família. Mas onde A Árvore da Vida parecia genuíno, na busca por respostas, Amor Pleno parece apenas confuso. Confusão que talvez se explique pelo complicado processo de montagem pelo qual passou o filme, assinado por cinco editores, e que eliminou completamente as personagens vividas por Rachel Weisz, Jessica Chastain, Michael Sheen, Amanda Peet e Barry Pepper.

As baixas podem ajudar a explicar porque o filme não representa o que deveria representar. Caso fosse um mosaico, Amor Pleno poderia ter mais poder simbólico, mas ao eleger o romance do casal como linha central do trabalho, Malick deixou o longa vulnerável e parece compensar a lacuna com um excesso de plástica. Se nos filmes anteriores, muitos diálogos eram substituídos por voices over, fundamentais para desenhar o plano existencialista em que Malick opera, aqui a fórmula se repete com efeitos reversos: os personagens parecem estar fazendo discursos para si mesmos, como se passassem à margem da vida real. Ben Affleck, por exemplo, não fala uma frase inteira ao longo do filme.

Há ainda uma estranha escolha em relação aos belos planos capturados por Emmanuel Luzbecki. Embora tenham sido planejados como suporte para a reflexão que o filme lança, em sua grande maioria, eles são desperdiçados por uma montagem frenética que os sobrepõem em intervalos raramente maiores do que dois segundos. A sensação é de que havia uma ordem para se utilizar os frames mais bonitos que se poderia ter aos montes para dar fluxo ao pensamento dos personagens, mas o efeito é exatamente o contrário: algumas vezes, parece que estamos diante de um vídeo de auto-ajuda com imagens belíssimas, trilha serena, montagem alucinante e alguma mensagem espiritual.

Por falar em espiritual, o personagem de Javier Bardem, o padre em crise, que fazia muito sentido na proposta inicial, mais ampla, mas parece um apêndice desnecessário na forma final do filme, que nunca encontra o casamento correto com o que seria a história principal. A religiosidade fica cercando o longa, mas não encontra espaço para se encaixar. Rachel McAdams também escapou do passaralho do elenco, mas teve uma participação resumida a não mais que 15 minutos em cena, o que deixou sua personagem igualmente dispensável. Embora Olga Kurylenko esteja muito bem – e provavelmente nunca tenha sido tão belamente filmada -, a atriz não consegue segurar o filme.

A sensação geral é que Amor Pleno poderia ser um filme muito maior, embora querer ser grande seja exatamente seu maior problema.

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[To the Wonder, Terrence Malick, 2012]

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Apenas o Vento

Apenas o Vento

Apenas o Vento é um filme de suspense travestido de drama étnico. Desde os primeiros minutos, o diretor Benedek Fliegauf deixa claro que a história se desenvolve num período e numa região da Hungria em que famílias de origem cigana são assassinadas por milícias locais. A ameaça de que essa violência atinja a família de protagonistas atravessa o filme, mas o cineasta nunca a deixa em primeiro plano. O modelo é o de ficção documental, que virou padrão de cinema e linguagem própria para os diretores do Leste Europeu.

O cineasta acompanha em detalhes um dia inteiro nas vidas dos personagens, seguindo-os da hora em que se levantam ao momento em que vão dormir. O registro dos passos dos protagonistas ajuda a compor o cenário em torno deles, uma Hungria suja, com uma população vivendo em estado miserável, bem diferente do país que aparece nos filmes de Béla Tarr. O estado de tensão por causa dos crimes na região – crimes reais que aconteceram no país entre 2008 e 2009 – não interfere no cotidiano dos personagens e chega a constrastar com a investigação microscópica que o diretor faz de seu país.

Ao traçar um caminho diferente para cada um dos membros da família, Fliegauf parece querer retratar uma Hungria divida, utilizando cada personagem para atingir camadas diferentes de sua observação sobre o lugar. Enquanto a mãe representa um olhar desiludido e a filha mostra a conformação de uma geração diante da falta de perspectivas, o filho caçula é um sopro de esperança. Esperança projetada fora dali, mais especificamente no Canadá, onde mora o pai da família.

O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2012 e foi o representante da Hungria na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro, uma decisão ousada diante de um longa que não está interessado em abrandar sua visão ácida e desesperançada sobre o país. O desfecho do filme, que promove o reencontro dos protagonistas e o cruzamento das linhas narrativas, mostra que assim como os personagens, o diretor parece não acreditar mais no país em que vive.

Apenas o Vento EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Csak a Szél, Benedek Fliegauf, 2012]

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A Espuma dos Dias

A Espuma dos Dias

Michel Gondry é um entusiasta da imagem. Esse é tanto o grande dom quanto o maior pecado de seus filmes. A obsessão plástica do diretor muitas vezes se sobrepõe ao conteúdo de seus trabalhos e o trailer de A Espuma dos Dias, seu novo longa, parecia indicar o mesmo caminho. A história com toques surreais parecia um desfile de escola de samba de cores, formas e personagens estranhos, mas com intenções poéticas, regra do cinema pop francês estrelado por Audrey Tautou, que aqui vive uma mulher ameaçada por uma orquídea que nasce dentro dela. As chances de repetir a experiência de Sonhando Acordado, filme que nunca encontra seus motivos, pareciam fartas, mas essa segunda adaptação para o cinema do livro do francês Boris Vian encontra um equilíbrio interessante, mesmo com tantas fragilidades.

No mundo imaginado por Vian, os personagens ganham pernas longas, andam em veículos-nuvens e dividem espaço com um rato. O maior acerto de Gondry talvez tenha sido fazer os atores viverem o filme como uma experiencia sensorial. Em vez de recorrer a efeitos digitais – que existem, mas numa escala bem pequena -, ele construiu cenários e objetos que dão forma ao sonho psicodélico do escritor. O cineasta utiliza truques de fotografia e montagem para criar seus experimentos, o que transforma A Espuma dos Dias em um filme que não é apenas visual, mas tátil, físico, palpável, que realmente cria um universo lúdico para que seus atores entrem em cena. Uma tática que o aproxima dos primeiros ilusionistas do cinema.

Embora Tautou apareça em todas as sinopses, o protagonista do filme é Romain Duris, inspirado, cuja interpretação remete a algumas comédias malucas dos anos 50 e 60. Ele faz Colin, um herdeiro que não trabalha e guarda todo o dinheiro num cofre, a que recorre para comprar as geringonças mecânicas que habitam seu apartamento e pagar as despesas de seu casamento. Seu melhor amigo é o cozinheiro particular, vivido por Omar Sy, de Intocáveis, totalmente integrado ao clima de anarquia que comanda o filme. Nesse cenário maluquinho, em que Jean-Paul Sartre ganha uma homenagem alegórica, Jean-Sol Partre, Gondry ensaia uma história de grandes e pequenas tristezas, mas com um humor melancólico que percorre todos os personagens. Se não dá conta do livro, o diretor parece ter encontrado uma maneira de traduzir essa história onírica. Ao ressaltar o fake, Gondry tornou a tradução desse universo retrô de ficção-científica um filme mais íntimo e menos afetado do que seus últimos trabalhos.

A Espuma dos Dias EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[L'Écume des Jours, Michel Gondry, 2013]

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Sharknado

Sharknado

Sharknado foi um fenômeno na internet. Embora filmes da sua espécie sejam feitos ao montes todos os anos, a notícia de um longa sobre tubarões que voam sobre Los Angeles no meio de um tornado foi irresistível. Mas a verdade é que a proposta é muito melhor do que o resultado. Por mais óbvio que possa parecer afirmar isto, Sharknado é um filme muito ruim, mas não da maneira que se espera que um filme trash seja ruim, com cenas deliciosas, diálogos sarcásticos e situações esdrúxulas. O longa feito para o canal Syfy é um sinal dos tempos para este gênero.

Se os efeitos digitais vieram possibilitar uma série de experimentos e aumentar as potencialidades do cinema de entretenimento, inclusive viabilizar os filmes de heróis, a computação gráfica destrói boa parte do encantamento que envolvia os filmes trash. Os efeitos de Sharknado são tão mal feitos que dão a sensação de que qualquer moleque de doze anos poderia ter finalizado aquelas imagens. E como o roteiro não ajuda a tirar sarro das tosqueiras do filme, assistir Sharknado tem seus momentos insuportáveis.

Nem as presenças de Ian Ziering, o Steve de Barrados no Baile, Tara Reid, de American Pie, ou John Heard, de Esqueceram de Mim, ajudam a tornar o filme interessante. Não há um só momento memorável no filme ou um diálogo que aproveite as situações ridículas. Pelo contrário, Anthony C. Ferrante parece levar muito a sério sua história esdrúxula e cria uma trama dramática que só abre espaço para piadas sem graça. A penúltima cena é a única que valeria o ingresso, caso o filme não tivesse sido feito para TV. Se aquele espírito zombador fosse mantido ao longo do filme, Sharknado seria bem mais saboroso.

Sharknado Estrelinha
[Sharknado, Anthony C. Ferrante, 2013]

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O Homem de Aço

O Homem de Aço

Christopher Nolan, herói ou vilão? Herói por ter reconstruído a franquia do Batman nos cinemas, provado que os filmes de super-heróis podem fazer muito dinheiro e alimentado a possibilidade de renascer outros personagens da DC Comics nas telas, inclusive juntos. Vilão por ter estabelecido um padrão questionável para os próximos longas baseados em heróis da editora: no universo de Nolan, tudo precisa ser grandioso, desde as perseguições de rua até os dramas morais, tudo tem que acontecer em larga escala.

O Homem de Aço, que ninguém se engane, é um filme de Christopher Nolan. É ele o autor do argumento ao lado de David Goyer – que assinou o roteiro deste longa e de todos os Batmans que o cineasta dirigiu. Foi Nolan quem produziu o filme e provavelmente quem estabeleceu a escala intergalática em que o filme mora. A grandiosidade convive com a necessidade a tentativa de transformar o Superman num personagem possível, de trazê-lo para o mundo real, o que é bastante louvável.

A natureza e os poderes sobre-humanos do herói sempre foram obstáculos para transformá-lo num protagonista realista e o passado de Kal-El no cinema, embora haja muitos acertos nos filmes de Richard Donner e Richard Lester, ajudaram a afastar o personagem do ser humano comum, tanto com seu tom fabular quanto com sua inocência. A grande questão em O Homem de Aço é justamente essa: fazer do herói um herói “de verdade”, no qual a plateia de hoje, acostumada a filmes de ação mais críveis, efeitos especiais mais sóbrios e menos espetaculares e a personagens menos unilaterais – o que o Superman de Christopher Reeve sempre foi – possa acreditar.

O grande senão do filme de Nolan – aliás, de Zack Snyder, respeitando os princípios estabelecidos por Nolan – é que o tom sempre é de excesso, seja de seriedade, seja de magnitude. Existe um esforço reconhecido para aumentar a complexidade do herói, ressaltando suas particularidades, apostando em sua condição de pária. Esse conceito, que vem sendo alimentado nos quadrinhos há quase duas décadas, ajuda a credibilizar o personagem, mas a solução dos autores para dar substância a esse drama é transformar o herói no protagonista de uma tragédia grega, desde sua relação com Zod até os grandes dramas que vive com sua família terráquea.

O Homem de Aço

Michael Shannon se utiliza dessa base do excesso para desfilar todos seus trejeitos e afetações com Zod. E impressionantemente funciona (na mesma medida que o anabolizado Krypton medieval-futurista funciona). Aliás, o elenco todo encontra seu caminho, com destaque principal para Kevin Costner, quase sempre excelente e dono de uma das cenas mais emocionantes (e que atende ao apelo trágico do filme) como Jonathan Kent. Diane Lane está correta, embora pareça envelhecida demais pela maquiagem, e Laurence Fishburne, apesar de estar bem, parece ter sido escalado apenas para que o filme tivesse um efeito Nick Fury como nos longas da Marvel.

Seguindo a lógica do excesso, Amy Adams, que parece realmente ter se inspirado em Margot Kidder, aparece em quase todas as cenas desde que sua Lois Lane surge nas telas. Em alguns momentos, o filme faz às vezaes de versão longa de um episódio de Lois & Clark. Amy, sempre boa atriz, não faz feio, mas também não chama atenção. O Jor-El de Russell Crowe também é onipresente. É interessante como Snyder e Nolan tentaram se afastar dos Supermans de Donner e Lester, mas, por outras vias, terminaram reciclando várias ideias lançadas nos filmes deles.

No meio disso tudo, Henry Cavill é uma grata surpresa. O ator britânico de testa franzida quase que todo o tempo segura o personagem num misto de força e fragilidade, que retrata o herói pretendido pelos autores com precisão. Cavill não é um intérprete excelente, mas veste o Superman com tons mais realistas, se afasta da imagem inocente de Christopher Reeve e se coloca a serviço do filme. O problema é que, mesmo que o longa prepare o terreno para esse Superman humano, a necessidade de explodir a tela em efeitos visuais e criar cenas grandiosas resulta numa interminável e enfadonha sequência de destruição que evoca tanto os filmes do Batman de Nolan quanto os longas de Michael Bay.

O pecado de Nolan é mais uma vez, o excesso. As histórias dos heróis de quadrinhos são reconstruídas de tempos em tempos. É a dinâmica do meio. Para se atualizar para novas gerações e para reaproveitar aspectos de antigas aventuras, suas origens são constantemente reescritas, seus poderes, inimigos e vida civil adaptados para os novos tempos. Fazer isso com heróis com o Batman, um herói da vida real, é mais fácil. Basta colocá-lo em confronto com terroristas, os supervilões de nossa sociedade atual, para inseri-lo no mundo contemporâneo. Com um personagem como o Superman, as coisas se complicam porque, apesar de todo o bom mocismo, primeira associação que se faz ao herói, o kryptoniano é muito mais complexo do que qualquer outro: um semideus que carrega nos ombros, como o Atlas da mitologia grega espelhada em O Homem de Aço, o peso do mundo. Ou de dois mundos. Peso que está presente neste filme, mas por pouco não o esmaga com suas pretensões.

O Homem de Aço EstrelinhaEstrelinha½
[Man of Steel, Zack Snyder, 2013]

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Branca de Neve

Branca de Neve

É meio óbvio afirmar isso, mas primeira coisa que vem em cabeça quando se assiste o segundo filme de Pablo Berger é O Artista, de Michel Hazanavicius. Impossível fugir da comparação: os dois longas prestam homenagens aos primeiros anos do cinema, desenvolvendo histórias fabulares em narrativas silenciosas e em preto-e-branco. Se um resgata o misto entre inocência e desencanto de uma Hollywood clássica, o outro parte de um clássico da literatura infantil para recuperar um período da história de seu país. Em comum, além de atores mímicos e ausência de cores, a utilização maciça de belas trilhas sonoras que reforçam o encantamento que ambos os filmes têm como objetivo.

O fato é que, depois de se ter visto um filme com forma e artifícios tão parecidos, Branca de Neve perde um pouco de sua novidade. Plasticamente, o diretor acerta na composição da fotografia, rica de contrastes e cheia de momentos bonitos, mas encontra algumas soluções visuais contemporâneas para uma estrutura que remete a um cinema feito há mais de 80 anos. Em algumas cenas, a nostalgia não parece apenas um objetivo, mas uma muleta para vender o filme. Berger usa algumas premissas do conto dos irmãos Grimm, transportando a história para a Andaluzía dos anos 20, colocando as touradas na espinha dorsal da trama. Essa apropriação dá singularidade ao filme, que não fica refém de sua fonte, mas cria em certa medida um conflito entre a pretensão realista e a natureza fabular do material.

As idiossincrasias de Branca de Neve provocam um estranhamento interessante. O filme é bem melhor quando mira no que cria e não no que transforma. A mocinha toureira e os toureiros anões ganham da história de amor, mas Maribel Verdú, como a madrasta má, é um caso à parte. A versão latina de uma das maiores vilãs do imaginário popular ganhou novas texturas na interpretação da atriz, incorporando deliciosos cacoetes de folhetim à personagem. Mas nem ela tira um certo sabor de que este filme foi planejado demais para parecer tão espontâneo, puro, até ingênuo. Se assumisse a condição de homenagem de forma mais direta em vez de tentar provocar um efeito genuíno, Berger talvez tivesse dirigido um filme não apenas competente, mas mais sincero. Neste aspecto, O Artista leva uma certa vantagem.

Branca de Neve EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Blancanieves, Pablo Berger, 2012]

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A Bela que Dorme

A Bela que Dorme

Marco Bellocchio deveria ser um maestro. A música é tão importante em seus filmes que cenas simples se transformam em atos de uma sinfonia apenas pela maneira como o diretor utiliza a trilha sonora. A Bela que Dorme, como no gigantesco Vincere, tem sequências em que as composições assinadas por Carlo Crivelli parecem saltar na tela como um rolo compressor, esmagando todo o resto, como se o cineasta evocasse um estado de espírito elevado, muito acima da discussão sobre eutanásia que permeia o longa.

A Bela que Dorme tem como ponto de partida o caso real de Eluana Englaro, uma italiana que viveu 17 anos em estado vegetativo, até que sua família resolveu desligar os aparelhos que a mantinham viva. A decisão abriu um imenso debate sobre o tema no país. Debate que Bellocchio reacende no filme, uma pensata com múltiplas variáveis sobre o direito de interromper ou não a vida de alguém numa situação irreversível.

Apesar de ser o ponto de partida para a realização do filme, a figura de Eluana é apenas um fantasma onipresente na vida dos personagens, todos fictícios, criados pelo diretor. Sua história é contada no texto dos atores e pelas imagens de arquivo, o que reforça seu caráter simbólico e sua presença opressiva para os verdadeiros protagonistas do filme. Bellocchio prefere utilizar Eluana como maneira de dar movimento a diferentes tramas e pontos de vista diversos sobre o assunto. E nunca se interessa em dar uma palavra final.

O mosaico construído pelo diretor encontrou alguns bons defensores. O senador em crise de consciência vivido por Toni Servillo (Il Divo) é, de longe, o melhor e mais bem resolvido personagem do filme, seguido pelo médico interpretado pelo filho do diretor, Pier Giorgio Bellocchio. Ambos conseguem retratar a fragilidade e a solidão de pessoas que convivem com o problema de perto, mas de forma indireta. Homens que, em desespero silencioso, buscam redenção para a corrupção ética, em níveis variados, que faz parte de suas histórias.

Enquanto isso, Isabelle Huppert não entendeu o tom épico que Bellocchio imprime ao debate e se conforma em reprisar as caras e bocas de seus últimos vinte personagens. Este tom, proporcionado em grande parte pelo uso orquestrado da trilha sonora, eleva a discussão sobre a eutanásia a um nível tão superior que permite que Bellocchio se abstenha sobre a polêmica. O filme não termina como um relato ou uma provocação, mas como um ensaio sobre as diferentes formas de se entender o que é certo e o que não é.

A Bela que Dorme EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Bella Addormentata, Marco Bellocchio, 2012]

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