Monthly Archives: março 2013

Berberian Sound Studio

Berberian Sound Studio

O som é um elemento fundamental no cinema do britânico Peter Strickland para quem os filmes são intensas experiências sensoriais. Katalin Varga, seu primeiro longa-metragem, é a jornada de terror da personagem-título pelo interior da Romênia. Uma jornada que se torna fantasmagórica graças a um maciço trabalho sonoro. Com um interesse tão evidente, não é de se estranhar que o diretor tenha escolhido um estúdio de som como cenário – e elemento narrativo primordial – para seu novo filme, Berberian Sound Studio, uma homenagem ao giallo, o gênero que mistura crime e suspense que se popularizou a partir da década de 70 pelas mãos de cineastas como Dario Argento.

Toby Jones interpreta Gilderoy, um técnico de som inglês, contratado para fazer a sonoplastia de The Equestrian Vortex, um longa de terror na Itália. À medida em que o personagem começa a se envolver com a produção, monitorando várias sessões de dublagem e participando da criação de efeitos sonoros, Strickland transforma sua experiência de estar num país desconhecido em que se fala uma língua que ele também desconhece num outro filme de terror que opera, sobretudo, no psicológico do protagonista. A violência que permeia o filme, quando existe, é verbal, mas a atmosfera instalada pelo cineasta é de pavor, acentuada pelo caráter onírico de algumas cenas, que fazem o espectador questionar o que existe de concreto na história que é contada.

O clima claustrofóbico começa com o tratamento do diretor de produção para com as atrizes, na base da tortura psicológica, e se instala por todo lugar, transformando o cenário, o estúdio, numa espécie de prisão para o protagonista. Gilderoy entra em conflito consigo mesmo, num momento em que o filme começa a namorar com alguns elementos do cinema de David Lynch. A trilha sonora composta pelo grupo Broadcast parece inspirada nas que o Goblin fazia para os longas de Argento e serve para sedimentar a atmosfera. Em meio a tudo isso, Strickland faz uma belíssima homenagem ao trabalho dos técnicos de som, dedicando boa parte do filme a seus truques e técnicas na hora de compor o projeto sonoro de um filme. E Toby Jones está excelente sob todos os aspectos.

Berberian Sound Studio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Berberian Sound Studio, Peter Strickland, 2012]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha

A Hospedeira

A Hospedeira

Para fruir A Hospedeira como o projeto merece, é preciso um pouco de boa vontade. É fácil encontrar semelhanças de temática e formato com a Saga Crepúsculo, a obra mais famosa e pouco requintada da escritora Stephenie Meyer, e é mais fácil ainda apontar reducionismos, simplificações e maneirismos na história sobre um mundo distópico em que uma raça alienígena assume o controle do planeta, roubando literalmente os corpos dos habitantes da Terra. O livro da escritora e o filme baseado nele têm muitas falhas e quase nenhum refinamento, mas esse espírito meio amador é o que ajuda a dar charme à saga da protagonista Peregrina.

O diretor Andrew Niccol já tinha no currículo duas ficções-científicas – Gattaca e O Preço do Amanhã -, ambas ambientadas em sociedades distópicas. Ele assume a natureza de lado B do projeto, recorre a seu cardápio de influências nesse terreno e transforma o filme numa releitura de longas baratos que invadiram o cinema, sobretudo na década de 70. No cozidão de Niccol, atores com poder de interpretação limitado e uma direção de arte kitsch que inclui cenários nitidamente artificiais e um visual asséptico para os invasores alienígenas.

A trama de A Hospedeira funciona na base da colagem: Meyer roubou os alienígenas de Guerra do Mundos, de H.G. Wells, e deu a eles o poder de ocupar corpos alheios como nos quatro filmes inspirados em The Body Snatcher, de Jack Finney, guardando ainda ecos da troca de identidades da série V – A Batalha Final. Diane Kruger topa a brincadeira e incorpora uma alien de coração gélido. Esses elementos já garantiriam a condição de guilty pleasure para o filme, mas a autora ainda oferece um delicioso complemento a essa homenagem a um dos subgêneros mais divertidos da ficção-científica: ela coloca invasora e hospedeira em conflito.

As cenas em que Melanie se revolta contra Wanda (apelido para Wanderer, Peregrina no Brasil) são de um humor tão involuntário quanto hilariante. Saoirse Ronan, geralmente uma ótima atriz, faz caras e bocas gloriaperezianas para dar conta da barbaridade do texto de novela das seis – além de ter que conversar consigo mesma. Mas o que poderia depor contra o filme só faz aumentar seu charme de subproduto. Um dos momentos mais divertidos é quando Jared, personagem de Max Irons (filho de Jeremy Irons), explica como teve certeza de que Melanie estava viva no corpo possuído por Wanda.

Por sinal, Stephenie Meyer sabe bem qual é seu público-alvo, então, repete a fórmula da Saga Crepúsculo com um triângulo (ou quadrilátero) amoroso adolescente, que é a coisa mais desinteressante de um filme que merecia uma resolução melhor. Com a mão pesada da autora para cenas dramáticas, a natureza de sua história convence apenas como diversão rasteira. Nem a presença de William Hurt, muito bem como o tio Jebediah, consegue dar dignidade ao filme. Ainda bem. A Hospedeira merece ser visto como realmente é: uma grande e deliciosa bobagem pós-apocalíptica.

A Hospedeira EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Host, Andrew Niccol, 2013]

7 Comments

Filed under Resenha

Jack – O Caçador de Gigantes

Jack - O Caçador de Gigantes

Os contos de fadas estão cada vez mais transfigurados. Numa estratégia para cooptar o espectador dos dias de hoje, os personagens que povoam nossas infâncias há gerações ganharam versões anabolizadas, em filmes com edição clipada, muita câmera lenta e efeitos visuais de gosto bem questionável. Por isso, um dos grandes trunfos de Jack – O Caçador de Gigantes é ser uma aventura à moda antiga, com um compromisso com um público mais amplo. Uma das primeiras coisas que se observa no filme é como ele foge do que tradicionalmente se espera de um longa para crianças: há muitas cenas violentas, com cabeças rolando e pouca ou nenhuma piedade com alguns personagens, embora tudo pareça integrado ao espírito de conto medieval. Este talvez seja o maior trunfo do filme.

Embora o roteiro modifique alguns dos elementos de João e o Pé de Feijão, conto atribuído ao inglês Benjamin Tabart que inspirou o longa, o espírito oldfashioned se mantém fiel à obra, como mostra a sequência final que brinca com a evolução das lendas. Bryan Singer, que ganhou experiência em personagens fantásticos ao dirigir os dois primeiros filmes dos X-Men, segue o caminho inverso das outras reimaginações de fábulas, que se empenham tanto em atualizar as tramas a ponto de transformá-las em versões menores de filmes de Michael Bay. Singer valoriza o lúdico, mas consegue comandar uma bela aventura, com cenas de ação bem dirigidas, em especial na sequência em que os gigantes, descidos de sua terra suspensa, perseguem o rei e seus soldados.

Embora a mocinha entregue uma interpretação insípida e Nicholas Hoult – o menino de Um Grande Garoto e o novo Fera dos X-Men – não tenha muito charme, Ewan McGregor incorpora com propriedade o heroísmo de seu personagem – e sem perder o humor, como prova a cena em que ele é preparado para ser aperitivo de gigantes. Estes, por sinal, ganharam um traço que tanto atende às necessidades cômicas do material quanto funciona para credibilizá-los como vilões. Singer acerta justamente ao administrar o contraponto entre o respeito ao original e a capacidade de conversar com novos públicos. Foi isso que ele fez com os X-Men e é essa que parece ser sua maior qualidade.

Jack – O Caçador de Gigantes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Jack - The Giant Slayer, Bryan Singer, 2013]

3 Comments

Filed under Resenha

Amor, Estranho Amor

A carreira de Xuxa Meneghel como Rainha dos Baixinhos começou bem antes do Clube da Criança, na TV Manchete, ou dos filmes como os Trapalhões. O ano era 1982 e a loirinha, cujos cabelos à época ainda não haviam sofrido mutação secundária para a platina, foi a estrela de dois filmes. Um era O Fuscão Preto, em que dividia a cena com o cantor Almir Rogério, criador do maior clássico da música brega brasileira. O segundo, Amor, Estranho Amor, em que foi dirigida por um cineasta consagrado: Walter Hugo Khouri, especialista em dramas psicológicos lotados de sexo. Este foi o que mais ficou famoso porque é nele que Xuxa interpreta uma catarinense safadinha, que seduz sem o menor pudor um moleque de 12 anos.

Curiosamente, pelo fato de ter ficado associado à Xuxa interpretando uma pedófila, o filme ganhou uma fama que não corresponde ao material que oferece. Como todo o cinema de Khouri, Amor, Estranho Amor tem muitas cenas de sexo, muita nudez gratuita, mas, pondo os pingos nos is, trata-se de um bom filme. Então, Xuxa não tinha nada que ter vergonha dele só porque sua personagem é safadinha. A moça comprou os direitos do filme, conseguiu recolher uma porrada de cópias das locadoras. Fez o diabo. Teria muito mais utilidade mandar destruir Super Xuxa contra o Baixo Astral ou Xuxa Requebra.

Tudo começa com Walter Forster lembrando do passado. O cenário é uma mansão onde funciona um puteiro de luxo, comandado pela personagem da ótima Iris Bruzzi. Entre as dezenas de beldades que moram no lugar estão Vera Fischer, bastante correta no filme, Matilde Mastrangi e Xuxa Menenghel, uma novata que havia acabado de chegar ao local e está animada porque vai ser o presente numa festa. Ambientado nos anos 30, o filme tem um cunho político fortíssimo, com os personagens de Tarcísio Meira e Mauro Mendonça ensaiando uma aliança política entre Minas Gerais e São Paulo para chegar à presidência. Rubens Ewald Filho é um dos assessores de Tarcísio, que conseguiu driblar a caricatura de sempre e está num de seus melhores papéis.

Por sinal, a primeira cena de sexo entre seu personagem e o de Vera Fischer é sensacional. Muito bem filmada, ousada, mostra os dois atores num intercâmbio que deve ter feito Glória Menezes ficar roxa. Mas apesar desta cena ter sido a mais bem resolvida, o verdadeiro garanhão do filme é o pequeno Marcelo Ribeiro. A chegada de seu personagem à mansão provocou o delírio das moças que habitam a casa. Todas ficaram assanhadas com o moleque. O filme, por sinal, trata deste tema, iniciação sexual de um garoto com mulheres adultas, sedução de menores, sem o menor pudor, coisa que hoje provavelmente não seria muito fácil.

Na verdade, a participação de Xuxa no filme ficou mais metabolizada por causa da persona pública que ela assumiu anos depois. Porque ela não faz muito mais do que Matilde Mastrangi ou a própria Vera Fischer. A primeira a atacar o menino é Matilde Mastrangi, que, no auge de sua forma, abre seu robe e mostra o corpão. Numa cena mais pra frente, a hoje senhora Oscar Magrini parte mesmo pra cima do menino com carinhos e beijos e só não consuma o ato porque alguém aparece para atrapalhar. Xuxa surge numa cena marcante. Quando o menino é levado para o sótão, dá de cara com a moça, que está fazendo a prova de uma fantasia, com os seios à mostra. Ela sorri para ele.

O momento que fez a festa é quando o moleque volta para o lugar onde encontrou a personagem de Xuxa, que interpreta pior do que um prego, e ela continua lá. Ela o convida para se aprochegar e dar uma apertadinha no seu seio. O menino fica lá com a buzina de Xuxa na mão e ela delira. Um sucesso. As três mulheres que estão acertando a roupa da moça não fazem nada além de cara feia (ou cara safada, dependendo da personagem). A cena demooora e só é interrompida quando mais uma vez o moleque é interrompido. Mas Xuxa, vocês sabem, é persistente, no terço final do filme, ela invade os aposentos do menino, o beija e faz o que bem entende. Frenesi. Isso até que Vera Fischer aparece para dar umas bolachas na cara dela.

Vera interpreta a mãe do menino. Numa cena anterior, o moleque, safadinho, já tinha espiado Vera tomando banho. Depois que o tira das garras de Xuxa, mãe e filho resolvem se aproximar numa cena que lembra a de Marília Pêra com o menino no colo em Pixote. Mas o que era maternal no filme de Babenco ultrapassa esse limite e adentra na área do sensual e do sexual. Khouri filma a cena como o amor máximo entre mãe e filho antes de uma inevitável separação. De certa forma, dá classe ao que muitos tratariam como putaria simples. É um filme bastante ousado, delicado, bastante questionável moralmente, mas um filme que merece ser visto.

Deixa, Xuxa, vai.

Amor Estranho Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Amor Estranho Amor, Walter Hugo Khouri, 1982]

P.S.: a Xuxa não só não deixou como uma hora depois de eu postar pela primeira vez este texto as fotos foram deletadas do meu Flickr e minha antiga conta terminou indo pro beleléu, sumindo com várias outras imagens deste blogue. Troquei as fotos deste post pra gente não ficar sem ver a Rainha dos Baixinhos.

8 Comments

Filed under Resenha

Dentro de Casa

Dentro de Casa

O limite entre realidade e ficção é, mais uma vez, o tema de um filme de François Ozon. Mas se em Swimming Pool, os elementos oníricos pareciam mais um exercício de linguagem, ou uma brincadeira para que o cineasta namorasse com alguns aspectos do cinema noir, Dentro de Casa usa a ficção para definir psicologicamente seu protagonista. Fabrice Luchini é Germain, um professor de literatura e um escritor frustrado que encontra num novo aluno não apenas o talento que nunca conseguiu desenvolver como a inspiração para uma rotina que há tempos não o motiva.

As primeiras cenas do filme, desde o momento em que Germain lê o trabalho de Claude, que detalha o relacionamento dele com um colega e sua família, são as melhores, com Ozon começando a costurar a cumplicidade entre os dois personagens como uma espécie de parceria autoral. O professor pede ao estudante para que ele explore determinados detalhes e aspectos da convivência com o amigo e o cineasta encontra um modelo narrativo delicioso para materializar o exercício. As cenas em que o aluno visita a casa do colega – sob um voice over em que Claude lê seu texto – ganham um tom idílico, que parece ser a tradução perfeita para o trabalho.

Mas o filme começa a desandar quando Ozon, seguindo a peça original de Juan Mayorga, resolve ser mais literal em sua proposta, ultrapassando a questão da projeção do professor no estudante. Ele passa não apenas a questionar a suposta ficcionalização dos fatos relatados por Claude, mas os transforma numa espécie de devaneios metalingüísticos que fazem a brincadeira com a literatura perder o encanto. O cineasta resolve a se concentrar mais no impacto do que na forma, com diálogos óbvios sobre a estrutura da história que os personagens escrevem. Nem o talento do novato Ernst Umhauer faz o diretor retomar as rédeas do que se transforma num thriller psicológico com reviravoltas esquizofrênicas enquanto poderia ser um belo estudo sobre o processo de criação.

Dentro de Casa EstrelinhaEstrelinha½
[Dans la Maison, François Ozon, 2012]

2 Comments

Filed under Resenha

Rânia

Rânia

“Eu tenho medo de ir, mas eu tenho mais medo de ficar, sabe?”. A frase resume não apenas o dilema da protagonista, mas um dos incômodos que mais habitam o cinema contemporâneo: o duelo entre raiz e liberdade, a noção de que só se pode ser feliz longe de casa. Rânia é uma adolescente, começando a descobrir a vida. Uma menina que vive que reprisa um sonho bastante comum, o de se tornar bailarina, mas que encontra poucas chances de materializá-lo nos bairros pobres de Fortaleza. Em seu primeiro longa-metragem, a cearense Roberta Marques traduziu uma inquietação que se reproduz, geração após geração, em milhares, talvez milhões de nordestinos. E fez isso sem sair de casa. Ou quase isso.

A cineasta mora na Holanda, mas seu filme é totalmente rodado em sua terra natal, com atores em sua maioria inexperientes, o que garante não apenas o sotaque, mas um tom genuíno à obra. Roberta parece saber do que está falando. Rânia lida com o drama dos desagarrados ao mesmo tempo em usa a delicadeza com que trata a personagem-título para invadir um universo tão complexo quanto. Sem perder o lado lúdico, presente tanto nas imagens quanto na narrativa do filme, a cineasta olha para uma questão do “mundo real”. A protagonista é acompanhada por duas espécies de “anjos” que representam possibilidades opostas para que ela siga o caminho que imagina para si.

Zizi é a dançarina da noite, que ganha a vida numa casa noturna, realizando desejos masculinos, enquanto Estela é a forasteira que quer montar uma companhia de dança com bailarinos da cidade para percorrer o mundo. As duas, separadas, de maneiras diferentes, oferecem para Rânia a chance de realizar seu sonho. Juntas, ajudam a traduzir um rito de passagem, que passa necessariamente por escolhas, sofrimento e concessões. Roberta Marques em alguns momentos abusa de alguns maneirismos, sobretudo no voice over poético, mas isso não desmerece o filme. Talvez a intenção da diretora não seja apontar um futuro definitivo para sua personagem, mas encorpar o incômodo que vai mover os próximos passos de sua vida.

Rânia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Rânia, Roberta Marques, 2012]

2 Comments

Filed under Resenha

Trailer: Guerra Mundial Z

Guerra Mundial Z, Marc Forster

Superprodução com Brad Pitt e bons efeitos especiais, pontos positivos, mas o filme muda radicalmente a proposta do livro de Max Brooks, em que foi baseado, que parte de uma série de relatos pós-guerra, sem protagonistas. E o pior: a direção é do problemático Marc Foster. Veremos. O filme tem estreia prevista no Brasil para o dia 28 de junho.

Leave a Comment

Filed under Trailer, Vídeos

O Beijo Amargo

O Beijo Amargo

Desde a primeira cena de O Beijo Amargo, Samuel Fuller mostra que não está disposto a fazer concessões. O espectador é apresentado a sua protagonista no meio de um acesso de fúria, atacando violentamente um homem a golpes de sapato, e, por fim, revelando que usa uma peruca para esconder a cabeça sem um só fio de cabelo. Estamos diante de uma heroína em estado puro, mas sem qualquer pureza. A imagem inicial persegue quem assiste ao filme ao longo de seus 90 minutos, na mesma medida em que o passado da personagem é um fantasma que ameaça a transformação que ela tanto almeja. Fuller versa sobre a falência do “sonho americano”, desmistificando o idílio da vida numa cidade do interior, subvertendo o perfil da mocinha da história.

Para fugir de seu passado, Kelly chega a uma cidade pequena, um lugar que parece se manter isolado dos vícios e pecados do mundo exterior graças ao empenho de dois guardiões: um é um mecenas milionário que gasta a fortuna em viagens ao exterior para trazer presentes para os amigos ao mesmo tempo em que mantém um hospital que cuida de crianças portadoras de deficiências físicas. O outro é um policial que não usa farda, mas é querido por todos, que trata de mandar as prostitutas que chegam ao lugar para um bordel afastado da cidade – longe o suficiente para manter a população “limpa” -, mas não sem antes perder algumas horas com as moças. Dois exemplos da hipocrisia típica de uma sociedade que enxerga em sua pequena “aristocracia” um modelo de segurança.

A crítica de Fuller tem várias camadas. Com homens falhos, estamos diante de um filme essencialmente feminino, mas modificado para englobar o olhar e o universo do cineasta. De outro lado, temos a ironia de uma protagonista “suja”, que enxerga naquela cidade a chance de redenção, mas, para alguém com seu passado, o lugar numa sociedade tão perfeita precisa ser conquistado. É aí que começa a peregrinação do cineasta pelo que aparentemente é um melodrama clássico, com cenas que parecem inocentes, que atingem a beleza incrível do momento em que Constance Towers e as crianças dividem uma música infantil, mas que escondem nos parafusos das muletas a interminável ironia de Fuller.

A princípio, o cineasta parece acreditar que uma espécie de destino rege a vida dos personagens, sobretudo a da protagonista, mas logo em seguida, mostra que, pelo contrário, Kelly é a última resistente de uma série de pessoas genuínas, que se opõem ao status quo. É ela quem guarda a reserva moral deste filme em que Fuller trabalho com o excesso, o exagero de violência ou de drama, para atacar o pensamento comum. É o futuro da virtude nas mãos de uma puta.

O Beijo Amargo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Naked Kiss, Samuel Fuller, 1964]

2 Comments

Filed under Resenha

Trilha Sonora: Little Child

Mommy dear, tell me, please,
is the world really round?
Tell me where is the blue
bird of happiness found?

Tell me why is the sky
up above so blue?
And when you were a child
did you mommy tell you?

What becomes of the sun
when it falls in the sea?
And who lights it again
bright as bright can be?

Tell me why can’t I fly
without wings through the sky?
Tell me why, Mommy dear
are there tears in your eyes?

Little one, little one
Yes, the world’s really round
And the bluebird you search for
Will surely be found

And the sky up above
Is so blue and clear
So that you see the bluebird
If it should come near

And the sun doesn’t fall
in the sea out of sight
All it does is make way
for the moon’s pretty light

And if children could fly
There’d be no need for birds
And I cry, little one
Cause I’m touched by your words

Don’t be sad, mommy dear
if it’s true the world’s round
I will search round the world
til the bluebird is found

Little one, there’s no need
to wander too far
For what you really seek
is right here where you are

Show me where, mommy dear
and here’s what I’ll do
I will take the dear bluebird
and give it to you

Dear, the bluebird’s the love
In your heart, pure and true
And I found it the day
Heaven blessed me with you

canção: “Little Child”
autor: desconhecido
intérpretes: Constance Towers e as crianças
filme: O Beijo Amargo [Samuel Fuller, 1964]

Leave a Comment

Filed under Trilha Sonora, Vídeos

A Caça

A Caça

Thomas Vinterberg ficou conhecido há 14 anos quando fez Festa de Família, o primeiro – e melhor – filme do movimento Dogma 95. O longa, que pelas regras do grupo não leva a assinatura do diretor, revelou um cineasta provocador, afeito a temas polêmicos, que utiliza o aniversário de 60 anos de um homem para devassar os segredos na história de sua família, criando algumas das cenas mais incômodas do final da década de 1990. Depois de um surgimento tão promissor, Vinterberg ficou devendo. Nenhum de seus projetos seguintes provocou reação semelhante a de seu filme mais famoso. Pelo contrário. Dogma do Amor fez muita gente duvidar de seu talento. Depois do ensaio de um retorno no irregular Submarino, o dinamarquês faz as pazes com o bom cinema em A Caça.

No filme, estrelado por Mads Mikkelsen, que ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano, o cineasta volta a tocar em um tema delicado, talvez o mais delicado de todos: a pedofilia. Mas ao invés de seguir pelo caminho mais convencional, o da denúncia, Vintenberg se dedica a estudar suas repercussões e lançar um questionamento mais profundo sobre o poder da palavra na sociedade de hoje. Como em Festa de Família, o tom é o de terror psicológico, que sufoca tanto o protagonista quanto o espectador, preso numa rede de intrigas que ganha novos capítulos e personagens a cada cena.

No entanto, embora Mikkelsen interprete um professor de escola fundamental que se vê acusado de abusar de uma garotinha de imaginação fértil, o filme não se resume ao pavor provocado pela possibilidade de pedofilia, mas ajuda a pintar um quadro pessimista do estado do homem atual, sempre disposto a apontar e julgar suspeitos. O diretor parece afirmar que hoje vivemos na época do decreto, em que a pluralidade das vozes determina certezas. Ao acompanhar detalhadamente o processo de isolamento do personagem principal, Vinterberg faz uma reflexão sobre a paranoia, na qual fantasmas de assuntos proibidos nem precisam se materializar para provocar pânico, definir verdades e precipitar condenações.

A Caça EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Jagten, Thomas Vintenberg, 2012]

1 Comment

Filed under Resenha