Monthly Archives: agosto 2011

Planeta dos Macacos: A Origem

Andy Serkis, James Franco

A evolução de Caesar, o protagonista de Planeta dos Macacos: A Origem, em seu quarto, dentro da casa, na primeira meia hora do filme incomoda um pouco. Os efeitos especiais são visíveis demais e deixam as cenas, bem idealizadas, excessivamente virtuais. A má impressão some nos momentos emocionais do personagem. A performance digital de Andy Serkis, um especialista no assunto, é delicadíssima. Cada detalhe ganha contornos e estofos diferenciados e a tradução dessa interpretação para o chimpanzé criado pelo computador é exata.

Serkis, por sinal, é o astro-maior do filme. Ele é a principal arma do diretor desconhecido, Rupert Wyatt, para imprimir ao material um caráter épico. O cineasta conduz o filme num crescendo sem fim, com algumas cenas realmente memoráveis. A primeira delas, a perseguição ao vizinho, rouba o fôlego do espectador. As demais vêm como capítulos da ascensão dos macacos: às vezes, elas são simples, como o “diálogo” entre Caesar e Maurice ou emblemáticas, como a palavra que calou o cinema. Às vezes, são apenas imagens poderosas, como a cavalgada de protagonista ou a descoberta das armas.

Wyatt costura tudo isso ao universo criado pela série original, com uma citação à Icarus, a nave do filme original, “pontas” do Charlton Heston e homenagens a vários atores dos primeiros longas nos nomes dos personagens. O próprio filme é um remake de A Conquista do Planeta dos Macacos. Um remake, não. Uma reimaginação, como se convencionou chamar já que apenas a proposta é a mesma, a história segue rumos diferentes.

O diretor trabalha com arquétipos em seu exército: há o líder, o conselheiro, o mártir. Há as intrigas shakespereanas, que parecem inspirar de certa forma a própria história do filme, seja na relação pai-e-filho, seja nos bastidores do “palácio”. Tudo usado sem barulho, com discrição e respeitando o caráter de filme B que o longa carrega consigo. E Caesar, líder, rei, outsider, junta tudo isso. Ave, Caesar!

Planeta dos Macacos: A Origem EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Rise of the Planet of the Apes, Rupert Wyatt, 2011]

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A Árvore da Vida

Brad Pitt, Jessica Chastain

Um dos maiores desafios desta vida é escrever sobre um filme de Terrence Malick. Os riscos são imensos: 1) pode-se cair na bobagem de querer explicar o trabalho do diretor, o que soa arrogante e deve ser mentiroso mesmo porque ele usa tantos simbolismos que as interpretações podem ser genuinamente múltiplas; 2) pode-se ainda encher linguiça e escrever um texto sobre nada, usando frases feitas, expressões genéricas e cair no ridículo; 3) pode-se soar elitista ou reacionário ao dizer que o filme é feito para poucos e sugerir que as pessoas que não o “entenderem” podem ficar tranqüilas, elas não estarão sozinhas.

Então, vou tentar seguir um caminho do meio para tentar explicar o porquê de eu ter gostado tanto de um filme de que eu me considero incapaz de se absorver por completo, principalmente tendo-o visto uma só vez. Porque A Árvore da Vida é, mais do que qualquer outro filme de Malick, sobre o impalpável. Se nos trabalhos mais recentes do diretor, sempre havia um contexto histórico que situava o espectador, como a guerra ou a tomada da América, agora o cenário não ajuda a traduzir a trama.

Tudo é mais subjetivo do que nunca. A certa altura de seu mergulho na história íntima de seu protagonista, o diretor parece perguntar: do que é feito um ser humano? Onde começa uma pessoa? O que nos transforma em quem nós somos? Malick não se impõe limites para examinar estas questões, mas sabe que não existem respostas exatas para cada uma delas. Ele vai onde poucos ousariam e de onde muitos menos ainda conseguiriam voltar com dignidade. As discussões que ele levanta levam o espectador ao princípio da construção do próprio homem e da Humanidade, assim mesmo, com H maiúsculo.

É preciso estar bastante disposto para usufruir de seu projeto porque o caminho escolhido para isso é repleto de simbolismo e de filosofia. A referência inicial para as questões levantadas foi a religião, mas Malick parece tocar em conceitos ainda maiores do que Deus, como “pai”, “mãe”, “irmão”, nos sentidos mais simbólicos e abrangentes dos termos. A fé surge depois disso.

O incômodo que consome o personagem parece buscar o que está nesses imensos hiatos entre cada uma destas definições. Por isso mesmo, essa jornada do protagonista pode parecer etérea, vazia, simbólica demais para muita gente. A medida da probabilidade do público se decepcionar com A Árvore da Vida é diretamente proporcional ao número de pessoas que vai ao cinema para ver a um filme de Brad Pitt ou Sean Penn.

Pitt, por sinal, está muito bem como o pai bruto e emocional, mas a maior atriz do filme é Jessica Chastain, cuja presença fantasmagórica ganha contornos líricos.

O intangível tem seu ápice na seqüência em que o diretor decreta a abolição da narrativa convencional e segue por uma sucessão de imagens cuja única referência possível é Kubrick em 2001. A seqüência final desperta muitas interpretações, mas a intenção não me parece ser se posicionar, muito menos tecer um tratado ou revelar uma visão. No fim de seu filme, Malick talvez tente encontrar um desfecho para o desenho que ele propõe. O desenho de como se forma um ser humano.

A Árvore da Vida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Tree of Life, Terrence Malick, 2011]

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Super 8

Elle Fanning, Kyle Chandler, AJ Michalka

Super 8 é um filme perdido no tempo. É retrô porque quer e porque somente poderia ser assim. Se fosse situado nos dias de hoje, essa aventura infanto-juvenil pediria tantos gadgets tecnológicos que a história ficaria em segundo plano. J.J. Abrams acertou. “Refez” um filme clássico de Steven Spielberg. Super 8 é E.T. elevado à enésima potência. Os Goonies elevado à enésima potência.Contatos Imediatos elevado à enésima potência.

Não é por acaso que Spielberg assina a produção do longa. Ele certamente entregaria um filme muito parecido com este caso estivesse atrás das câmeras. Em Super 8, J.J. Abrams segue duas regras básicas na cinematografia de seu produtor: respeitar a fantasia e a imaginação e tratar as crianças como crianças, sendo fiel a sua idade, mas sem duvidar de sua capacidade.

A essa fórmula mágica, o diretor adiciona sua paixão por cinema em forma de metalinguagem: transforma a turma que protagoniza o filme em pequenos cineastas e coloca frases incríveis nas bocas deles. O diretor-mirim pede diálogos de amor mais densos para o “astro” da produção e a personagem de Elle Fanning é uma “natural”. Sua cena de estreia é um assombro: me fez lembrar de Naomi Watts na audição para o papel em Cidade dos Sonhos. [Por sinal, o curta que eles rodam passa na íntegra durante os créditos do filme. E é sensacional].

Mesmo reciclando Spielberg, J.J. Abrams não abre mão de seu próprio arsenal de truques. A cena do acidente com o trem, que deixou a plateia com as bocas abertas durante os minutos que parecem intermináveis, parece uma versão ferroviária da queda do avião de Lost. Além da plástica perfeita, o desenho de som dessa seqüência é exemplar e reafirma o diretor como herdeiro direto de Spielberg na criação de cenas tensas. Michael Bay deve estar se contorcendo de inveja em algum lugar.

Sem fazer muito esforço, o cineasta administra bem sua fantasia, elabora seus personagens com cenas bonitas como a da maquiagem e ainda perde tempo com detalhes que só fazem sofisticar o resultado. O desfile de referências é discreto. J.J. não faz muito alarde: embute seu repertório pop no meio das cenas. De George A. Romero ao Monstro da Lagoa Negra. De Lost a O Hospedeiro.

No entanto, apesar de acertar tanto, Abrams parecia não ter encontrado um laço forte o suficiente para fechar o pacote de sua experiência spielberguiana. E quando eu achava que ele havia falhado justamente onde Spielberg é mais talentoso, na construção dos momentos emocionais, na universalização do drama, J.J. me vem com aquela cena do cordão, que amarra a seqüência de reencontros, resolve uma lacuna do protagonista e abre caminho para o encerramento da história. Ali, a emoção cresce a um proporção gigante. Do tamanho de uma nave espacial. Do jeito que Spielberg gostaria. Super 8 parou no tempo… no tempo certo.

Super 8 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Super 8, J.J. Abrams, 2011]

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Jornada de Cinema Silencioso 2011

Georges Méliès
 

Eleuterio Rodolfi
 

Piel Jutzi

Um dos meus festivais de cinema favoritos chega hoje a sua quinta edição. Durante uma semana, a Jornada Brasileira de Cinema Silencioso vai exibir 57 filmes mudos, 22 deles com acompanhamento sonoro (desde trilha no piano até sonoplastia ao vivo). O longa Os Últimos Dias de Pompéia, de 1912, será apresentado no sábado, na fachada do Auditório do Parque do Ibirapuera, com acompanhamento musical da Banda Jazz Sinfônica de Diadema.

Os demais filmes serão exibidos na Cinemateca Brasileira, com destaque para a filmografia muda da Itália, um dos países que mais produziram nos primeiros anos do cinema. Na programação, a trilogia de Maciste, de 1920, Saturnino Farandola, baseado em Julio Verne, Tigre Real, de Giovanne Pastrone, e Ver Nápoles e Depois Morrer.

Os franceses O Braseiro Ardente, de Ivan Mosjoukine, e Guardas do Farol, de Jean Grémillion, e os alemães Da Manhã à Meia-Noite, de Karl Heinz Martin, e A Viagem da Mãe Krause Até a Felicidade, de Piel Jutzi, também são destaques.

A jornada também fará uma homenagem aos 150 anos do pioneiro George Méliès, com a exibição de sete curtas, entre eles A Conquista do Polo e Joana d’Arco, e ao produtor Gilberto Rossi. Também será exibido Garras de Ouro, produzido na Colômbia em 1926. O filme narra a disputa entre o país e os EUA pelo Canal do Panamá e é considerado o primeiro filme “antiimperalista” da América Latina.

A programação completa está aqui.

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Melancolia

Kirsten Dunst, Charlotte Rampling, John Hurt

Lars Von Trier é um cineasta acomodado. Parece dependente da polêmica. Se seu filme não tem um material que desperte amor ou ódio extremos, ele dá um jeito de arrumar confusão, defendendo Hitler e sendo expulso do maior festival de cinema do planeta. O prêmio de melhor atriz em Cannes para Kirsten Dunst pareceu fruto direto desse episódio para muita gente. Para não parecerem revanchistas, os jurados teriam premiado a interpretação da moça. Se isso for mesmo verdade, é uma pena porque Kirsten, sim, é um dos maiores trunfos de Melancolia.

Minha primeira definição sobre o filme foi: é um Festa de Família with lasers + “aham, Kirsten, sofre lá”. E a atriz sofre bastante, mas sua performance não se resume à escuridão de uma Charlotte Gainsbourg em Anticristo. Kirsten acerta no tom da personagem: confusa, mas firme em suas dúvidas. A complexidade de sua performance contrasta com a mulher confusa que ela interpreta. Kirsten põe ordem no caos sem perder a fragilidade.

E amargura tem de sobra nos filmes de Lars Von Trier. Aqui, o dinamarquês parece perguntar: “o que é um planeta em rota de choque com a Terra quando a vida já parece estar às vésperas do fim do mundo há muito tempo?”. A primeira metade do filme compõe esse cenário. Estamos num casamento onde os noivos parecem felizes e apaixonados. O cineasta, aos poucos, desaba nossas certezas. Os sentimentos da protagonista não parecem tão bem definidos assim e a culpa pode estar na caótica representação que temos de sua família: uma mãe excessivamente amarga, um pai desprovido de moral, uma irmã que quer manter as formalidades, mas está por um fio.

A personagem de Kirsten surge neste meio e, aos poucos, revela sua consição distópica. Parece não se encaixar em nenhuma situação. Von Trier filma bem essa inquietude no primeiro ato do filme, mas depois abre o foco e relativiza o peso dos personagens. Melancolia sofre bastante com isso. Restam Kirsten e os bons coadjuvantes. Charlotte Rampling e John Hurt, em papéis pequenos, entregam interpretações complexas, nada óbvias. Kiefer Sutherland também é uma boa supresa.

Charlotte Gainsbourg é quem protagoniza o segundo e último ato do filme. E seu personagem, menos interessante do que qualquer outro em cena, dá o tom final a Melancolia. A aproximação do planeta, antes uma metáfora para a crise da protagonista, agora parece querer abraçar significados demais. À medida que o descontrole aumenta, Von Trier parece mais perdido: a costura entre a trama principal e o pano de fundo fica fragilizada. Mesmo com tantos senões, este novo filme parece a coisa mais interessante que Lars Von Trier fez em muito, muito tempo.

Melancolia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Melancholia, Lars Von Trier, 2011]

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Top 10: Anima Mundi 2011

O Anima Mundi 2011 deixou a desejar. Além da redução da estrutura em sua versão paulista, a média dos filmes ficou bem aquém do esperado. Mesmo assim, consegui fazer uma listinha dos melhores curtas que eu vi no evento. Esse foram meus dez filmes favoritos do Anima Mundi 2011:

Osmar Cerfon

10 Chronique de la Poisse
(França), Osmar Cerfon

Axelle Cheriet, Hadrien Ledieu, Nawel Rhal, Axel Tillement

9 Maximall
(França), Axelle Cheriet, Hadrien Ledieu, Nawel Rhal e Axel Tillement

Amir Admoni

8 Timing
(Brasil), Amir Admoni

Paul Alexandre, Dara Cazmea, Maxime Cazaux, Romain Delaunay, Laurent Monneron

7 Hambuster
(França), Paul Alexandre, Dara Cazamea, Maxime Cazaux, Romain Delaunay e Laurent Monneron

Jadwiga Kowalksa

6 La Fille et le Chasseur
(Suíça), Jadwiga Kowalska

Peter Budinsky

5 Twins
(Eslováquia), Peter Budinsky

Los Tres Dedos

4 Los Tres Dedos
(França), Benoît Audé

Ercan Bozodan, Aabenhuus Sorensen

3 Capitain Awesome: The Rumble in the Concrete Jungle
(Dinamarca), Ercan Bozodgan e Aabenhuus Soresen

Pedro Rivero, Albert Vazquez

2 Birdboy
(Espanha), Pedro Rivero e Alberto Vazquez

Romain Carlier, Sebastien Sruilhe, Thomas Eid, Vincent

1 Vie d’Enfer
(França), Romain Carlier, Sébastien Druilhe, Thomas Eid e Vincent Husset

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A Serbian Film – Terror Sem Limites

Confesso que não havia lido nada sobre A Serbian Film até a polêmica sobre a proibição de sua exibição num festival de cinema no Rio de Janeiro. Minto. Já havia visto um post dedicado a ele num site para downloads e, em seguida, descobri que ele estava programado para estrear em circuito. Fiquei interessado por se tratar de um filme de terror europeu. Mas não li uma linha sobre sua sinopse e ele foi parar lá no fundo da memória.

O advento da censura me fez querer saber sobre o que se tratava o filme. Descobri qual era a polêmica e resolvi assisti-lo já que sua exibição no Brasil me parecia duvidosa. E, para minha surpresa, a versão que vi do longa de Srdjan Spasojevic, que talvez apresente cortes, me pareceu menos repugnante do que seus censores gostariam. Não havia um espetáculo de sangue e poucas coisas além de uns sopapos numa atriz eram “explícitos”.

As cenas que mais geraram discussão, uma de incesto e uma de violência sexual contra um bebê, eram gratuitas, mas em sua intenção e não em seu conteúdo visual. Elas insinuam os eventos, fazem nossos estômagos se retorcerem pelo que imaginamos e não pelo que mostram. Na verdade, o tão polêmico filme sérvio é bem comportado, medroso, muito mais soft visualmente do que O Albergue ou Jogos Mortais.

Não que isso signifique que A Serbian Film seja um bom filme. Está bem longe disso. Se não fosse pelo episódio da censura, provavelmente eu nem perderia tempo escrevendo sobre ele, um daqueles longas de tortura que estavam na moda até uns dois anos atrás que têm uma única intenção: faturar em cima do choque. Mas, ao contrário dos outros, mostra muito pouco, quase nada. Reforço: pelo menos na versão que eu vi, que pode apresentar cortes. E é aí que surge o que talvez dê para chamar de seu único mérito: ele desperta um desconforto que existe dentro do espectador. Ele não vê nada, mas imagina a “aberração”.

É curioso como um filme ruim, banal, vulgar, funciona como catalisador de julgamentos. A decisão de proibir um filme que “peca” pela intenção é bizarra. Os cariocas – e os brasileiros – deveriam ser capazes de decidir o que querem ver ou não. Todos os filmes que “mostram” tabus devem ser proibidos? Suicídios, assassinatos e estupros nunca devem aparecer em filmes porque são comportamentos “errados”? Não defendo A Serbian Film. Por sinal, se me perguntassem, meu conselho seria: não merece ser visto. Mas eu defendo o direito de cada cidadão decidir se quer vê-lo ou não. O único vitorioso num episódio como esse acontecido no Rio é o autoritarismo que o Brasil queria ter deixado para trás.

A Serbian Film – Terror sem Limites Estrelinha
[Srpski Film, Srdjan Spasojevic, 2010]

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