Monthly Archives: outubro 2011

Mostra SP 2011: post 6

Eric Khoo

Tatsumi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tatsumi, Eric Khoo, 2011]

O singapuriano Eric Khoo, do chatinho e saudado Fica Comigo, arriscou uma mudança de estilo. Em Tatsumi, ele faz um biografia em forma de animação, homenageando um desenhista que inventou um novo gênero de mangás, mais realista e explícito na sexualidade. O resultado é acima da média porque Khoo mistura a história de seu personagem com as histórias que ele escreveu, dinamizando a trama. A ousadia da animação, que respeita o material original e se afasta dos padrões que costumamos ver, serve como tradução para a vida do autor. O filme vai acertando até o final, em que o peso de se fazer uma biografia surge e encerra esquematicamente a homenagem.

Miranda July

O Futuro EstrelinhaEstrelinha
[The Future, Miranda July, 2011]

A afetação nerdie de Miranda July incomoda muito. A diretora não tem a mão para saber quando deve parar de encher seus filmes com esquisitices fofas. O Futuro é bem melhor do que a estreia nefasta de July, Eu, Você e Todos Nós, onde parece decretar que todo mundo é imbecil. Aqui, ela não está interessada em “revelar” os pequenos segredos de cada um, mas procura deixar claro sua delicadeza débil, inserindo devaneios em todas as cenas. Na melhor delas, quando os namorados começam a imaginar a vida separados, o filme parece começar a apresentar um olhar interessante sobre solidão, mas July mais uma vez recorre a maneirismo indies e complica o resultado. Pode torcer pro animal-narrador com voz de bebê se dar mal, eu deixo.

Pierre Duculot

A Milhas de Distância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Au Cul du Loup, Pierre Duculot, 2011]

O material é clássico: mulher ganha uma casa no interior de herança e se apaixona por uma nova possibilidade de vida. O diretor Pierre Duculot até que trata o material de maneira menos óbvia, mesmo não foge dos elementos comuns: novo interesse amoroso, descoberta de segredos do passado, conciliação com a família. O pacote só não fica insatisfatório porque o diretor fotografa muito bem sua locação e ela ajuda a produzir o clima pretendido.

Geraldine Doignon

Vida que Segue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[De Le Vivant, Geraldine Doignon, 2011]

A estreante Geraldine Doignon entra aqui num terreno pantanoso, o dos filmes sobre reuniões de família em que os parentes lavam roupa suja. Em Vida que Segue, a morte da matriarca libera os ânimos dos personagens, que explodem em frustrações, ressentimentos e carências. Doignon conduz a trama com certa dignidade e faz questão de estabelecer um clima tenso, sem concessões. O desenho dos personagens às vezes parece excessivo. Todos são absolutamente tristes. Mas a diretora trata de dar substância a essa infelicidade e resolve o filme sem trair sua proposta. As galinhas são fundamentais para a catarse.

Compartilhe!

2 Comments

Filed under Mostras

Mostra SP 2011: post 5

Uma Rua Chamada Pecado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951]

Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[On the Waterfront, Elia Kazan, 1954]

Leave a Comment

Filed under Mostra SP, Mostras, Resenha

Uma Rua Chamada Pecado

Marlon Brando, Vivien Leigh, Kim HunterBlanche DeBois. Stanley Kowalski. O primeiro encontro dos personagens mais clássicos de Tennessee Williams já é um duelo. O texto de Um Bonde Chamado Desejo acirra esse conflito entre opostos. Não há meio termo. Blanche é a tradição. Stanley, o moderno. Blanche é a magia. Stanley, o realismo. A adaptação para as telas, sob o comando de Elia Kazan, põe mais um capítulo nessa história: Blanche é o teatro. Stanley, o cinema.

Voluntariamente ou não, Kazan contrapôs dois tipos de interpretação radicalmente diferentes e igualmente excelentes. Vivien Leigh tem a herança da Hollywood clássica, pesa a mão no dramático e abusa da afetação em sua composição. Enche a tela e os olhos. Marlon Brando traz o naturalismo do Actor’s Studio pro cinema, com seu improviso ensaiado e sua espontaneidade. Enche a tela e os olhos.

O espectador ora é seduzido pela brutalidade de Brando, ora pela vulgaridade de Leigh. Quase sempre por ambos. Kazan acerta em cheio em transformar esse duelo em osso e carne, criando um filme carregado de tensão sexual, traduzindo como nunca antes e poucas vezes depois a atração entre opostos.

Uma Rua Chamada Pecado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Sindicato de Ladrões

Marlon Brando, Karl Malden, Eva Marie Saint

Sindicato de Ladrões é uma experiência completamente diferente do que se fazia no cinema até então. O filme é a primeira grande celebração do naturalismo no cinemão norte-americano, com todos os atores interpretando “gente do povo” como “gente do povo”. Marlon Brando comete uma das maiores interpretações da História, a maior de sua carreira. Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger e Eva Marie Saint seguem de perto.

Mas o filme que vira uma denúncia sobre a ação criminosos dos sindicatos nos portos da América vai muito além do papel social. Kazan usa o filme como maneira de dar sua palavra sobre a delação, que move a trama central e pela qual ele foi crucificado por dedurar companheiros comunistas durante o macarthismo.

O poder simbólico da sequência que encerra o filme é brutal. Pode conquistar ou repelir o espectador. Mas até ela chegar, Kazan filma com tanta maestria, cria cenas tão imponentes, como o discurso do padre no cais, ou tão simples como o beijo que leva o casal ao chão, com tanta delicadeza que transforma este filme num dos maiores já feitos pelo cinema norte-americano.

Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[On the Waterfront, Elia Kazan, 1954]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Mostra SP 2011: post 4

Hanezu EstrelinhaEstrelinha
[Hanezu, Naomi Kawase, 2011]

A dramaturgia me faz falta em algumas produções de Naomi Kawase, sobretudo naquelas produzidas em digital, onde a diretora parece se desvencilhar mais ainda de uma narrativa convencional. Hanezu vem dessa linhagem de filmes, que se erguem a partir de uma câmera ultradocumental e, a partir disso, parece abrir um embate entre os limites da ficção e do documento dentro de seus longas.

Há uma porção de ideias interessantes, passando por um casamento falido, fantasmas do passado e até por um ser misterioso que mora numa caverna, mas a intenção de Kawase nunca é desenvolvê-los ou desvendá-los. Ela prefere dedicar sua atenção a filmar o cotidiano dos personagens em planos fechados, como se quisesse denunciar suas vidas como cárceres, ou a encontrar metáforas óbvias nos pássaros que às vezes acontecem mais do que as pessoas.

A Ilusão Cômica EstrelinhaEstrelinha
[L'Illusion Comique, Mathieu Amalric, 2011]

Um dos mais talentosos atores dos dias de hoje, Mathieu Amalric investe cada vez mais na carreira de cineasta. Depois do interessantíssimo Turnê, em que acompanha uma trupe de showwomen, ele pilota a adaptação para a TV de um texto de Pierre Corneille, feito séculos atrás, sobre um homem à caça do filho, que não vê há dez anos.

Amalric mantém o texto original, em verso, e o transporta para os dias atuais, um trabalho de adaptação delicado porque, como o texto está intacto, é todo o resto que precisa se adaptar. No entanto, mesmo com algumas crueldades pelo meio do caminho, o filme segue tão leve que parece não se aprofundar nas questões que levanta. E o final é tão bobo que quase coloca tudo a perder.

Fora de Satã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hors Satan, Bruno Dumont, 2011]

O título já indica que a religião não abandonou o cinema de Bruno Dumont. Pelo contrário. A espiritualidade dá o tom deste filme de tempos mortos, o mais próximo que o diretor conseguiu chegar de seu trabalho mais celebrado, A Humanidade. O protagonista é um homem que vaga por uma terra cheia de arbustos, dunas e pântanos e que exerce um estranho poder na região, condenando culpados e exercendo curas. Dumont abusa do naturalismo: seus atores praticamente não interpretam e, na maior parte do filme, eles apenas estão se deslocando de um lugar para outro. O método do cineasta provoca incômodo, mas os mistérios dessa história fantasmagórica, de tão indecifráveis, despertam encantamento.

Leave a Comment

Filed under Mostra SP, Mostras, Resenha

Mostra SP 2011: todos os filmes

A Milhas de Distância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Pierre Duculot
Las Acacias  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Pablo Giorgelli
Aqui EstrelinhaEstrelinha, Braden King
Attenberg Estrelinha, Athina Rachel Tsangari
Blowfish EstrelinhaEstrelinha, Chi Y. Lee
Bullhead EstrelinhaEstrelinha, Michael R. Raskam
As Canções EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Eduardo Coutinho
Caverna dos Sonhos Perdidos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Werner Herzog
O Céu sob os Ombros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sérgio Borges
Cisne EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Teresa Villaverde
A Cor da Romã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sergei Paradjanov
Cut EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Amir Naderi
The Day He Arrives EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Hong Sang-Soo
O Desaparecimento de Gato EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Carlos Sorín
Despair EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rainer Werner Fassbinder
Os Dias Verdes EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Hana Makhmalbaf
O Dominador  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Kim Min-suk
Elena EstrelinhaEstrelinha, Andrey Zvyagintsev
Era uma Vez na Anatólia  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Nuri Bilge Ceylam
Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Beto Brant e Renato Ciasca
Fausto  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Aleksandr Sokurov
Fora de Satã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Bruno Dumont
The Forgiveness of Blood EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Joshua Marston
Frango com Ameixas EstrelinhaEstrelinha½, Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
O Futuro EstrelinhaEstrelinha, Miranda July
O Garoto de Bicicleta  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Jean-Pierre e Luc Dardenne
Girimunho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina
Habemus Papam, Nanni Moretti
Hanezu EstrelinhaEstrelinha, Naomi Kawase
Histórias da Insônia EstrelinhaEstrelinha½, Jonas Mekas
A Ilusão Cômica EstrelinhaEstrelinha, Mathieu Amalric
Irmãs Jamais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Marco Bellocchio
Isto Não é um Filme, Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
Jogos de Verão EstrelinhaEstrelinha, Rolando Colla
Kaidan Horror Classics EstrelinhaEstrelinha, Ochiai Masayuki, Shinya Tsukamoto, Lee Sang-il, Hirokazu Kore-eda
Labrador EstrelinhaEstrelinha½, Frederikke Aspökke
Laranja Mecânica EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Stanley Kubrick
Low Life EstrelinhaEstrelinha½, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval
Montevidéu – O Sonho da Copa Estrelinha, Dragan Bjelogrlic,
As Ondas EstrelinhaEstrelinha, Alberto Morais
O Outro Lado do Sono Estrelinha, Rebecca Daly
Parada em Pleno Curso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Andreas Dresden
Pater EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Alain Cavalier
Respirar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Karl Markovics
Uma Rua Chamada Pecado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Elia Kazan
Sindicato de Ladrões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Elia Kazan
Sábado Inocente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Aleksandr Mindadze
Tatsumi EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Eric Khoo
Taxi Driver EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Martin Scorsese
A Terra Ultrajada EstrelinhaEstrelinha½, Michale Boganim
Toast EstrelinhaEstrelinha, S. J. Clarkson
Tudo pelo Poder EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, George Clooney
Vida que Segue EstrelinhaEstrelinha½, Geraldine Doignon
Una Vita Tranquilla EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Claudio Cuppellini
Vulcão EstrelinhaEstrelinha, Runar Runarsson
The Yellow Sea EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Hong-jin Na

Leave a Comment

Filed under Listas, Mostra SP, Mostras

Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios

Eu Receberia

Visceral é um adjetivo bem comum aos textos sobre livros e filmes escritos por Marçal Aquino. Visceral parece traduzir o estilo intenso, muitas vezes furioso e quase sempre sem amarras do homem. Mas, no caso de Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, filme adaptado do livro homônimo de Aquino, a palavra mais apropriada talvez seja outra: vivo.

Beto Brant e Renato Ciasca encontraram um ponto exato para contar a história de amor que nasce marginal num cenário à margem do mundo. Parecem partir do pressuposto de que aquela relação está imune a tudo o que a cerca, inclusive aos pecados cometidos pelos próprios diretores, como a montagem que abusa de fades outs ou à inserção de um contexto histórico que nunca se resolve muito bem.

Esses paradoxos só reforçam a impressão de que os cineastas os enxergam insignificantes. O amor que se estabelece e que é um amor sujo, simples, espontâneo segue em linha reta enquanto todo o resto passa na perpendicular e precisa desviar de caminho para não ser atropelado por um talento que não imaginava que cabia em Camila Pitanga, na melhor interpretação de sua vida e na melhor interpretação feminina do ano.

Camila é uma atriz de uma ousadia surpreendente. Além da coragem em protagonizar várias cenas de sexo onde não há pudores em expor as formas de uma das mulheres mais lindas do Brasil, ela se entrega apaixonadamente a uma personagem que passeia pelos mais variados humores e estados de sanidade e, quando não está perfeita, consegue emprestar dignidade a todos.

Se a culpa é de Marçal Aquino ou dos diretores ou mesmo de Camila Pitanga, eu não sei, mas Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios foi um dos sopapos mais bem-vindos deste ano. Um filme que trafega sem medo pela possibilidade do excesso, pelos pecados das experimentações, pela proximidade de perder o foco e que sai ileso e rico, a ponto de nos oferecer um belo sorriso antes de ir embora.

Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, Beto Brant e Renato Ciasca, 2011]

2 Comments

Filed under Resenha

Isto Não É um Filme

Jafar Panahi

Hoje, é possível dizer que a prisão de Jafar Panahi fez o cineasta tão conhecido quanto seus filmes. A mobilização global e as manifestações públicas em favor de seu nome transformaram seu caso num exemplo de cerceamento da liberdade de expressão. Por isso, Isto Não É um Filme, basicamente uma brincadeira entre amigos, ganha proporções gigantescas.

Durantes os menos de 80 minutos do filme, o documentarista Mojtaba Mirtahmasb registra momentos da vida cotidiana de Panahi em sua prisão domiciliar, além da narração do diretor de cenas que estariam em seu projeto seguinte.

É um registro tão precioso que o fato de ele ter uma realização tão improvisada desaparece. O curioso é que, ao retratar estes flagrantes, o filme adota métodos muito comuns ao cinema iraniano: a encenação de cenas, os atores não-profissionais e a única grande verdade do cinema do país, a de que a vida invade o cinema a qualquer momento.

Isto Não é um Filme EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[In Film Nist, Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi, 2011]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Tiranossauro

Olivia Colman, Peter Mullan

Em seus mais de dez anos de cinema, Paddy Considine sempre entregou belas e discretas interpretações, com destaque para o papel em Terra de Sonhos, de Jim Sheridan, injustamente esquecido nas premiações daquele ano. Como diretor, o intérprete competente se demonstra fiel a um drama tipicamente inglês – violento, seco e triste – muito caro a diretores como Mike Leigh ou Ken Loach, ainda que sem o cunho social.

Considine visita o universo dos personagens angustiados, que carregam consigo traumas e dores que não cabem neles. Como em outros diretores britânicos, ele parece contaminá-los pelo clima frio e confiná-los em uma vida solitária. O protagonista Joseph desconta no mundo sua história de frustrações. Abusa da violência verbal ou física para transferir a dor que sente para o outro. Peter Mullan, ator freqüente de Loach, numa de suas melhores performances, trata de dar contornos ao personagem.

A outra protagonista, Hannah, é o oposto complementar de Joseph. Também guarda uma história de abusos e sofrimentos, mas não a divide com ninguém. A interpretação é de Olivia Colman, que já passeou pela comédia – fazendo papéis inclusive em Chumbo Grosso, de Edgar Wright – mas que aqui entrega uma das personagens mais sensíveis desta década: uma mulher frágil que encontra na brutalidade de um estranho o conforto necessário para por fim a seu calvário.

Mesmo sem experiência na direção, Considine administra com muita propriedade os dramas dos personagens. Embora o final da trama tenha algo de conciliador, o diretor busca um caminho menos óbvio para amarrar as duas histórias. Quem sabe seja esse o começo promissor de uma nova carreira?

Tiranossauro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tyrannosaur, Paddy Considine, 2011]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Não Tenha Medo do Escuro

Bailee Madison, Katie Holmes, Guy Pearce

Acabei de colocar os pés em casa. Iria pegar um táxi, mas esqueci de sacar dinheiro. Foi uma tenebrosa jornada de volta do cinema. Não porque tive que pegar metrô e ônibus. Sempre faço isso sem problemas. Mas a noite estava particularmente assustadora. As ruas pareciam mais escuras, os caras que circulavam pela Frei Caneca e pela Augusta eram esquisitos e havia pessoas solitárias no metrô e no ponto de ônibus. Este, o ônibus, por sinal, não passava nunca.

Talvez eu estivesse bastante sugestionado porque Não Tenha Medo do Escuro não me deu trégua. Desde que as coisas começam a “acontecer” no filme, eu confesso: tomei muitos sustos. Passei mais de uma hora bem tenso na poltrona. Mas entendo que o terror é um gênero com apreciações muito subjetivas. O que funcionou maravilhosamente para mim pode não significar nada para você que lê este texto. Basicamente porque estamos falando sobre medo. E não há nada mais pessoal e instransferível do que isso.

Li e ouvi que muita gente não gostou do filme. A assinatura de Troy Nixey na direção não indicava o que esperar. Nem o nome de Guillermo del Toro, que assina o roteiro do remake de um telefilme que viu quando criança, parecia ter ajudado na recepção ao longa. Alguns criticaram a pobre da Katie Holmes, que está correta. Sua personagem não contribui, muito menos prejudica o filme. Mas Katie paga pelo fato de ser a esposa do Tom Cruise. E não deve se livrar disso tão cedo. Condenar qualquer filme que ela faça por isso é lamentável.

Não Tenha Medo do Escuro foi uma surpresa para mim. O filme se apropria do velho tema da casa que guarda segredos macabros e faz uma releitura de seres mitológicos. É um filme bem à moda antiga. Um filme B à moda antiga. Um filme bem à moda de del Toro. Nixey administra o clima com a segurança de um cineasta inexperiente, mas cheio de vontade. Comete alguns pecados no acabamento de algumas cenas, principalmente quando não há ação. Os atores parecem carecer de direção. No entanto, nos momentos de tensão, acerta a mão. A discreta e pertubadora trilha sonora conduz o suspense bastante bem.

O filme coloca sua heroína, Bailee Madison, uma especialista em fantasia vive a belezinha Ponte para Terabítia, em mais apuros do que eu possa enumerar. Sua curiosidade é maior do que seu medo, então, ela se aventura sozinha nos mais variados lugares, mesmo depois de ser apresentada a seus adversários. Esta cena, por sinal, é a mais importante do filme: decreta quem vai comprar bou não a história que seduziu Guillermo del Toro quando criança. Eu adorei.

Mas, de uma coisa os contrários ao filme não podem acusar o filme: ele não tem pudores em mostrar – e bem – os vilões. Esse talvez seja um problema para quem acredita que insinuar seja melhor, mais elegante, mais refinado do que mostrar quando se trata de personagens sobrenaturais. Ao explicitar os “inimigos”, o filme talvez tenha frustrado quem prefere deixá-los na imaginação. Dá para entender. Mas – quer saber? – então que os outros me entendam também. Porque o medo que eu senti quando encarei o “segredo” do filme foi bastante genuíno. E fazia tempo que voltar pra casa sozinho não era tão difícil.

P.S.: não estou só nessa! O Tiago Superoito e o Ailton Monteiro também gostaram bastante do filme.

Não Tenha Medo do Escuro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Don't Be Afraid of the Dark, Troy Nixey, 2011]

9 Comments

Filed under Resenha