Monthly Archives: março 2012

Mistérios de Lisboa

Raoul Ruiz

O espectador sai tão leve das quatro horas e meia de Mistérios de Lisboa que só é possível concluir que Raoul Ruiz é o melhor diretor do mundo para adaptar livros clássicos, como fez com Marcel Proust em O Tempo Redescoberto,que o cineasta transformou em filme em 1999.

O que Ruiz faz com a obra de Camilo Castelo Branco – uma novela simples no texto e complexa na forma (já que é fartíssima de personagens e tem uma narrativa que se parte a cada vez que se quer apresentar um deles) – é, correndo o risco do adjetivos taxativos, sublime. Originalmente concebida como uma mini-série para a TV em seis capítulos, a adaptação rodou o mundo em festivais e ganhou uma surpreendente inclusão no circuito comercial brasileiro numa inicativa louvável do CineSesc.

O chileno radicado na Europa tem um domínio de cena assustador. Comanda o filme como um maestro, dando um movimento trágico-musical a todas as cenas, que ganham frescor e agilidade raríssimas em adaptações literárias de época. Ruiz confronta o clássico do material com o moderno do cinema digital,    explorando cores barrocas, evitando closes, dando mais imponência ao texto.

O diretor administra a profusão de personagens a seu favor, dando espaço privilegiado a todos, mas seu maior acerto é na composição da narrativa, que transita por épocas diferentes em flashbacks introduzidos com tanta suavidade que mal se percebe a transição de tempo. A energia do filme, que reinventa o clássico, só poderia vir de um diretor que, aos 69 anos, é dono de uma jovialidade que poucos cineastas parecem ter.

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[Mistérios de Lisboa, Raoul Ruiz, 2010]

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Drive

A trilha sonora de Drive, uma música eletrônica retrô assinada por Cliff Martinez, é essencial para compor a atmosfera do filme: estamos num espaço de intersecção, uma área de encontros de referências, um estado de pastiche de gêneros cinematográficos assumido, levado ao extremo.

Não há compromisso do diretor com realismo ou relativismo. Nicolas Winding Refn comanda um filme que parece existir num tempo suspenso e inexato. Quase morto. Por isso mesmo se recusa a oferecer objetivos nos quais o espectador possa se apegar. Como em O Samurai, de Jean-Pierre Melville, que parece ser sua principal inspiração, Drive é frio e extremamente calculado. Mas esse cálculo é justamente o torna o filme tão apetitoso.

Silencioso como o personagem de Alain Delon no longa de Melville, Ryan Gosling assume o risco de um personagem blasé que poderia dar errado caso caísse em mãos erradas. Com o grande ator do momento, o papel funciona perfeitamente. O personagem de Albert Brooks parece saído de um filme de Quentin Tarantino. Mas, ao contrário da verborragia que inunda os longas deste cineasta, Drive adota um texto quase minimalista. Há várias cenas com zero de diálogo. A direção preenche todo o espaço. Muitas vezes com o vazio de Los Angeles.

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[Drive, 2011], Nicolas Windign Refn.

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W.E.

Abby Cornish, Andrea Risenborough

É, não deu. A primeira cena de W.E. mostra uma das personagem principais entrando em seu apartamento enquanto uma espécie de audio guide dá informações sobre a outra protagonista, Wallis Simpson, quem realmente existiu nesse encontro de histórias. Madonna repete essa maneira preguiçosa de nos informar sobre a personagem ao longo de todo o filme. Sempre que precisa contextualizar ou dar detalhes sobre Wallis, alguém está vendo um vídeos sobre ela na internet ou assistindo a um documentário no telão. Fácil, né?

O filme não chega a ser uma tragédia, mas é bem ruim. O problema maior é que as duas histórias só têm paralelos na cabeça de Madonna. E a diretora força a barra pra que a gente compre essa suposta ligação, tentando criar pontos de encontro que não se sustentam. A história da personagem de Abbie Cornish parece ter sido escritas às pressas de tão vagabunda. Não se salva nem a relação com o marido, estereotipado, nem o romance, que promove a cena mais constrangedora do longa.

Se Madonna tivesse feito um filme linear sobre Wallis Simpson, certamente teria tido mais sucesso. Andrea Riseborough é a melhor coisa do filme. Boa atriz, ela é quem sustenta os resquícios de interesse por W.E. até o final. Ou quase. Porque chegar ao final deste filme é uma tarefa bem árdua.

Os figurinos, indicados ao Oscar, são realmente excelentes, mas o boa parte do mérito já vem da própria Wallis Simpson, né? Já a trilha sonora, cortesia do mesmo autor de Direito de Amar, peca pelo mesmo problema daquele filme. Embora talentosa, a música muitas vezes é grandiosa demais, assumindo um papel de protagonista, escondendo a todo o resto na cena. Mas, pensando bem, em alguns momentos deste filme, isso nem chega a ser um problema.

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[W.E., Madonna, 2011]

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John Carter

Andrew Stanton

Fazer “John Carter” deve ter sido um desafio. Como criar um blockbuster de ficção-científica a partir de um livro escrito 100 anos atrás? Andrew Stanton, diretor de Wall-E, em sua estreia em filmes live action, soube equilibrar o respeito à ousadia hoje ingênua dos livros de Edward Rice Burroughs com um acabamento não apenas visual, mas narrativo mesmo. O longa é super elaborado em seus conceitos de ciência, mas guarda diálogos de romance que parecem propositadamente datados.

John Carter costura durante suas duas horas esta homenagem a Burroughs à necessidade de fazer um filme palatável para a geração atual. Se o visual arriscado é assumidamente retrô, a ideia de incluir o próprio escritor na trama do filme é bem moderna. Stanton, sem negar a ingenuidade da obra que está criando, moderniza uma aventura clássica, cujos atrativos podem ainda parecer rústicos, mas que capturam o espectador com sua agilidade e um carisma inerente. Impossível resistir a Woola, o cão marciano mais incrível do universo.

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[John Carter, Andrew Stanton, 2012]

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Poder sem Limites

Josh Trank

Poder sem Limites é um filme ambicioso, que nasce do encontro de três projetos de cinema que pareciam esgotados. De um lado, temos o filme de super-herói, gênero que floodou as salas de exibição na última década. Do outro, o drama adolescente, que repete os mesmos conflitos há pelo menos 50 anos. E, no meio, temos a câmera na mão, febre do cinema-reality que se espalhou por gêneros e passou a ser usada sem critério.

O filme de Josh Trank mora na intersecção entre essas três propostas de linguagem e as converte possivelmente no melhor filme de heróis já feito e no uso mais inteligente de câmera subjetiva dos últimos tempos. Um feito supreendente para um cineasta que assina seu primeiro trabalho.

A estrutura é a de um drama adolescente, com um protagonista que vive à margem: agredido em casa, excluído na escola, vítima de bullying na rua. O roteirista Max Landis, filho do diretor John Landis, se aproveita desta plataforma, com construção dramática exemplar, para inserir superpoderes recém-adquiridos como um aspecto a mais da trama, que exacerba e renova os conflitos.

As luzes estão nos bastidores, em como os protagonistam descobrem e se relacionam com seus poderes. Os efeitos visuais são hiperrealistas, filmados com uma naturalidade que falta às grandes produções. Informação importante: o orçamento desse filme foi de US$ 12 milhões, ínfimo para os padrões de Hollywood. Tudo parece caseiro, mas extremamente bem acabado. Isso reforça a simplicidade do filme.

A câmera subjetiva acentua a intimidade do espectador para com os protagonistas. Trank faz desse artifício a linguagem visual do filme: todas as cenas são apresentadas pelo ponto de vista da câmera do protagonista (num uso inteligente de espelhos e de troca de operador que nunca esgota o formato), por câmeras de segurança ou pela televisão.

Temos, então, um filme de gênero como nunca se viu, que mostra o nascimento de heróis e vilões com seriedade e sensibilidade. Trank e Landis não recorrem a mentores e perseguições. Centra fogo em garotos tentando lidar com seus novos poderes, mas o drama não está apenas nisso. As questões são todas anteriores: natureza, história de vida. O que determina o futuro é quem você é.

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[Chronicle, Josh Trank, 2012]

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Minha Felicidade

Sergei Loznitsa

Um ano e meio depois de ser exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, Minha Felicidade finalmente chega ao circuito comercial. Uma estreia tardia, mas que já coloca o filme entre os melhores lançados neste ano. Quando o longa completou seus primeiros trinta minutos, eu imaginei que estava vendo uma pequena obra-prima, mas confesso que as reviravoltas que o diretor Sergei Loznitsa promove me confundiram tanto que essa impressão mudou bastante.

Mas foi por pouco tempo. O cineasta de primeira viagem nasceu na Bielo-Rússia, mas filma como os romenos que o mundo passou a celebrar nos últimos anos. A descida aos infernos do caminhoneiro Georgy é acompanhada pela mesma câmera naturalista dos colegas do Leste Europeu. Câmera que investiga os detalhes do cotidiano, que aqui são os encontros do protagonista com uma variada fauna de habitantes de uma região rural russa.

Embora transforme seu filme, a certa altura, num enigma, o diretor usa-o para investigar pequenas crueldades humanas e cria alguns momentos de beleza angustiante. A cena do encontro com a jovem prostituta, interpretada pela impressionante Olga Shuvalova, é antológica. A seqüência final, que define a trajetória do protagonista como uma prisão-labirinto, é, desde já, uma das porradas do ano.

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[Schastye Moe, Sergei Loznitsa, 2010]

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