Monthly Archives: janeiro 2013

Top 100: os melhores filmes dos últimos dez anos

O ano era 2003 e a febre dos blogues chegava ao Brasil. Eu relutei bastante em relação à ideia de criar um blogue de cinema. Tive que ser convencido de que não seria petulância escrever minhas opiniões sobre os filmes que eu via num espaço em que todos poderiam ler. O Filmes do Chico surgiu tímido, mas, ao longo do tempo, cresceu para se tornar o projeto mais íntimo e importante da minha vida. Tudo o que faço aqui é por prazer. Tudo valeu a pena: cada hora perdida escrevendo um post, cada comentário lido, cada reação a uma das minhas centenas de listas. Ainda não acredito que já se passaram dez anos. Parece uma eternidade, mas também parece que foi ontem.

Para marcar a data, fucei meus arquivos e resgatei os melhores filmes que eu vi ao longo de todo este tempo. Deu um trabalhão, perdi alguns posts pelo meio do caminho, mas consegui montar mais uma lista. Como todas minhas listas, cheia de idiossincrasias e permissividades. Nestes últimos dez anos, aprendi que listas têm pouco tempo de vida. Basta pensar duas vezes para se ter uma outra versão. Mas eu gosto de fazer listas para não deixar minhas opiniões vagando por aí. O Filmes do Chico têm, mais ou menos, esta missão. Meu blogue me trouxe muito aprendizado, grandes amigos e transformou meu olhar para o cinema. Mas, mais do que isso, ess foi o jeito que eu achei para guardar os filmes para mim. Receber vocês na minha casa foi um prazer. Sempre será. Obrigado pela companhia.

Para começar, meu guilty pleasure da década:

Celular

Celular – Um Grito de Socorro
[Cellular, David R. Ellis, 2004]

E agora os 100 melhores filmes que eu vi nos últimos dez anos:

Como Treinar Seu Dragão

100 Como Treinar Seu Dragão
[How To Train Your Dragon, Dean DeBlois, Chris Sanders, 2010]

O Quinto Império

99 O Quinto Império – Ontem como Hoje
[O Quinto Império - Ontem como Hoje, Manoel de Oliveira, 2004]

Margaret\ 98 Margaret
[Margaret, Kenneth Lonergan, 2012]

Exilados

97 Exilados
[Fong Juk/Exiled, Johnnie To, 2006]

Entreatos

96 Entreatos
[Entreatos, João Moreira Salles, 2004]

Killer Joe

95 Killer Joe – Matador de Aluguel
[Killer Joe, William Friedkin, 2011]

O Vencedor 94 O Vencedor
[The Fighter, David O. Russell, 2010]

Escola de Rock

93 Escola de Rock
[School of Rock, Richard Linklater, 2003]

Sweeney Todd

92 Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
[Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, Tim Burton, 2007]

Lake Tahoe

91 Lake Tahoe
[Lake Tahoe, Fernando Eimbcke, 2008]

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Lincoln

Lincoln

Lincoln, de Steven Spielberg, é um filme que quebra expectativas. Havia uma espécie de desconfiança generalizada em relação ao que o diretor mais bom moço dos últimos 50 anos faria num filme sobre o presidente mais bom moço da história americana. As escolhas de Spielberg foram menos óbvias do que se imaginava. O cineasta abriu mão de uma biografia tradicional que cobrisse a trajetória de Abraham Lincoln para fazer um recorte, elegendo os quatro últimos meses da vida do presidente como universo para o filme. Em época de Guerra Civil, o foco é numa batalha menos física, mas não menos sangrenta, a batalha pela aprovação da emenda que aboliu a escravatura nos Estados Unidos. O tom épico intimista, presente em alguns de seus filmes “sérios”, foi substituído pelo de bastidores de disputa política. E sem concessões.

Spielberg carrega os personagens com uma verborragia que exige atenção irrestrita do espectador e uma postura muitas vezes teatral do elenco – como na cena em que Lincoln e Mary Todd discutem e a esposa vai ao chão. Os atores parecem ter sido dirigidos como se estivessem em cima de um palco, com uma marcação rigorosa, opção que joga o filme num plano diferente, com se a história se desenvolvesse fora do alcance do homem comum. Ao mesmo tempo em que abraça esta imponência, o diretor enche as cenas de movimento – algumas parecem ter sido planejadas por dia - seja com os movimentos de câmera ou com a própria montagem. Janusz Kaminski recorre ao mesmo jogo de luz e sombras do equivocado Amistad. As semelhanças entre os filmes param por aí. Desta vez a fotografia não tem funções meramente plásticas, mas ajuda a reproduzir o clima de clausura e a época como um todo.

O tom sóbrio de Lincoln revela um Spielberg menos ingênuo em relação a sua visão de mundo. Em vez de alguns de seus maneirismos tradicionais, ele faz quase o impossível para alguém com Oskar Schindler e Miss Celie no currículo: não reverencia Abraham Lincoln, nem o assume como herói. Isso acontece desde o roteiro, que mostra como o presidente comandou uma espécie de mensalão para que a emenda fosse aprovada, até o retrato do homem. Lincoln fala manso, seu poder de oratória aparece em poucas cenas, mas a interpretação fantasmagórica de Daniel Day-Lewis consegue dar a dimensão de sua presença. Ninguém parece poder alcancá-lo. Nem Tommy Lee Jones, nem Sally Field, ambos em seus melhores papéis no cinema.

O apêndice do filme parece desnecessário, mas ajuda a completar a proposta de Spielberg de trabalhar no anti-clímax. Se o roteiro é prolongado até chegar ao momento da morte de Lincoln, o diretor se recusa a apresentá-la da maneira mais tradicional, frustrando a expectativa do espectador e oferecendo uma notícia velha sob novas perspectivas. As cenas finais são de rendição, mas até lá, Spielberg já havia homenageado o ícone da maneira mais honesta possível, relativizando o mito, ressaltando o homem.

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[Lincoln, Steven Spielberg, 2012]

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Top 10: os melhores filmes brasileiros

Dez de dez. A ideia é publicar uma série de tops com os dez melhores dos dez anos de Filmes do Chico. Para começar, a prata da casa. Quais foram os melhores filmes brasileiros da última década? A década que viu surgir um novo tipo de documentário. A década em que os cineastas brasileiros se voltaram para o interior com um olhar totalmente novo. A década em que o cinema feito no Nordeste cresceu, apareceu, e se tornou o melhor do Brasil. Meus favoritos são estes aqui:

O Prisioneiro da Grade de Ferro

10 O Prisioneiro da Grade de Ferro
[O Prisioneiro da Grade de Ferro, Paulo Sacramento, 2004]

Se Nada Mais Der Certo

9 Se Nada Mais Der Certo
[Se Nada Mais Der Certo, José Eduardo Belmonte, 2008]

Girimunho

8 Girimunho
[Girimunho, Helvécio Marins Jr. & Clarissa Campolina, 2011]

O Palhaço

7 O Palhaço
[O Palhaço, Selton Mello, 2011]

Cinema, Aspirina & Urubus

6 Cinema, Aspirina & Urubus
[Cinema, Aspirina & Urubus, Marcelo Gomes, 2005]

Santiago

5 Santiago
[Santiago, João Moreira Salles, 2007]

Cão Sem Dono

4 Cão Sem Dono
[Cão Sem Dono, Beto Brant & Renato Ciasca, 2007]

Jogo de Cena

3 Jogo de Cena
[Jogo de Cena, Eduardo Coutinho, 2007]

O Céu de Suely

2 O Céu de Suely
[O Céu de Suely, Karim Aïnouz, 2006]

O Som ao Redor

1 O Som ao Redor
[O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho, 2012]

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Caverna dos Sonhos Esquecidos

Werner Herzog

Werner Herzog é um incansável. Sua Caverna dos Sonhos Esquecidos é belo documentário sobre um dos sítios onde estão algumas das mais antigas pinturas rupestres do mundo. O History Channel não faria melhor. A caverna é impressionante. Aliás, os desenhos são impressionantes, com técnicas avançadíssimas de representação de sombras e movimentos, traços que muitas vezes se assemelhama ao de gravuristas contemporâneos. O grande destaque da exibição do filme em 3D é como isso ressalta o uso que os ‘artistas’ faziam do relevo da própria caverna para dar melodia aos desenhos. Não é a maior experiência em 3D do planeta, mas faz o filme funcionar de uma outra maneira.

O ponto contrário é que Herzog enche de poesia sua visita à caverna, que é proibida para quem não é do grupo de estudiosos que tentam decifrar seus mistérios. Enche de poesia o que já tem poesia naturalmente. E essa ‘poesia’, às vezes, passa do ponto porque muitas vezes não é uma série de truques bobos, para emocionar. Há perguntas retóricas como “de quem são essas batidas de coração?” ou “quais eram os sonhos dessas pessoas?”. Outras vezes, recorre a imagens míticas para ganhar simpatia, como quando a história de um suposto Mogli. O diretor dá seus golpes: o filme parte da caverna, mas dá um passeio pela região, por outras regiões e até outros países e museus.

Mesmo assim, as imagens que ele resgata de dentro da caverna valem passar por qualquer exagero. A visita é belíssima. Só não é o melhor filme da Mostra. E o melhor uso de 3D da história? O prêmio ainda vai para Avatar, de James Cameron.

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[Cave of Forgotten Dreams, Werner Herzog, 2011]

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Top 50 filmes de todos os tempos

Na próxima terça-feira, dia 29, o Filmes do Chico completa 10 anos de idade. Para festejar o aniversário, eu planejei algumas atividades. Ao longo das próximas duas semanas, surgirão listinhas de dez mais que cobrem este período de existência do blogue. A comemoração começa com um lista diferente das que virão. No fim do ano passado, convidei mais de 100 pessoas (críticos, cineastas, jornalistas, blogueiros, profissionais de cinema, acadêmicos e cinéfilos) para eleger seus dez melhores filmes. O resultado está abaixo. Aqui, vocês podem checar a lista de cada um.

Asas do Desejo, O Demônio das Onze Horas, Cantando na Chuva, O Ano Passado em Marienbad

50 Asas do Desejo
[Der Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987]
30 pontos, 6 votos, 1 pole

49 O Demônio das Onze Horas
[Pierrot le Fou, Jean-Luc Godard, 1965]
30 pontos, 7 votos

48 Cantando na Chuva
[Singin' in the Rain, Gene Kelly & Stanley Donen, 1952]
31 pontos, 5 votos

47 O Ano Passado Em Marienbad
[L'Année Dernière à Marienbad, Alain Resnais, 1961]
31 pontos, 5 votos, 1 pole

Era Uma Vez no Oeste, Hiroshima Meu Amor, Morangos Silvestres, Terra em Transe

46 Era uma Vez no Oeste
[C'era una Volta il West , Sergio Leone, 1968]
31 pontos, 6 votos, 1 pole

45 Morangos Silvestres
[Smultronstället, Ingmar Bergman, 1957]
32 pontos, 4 votos

44 Hiroshima, Meu Amor
[Hiroshima, Mon Amour, Alain Resnais, 1959]
33 pontos, 6 votos

43 Terra em Transe
[Terra em Transe, Glauber Rocha, 1967]
33 pontos, 7 votos

O Poderoso Chefão Parte II, Rocco e Seus Irmãos, Psicose, Era Uma Vez na América

42 O Poderoso Chefão – Parte II
[The Godfather - Part II, Francis Ford Coppola, 1974]
34 pontos, 4 votos

41 Psicose
[Psycho, Alfred Hitchcock, 1960]
34 pontos, 4 votos, 1 pole

40 Rocco e Seus Irmãos
[Rocco i suo Fratelli, Luchino Visconti, 1960]
34 pontos, 5 votos

39 Era Uma Vez na América
[Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984]
34 pontos, 7 votos, 1 pole

Cidade de Deus, Casablanca, O Império Contra-Ataca, Gritos e Sussurros

38 Cidade de Deus
[Cidade de Deus, Fernando Meirelles, 2002]
34 pontos, 9 votos

37 Casablanca
[Casablanca, Michael Curtiz, 1942]
35 pontos, 5 votos, 1 pole

36 O Império Contra-Ataca
[The Empire Strike Back, Irwin Kerschner, 1980]
35 pontos, 6 votos

35 Gritos e Sussurros
[Viskningar och Rop, Ingmar Bergman, 1972]
35 pontos, 6 votos, 1 pole

Clamor do Sexo, Rastros de Ódio, A Paixão de Joana d'Arc, A Regra do Jogo

34 Clamor do Sexo
[Splendor in the Grass, Elia Kazan, 1961]
36 pontos, 5 votos, 1 pole

33 A Regra do Jogo
[La Règle du Jeu, Jean Renoir, 1939]
36 pontos, 7 votos

32 Rastros de Ódio
[The Searchers, John Ford, 1956]
39 pontos, 5 votos, 2 poles

31 A Paixão de Joana d’Arc
[La Passion de Jeanne d'Arc, Carl Th. Dreyer, 1928]
39 pontos, 7 votos, 1 pole

No Silêncio da Noite, Quanto Mais Quente Melhor, Onde Começa o Inferno, O Encouraçado Potemkin

30 No Silêncio da Noite
[In a Lonely Place, Nicholas Ray, 1950]
40 pontos, 5 votos, 1 pole

29 Quanto Mais Quente Melhor
[Some Like It Hot, Billy Wilder, 1959]
40 pontos, 7 votos, 1 pole

28 O Encouraçado Potemkim
[Bronenosets Potyomkin, Sergei Eisenstein, 1925]
41 pontos, 5 votos, 2 poles

27 Onde Começa o Inferno
[Rio Bravo, Howard Hawks, 1959]
41 pontos, 6 votos, 2 poles

Os Pássaros, Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Iluminado, Era Uma Vez em Tóquio

26 Era uma Vez em Tóquio
[Tôkyô Monogatari, Yasujiro Ozu, 1953]
41 pontos, 7 votos

25 Os Pássaros
[The Birds, Alfred Hitchcock, 1963]
42 pontos, 6 votos, 1 poles

24 Deus e o Diabo na Terra do Sol
[Deus e o Diabo na Terra do Sol, Glauber Rocha, 1964]
42 pontos, 9 votos

23 O Iluminado
[The Shining, Stanley Kubrick, 1980]
44 pontos, 7 votos, 2 poles

Amor à Flor da Pele, O Leopardo, Persona, Cidade dos Sonhos

22 Amor à Flor da Pele
[Fa Yeung Nin Wa, Wong Kar-Wai, 2000]
46 pontos, 8 votos, 2 poles

21 O Leopardo
[Il Gattopardo, Luchino Visconti, 1963]
47 pontos, 7 votos

20 Persona
[Persona, Ingmar Bergman, 1966]
48 pontos, 8 votos, 1 poles

19 Cidade dos Sonhos
[Mulholland Dr., David Lynch, 2001]
48 pontos, 9 votos

Blade Runner, Amarcord, Tempos Modernos, Pulp Fiction

18 Blade Runner: O Caçador de Androides
[Blade Runner, Ridley Scott, 1982]
50 pontos, 8 votos, 1 pole

17 Amarcord
[Amarcord, Federico Fellini, 1973]
51 pontos, 9 votos

16 Tempos Modernos
[Modern Times, Charles Chaplin, 1936]
52 pontos, 10 votos, 1 pole

15 Tempo de Violência – Pulp Fiction
[Pulp Fiction, Quentin Tarantino, 1994]
52 pontos, 11 votos

Acossado, O Desprezo, Janela Indiscreta, Apocalypse Now

14 Acossado
[À Bout de Souffle, Jean-Luc Godard, 1959]
54 pontos, 8 votos, 1 pole

13 O Desprezo
[Le Mépris, Jean-Luc Godard, 1963]
56 pontos, 11 votos, 1 pole

12 Janela Indiscreta
[Rear Window, Alfred Hitchcock, 1954]
58 pontos, 9 votos, 1 pole

11 Apocalypse Now
[Apocalypse Now, Francis Ford Coppola, 1979]
59 pontos, 8 votos, 1 pole

O Atalante, Laranja Mecânica, 8 1/2, Aurora

10 O Atalante
[L'Atalante, Jean Vigo, 1934]
61 pontos, 8 votos, 3 poles

9 Laranja Mecânica
[A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971]
63 pontos, 13 votos, 2 poles

8
[, Federico Fellini, 1963]
65 pontos, 11 votos, 1 pole

7 Aurora
[Sunrise, F.W. Murnau, 1927]
67 pontos, 13 votos, 3 poles

Os Incompreendidos

6 Os Incompreendidos
[Les 400 Coups, François Truffaut, 1959]
84 pontos, 13 votos, 3 poles

2001: A Space Odissey

5 2001 – Uma Odisseia no Espaço
[2001: A Space Odissey, Stanley Kubrick, 1968]
89 pontos, 14 votos, 3 poles

Crepúsculo dos Deuses

4 Crepúsculo dos Deuses
[Sunset Blvd., Billy Wilder, 1950]
94 pontos, 16 votos, 2 poles

Um Corpo que Cai

3 Um Corpo que Cai
[Vertigo, Alfred Hitchcock, 1958]
160 pontos,  23 votos, 3 poles

O Poderoso Chefão

2 O Poderoso Chefão
[The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972]
167 pontos, 24 votos, 7 poles

Cidadão Kane

1 Cidadão Kane
[Citizen Kane, Orson Welles, 1941]
180 pontos, 26 votos, 8 poles

A metodologia utilizada na eleição foi a seguinte: foi pedido para que cada votante enviasse os dez filmes em ordem de preferência. O primeiro recebeu 10 pontos, o segundo 9, o terceiro 8, e assim sucessivamente até o décimo ganhar 1 ponto. Algumas pessoas mandaram mais títulos, mas apenas os dez primeiros da lista foram considerados para a votação.

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Amor

Amor

O cinema que Michael Haneke comete desde que dirigiu seu primeiro filme é um cinema que tem a intenção clara de, abrandando os termos, provocar espectador. O objetivo final parece geralmente ser a reação extrema de quem assiste a seus filmes, que de uma maneira ou de outra sempre tratam de como as pessoas lidam com a violência, em seus mais variados estados e possibilidades. O exercício de Haneke enquanto cineasta depende fundamentalmente do quanto o espectador se sente provocado (atacado, revoltado ou representado, vingado) pelas situações extremas em que ele insere os personagens em sua obra. Ele se alimenta disso. Por isso, seus filmes despertam reações tão diversas.

O fato é que, ao longo de sua carreira, Haneke estilizou sua arte. A violência em seus últimos filmes ficou mais, digamos, elegante. Talvez resultado de um amadurecimento seu como diretor de cinema (como aconteceu com David Cronenberg e Pedro Almodóvar, nomes que mantiveram suas características e universos em filmes mais refinados). Talvez como estratégia. Amor é um daqueles filmes que se colocam disponíveis para plateias maiores. A história de amor entre os personagens octogenários de Jean-Louis Trintignant e Emmnuelle Riva atrai uma fauna variada de espectadores, de cinéfilos ávidos por resgatar grandes astros europeus a senhoras interessadas em ver um grande romance retratado nas telas.

Nenhum pecado até aí. Amor é destinado a um público mais amplo, que pode se emocionar com o drama relatado no filme e/ou com as belas interpretações de um par de grandes atores (por sinal, embora o destaque tenha ido para Riva, o grande em cena é Trintignant). O que incomoda é como o detalhamento cirúrgico da rotina do casal, sobretudo depois do problema de saúde sofrido pela personagem de esposa, adota um modelo de cinema tão comum, sobretudo na Europa dos últimos anos, que o filme não parece muito diferente (nem melhor ou pior dirigido) do que alguns cineastas romenos têm feito com menos alarde por aí.

A fórmula é de crueldade extrema, mas o tratamento gélido trata de oferecer dignidade à história e à maneira como a história está sendo contada. A personagem de Isabelle Huppert, a filha distante, em mais uma reprise de seus cacoetes, é desnecessário. Parece servir apenas para metabolizar o sofrimento. Haneke, mais uma vez, ainda que disfarce isso neste modelo de filme, tortura o espectador, enclausurado num apartamento, isolado entre quatro paredes, acompanhando velhinhos sofrerem. Amor não oferece a violência gratuita da maior partes dos filmes anteriores do cineasta, mas é tão manipulador quanto, sempre sobre a égide de mexer em temas delicados de forma “crua”.

Mesmo com tantos senões, Amor é um bom filme. De verdade. Haneke é um exímio manipulador e um esteta competente e os atores entregam performances bonitas. A questão, tratando de enfatizar, não passa por uma reclamação contra o esquematismo ou o cálculo milimétrico do longa do diretor. Não dá para reclamar de uma característica que o acompanha desde sempre. O fato é que quem se vê imunizado contra as iscas emocionais do filme – e para quem compra o distanciamento que Amor prega, isso não é tão complicado – precisa se agarrar a detalhes para não achar tudo bem feito, mas banal.

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[Amour, Michael Haneke, 2012]

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Django Livre

Django Livre

Não existe uma grande cena em Django Livre. Uma daquelas sequências arrebatadoras de verdade que nos acostumamos a ver nos filmes de Quentin Tarantino. Se, ao longo de 20 anos, o cineasta mais influente de sua geração pariu pelo menos uma dezena de momentos de puro êxtase cinéfilo, seu novo trabalho traz, no máximo, cenas inspiradas, como a saída dos protagonistas do saloon ou o ataque da Ku Klux Klan. Talvez as regras do western tenham cerceado a liberdade do homem, talvez tratar de um tema como a escravidão tenha lhe dado inéditos pudores. O fato é falta uma coisa que sempre sobrou nos filmes dele: “mojo”.

A palavra, pra quem não viu os filmes do Austin Powers, indica aquela energia invisível que deixa alguma coisa muito legal. Django Livre tem um pouco disso, mas quase nunca flui plenamente. O timing – ou a falta dele – é um problema real. A troca de montadores prejudicou bastante o ritmo do filme. Sally Menke, que editou todos os longas do diretor, morreu em 2010. Fred Raskin, auxiliar de montagem nos dois Kill Bill, assumiu a função, mas, pela primeira vez, um filme de Tarantino demora a passar, demora a acontecer, demora duas horas e 45 minutos.

A fórmula deste novo longa é a mesma que segue imutável há 20 anos: longos diálogos, geralmente espertíssimos; um projeto estético que recicla filmes B dos anos 60 e 70; quilos de música antiga; e um roteiro cheio de situações esdrúxulas que, no universo do diretor, ganham pertinência. Talvez o que não existe no western de Tarantino seja aquela vontade quase juvenil de se arriscar. Talvez façam falta também as referências à cultura pop, limitadas a pouco mais que a ponta de Franco Nero, o Django original, e à trilha emprestada de Ennio Morricone (mais um vez, um trabalho brilhante de reciclagem de temas musicais).

Se o texto não traz o deleite que se espera de um filme do diretor, o elenco é, mais uma vez, afinado. Jamie Foxx está bem, mas cresce muito na interação com Christoph Waltz, que merece todos os elogios. Ele constrói um personagem dono de uma ironia refinada, uma afetação moderada, tão encantador quanto o de Bastardos Inglórios. Leonardo Di Caprio e Samuel L. Jackson também estão bastante à vontade em seus papeis, mas como têm menos tempo em cena não conseguem se desprender do texto como faz Waltz. A ponta de Tarantino é que não acrescenta muito. Esta sequência que leva ao último ato do filme, parece não cumprir muito bem sua função.

A polêmica causada pelo filme, a quantidade de vezes que os personagens usam a palavra “nigger”, é uma bobagem. O que foi visto como um acinte para com a comunidade afro-descendente na terra de Lincoln parece mais uma característica do cinema do diretor. Além do mais, os “niggers” que saem dos bocas dos personagens brancos ajudam a contextualizar uma época e uma situação. O que, de certa forma, decepciona em Django Livre é que os espectadores dos filmes de Tarantino foram treinados para esperar que o diretor sempre se supere em sua obsessão por referências, mas desta vez a reciclagem não foi tão legal assim.

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[Django Unchained, Quentin Tarantino, 2012]

P.S.: Django Livre concorre a 5 Oscars, inclusive o de melhor filme. Outros indicados deste ano: Argo, de Ben Affleck; e Indomável Sonhadora, de Benh Zeitlin.

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Barbara

Barbara

A Alemanha selecionou Barbara para representar o país na corrida ao Oscar de filme estrangeiro, ratificando a escolha do longa-metragem como o melhor do ano no prêmio nacional distribuído pelo German Film Award, no qual a produção concorreu em oito categorias. A decisão parecia correta já que o filme atenderia a várias expectativas da Academia: é um drama moral, tem forte conteúdo político e é executado com talento, embora seja bastante convencional. Mas não funcionou na prática: a Alemanha está fora da disputa deste ano.

O filme se passa no ano de 1980, quando a Alemanha ainda era dividida em duas. A protagonista é uma pediatra vivida pela atriz Nina Hoss, em sua quarta parceria com o diretor Christian Petzold. A personagem-título acaba de ser transferida para uma cidade do interior, punição por ter tentado tirar um visto para sair do lado oriental do país. Petzold ganhou o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim, prêmio burocrático para um filme que aposta numa dramaturgia clássica, sem ousadia, mas que comanda tudo com o talento de um bom operador.

O roteiro, também escrito pelo cineasta, segue as regras do conto moral, colocando a personagem contra a parede. De um lado, a possibilidade de deixar para trás a clausura de um país que a confina. Do outro, o senso de dever e a oportunidade de recomeçar. O maior acerto do cineasta talvez seja retratar o estado de vigília constante da personagem, sufocada numa rotina sem esperanças, mas, ao mesmo tempo, a maneira de reconstituir o que era a vida na Alemanha Oriental parece excessivamente sem emoção.

Numa associação direta – e talvez simplista demais – Barbara, a personagem, adota a frieza de seu lado profissional como modo de tratar quem a cerca. Nina Hoss assume a postura de sua personagem como modelo de interpretação, o que a leva para um lugar-comum incômodo. A gelidez de médica é quebrada na relação de Barbara com os pacientes. Uma transformação que permite que a personagem principal enxergue com outros olhos sua condição de “prisioneira” e, consequentemente, sua vida como eterna suspeita.

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[Barbara, Chritian Petzold, 2012]

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Oscar 2013: indicados

Oscar 2013

filme

Amor, Michael Haneke
Argo, Ben Affleck
As Aventuras de Pi, Ang Lee
Django Livre, Quentin Tarantino
A Hora Mais Escura, Kathryn Bigelow
Indomável Sonhadora, Benh Zeitlin
O Lado Bom da Vida, David O. Russell
Lincoln, Steven Spielberg
Os Miseráveis, Tom Hooper

direção

Ang Lee, As Aventuras de Pi
Benh Zeitlin, Indomável Sonhadora
David O. Russell, O Lado Bom da Vida
Michael Haneke, Amor
Steven Spielberg, Lincoln

ator

Bradley Cooper, O Lado Bom da Vida
Daniel Day-Lewis, Lincoln
Denzel Washington, O Voo
Hugh Jackman, Os Miseráveis
Joaquin Phoenix, O Mestre

atriz

Emmanuelle Riva, Amor
Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Jessica Chastain, A Hora Mais Escura
Naomi Watts, O Impossível
Quvenzhané Wallis, Indomável Sonhadora

ator coadjuvante

Alan Arkin, Argo
Christoph Waltz, Django Livre
Philip Seymour Hoffman, O Mestre
Robert De Niro, O Lado Bom da Vida
Tommy Lee Jones, Lincoln

atriz coadjuvante

Amy Adams, O Mestre
Anne Hathaway, Os Miseráveis
Helen Hunt, As Sessões
Jackie Weaver, O Lado Bom da Vida
Sally Field, Lincoln

roteiro original

Amor, Michael Haneke
Django Livre, Quentin Tarantino
A Hora Mais Escura, Mark Boal
Moonrise Kingdom, Wes Anderson & Roman Coppola
O Voo, John Gatins

roteiro adaptado

Argo, Chris Terrio
As Aventuras de Pi, David Magee
Indomável Sonhadora, Lucy Alibar, Benh Zeitlin
O Lado Bom da Vida, David O. Russell
Lincoln, Tony Kushner, John Logan, Paul Webb

filme estrangeiro

O Amante da Rainha (Dinamarca), Nikolaj Arcel
Amor (Áustria), Michael Haneke
Expedição Kon-Tiki (Noruega), Joachim Rønning & Espen Sandberg
A Feiticeira da Guerra (Canadá), Kim Nguyen
No (Chile), Pablo Larraín

filme de animação

Detona Ralph, Rich Moore
Frankenweenie, Tim Burton
ParaNorman, Chris Butler & Sam Fell
Piratas Pirados!, Peter Lord
Valente, Mark Andrews & Brenda Chapman

fotografia

007 – Operação Skyfall, Roger Deakins
Anna Karenina, Seamus McGarvey
As Aventuras de Pi, Claudio Miranda
Django Livre, Robert Richardson
Lincoln, Janusz Kaminski

montagem

Argo, William Goldenberg
As Aventuras de Pi, Tim Squyres
A Hora Mais Escura, Dylan Tichenor
O Lado Bom da Vida, Jay Cassidy & Crispin Struthers
Lincoln, Michael Kahn

desenho de produção

Anna Karenina, Sarah Greenwood; Katie Spencer
As Aventuras de Pi, David Gropman; Anna Pinnock
O Hobbit, Dan Hennah; Ra Vincent
Lincoln, Rick Carter; Jim Erickson, Peter T. Frank
Os Miseráveis, Eve Stewart

figurinos

Anna Karenina, Jacqueline Durran
Branca de Neve e o Caçador, Colleen Atwood0
Espelho, Espelho Meu, Eiko Ishioka
Lincoln, Joanna Johnston
Os Miseráveis, Paco Delgado

maquiagem e cabelos

Hitchcock
O Hobbit: Uma Viagem Inesperada
Os Miseráveis

trilha sonora

007 – Operação Skyfall, Thomas Newman
Anna Karenina, Dario Marianelli
Argo, Alexandre Desplat
As Aventuras de Pi, Mychael Danna
Lincoln, John Williams

canção

“Before My Time” (J. Ralph), Chasing Ice
“Everybody’s Need a Friend” (Walter Murphy & Seth MacFarlane), Ted
“Pi’s Lullaby” (Mychael Danna & Bombay Jayashri), As Aventuras de Pi
“Skyfall” (Adele & Paul Epworth), 007 – Operação Skyfall
“Suddenly” (Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer & Alain Boublil), Os Miseráveis

mixagem de som

Argo, John Reitz, Gregg Rudloff & Jose Antonio Garcia
As Aventuras de Pi, Ron Bartlett, D.M. Hemphill & Drew Kunin
Lincoln, Andy Nelson, Gary Rydstrom & Ronald Judkins
Os Miseráveis, Andy Nelson, Mark Paterson & Simon Hayes
007 – Operação Skyfall, Scott Millan, Greg P. Russell & Stuart Wilson

edição de som

007 – Operação Skyfall, Per Hallberg & Karen Baker Landers
Argo, Erik Aadahl & Ethan Van der Ryn
As Aventuras de Pi, Eugene Gearty & Philip Stockton
Django Livre, Wylie Stateman
A Hora Mais Escura, Paul N.J. Ottosson

efeitos visuais

As Aventuras de Pi, Bill Westenhofer, Guillaume Rocheron, Erik-Jan De Boer & Donald R. Elliott
Branca de Neve e o Caçador, Cedric Nicolas-Troyan, Philip Brennan, Neil Corbould & Michael Dawson
O Hobbit: Uma Viagem Inesperada, Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton & R. Christopher White
Prometheus, Richard Stammers, Trevor Wood, Charley Henley & Martin Hill
Os Vingadores, Janek Sirrs, Jeff White, Guy Williams & Dan Sudick

documentário

5 Broken Cameras, Emad Burnat & Guy Davidi
The Gatekeepers, Dror Moreh
How to Survive a Plague, David France
The Invisible War, Kirby Dick
Searching for Sugar Man, Malik Bendjelloul

curta de animação

Adam and Dog, Minkyu Lee
Fresh Guacamole, PES
Head over Heels, Timothy Reckart & Fodhla Cronin O’Reilly
Maggie Simpson in “The Longest Daycare”, David Silverman
Paperman, John Kahrs

curta documentário

Inocente, Sean Fine & Andrea Nix Fine
Kings Point, Sari Gilman & Jedd Wider
Mondays at Racine, Cynthia Wade & Robin Honan
Open Heart, Kief Davidson & Cori Shepherd Stern
Redemption, Jon Alpert & Matthew O’Neill

curta de ação

Asad, Bryan Buckley & Mino Jarjoura
Buzkashi Boys, Sam French & Ariel Nasr
Curfew, Shawn Christensen
Death of a Shadow (Dood van een Schaduw), Tom Van Avermaet & Ellen De Waele
Henry, Yan England

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