Monthly Archives: agosto 2012

Quem Tem Medo de Cris Negão?

René Guerra

O mundo das travestis é o mundo da encenação. Eles que são elas já nascem no palco. Estão sempre dispostos a interpretar. Personagens por natureza, são donos de identidades secretas que se revelam quando eles ou elas bem entendem. Em Quem Tem Medo de Cris Negão?, René Guerra invadiu esse universo infinito com a proposta de tirar as travestis do salto, utilizando justamente sua tendência ao cênico. Usando uma série de entrevistas como estrutura de seu filme, o diretor investiga a morte de Cristiane Jordan, a Cris Negão, uma travesti que cafetinava outras travestis no centro de São Paulo.

Mas, desde a primeira cena do filme, René já mostra sua intenção descortinar o processo. Se os depoimentos ajudam a montar um mosaico do cenário do crime, mais do que isso, a forma de que o diretor se apropria para contar sua história cria um paradoxo fértil: ao mesmo tempo em que desmonta as “testemunhas”, deixando explícita a porção de ficção que carrega cada uma daquelas personagens, ele ajuda a construir e explicar a complexidade de um mundo em que a romantização da vida cotidiana faz parte intrínseca da formação pessoal.

Quando instrui Phedra a interpretar como se estivesse sendo interrogada por um policial, René explicita a tendência natural da personagem para encenar.  E opta ele mesmo pelo drama em vez do documento.  Desnuda a personagem e a si mesmo como diretor, intervindo no processo. Em outro nível, ele materializa a pluralidade do discurso de quem defende ou ataca Cris Negão refletindo suas imagens em  espelhos estilhaçados, numa clara referência de que ele se exime de encontrar uma verdade sobre o caso.

A engenhosidade da fotografia é só um traço do cinema que René faz nos 25 minutos de Quem Tem Medo de Cris Negão? Um cinema que conversa tanto com o documentário de intervenção de Eduardo Coutinho quanto na apaixonada ficção de submundo que Pedro Almodóvar outrora filmou. O que se sobressai é o trabalho de um cineasta disposto tanto a descobrir um universo fechado quanto a encontrar uma linguagem própria e popular para se expressar.

Quem Tem Medo de Cris Negão? EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Quem Tem Medo de Cris Negão?, René Guerra, 2012]

Compartilhe!

Leave a Comment

Filed under Resenha

O Vingador do Futuro

Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bryan Cranston

A combinação era irresistível: um conto de Philip K. Dick, um diretor do porte de Paul Verhoeven e um astro do cinema de ação como Arnold Schwarzenegger. O Vingador do Futuro já nasceu clássico, com sua ideia sobre um tempo em que não se pode confiar nas próprias memórias. A ideia de refilmá-lo 22 anos depois parecia esdrúxula, ainda mais quando a assinatura seria de um cineasta como Len Wiseman, cujo ponto alto da carreira foi ter casado com Kate Beckinsale, a estrela da série Anjos da Noite, que ele concebeu e cujos dois primeiros capítulos, dirigiu.

Em tempos de Avenida Brasil e da antológica Carminha de Adriana Esteves, a vilã Lori, vivida por Beckinsale, é o melhor e o pior da releitura do filme de Verhoeven. O melhor porque é uma personagem caricata, histriônica, dona de expressões faciais improváveis, movida por um desejo de matar quase cartunesco, que poderia facilmente estrelar a novela das 9. O pior porque o divertido excesso na performance da atriz raramente combina com o tom morno, quase tímido, do filme do marido.

Wiseman não fez um trabalho ruim. Pelo contrário, o filme não agride ninguém: nem os fãs do original, nem os seguidores de K. Dick, nem o espectador cativo de ficções-científicas. Algumas da reinterpretações do longa original são bem interessantes, como a “locação”, que manda Marte pro espaço, e a famosa cena em que se revela o disfarce do protagonista em fuga. Mas o diretor preferiu não arriscar: o filme todo mora numa zona de conforto entre o respeito ao que Verhoeven fez e a possibilidade de criar em cima. Criar só um pouquinho pra ninguém reclamar.

Colin Farrell é um ator dez vezes melhor do que Schwarzenegger, mas o que pode ser mais divertido do que ver aquele brutamontes tentando interpretar um homem comum? O que falta ao material é o charme que sobrava no original. Um perfume de filme B que a direção pasteurizada de Wiseman fica devendo. O acabamento desse filme destrói a espontaneidade de uma época em que se desafiava os limites da tecnologia para se fazer uma boa ficção-científica. Uma época em que o talento de um autor se sobressaía. É por isso que Beckinsale, completamente desregrada em sua versão anabolizada da personagem interpretada por Sharon Stone no filme de 1990, impressiona. É como se a esposa do diretor dissesse: “peraí que eu vou deixar esse negócio mais legal”.

O Vingador do Futuro  EstrelinhaEstrelinha½
[Total Recall, Len Wiseman, 2012]

2 Comments

Filed under Resenha

A Arte da Conquista

Freddie Highmore, Emma Roberts

Freddie Highmore cresceu, mas continua com a mesma expressão de bom menino dos filmes que o fizeram famoso. Ele foi um dos mais requisitados atores mirins da década passada. Contracenou com Johnny Depp em Em Busca da Terra do Nunca e A Fantástica Fábrica de Chocolate, deu voz ao protagonista de Arthur e os Minimoys e ainda estrelou O Som do Coração. De menino-prodígio, resolveu encarnar o jovem indie, numa tentativa de emplacar na idade adulta. Não que tenha dado muito certo.

Numa primeira impressão, A Arte da Conquista, direção do estreante Gavin Wiesen, é um resumão do que o cinema independente norte-americano tem feito nos últimos 100 anos. Losers solitários, incompreendidos, metidos em situações embaraçosas, ao som de melodias tristes. Difícil comprar Highmore como um protagonista adulto. Se quando era garoto ele convencia com seu perfil de adulto-mirim, agora crescido ele mais parece um moleque mentindo a idade para entrar na sessão de cinema.

E haja paciência para a melancolia de araque que o filme nos oferece. É como se o personagem principal fosse um suicida que tenta se matar de tanto ouvir Leonard Cohen ou cheirar flores raras guardadas em livros mofados. Se já era complicado acreditar na caricatura que o roteiro faz do pós-adolescente, mais difícil ainda é se convencer de sua “grande” descoberta interior. Não falta maturidade apenas ao protagonista. O texto parece não saber como manter sua débil proposta inicial. Os trejeitos independentes e personagens esquisitos saem de cena para dar lugar a uma novelinha de superação que nem ao menos conversa com a bobagem que se viu até ali.

Parece que acabaram as vagas no cinema independente. Pelo menos as boas.

A Arte da Conquista Estrelinha
[The Art of Getting By, Gavin Wiesen, 2001]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Sight & Sound: os top tens dos cineastas

Olivier Assayas

O Espelho, Andrei Tarkovsky, 1974
2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick, 1968
A Árvore da Vida, Terrence Malick, 2011
Van Gogh, Maurice Pialat, 1990
Um Condenado à Morte Escapou, Robert Bresson, 1956
A Regra do Jogo, Jean Renoir, 1939
O Evangelho Segundo São Mateus, Pier Paolo Pasolini, 1964
Ludwig, O Último Rei da Bavária, Luchino Visconti, 1971
Napoleão, Abel Gance, 1927
Play Time, Jacques Tati, 1967

Atom Egoyan

Ladrão de Bicicletas, Vittorio De Sica, 1948
Acossado, Jean-Luc Godard, 1959
8 1/2, Federico Fellini, 1963
O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola, 1972
Metrópolis, Fritz Lang, 1927
A Paixão de Joana D’Arc, Carl Theodor Dreyer, 1928
Persona, Ingmar Bergman, 1966
Tempo de Violência, Quentin Tarantino, 1994
2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick, 1968
Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock, 1958

Abel Ferrara

Uma Mulher Sob Influência, John Cassavetes, 1974
Armadilha do Destino, Roman Polanski, 1966
Os Demônios, Ken Russel, 1971
Gaviões e Passarinhos, Pier Paolo Pasolini, 1966
A Hora do Lobo, Ingmar Bergman, 1968
Lolita, Stanley Kubrick, 1962
Os Esquecidos, Luis Buñuel, 1950
Ran, Akira Kurosawa, 1950
A Marca da Maldade, Orson Welles, 1958
Zero de Conduta, Jean Vigo, 1933

Hong Sangsoo

Boat Leaving the Port, Louis Lumiére
Nanook, o Esquimó, Robert J. Flaherty, 1922
Boudu Salvo das Águas, Jean Renoir
O Atalante, Jean Vigo, 1934
A Mocidade de Lincoln, John Ford, 1939
Também Fomos Felizes, Yasujiro Ozu, 1951
A Palavra, Carl Thedor Dreyer, 1955
Um Condenado à Morte Escapou, Robert Bresson, 1956
Nazarin, Luis Buñuel, 1959
O Raio Verde, Eric Rohmer, 1986

Leave a Comment

Filed under Listas

Top 250 Sight & Sound: melhores filmes de todos os tempos

A revista inglesa Sight & Sound liberou a lista completa com os 250 títulos mais votados na edição mais recente de sua enquete, organizada a cada dez anos, sobre os melhores filmes de todos os tempos. Ao todo, 845 críticos de todo o mundo votaram em 2045 filmes neste ano. Trata-se da maior enquete já realizada sobre o assunto. Os 250 mais bem colocados receberam pelo menos 7 votos.

Nenhum filme brasileiro entrou na relação, cujo primeiro colocado, depois de 50 anos, deixou de ser Cidadão Kane. Robert Bresson é o cineasta mais lembrado, com 7 títulos, mas somente um deles aparece entre os 50 mais. Três filmes de 2011 foram lembrados: A Árvore da Vida, Melancolia e  O Cavalo de Turim. O mais antigo na relação é Viagem à Lua, de Georges Méliès, feito em 1902.

Segue a lista completa, com títulos em português, diretores, ano de produção e número de votos.

 2001, A Paixão de Joana d'Arc, Um Corpo que Cai, Cidadão Kane, Era uma Vez em Tóquio

1 Um Corpo que Cai [191 votos]
[Vertigo, AlfredHitchcock, 1958]

Cidadão Kane [157 votos]
[Citizen Kane, OrsonWelles, 1941]

Era uma Vez em Tóquio [107 votos]
[Tôkyô Monogatari, Yasujiro Ozu, 1953]

A Regra do Jogo [100 votos]
[La Regle du jeu, Jean Renoir, 1939]

Aurora [93 votos]
[Sunrise: a Song for Two Humans, F.W. Murnau, 1927]

2001 – Uma Odisseia no Espaço [90 votos]
[2001: A Space Odyssey, Stanley Kubrick, 1968]

Rastros de Ódio  [78 votos]
[The Searchers, John Ford, 1956]

O Homem com uma Câmera [68 votos]
[Man with a Movie Camera, Dziga Vertov, 1929]

A Paixão de Joana d’Arc [65 votos]
[La Passion de Jeanne d'Arc, Carl Theodor Dreyer, 1927]

10 8 ½ [64 votos]
[8 ½, Federico Fellini, 1963]

11 Encouraçado Potemkin [63 votos]
[Bronenosets Potyomkin, Sergei Eisenstein, 1925]

12 O Atalante [58 votos]
[L’Atalante, Jean Vigo, 1934]

13 Acossado [57 votos]
[À Bout de Souffle, Jean-Luc Godard, 1959]

14 Apocalypse Now [53 votos]
[Apocalypse Now, Francis Ford Coppola, 1979]

15 Pai e Filha [50 votos]
[Banshun, Yasujiro Ozu, 1949]

16 A Grande Testemunha [49 votos]
[Au Hasard Balthazar, Robert Bresson, 1966]

17 Os Sete Samurais [48 votos]
[Shichinin no Samurai, Akira Kurosawa, 1954]

17 Persona
[Persona, Ingmar Bergman, 1966]

19 O Espelho [47 votos]
[Zerkalo, Andrey Tarkovsky, 1974]

20 Cantando na Chuva [46 votos]
[Singin’ in the Rain, Stanley Donen e Gene Kelly, 1952]

21 A Aventura [43 votos]
[L’Avventura, Michelangelo Antonioni, 1960]

21 O Desprezo
[Le Mépris, Jean-Luc Godard, 1963]

21 O Poderoso Chefão
[The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972]

24 A Palavra [42 votos]
[Ordet, Carl Theodor Dreyer, 1955]

24 Amor à Flor da Pele
[Fa Yeung nin Wa, Wong Kar-wai, 2000]

24 Rashomon
[Rashomon, Akira Kurosawa, 1950]

27 Andrei Rublev [41 votos]
[Andrei Rublev, Andrei Tarkovsky, 1966)

28 Cidade dos Sonhos [40 votos]
[Mulholland Drive, David Lynch, 2001]

29 Stalker [39 votes]
[Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979]

29 Shoah
[Shoah, Claude Lanzmann, 1985)

31 O Poderoso Chefão - Parte II [38 votos]
[The Godfather - Part II, Francis Ford Coppola, 1974]

31 Taxi Driver
[Taxi Driver, Martin Scorsese, 1976]

33 Ladrões de Bicicletas [37 votos]
[Ladri di Biciclette, Vittorio De Sica, 1948]

34 A General [35 votos]
[The General, Buster Keaton e Clyde Bruckman, 1926]

34 Psicose
[Psycho, Alfred Hitchcock, 1960]

36 Metropolis [34 votos]
[Metropolis, Fritz Lang, 1927]

36 Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce 1080 Bruxelles
[Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce 1080 Bruxelles, Chantal Akerman, 1975]

36 Sátántangó
[Sátántangó, Béla Tarr, 1994]

39 Os Incompreendidos [33 votos]
[Le 400 Coupes, François Truffaut, 1959)

39 A Doce Vida
[La Dolce Vita, Federico Fellini, 1960]

41 Viagem à Itália [32 votos]
[Viaggio a Italia, Roberto Rossellini, 1954]

41 A Canção da Estrada
[Pather Panchali, Satyajit, Ray, 1955]

43 Quanto Mais Quente Melhor [31 votos]
[Some Like It Hot, Billy Wilder, 1959]

43 Gertrud
[Gertrud, Carl Theodor Dreyer, 1964]

43 O Demônio das Onze Horas
[Pierrot le Fou, Jean-Luc Godard, 1965]

43 Tempo de Diversão
[Play Time, Jacques Tati, 1967]

43 Close-Up
[Close-Up, Abbas Kiarostami, 1990]

48 A Batalha de Argel [30 votos]
[La Battaglia di Algeri, Gillo Pontecorvo, 1966]

48 Histoire(s) du Cinéma
[Histoire(s) du cinéma, Jean-Luc Godard, 1998]

50 Luzes da Cidade [29 votos]
[City Lights, Charles Chaplin, 1931]

50 Contos da Lua Vaga Depois da Chuva
[Ugetsu Monogatari, Kenji Mizoguchi, 1953]

50 La Jetée
[La Jetée, Chris Marker, 1962]

Apocalypse Now, Rastros de Ódio, 8 1/2, Acossado, Aurora

53 Janela Indiscreta [28 votes]
[Rear Window, Alfred Hitchcock, 1954]

53 Intriga Internacional
[North By Northwest, Alfred Hitchcock, 1959]

53 Touro Indomável
[Raging Bull, Martin Scorsese, 1980]

56 M – O Vampiro de Dusseldorff [27 votos]
[M, Fritz Lang, 1931]

57 A Marca da Maldade [26 votos]
[Touch of Evil, Orson Welles, 1958]

57 O Leopardo
[Il Gattopardo, Luchino Visconti, 1963]

59 Sherlock Jr. [25 votes]
[Sherlock Jr., Buster Keaton, 1924]

59 O Intendente Sansho
[Sansho Dayu, Kenji Mizoguchi, 1954]

59 A Mãe e a Puta
[La Maman et la Putain, Jean Eustache, 1973]

59 Barry Lyndon
[Barry Lyndon, Stanley Kubrick, 1975]

63 Tempos Modernos [24 votes]
[Modern Times, Charles Chaplin, 1936]

63 Crepúsculo dos Deuses
[Sunset Blvd, Billy Wilder, 1950]

63 O Mensageiro do Diabo
[The Night of the Hunter, Charles Laughton, 1955]

63 Morangos Silvestres
[Smultronstället, Ingmar Bergman, 1957]

63 Onde Começa o Inferno
[Rio Bravo, Howard Hawks, 1959]

63 O Batedor de Carteiras
[Pickpocket, Robert Bresson, 1959]

69 Um Condenado à Morte Escapou [23 votos]
[Un Condamné à Mort s'est Échappé ou Le Vent Souffle où il Veut, Robert Bresson, 1956]

69 Blade Runner
[Blade Runner, Ridley Scott, 1982]

69 Sem Sol
[San Soleil, Chris Marker, 1983]

69 Veludo Azul
[Blue Velvet, David Lynch, 1986]

73 A Grande Ilusão [22 votos]
[La Grande Illusion, Jean Renoir, 1937]

73 O Boulevard do Crime
[Les Enfants du Paradis, Marcel Carné, 1945]

73 O Terceiro Homem
[The Third Man, Carol Reed, 1949]

73 O Eclipse
[L’Eclisse, Michelangelo Antonioni, 1962]

73 Nashville
[Nashville, Robert Altman, 1975]

78 Era uma Vez no Oeste [21 votos]
[C'era una volta il West, Sergio Leone, 1968]

78 Chinatown
[Chinatown, Roman Polanski, 1974]

78 Bom Trabalho
[Beau Travail, Claire Denis, 1989]

81 Soberba [20 votos]
[The Magnificent Ambersons, Orson Welles, 1942]

81 Lawrence da Arábia
[Lawrence of Arabia, David Lean, 1962]

81 O Espírito da Colmeia
[El Espíritu de la Colmena, Victor Erice, 1973]

84 Ouro e Maldição [19 votes]
[Greed, Erich von Stroheim, 1924]

84 Casablanca
[Casablanca, Michael Curtiz, 1942]

84 A Cor da Romã
[Sayat Nova, Sergei Parajanov, 1968]

84 Meu Ódio Será Tua Herança
[The Wild Bunch, Sam Peckinpah, 1969]

84 Fanny & Alexander
[Fanny & Alexander, Ingmar Bergman, 1982]

84 A Brighter Summer Day
[Gu ling jie shao nian sha ren shi jian, Edward Yang, 1991]

90 Um Dia no Campo [18 votos]
[Une Partie de Campagne, Jean Renoir, 1936]

90 Neste Mundo E no Outro
[A Matter of Life and Death, Michael Powell, Emeric Pressburger, 1946]

90 Aguirre, a Cólera dos Deuses
[Aguirre, der Zorn Gottes, Werner Herzog, 1972]

93 Intolerância [17 votos]
[Intolerance, D.W. Griffith, 1916]

93 Um Cão Andaluz
[Un Chien Andalou, Luis Buñuel, 1928]

93 Colonel Blimp – Vida e Morte
[The Life and Death of Colonel Blimp, Michael Powell, Emeric Pressburger, 1943]

93 Desejos Proibidos
[Madame de…, Max Ophüls, 1953]

93 O Sétimo Selo
[Det sjunde Inseglet, Ingmar Bergman, 1957]

93 Imitação da Vida
[Imitation of Life, Douglas Sirk, 1959]

93 Touki-Bouki
[Touki-Bouki, Djibril Diop Mambéty, 1973]

93 As Coisas Simples da Vida
[Yi Yi, Edward Yang, 2000]

93 O Medo Devora a Alma
[Angst essen Seele auf, Rainer Werner Fassbinder, 1974]

102 Wavelength [16 votos]
[Wavelength, Michael Snow, 1967]

102 O Conformista
[Il Conformista, Bernardo Bertolucci, 1970]

102 A Viagem dos Comediantes
[O Thiasos, Theodoros Angelopoulos, 1975]

102 Meshes of the Afternoon
[Meshes of the Afternoon, Maya Deren, Alexander Hammid, 1943]

102 O Ano Passado em Marienbad
[L'Année Dernière à Marienbad, Alains Resnais, 1962]

102 A Árvore da Vida
[The Tree of Life, Terrence Malick, 2011]

102 Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela
[2 ou 3 Choses que je Sais d'Elle, Jean-Luc Godard, 1967]

102 Ivan, o Terrível
[Ivan Groznyy, Sergei Eisenstein, 1944]

110 As Três Noites de Eva [15 votes]
[The Lady Eve, Preston Sturges, 1941]

110 Os Esquecidos
[Los Olvidados, Luis Buñuel, 1950]

110 Levada da Breca
[Bringing Up Baby, George Cukor, 1938]

110 Performance
[Performance, Donald Cammell, Nicolas Roeg, 1970]

110 O Passageiro / Profissão: Repórter
[Professione: Reporter, Michelangelo Antonioni, 1975]

110 Viridiana
[Viridiana, Luis Buñuel, 1961]

110 A Idade do Ouro
[L’Age d’Or, Luis Buñuel, 1930]

117 Os Contos de Canterburry [14 votos]
[A Canterbury Tale, Michael Powell, Emeric Pressburger, 1944]

117 Mouchette – A Virgem Possuída
[Mouchette, Robert Bresson, 1967]

117 Dr. Fantástico
[Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, Stanley Kubrick, 1964]

117 Nosferatu
[Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, F.W. Murnau, 1922]

117 Os Sapatinhos Vermelhos
[The Red Shoes, Michael Powell, Emeric Pressburger, 1948]

117 Ladrão de Alcova
[Trouble In Paradise, Ernst Lubitsch, 1932]

117 A Cidade das Tristezas
[Bei Qing Cheng Shi, Hou Hsiao-hsien, 1989]

117 Amacord
[Amarcord, Federico Fellini, 1973]

117 O Homem que Matou o Facínora
[The Man Who Shot Liberty Valance, John Ford, 1962]

117 Cinzas do Paraíso
[Days of Heaven, Terrence Malick, 1978

127 Primavera numa Pequena Cidade [13 votes]
[Xiao cheng zhi chun, Mu Fei, 1948]

127 Faça a Coisa Certa
[Do the Right Thing, Spike Lee, 1989]

127 Out 1
[Out 1, Noli me Tangere, Jacques Rivette, Suzanne Schiffman, 1971]

127 Mal dos Trópicos
[Sud Pralad, Apichatpong Weerasethakul, 2004]

127 O Rio Sagrado
[The River, Jean Renoir, 1951]

127 Uma Mulher para Dois
[Jules et Jim, François Truffaut, 1961]

127 Tempo de Violência
[Pulp Fiction, Quentin Tarantino, 1994]

127 Agora Seremos Felizes
[Meet Me In St. Louis, Vincente Minnelli, 1944]

127 O Dinheiro
[L’Argent, Robert Bresson, 1981]

127 Viver
[Ikiru, Akira Kurosawa, 1952]

127 A Liberdade é Azul
[Trois Couleurs: Bleu, Krzysztof Kieslowski, 1993]

127 Inverno de Sangue em Veneza
[Don’t Look Now, Nicolas Roeg, 1973]

127 Celine and Julie Go Boating
[Céline et Julie vont en bateau - Phantom Ladies Over Paris, Jacques Rivette, 1974]

127 Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
[Annie Hall, Woody Allen, 1977]

127 Se Meu Apartamento Falasse
[The Apartment, Billy Wilder, 1960]

127 A Última Gargalhada
[Der Letzte Mann, F.W. Murnau, 1924]

127 Hiroshima, Meu Amor
[Hiroshima Mon Amour, Alain Resnais, 1959]

144 Blow-Up – Depois Daquele Beijo [12 votes]
[Blow-Up, Michelangelo Antonioni, 1966]

144 O Grande Ditador
[The Great Dictator, Charles Chaplin, 1940]

144 Memórias do Subdesenvolvimento
[Memorias del Subdesarrollo, Tomás Gutiérrez Alea, 1968]

144 Diário de um Pároco de Aldeia
[Journal d'un Curé de Campagne, Robert Bresson, 1951]

144 Amores Expressos
[Chung Hing sam lam, Wong Kar-Wai, 1994]

144 Ser ou Não Ser
[To Be or Not to Be, Ernst Lubitsch, 1942]

144 Uma Mulher sob Influência
[A Woman Under the Influence, John Cassavetes, 1974]

144 Napoleão
[Napoleón, Abel Gance, 1927]

144 Viver a Vida
[Vivre Sa Vie, Jean-Luc Godard, 1962]

144 O Mágico de Oz
[The Wizard of Oz, Victor Fleming, 1939]

154 Marketa Lazarová [11 votos]
[Marketa Lazarová, Frantisek Vlácil, 1967]

154 Caché
[Caché, Michael Haneke, 2005]

154 O Iluminado
[The Shining, Stanley Kubrick, 1980]

154 Solaris
[Solyaris, Andrei Tarkovsky, 1972]

154 Falstaff – O Toque da Meia Noite
[Campanadas a Medianoche, Orson Welles, 1965]

154 Em Busca do Ouro
[The Gold Rush, Charles Chaplin, 1925]

154 Cartas a uma Desconhecida
[Letter From an Unknown Woman, Max Ophüls, 1948]

154 Desencanto
[Brief Encounter, David Lean, 1944]

154 No Silêncio da Noite
[In a Lonely Place, Nicholas Ray, 1950]

154 Narciso Negro
[Black Narcissus, Michael Powell, Emeric Pressburger, 1947]

154 Meu Vizinho Totoro
[Tonari no Totoro, Hayao Miyazaki, 1988]

154 Paraíso Infernal
[Only Angels Have Wings, Howard Hawks, 1939]

154 Vampiro
[Vampyr, Carl Theodor Dreyer, 1932]

154 Vá e Veja
[Idi i Smotri, Elem Klimov, 1985]

154 Vozes Distantes
[Distant Voices, Still Lives, Terence Davies, 1988]

154 Era uma Vez na América
[Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984]

154 Gritos e Sussurros
[Viskningar och Rop, Ingmar Bergman, 1972]

171 King Kong [10 votes]
[King Kong, Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper, 1933]

171 As Harmonias de Werkmeister
[Werckmeister Harmóniák, Béla Tarr, 2004]

171 Guerra nas Estrelas
[Star Wars, George Lucas, 1977]

171 Interlúdio
[Notorious, Alfred Hitchcock, 1946]

171 Jejum de Amor
[His Girl Friday, Howard Hawks, 1940]

171 Os Bons Companheiros
[Goodfellas, Martin Scorsese, 1990]

171 Os Guarda-Chuvas do Amor
[Les Parapluies de Cherbourg, Jacques Demy, 1964]

171 Viagem à Lua
[Le Voyage dans la Lune, Georges Méliès, 1902]

171 A Embriaguez do Sucesso
[Sweet Smell of Success, Alexander Mackendrick, 1957]

171 As Oito Vítimas
[Kind Hearts and Coronets, Robert Hamer, 1949]

171 Tabu
[Tabu: A Story of the South Seas, F.W. Murnau, 1931]

171 Terra
[Zemlya, Alexander Dovzhenko, 1930]

183 Ondas do Destino [9 votos]
[Breaking the Waves, Lars Von Trier, 1996]

183 As Vinhas da Ira
[The Grapes of Wrath, John Ford, 1940]

183 Paris, Texas
[Paris, Texas, Wim Wenders, 1984]

183 E.T.: O Extraterrestre
[E.T.: The Extra-Terrestrial, Steven Spielberg, 1982]

183 Faces
[Faces, John Cassavetes, 1968]

183 Roma, Cidade Aberta
[Roma, Citta Aperta, Roberto Rossellini, 1945]

183 A Sala de Música
[Jalsaghar, Satyajit Ray, 1958]

183 O Conto dos Crisântemos Tardios
[Zangiku Monogatari, Kenji Mizoguchi, 1939]

183 A Touch of Zen
[Xia Nu, King Hu, 1971]

183 Listen to Britain
[Listen to Britain, Humphrey Jennings, Stewart McAllister, 1942]

183 Dias de Ira
[Vredens Dag, Carl Theodor Dreyer, 1943]

183 Além da Linha Vermelha
[The Thin Red Line, Terrence Malick, 1998]

183 Eraserhead
[Eraserhead, David Lynch, 1977]

183 O Massacre da Serra Elétrica
[The Texas Chain Saw Massacre, Tobe Hooper, 1974]

183 O Discreto Charme da Burguesia
[Le Charme Discret de la Bourgeoisie, Luis Buñuel, 1972]

183 A Conversação
[The Conversation, Francis Ford Coppola, 1974]

183 Fuga do Passado
[Out of the Past, Jacques Tourneur, 1947]

183 Eu Nasci, Mas…
[Otona no Miru Ehon - Umarete wa Mita Keredo, Yasujiro Ozu, 1932]

183 ‘I Know Where I’m Going!’
['I Know Where I'm Going!', Michael Powell, Emeric Pressburger, 1945]

202 A Morte do Sr. Lazarescu [8 votos]
[Moartea Domnului Lazarescu, Cristi Puiu, 2005]

202 O Dilema de Uma Vida
[Il Deserto Rosso, Michelangelo Antonioni, 1964]

202 Chelsea Girls
[Chelsea Girls, Paul Morrissey, Andy Warhol, 1966]

202 Terra de Ninguém
[Badlands, Terrence Malick, 1973]

202 No Decurso do Tempo
[Kings of the Road, Wim Wenders, 1976]

202 Sangue Negro
[There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson, 2007]

202 WALL-E
[WALL-E, Andrew Stanton, 2008]

202 Berlin Alexanderplatz
[Berlin Alexanderplatz, Rainer Werner Fassbinder, 1980]

202 Videodrome
[Videodrome, David Cronenberg, 1982]

202 As Pequenas Margaridas
[Sedmikrásky, Vera Chytilová, 1966]

202 Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas
[Loong Boonmee Raleuk Chat, Apichatpong Weerasethakul, 2010]

202 Manhattan
[Manhattan, Woody Allen, 1979]

202 Cleo Das 5 às 7
[Cléo de 5 à 7, Agnès Varda, 1962]

202 O Distrito de Tie Xi
[Tiexi Qu, Wang Bing, 2003]

202 Arca Russa
[Russkiy Kovcheg, Aleksandr Sokúrov, 2002]

202 A Tale of Tales
[Skazka Skazok, Yuriy Norshteyn, 1979]

202 A Viagem de Chihiro
[Sen to Chihiro no Kamikakushi, Hayao Myiazaki, 2001]

202 A Estrada da Vida
[La Strada, Federico Fellini, 1954]

202 Paisà
[Paisà, Roberto Rossellini, 1946]

202 A Loja da Esquina
[The Shop Around the Corner, Ernst Lubitch, 1940]

202 À Beira do Abismo
[The Big Sleep, Howard Hawks, 1946]

202 Killer of Sheep
[Killer of Sheep, Charles Burnett, 1977]

202 Wanda
[Wanda, Barbara Loden, 1970]

202 Alemanha Ano Zero
[Germania Anno Zero, Roberto Rossellini, 1948]

202 A Vida de Oharu
[Saikaku Ichidai Onna, Kenji Mizoguchi, 1952]

202 O Exército das Sombras
[L'Armée des Ombres, Jean-Pierre Melville, 1969]

202 Saló ou os 120 Dias de Sodoma
[Salò o le 120 Giornate di Sodoma, Pier Paolo Pasolini, 1975]

202 Diabo a Quatro
[Duck Soup, Leo McCarey, 1933]

202 O Diabo Provavelmente
[Le Diable Probablement, Robert Bresson, 1977]

202 O Cavalo de Turim
[A Torinói Ló, Béla Tarr, Ágnes Hranitzky, 2011]

202 Amantes
[Love Streams, John Cassavetes, 1984]

202 O Anjo Exterminador
[El Ángel Exterminador, Luis Buñuel, 1962]

202 Ervas Flutuantes
[Ukigumo, Mikio Naruse, 1952]

235 O Piano [7 votos]
[The Piano, Jane Campion, 1993]

235 …E o Vento Levou
[Gone With the Wind, Victor Fleming, 1939]

235 Melancolia
[Melancholia, Lars Von Trier, 2011]

235 The House is Black
[Khaneh Siah Ast, Forugh Farrokhzad, 1963]

235 O Gabinete do Dr. Caligari
[Das Kabinett der Dr. Caligari, Robert Wiene, 1920]

235 Rio Vermelho
[Red River, Howard Hawks, 1948]

235 Laranja Mecânica
[A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971]

235 Corrida Sem Fim
[Two-Lane Blacktop, Monte Hellman, 1971]

235 A Rotina Tem Seu Encanto
[Sanma no Aji, Yasujiro Ozu, 1962]

235 A Tênue Linha da Morte
[The Thin Blue Line, Errol Morris, 1988]

235 O Mundo de Apu
[Apur Sansar, Satyajit Ray, 1959]

235 O Testamento do Dr. Mabuse
[Das Testament des Dr. Mabuse, Fritz Lang, 1933]

235 Paixão dos Fortes
[My Darling Clementine, John Ford, 1946]

235 A Dupla Vida de Veronique
[Le Double Vie de Veronique, Krzysztof Kieslowski, 1991]

235 Kes
[Kes, Ken Russell, 1969]

235 A Fraternidade é Vermelha
[Trois Couleurs: Rouge, Krzysztof Kieslowski, 1994]

235 O Grande Lebowski
[The Big Lebowski, Joel e Ethan Coen, 1998]

235 A Fita Branca
[The White Ribbon, Michael Haneke, 2009]

235 Verdades e Mentiras
[Vérités et Mensonges, Orson Welles, 1975]

235 Um Instante de Inocência
[Nun va Goldoon, Mohsen Makhmalbaf, 1996]

235 O Vento nos Levará
[Bad ma ra Khahad Bord, Abbas Kiarostami, 1999]

235 Rocco e Seus Irmãos
[Rocco i suo Fratelli, Luchino Visconti, 1960]

235 Eternamente Sua
[Sud Sanaeha, Aoichatpong Weerasethakul, 2002]

235 Flores de Xangai
[Hai shang hua, Hou Hsiao-hsien, 1998]

235 Juventude em Marcha
[Juventude em Marcha, Pedro Costa, 2006]

235 Morte em Veneza
[Morte a Venezia, Luchino Visconti, 1971]

235 Tudo Sobre Minha Mãe
[Todo Sobre Mi Madre, Pedro Almodóvar, 1999]

235 The Cloud-Capped Star
[Meghe Dhaka Tara, Ritwik Ghatak, 1960]

235 A Caixa de Pandora
[Die Büchse der Pandora, G.W. Pabst, 1929]

235 O Samurai
[Le Samouraï, Jean-Pierre Melville, 1967]

235 By the Bluest of Seas
[U Samogo Sinego Morya, Boris Barnet, 1935]

235 Stromboli
[Stromboli, Roberto Rossellini, 1950]

235 Aos Nossos Amores
[À Nos Amours, Maurice Pialat, 1983]

235 Trono Manchado de Sangue
[Kumonosu-jô, Akira Kurosawa, 1957]

235 Umberto D
[Umberto D, Vittorio De Sica, 1952]

235 Duas Garotas Românticas
[Les Demoiselles de Rochefort, Jacques Demy, 1967]

235 Constrastes Humanos
[Sullivan Travels, Preston Sturges, 1941]

235 Sombras
[Shadows, John Cassavetes, 1959]

235 A Roda da Fortuna
[The Band Wagon, Vincente Minelli, 1953]

235 Gente da Sicília
[Sicília!, Danièle Huillet, Jean-Marie Straub, 1999]

235 A Bela da Tarde
[La Belle de Jour, Luis Buñuel, 1967]

235 Como Era Verde o Meu Vale
[How Green Was My Valley, John Ford, 1940]

235 A Malvada
[All About Eve, Joseph L. Mankiewiz, 1950]

235 O Mestre das Marionetes
[Hsimeng Jensheng, Hou Hsiao-hsien, 1993]

235 O Evangelho Segundo São Mateus
[Il Vangelo Secondo Matteo, Pier Paolo Pasolini, 1964]

235 Tudo o que o Céu Permite
[All That Heaven Allows, Douglas Sirk, 1955]

235 Onde é a Casa do Meu Amigo?
[Khane-ye doust kodjast?, Abbas Kiarostami, 1987]

235 Maridos
[Husbands, John Cassavetes, 1970]

6 Comments

Filed under Listas

A Menina com o Chapéu

Boris Barnet

O cinema  silencioso soviético entrou pra história resumido às produções grandiosas de Sergei Eisenstein, Vsevolod Pudovkin e Aleksandr Dovzhenko. Nomes que revolucionaram a narrativa cinematográfica criando obras monumentais que retratavam as revoluções populares na União Soviética, servindo como instrumento de propaganda do regime. Todo o cinema produzido nos anos 20 estava impregnado pelos preceitos stalinistas, mas além de relatos históricos como Encouraçado Potemkin, também foram realizados filmes que emulavam gêneros clássicos e que retratavam o cotidiano nas repúblicas soviéticas.

Os longas de Boris Barnet só foram redescobertos nos anos 70. O diretor se interessava muito mais nas histórias do dia-a-dia de personagens comuns do que na encenação de grandes momentos da história do país. A Menina com o Chapéu é um filme singular. De um lado reproduz as regras da comédia romântica, elegendo uma mocinha trabalhadora como protagonista e um encontro ao acaso como linha narrativa. Do outro, reflete a ideologia socialista de comportamento, honestidade e papel social.

A heroína é uma jovem que mora e trabalha com o avô numa confecção artesanal de chapéus, um modelo de virtude. Ela viaja todos os dias para Moscou para vender os produtos. No meio do caminho, esbarra com um homem que não tem onde morar. Está instalada a proposta: deve a mocinha ajudar ou não quem está precisando?  O elenco é um achado: uma lindíssima Anna Stern interpreta a personagem-título mais parecida do que nunca das heroínas do filmes americanos, enquanto Ivan Koval-Samborsky faz um grandalhão bobo de coração mole. Um casal perfeito.

Barnet se revela um feminista: toda a ação parte da protagonista. É ela que sustenta o avô, que viaja sozinha para a cidade grande, que resiste às investidas de pretendentes, que enfrenta o casal de burgueses, o mais perto que o filme tem de vilões, para dar um lar para o “namorado”. E o mais importante: é ela que dá em cima. A história é simples, mas o diretor não relaxa na criação de uma linguagem visual para o filme, que muitas vezes conversa com o cinema soviético mais celebrado. Na cena em que a protagonista tenta conquistar o amado respondendo a uma proposta que nunca foi feita por ele, Barnet, refletindo o humor presente no filme todo, alterna rapidamente o foco para o rosto de cada um dos personagens, dando novas dimensões a uma tensão que quase não existia.

A Menina com o Chapéu EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Devushka s korobkoy, Boris Barnet, 1927]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Uma Vida Simples

Deannie Yip, Andy Lau

A casa está impecável e o jantar está pronto. Ah Tao já pode ir deitar. Sua rotina é a mesma há mais de 40 anos. Sua relação com Roger, especial. Ela está na família dele há mais tempo do que ele tem de vida. E depois que todos cruzaram o oceano para ir morar nos Estados Unidos, Roger ganhou os mimos e as broncas de Ah Tao só pra ele.  Foi uma vida inteira dedicada a alguém. Agora que ela chegou a uma idade avançada, cabe a ele devolver tudo o que recebeu.

O plot de Uma Vida Simples é desanimador, parece estar intrinsecamente associado a um tipo de exercício melodramático onde se só se opera com maniqueísmos e maneirismos. A fórmula é virada pelo avesso pela diretora Ann Hui, que evita as armadilhas dos filmes sobre velhice utilizando a simples decisão de evitar os conflitos de sempre. Mesmo separados, os personagens permanecem unidos do começo ao fim do filme.

Sem precisar se preocupar com reviravoltas e lições de moral, a cineasta pode se dedicar a acompanhar a mudança de Ah Tao para um asilo, sua adaptação à nova casa e seus encontros constantes com Roger. A câmera documental de Nelson Yu Lik-wai, parceiro habitual de Jia Zhang-ke, é orgânica, parece estar incorporada aos cenários. Move-se com tranqüilidade,  registrando com precisão e riqueza de detalhes o dia-a-dia da protagonista.

De uma só vez, o filme oferece uma visão sóbria sobre o ocaso da vida, ao mesmo tempo em que investiga as memórias de um homem sobre um personagem fundamental de sua história. Andy Lau, um ator de filmes de ação, é de uma delicadeza notável na composição de Roger, mas a interpretação monumental do filme é a de Deannie Yip, cuja Ah Tao é um retrato perfeito das mulheres que abdicam de suas vidas pessoais em prol dos outros.

Como Ann Hui trabalha praticamente ignora o melodrama, a cena em que a protagonista, pela primeira vez, se depara com a possibilidade da morte é um choque para o espectador, mesmo que dirigida com absoluta discrição. Toda a força da cena está na interpretação da atriz, nas expressões faciais contidas, nos olhos tristes. Até ali, os percalços na trajetória de Ah Tao faziam parte do contexto. A partir desta cena, a consciência da finitude vem à tona. Sorte de que tem sempre alguém por perto.

Uma Vida Simples EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tao Jie, Ann Hui, 2011]

Leave a Comment

Filed under Resenha

O Filme de Oki

Yu-mi Jeong, Seon-gyun Lee, Moon Sung-keun

Não existe um limite muito visível entre o filme e o filme dentro do filme neste longa de Hong Sang-soo. Os quatro curtas, ou o que quer o diretor quer que entendamos como tal, que compõem a estrutura de O Filme de Oki conversam entre si, mas também existem de forma independente. Os mesmos atores interpretam os mesmos personagens em situações – e sob pontos de vistas – diferentes. O universo, assim como O Dia em que Ela Chegar, é o das pessoas que fazem cinema, o que empresta ao longa com um clima improvisado, de filme caseiro.

É como se o cinema impregnasse tudo o que realmente importa para o diretor. É como se Sang-soo desejasse que seu dia fosse só cinema. A narrativa “como na vida” acontece em retalhos, oferecidos em cada capítulo, e constrói os personagens em camadas que não obedecem a uma lógica específica. No terceiro curta, um deles, o professor, é interrogado sobre a vida, o mundo e o amor e suas respostas refletem a mesma desilusão do cineasta.

O quarto e último ato do filme, batizado com o título do longa, amarra a história e a proposta. Nele, Oki, a estudante de cinema, nos apresenta as diferenças entre os dois homens com que está romanticamente envolvida. Nele, Sang-soo, o diretor de cinema, contrapõe as cenas em que Oki repete um mesmo trajeto com cada um de seus interesses amorosos. O momento em que as duas histórias se encontram é o momento em que a personagem percebe que a decisão, que parece estar tomada,  não depende apenas dela.

O Filme de Oki EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Ok-hui-ui Yeonghwa, Hong Sang-Soo, 2010]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Um Homem Adorável

Donny Damara, Raihaanun

Existe um conflito que se estende ao longo de Um Homem Adorável, a briga entre o cinema independente e o melodrama tradicional. Teddy Soeriaatmadja ousa ao eleger um travesti como protagonista de um filme na Indonésia, o país que mais abriga muçulmanos no mundo. Ele elege o submundo como cenário, seus habitantes como heróis e, de quebra, ainda tira o véu de uma das personagens principais.

A trama é simples: uma filha parte em busca do pai que a abandonou quando criança, mas o diretor conduz a história com maneirismos de um certo cinema indie que se espalhou mundo afora. A câmera naturalista, com imagens desfocadas, cumpre sua função plástica, cria cenas bem bonitas, mas a trilha sonora minimalista força uma melancolia que já parecia inerente ao material.

No entanto, a ousadia da proposta e a embalagem alternativa encontram um roteiro que, na maioria das vezes, não sabe como fugir de lugares comuns. A estrutura é de novelão, onde o acerto de contas entre pai e filha convive até com uma subtrama de suspense. Mas o filme guarda um trunfo, que garante sua particularidade:  nada abala a química entre Donny Damara e Raihaanun, ambos ótimos, sem excessos, exatos na criação de uma relação entre personagens que eram apenas sombras um para o outro.

Um Homem Adorável EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Lovely Man, Teddy Soeriaatmadja, 2011]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Jornada de Cinema Silencioso 2012

O cinema ficou mais preguiçoso quando começou a falar. A chegada do som, mais especificamente da voz, acomodou grande parte dos realizadores, que, até então, desenvolviam um trabalho de criação de linguagem cada vez mais elaborado. De uma maneira geral, os filmes silenciosos foram banidos, reduzidos à condição de obras ultrapassadas, celebrados apenas em círculos restritos.

Há seis anos, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, abriga um festival dedicado exclusivamente aos filmes mudos. A Jornada Brasileira de Cinema Silencioso talvez seja o mais interessante festival de cinema realizado no país. Todos os filmes, em pelo menos uma sessão, são exibidos com acompanhamento sonoro, desde trilhas tradicionais tocadas ao piano até equipe de sonoplastas e interferências sonoras, grupos de jazz e performances vocais. Cada apresentação é um espetáculo.

Nos últimos anos, clássicos e filmes raros ganharam exibições especiais. Neste ano, a jornada muda de mãos. O criador do festival, Carlos Roberto de Souza sai para dar espaço a uma equipe capitaneada por Adilson Mendes. A programação de cinema será dividida em quatro mostras. A única tradicional é a “Destaques de Pordenone”,  que exibe filmes do acervo do mais importante festival de cinema silencioso do mundo, na Itália.

Será exibida a sessão Os Perigos do Cinematógrafo, composta por curtas produzidos entre 1911 e 1913, e que observam a presença do cinema no cotidiano da época. O programa As Funny Ladies da Coleção Desmet exibe comédias curtas realizadas entre 1912 e 1914, estrelas por mulheres.  Dois longas completam os destaques: Esposa e Mártir, de Sam Wood, estrelado por Rudolph Valentino e Gloria Swanson, e O Jovem Pastor, com Betty Compson.

A mostra Luzes e Sombras é dedicadas aos filmes expressionistas, com destaque para os clássicos O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, que ganhará apresentação nas paredes do auditório do Ibirapuera, e A Carruagem Fantasma, de Victor Sjöström. O thriller alemão Sombras – Uma Alucinação Noturna, de Arthur Robinson, também merece atenção.

Haverá uma seleção especial de filmes brasileiros feitos nos anos 20 sob encomenda e uma mostra sobre o cinema soviético dos anos 20, com destaque para Arsenal, de Aleksander Dovjenko, A Menina com o Chapéu, de Boris Barnet, e As Extraordinárias Aventuras de Mr. West no País dos Bolcheviques, que abre a jornada neste sábado. Mas além dos filmes, o festival terá uma novidade que promete popularizar a edição.

O Salão das Novidades será uma espécie de releitura das  feiras da virada do século 19 para o 20, com espaço para a aparesentação de ilusionistas, mágicos chineses, homens de perna de pau, shows de terror, mulher barbada, projeções ao ar livre, videntes, artistas de teatro, de circo e até as notáveis presenças do Dr. Caligari e da Vênus de Hotentote. A programação dos salão acontecerá no sábado e no domingo, com reprise no fim de semana que vem, das 16h às 22h. Os filmes serão exibidos a partir das 16h, todos os dias.

Mais informações no site da jornada ou no perfil da Cinemateca no Facebook.

2 Comments

Filed under Mostras