Monthly Archives: maio 2013

Faroeste Caboclo

Faroeste Caboclo

Não teve medo o tal de René Sampaio de transformar em filme um dos maiores hinos de uma das bandas mais icônicas do rock brasileiro. Medo porque tudo o que envolve o Legião Urbana é cercado por uma aura mítica e encontrar o equilíbrio entre a fidelidade à obra original, agradar aos fãs e fazer um filme para um público grande, como a natureza do objeto pede, mesmo que o projeto seja mais particular, não são tarefas muito simples. Além disso há poucos filmes baseados em letras de músicas, ainda mais quando se trata do primeiro longa-metragem de um diretor. O cineasta corria riscos e resolveu não se render a concessões.

No cinema, a saga de João de Santo Cristo, escrita por Renato Russo em Faroeste Caboclo, manteve o espírito da canção: é muito mais um romance policial do que um western brasileiro. Há algumas liberdades, mas a história principal é bem fiel em relação à letra da música. Sampaio sabe que identificar personagens “cantados” durante tanto tempo criaria vínculos entre espectador e filme, então, apresenta cada um com certa pompa. João de Santo Cristo, Maria Lúcia, Pablo e Jeremias, os protagonistas desta história, entram em cena com a função de materializar esse imaginario coletivo, mas não são feitos para agradar quem espera ver uma grande saga de amor no sentido mais tradicional da expressão.

Para começar, o herói do filme é um traficante de drogas, negro, que vive à margem da lei e a mocinha é uma jovem que não dispensa substâncias proibidas para viver na Brasília do fim dos anos 70. Isís Valverde teve que convencer o diretor de que ele deveria escalá-la para o papel. Ele queria uma atriz desconhecida, mas o fato de uma estrela global aparecer fumando maconha durante um filme inteiro dá novo sabor para Faroeste Caboclo. Fabrício Boliveira, embora já tenha feito alguns trabalhos na televisão, é um ator pouco conhecido e não faz o estereótipo de galã. O casal de protagonistas foge aos padrões, o que dá uma liberdade extra ao filme para que ele se liberte de algumas prisões estilísticas.

René Sampaio já tinha assinado alguns curtas. O mais famoso e premiado deles, Sinistro (assista aqui), é uma espécie de thriller noturno que empresta um pouco de seu universo visual para Faroeste Caboclo. Grande parte das cenas do longa se passa à noite, o que permite que a fotografia explore ângulos e lugares de Brasília como raramente vemos no cinema em vez de buscar imagens bonitas, caso da maioria dos filmes brasileiros recentes. Pelo contrário, o diretor parece querer um filme visualmente sujo, talvez para dar maior impacto e texturas mais realistas à trama. Um exemplo é a cena em que um personagem conversa com outro, que está dentro de um carro. A sujeira do vidro incomoda o espectador, que não vê claramente quem está falando. Uma preocupação que parece tola, mas traduz a intenção de Sampaio de não fazer uma obra agradável.

Um dos roteiristas do filme é Marcos Bernstein, que assinou a cinebiografia de Renato Russo, Somos Tão Jovens, um filme bem mais interessado em deixar o público confortável com o que vê na tela. Um dos maiores pecados do roteiro daquele filme era incluir no texto trechos de letras ou títulos de músicas do Legião Urbana. Em excesso, a brincadeira teve o efeito contrário. Em Faroeste Caboclo, Bernstein reprisa a ideia numa cena em que fala que “os malucos da cidade souberam da novidade” e um personagem completa “tem bagulho bom aí!”. Isolada, a citação funcionou muito melhor. Na cinebiografia de Renato Russo, existe uma sequência que conta a história de como o compositor se inspirou para escrever Faroeste Caboclo. Não é uma cena das melhores, mas serve como um interessante complemento para o longa de René Sampaio. Um filme melhor do que poderia se esperar porque seu diretor tentou contrariar das mais variadas maneiras as expectativas em torno dele.

Faroeste Caboclo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Faroeste Caboclo, René Sampaio, 2013]

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Era uma Vez na Anatólia

Era Uma Vez na Anatólia

A Turquia de Era Uma Vez na Anatólia é um país dividido em dois: de um lado há uma terra secular que ainda guarda em seu dia-a-dia o peso de sua tradição e de sua história. De outro, uma nação que tenta ingressar no mundo contemporâneo, mas se perde na burocracia inerente à maneira que sua sociedade se organizou. A primeira impressão do filme é de que o cinema de Nuri Bilge Ceylan está em seu ponto mais alto. Ao mesmo tempo em que constrói planos belíssimos, o diretor começa a costurar uma história policial com um tempo raro, quase sem ação, mas mantendo o mistério. O primeiro e esdrúxulo diálogo dos personagens dentro do carro remete a Quentin Tarantino e a herança do título “Era uma Vez” dá uma grandiosidade que parece não pertencer, mas que estranhamente cabe ao filme.

A primeira parte do longa, com a busca incessante pelo local de um crime do qual o espectador sabe muito pouco, é a melhor. Como Ceylan mira menos nesta caçada e mais nos bastidores dos personagens envolvidos, revelando detalhes sobre os métodos e o modus operandi do sistema judicial/policial da Turquia, a comparação com Polícia, Adjetivo, um filme melhor, não é leviana. Da mesma forma que Corneliu Porumbouiu faz um raio x do processo da polícia romena, Ceylan observa com cuidado os movimentos internos da instituição em seu país, um país que parece em conflito interno.

O cineasta, com um objeto maior, não precisa recorrer aos golpes de roteiro que o acompanham nos últimos três longas, o que resulta num filme mais limpo e mais contudente, embora mais inflado. A longa duração de Era uma Vez na Anatólia às vezes opera contra o filme e prejudica seu fluxo: não raramente parece mais uma justificativa para citar o modelo de título herdado de Sergio Leone, para metabolizar a investigação sociológica proposta do que para acompanhar a velocidade com que as coisas acontecem. Mas se a beleza dos enquadramentos fica banalizada por algum excesso e os detalhes se tornam menos interessantes, a grandiosidade do objeto parece ter ajudado o trabalho do diretor. Por mais que este filme tenha um cuidado especial com a imagem, pela primeira ele não peca pelo exagero de verniz e deixa de lado a afetação de 3 Macacos, seu antecessor. Era uma Vez na Anatólia é um mosaico realista de um país ainda em busca de seu lugar no mundo.

Era Uma Vez na Anatólia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Bir Zamanlar Anadolu'da, Nuri Bilge Ceylan, 2011]

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A Criada

A Criada

A indefinição no tom e no alvo é o maior problema de A Criada, filme de Sebastian Silva, que chega ao circuito comercial brasileiro com quatro anos de atraso. O roteiro é escrito na base da comédia de absurdos, acompanhando o comportamento esquisito, quase psicótico, da protagonista, mas a intenção do diretor está bem longe da brincadeira surreal. O chileno parece se incumbir da proposta de transformar o longa numa espécie de reflexão sobre a condição das secretárias do lar, da relação entre empregadas e patrões, como em Doméstica, do brasileiro Gabriel Mascaro, mas não consegue fazer drama e humor dialogarem muito bem.

A atriz Catalina Saavedra, premiada em Sundance, é o maior trunfo do filme. Ela consegue emprestar contornos cada vez mais detalhados até humanizar a personagem, mesmo quando o roteiro cria armadilhas para transformar a protagonista em vilã, condená-la à loucura ou simplesmente entregá-la à caricatura. Sua interpretação é arriscada, opera no limite da sensibilidade, o que dá um fôlego maior ao filme. Raquel trabalha há vinte anos na casa de seus patrões, onde é tratada como um membro da família. Sem nunca ter tido direito a um vida realmente sua, ela extrapola os limites da relação com os patrões, repelindo interferências externas (outras empregadas) e criando papéis fictícios para os donos da casa, o que supre seus desejos e anseios.

A ideia parece melhor escrita do que é executada. Algumas cenas de comédia funcionam muito bem, sobretudo as que envolvem a peruana rival de Raquel ou a funcionária da mãe da patroa, mas quando o filme tenta falar sério parece não ter muita propriedade para isso e parte para a agressão. Os nus excessivos querem forçar a mudança de ares, mas na maioria das vezes o filme parece apenas brigar consigo mesmo e nunca realiza sua intenção maior de analisar o cotidiano de uma empregada doméstica.

A Criada EstrelinhaEstrelinha½
[La Nana, Sebastian Silva, 2009]

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Trailer: Tabu

Tabu, Miguel Gomes

A obra-prima Tabu, do português Miguel Gomes, melhor filme do ano passado, será finalmente lançado em circuito comercial no Brasil no dia 7 de junho, promete a Espaço Filmes. O filme já tem trailer legendado em português brasileiro.

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Um Pouco Zombie

Um Pouco Zombie

Os zumbis existem no cinema desde anos de 1930, mas somente quando George A. Romero deu aos mortos-vivos um lugar além da vida, no fim da década de 60, é que a epidemia se espalhou pelo planeta e invadiu os gêneros tradicionais. Hoje, mais de 40 anos depois, a cultura zumbi segue firme e forte em sua missão de dominar o mundo, com representantes da Alemanha até o Japão, do Brasil até o Haiti, onde, teoricamente, tudo começou nos rituais de vodu.

Das terras geladas do Canadá veio Um Pouco Zombie exemplo de que o filme de zumbi sofreu mutações secundárias. Utilizando as regras da comédia popular, o filme investe num humor simples, quase ingênuo, que celebra os longas estrelados pelos mortos-vivos nos anos 80, que passavam ao largo da crítica sócio-política que Romero faz em sua hexalogia e, de quebra, criaram um mito, o do zumbi que sai por aí gritando “miolos”!

Mas se há 25 anos, tudo não passava de uma grande piada, nos dias de hoje costurar um filme refereciando aquele subestilo é uma brincadeira deliciosa, sobretudo para o espectador iniciado. O diretor Casey Walker desconstrói o gênero com a história do homem que é picado por uma mosca zumbi, mas só desenvolve parte das características de sua agressora e luta contra sua sina de eterno assassino.

A ironia é regra e Shawn Roberts, que interpreta o personagem principal, entendeu a proposta direitinho. Sua performance caricata – ele é quase um Zacarias dos mortos-vivos – é um dos grandes trunfos do filme. Em menos de 90 minutos, Roberts protagoniza cenas que vão entrar pra antologia lado B dos filmes de zumbi. A melhor delas talvez seja a sequência em que ele vai ao mercadinho em busca de cérebros de animais. Ou – quem sabe? – a cena em que declara amor ao coelho da namorada. Num mundo em que zumbis sérios cada vez mais estão à espreita, Um Pouco Zombie joga uma luz de sarcasmo no fim de um túnel cheio de mortos esfomeados.

Um Pouco Zombie EstrelinhaEstrelinha½
[A Little Bit Zombie, Casey Walker, 2012]

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Elena

Elena

A voz pequena de Petra Costa quase é engolida pelo som ambiente nas primeiras cenas de Elena, sobretudo naquelas em que se acompanha o movimento das ruas de Nova York. Quando nos acostumamos à suavidade do jeito de falar da cineasta, narradora de seu próprio filme, descobrimos que sua irmã, que batiza o longa, tem o mesmo tom de voz, o mesmo sotaque mineiro delicado, e que as duas, Elena e Petra, guardam grandes semelhanças físicas. As irmãs são separadas por mais de dez anos de idade, mas quando surgem adultas, num encontro de imagens recentes produzidas para o filme e vídeos caseiros registrados ao longo dos anos, parecem a mesma pessoa. É no meio desse jogo de espelhos – onde confundir as duas personagens principais do longa se torna corriqueiro mesmo que dure alguns segundos – que a diretora costura seu documentário em primeira pessoa, seu filme de memórias no formato de álbum de família.

A realização do longa deve ter sido difícil. Primeiro porque Petra não poupa sua família de vasculhar uma de suas maiores dores. Quando a mãe das duas surge na tela – geralmente em closes que parecem feitos para mostrar de onde vem a semelhança entre as irmãs – ficamos certos de que as vidas destas três mulheres estão entrelaçadas para sempre. Segundo porque Petra assume uma postura quase simbiótica em relação à irmã. Ela era sua heroína, sua inspiração, dela veio seu projeto de vida, Elena era o duplo de Petra. Por isso, a opção por explorar as semelhanças entre as duas ganha contornos dramáticos quando o espectador descobre o destino da personagem-título do filme, uma virada tão avassaladora que não se consegue explicar.

É aí que surge uma das melhores decisões da cineasta. Embora envolva o filme numa embalagem poética, Petra acerta no tratamento de um dos temas mais delicados para se registrar no cinema: o desaparecimento de Elena é visto tanto pelos relatos doloridos, mas um tanto assépticos, de quem estava a sua volta quanto pelas impressões inocentes de uma criança de sete anos. “Como assim ela morre no final?”, pergunta Petra para a irmã que acaba de ler a fábula A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen. A ironia da questão serve para que a cineasta justifique sua proposta. A homenagem está explícita, a perda está registrada, mas com um equilíbrio raro que valoriza a emoção e não o excesso. O texto do filme é um texto pensado, calculado, mas esse cálculo não diminui sua força poética, nem sua espontaneidade porque, acima de tudo, este é um filme sincero.

Não há um único momento em Elena em que este não seja um filme sobre Petra como também não existe um único momento no longa em que a diretora fale apenas para si mesma. O canto de Petra Costa para irmã é um canto para que ela mesma encontre a paz, mesmo que esta paz venha sem explicações. “Enceno a nossa morte para poder viver”, declara, sutil, a diretora. As memórias de Elena finalmente encontraram seu lugar.

Elena EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Elena, Petra Costa, 2012]

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Terapia de Risco

Terapia de Risco

O kitsch está na espinha dorsal do último filme de Steven Soderbergh. Terapia de Risco tem uma daquelas tramas que se revelam aos poucos, transformando o drama de uma protagonista com problemas psíquicos num suspense cheio de reviravoltas e planos secretos, dignos dos filmes que passavam no Supercine. Soderbergh dedica boa parte de sua realização a criar elementos que possam tornar o filme consumível para um público televisivo, acostumado a marcações mais claras e personagens unilaterais, travestidos por disfarces que não revelam nuances, apenas atrapalham a visão inicial. O longa, se o diretor cumprir a promessa desta vez, deve ser um dos últimos trabalhos de sua carreira. Um projeto pequeno e pouco significativo para um homem que já entregou filmes como sexo, mentiras e videotape e Irresistível Paixão.

Rooney Mara, que tem cenas boas no começo do filme, é uma mulher com fortes transtornos psicológicos que passa a ser tratada por um psiquiatra, papel de Jude Law, afeito a novos medicamentos. O desdobramento desta relação é o que vai mover a história. Antes de transformar seu filme num thriller com uma trama macabra, Soderbergh parece fazer uma reflexão a respeito da indústria farmacêutica e da hipocondria que domina a sociedade atual. Mas seu discurso não segue muito adiante e nem tem muita relevância e é rapidamente substituído por algo que possa entreter melhor o espectador.

Parece uma lógica de novela que vem perdendo pontos no Ibope e passa por uma adequação aos gostos do público. Os envolvidos parecem orgulhosos da arapuca armada para quem assiste ao filme, mas os movimentos da trama não passam de reprises de dezenas de outros filmes (que vimos, inclusive, no Supercine). A escalação do arroz-de-festa Channing Tatum, o típico galã do interior, e a personagem de Catherine Zeta-Jones são as provas principais deste namoro de Soderbergh com o kitsch. Nas cenas de festa, ele parece um daqueles mocinhos de romance feminino de banca de revista. A psicóloga interpretada por Zeta-Jones é concebida, desde o começo, como uma mulher que tem algo a esconder, desde o figurino de executiva série B até a maneira como prende o cabelo, sem falar no texto cheio de dubiedades.

Talvez estas dubiedades representem a herança que o cineasta vai deixar. Para cada filme sóbrio ou pelo menos acertado, Soderbergh faz trabalhos que não chegam a lugar algum. Os efeitos colaterais de filmes como Terapia de Risco podem fazer com que a memória do cinema deste diretor permaneça nos lugares errados.

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[Side Effects, Steven Soderbergh, 2013]

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Vocês Ainda Não Viram Nada

Vocês Ainda Não Viram Nada

A experiência cinematográfica do novo filme de Alain Resnais guarda grandes semelhanças com o que Eduardo Coutinho faz em Jogo de Cena. Os dois filmes colocam a representação – tanto enquanto performance quanto enquanto significação – no centro de suas tramas e no esqueleto de suas propostas de cinema. Mas se de um lado o longa do brasileiro mira na questão da identidade, no processo de tradução de um personagem, na simbiose entre criador e criatura, Vocês Ainda Não Viram Nada procura esgotar as possibilidades de reinterpretação de um texto. O texto no caso é a peça Eurídice, uma releitura do mito de Orfeu, um combinado de dois textos teatrais de Jean Anouilh, que na versão de Resnais foi escrita pelo dramaturgo fictício Antoine d’Anthac.

Elemento fundamental ao cinema de Resnais, o humor dá o tom da cena de abertura do filme em que vários telefonemas se sobrepõem, informando sobre a morte do dramaturgo. Quem recebe as ligações são atores reais, que interpretarão a si mesmos (e algo mais) no decorrer do longa. A cena funciona tanto para lançar a trama quanto para creditar o elenco, entre eles Michel Piccoli, Mathieu Amalric, Lambert Wilson e Anne Consigny. A mulher de Resnais, Sabine Azéma, e seu colaborador mais fiel, Pierre Arditi, que estrelaram, cada um, dez filmes do cineasta, muitas vezes como um casal, repetem o feito aqui. Diante de uma fartura de talentos, e o mais notável, de parceiros, o diretor se sente em casa para realizar seu experimento.

Os atores, já no modo interpretação, recebem um último pedido do amigo dramaturgo: assistir a um vídeo com a encenação de um jovem grupo de teatro para a obra de d’Anthac, cabendo decidir se eles devem ter a autorização para montá-la ou não. Uma proposta meio pobre, mas que abre as portas para que Resnais faça seu exercício de metalinguagem: enquanto o vídeo com a trupe fazendo uma versão “de rua” para o texto é projetado no meio da mansão do dramaturgo, os atores veteranos, que já interpretaram aqueles papéis, ocupam seus lugares em poltronas instaladas na sala. O cineasta transforma o ambiente num cenário de teatro, com poucos móveis e quase nenhuma decoração, palco perfeito para que os atores assistam, reconheçam e reinventem o texto.

À medida em que o filme acontece, o elenco vai se envolvendo com a história de Eurídice e Orfeu, a ponto de se confundir com ela, tanto no plano da memória quanto no da interpretação. A ideia parece ser partir da diferença, do cisma entre os modelos de representação, para fundir os veteranos e novatos numa espécie de mensagem sobre a universalidade do teatro. Para Resnais, o texto mais do que convida os atores para o “palco”, ele transforma esta atração em algo inerente à profissão de ator. A encenação está no vídeo do grupo mais jovem, nos atores que reprisam os textos dos personagens sentados nas poltronas e na materialização de suas interpretações em cenas em que o diretor abusa de cromaquis, ou seja do fake, da farsa, do teatro, para discorrer sobre representação. Embora o impacto não seja tão forte como o de Jogo de Cena, o novo filme de Resnais decreta o fim dos limites entre real e encenação.

Vocês Ainda Não Viram Nada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Vous N'avez Encore Rien Vu, Alain Resnais, 2012]

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Amor Profundo

Amor Profundo

Londres está em ruínas e a personagem central de Amor Profundo também. Hester trocou o casamento com um velho aristocrata para morar com um amante mais jovem, um oficial das Forças Armadas, um herói da guerra que acabou há poucos anos. Como a cidade, que foi apartada dos tempos de tranqüilidade pelo conflito, ela também sofre com a nova direção que sua vida tomou: quis arriscar sua segurança, confrontando o mundo real e se fiando no amor, e isso lhe custou a própria paz. Hester é a protagonista de uma tragédia amorosa num cenário ideal para que tragédias amorosas se desenvolvam.

As cores que Terence Davies rouba para o filme são fundamentais para que a atmosfera não seja de desilusão, mas de extremo romantismo. A fotografia do filme, que marca o retorno do cineasta aos filmes ficcionais depois de 11 anos, parecem refletir o excesso de sentimento que a personagem guarda, como se seu amor não encontrasse para onde ir e não coubesse mais dentro dela, transbordando em amarelos e vermelhos na tela. Este delicado trabalho de composição visual dá suporte a um dos temas preferidos de Davies, a reconstrução da memória. A memória de uma cidade que tenta se reerguer tal qual a protagonista.

A “pintura” dessa Londres de um passado perdido, obra impecável do fotógrafo Florian Hoffmeister, dá um fôlego cinematográfico ao material, ajudando a traduzir um texto que vem do teatro, mais especificamente da peça The Deep Blue Sea, que Terence Rattigan escreveu em 1952. Se o cineasta é feliz nesta adaptação de meios, faz questão de dirigir um filme “à moda antiga”, respeitando silêncios e abrindo espaço para que a trilha sonora assuma o papel de dar harmonia ao conjunto. Existe uma espécie de melodia triste que envolve o filme, que traduz o estado de espírito de Hester, e que encontra na fotografia um casamento perfeito.

No meio desta aventura pictórica e violentamente humana, segue Rachel Weisz, numa de suas melhores atuações, madura e triste. O olhar sem esperanças de Hester parece mostrar como ela encara o que está por vir.

Amor Profundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Deep Blue Sea, Terence Davies, 2011]

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Reality: A Grande Ilusão

Reality

O simulacro está na essência de Reality – A Grande Ilusão, novo filme do italiano Matteo Garrone. Na cena que abre o longa, vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes no ano passado, a câmera segue uma carruagem e encontra vários atores vestidos em roupas de época. As imagens imediatamente estabelecem a impressão de que o filme se desenvolverá no passado. O disfarce dura apenas alguns minutos, o suficiente para que o espectador descubra que está assitindo a um casamento onde todos usam fantasias, mas serve para deixar claro que o cineasta se propõe a investigar um elemento fundamental à história do cinema – a capacidade de construir uma realidade -, o que Garrone faz, operando entre o real e a sedução do imaginário.

O protagonista não tem nada de nobre: ele é um peixeiro camarada que vive em Nápoles. Luciano usa sua simpatia para conquistar fregueses e atrair comparsas para as atividades ilegais que complementam o sustento de sua família. A Itália corrompida que Garrone retrata no inócuo Gomorra, seu celebrado filme anterior, parece se repetir neste novo trabalho, com o diferencial do uso da comédia. Luciano é um ator nato, quase uma caricatura do que se imagina do italiano, o cara comunicativo, que exagera no gestual, fala alto e sem parar. O personagem usa seu talento natural para cooptar quem está a sua volta, conscientemente ou não, ele se alimenta da própria projeção.

Embora seja um astro nas vizinhanças, o peixeiro não tinha uma exata consciência de sua condição e passava imune ao culto à celebridade que impera por aí. As coisas mudam quando, a pedido da filha, ele faz um teste para participar do Big Brother italiano e encanta os produtores. É aí que Garrone manobra o que deveria ser a grande sacada do filme: o homem que seduz a todos se vê atraído pela possibilidade de notoriedade. A curva do roteiro é sinuosa e se revela um caminho sem volta. Com a munição voltada para a máquina da fama instantânea, o diretor transforma o personagem principal primeiro num obsessivo e depois num psicopata que elimina todas as prioridades de sua vida para se dedicar compulsivamente a conseguir uma vaga no programa.

A proposta promissora de Reality se perde no excesso. A crítica fica óbvia e repetitiva. A criatividade do filme parece empacar depois dos dois terços inciais do longa. Nem o talento natural de Aniello Arena, que interpreta Luciano, sobrevive intacto ao bombardeio de Garrone. Lamentável porque o próprio ator é outro exemplo de simulacro: Arena é um ex-gângster que cumpriu pena por cometer três homicídios e, na cadeia, começou a se interessar por teatro. É o personagen da vida real que virou ator. O exagero do cineasta fez com que ele perdesse a chance de usar mais esse nível de discussão sobre o tema. Garrone caiu na mesma tentação de seu personagem de substituir a vida real pela ficção.

Reality: A Grande Ilusão EstrelinhaEstrelinha½
[Reality, Matteo Garrone, 2012]

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