Monthly Archives: julho 2011

Capitão América: O Primeiro Vingador

Chris Evans, Hugo Weaving

Capitão América, Superman, Asa Noturna, Ciclope. O que esses quatro heróis têm em comum? Todos, em maior ou menor grau, carregam nas costas o peso do mundo. São líderes, ícones, exemplos a se seguir. Responsáveis pelos que os seguem e por todo o resto. Seu heroismo, na maior parte das vezes, é reduzido a bom mocismo. Sua integridade, na maior parte das vezes, é confundida com falta de profundidade, excesso de linearidade, chatice mesmo. É difícil defender quem assume a frente de batalha quando quem se esconde nas trincheiras parece mais sombrio.

Mais difícil ainda é defender um herói que leva no peito a bandeira de um país. E o negócio piora ainda quando esse país são os Estados Unidos. O país que é standard. Aquele de que é muito mais legal só apontar o lado ruim. Pois bem, o Capitão América é exatamente isso: um dos símbolos mais poderosos dos Estados Unidos. Um ícone, um líder, um exemplo a seguir. Como fazer um filme deste personagem e ignorar sua condição de arma de propaganda?

A resposta vem numa das melhores seqüências de Capitão América – O Primeiro Vingador: tirando onda. No filme, o diretor Joe Johnston gasta um bom tempo mostrando como, antes de ser um soldado a serviço da pátria, o herói foi instrumento de manipulação popular. Sem julgamentos, mas sem ignorar o tema. Este é um dos trunfos do longa, que, de uma maneira geral, atende ao que se espera de um filme sobre o Capitão América: todo certinho, nada mais, nada menos.

A Marvel esperou o quanto pode para levar Steve Rogers ao cinema talvez porque este seria um de seus filmes mais delicados, por mexer com elementos além da aventura tradicional. Novamente, Johnston gasta um tempo razoável para mostrar que Steve Rogers já era como é muito antes de se tornar um supersoldado. E se assumiu um risco ao fazer o filme situado durante a Segunda Guerra Mundial. Funcionou, mas faltou habilidade para materializar justamente o que separa heroísmo de bom mocismo. Faltou dar peso ao personagem. O visual high-tech retrô funciona bastante bem. Os efeitos especiais que fazem de Chris Evans um nerd mirrado são os mais originais em muito tempo. Mas o filme é leve como uma pluma.

Capitão América: O Primeiro Vingador EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Captain America: The First Avenger, Joe Johnston, 2011]

Compartilhe!

5 Comments

Filed under Resenha

Os Pássaros

Os Pássaros

Os Pássaros é o filme mais sensorial de Alfred Hitchcock. As cenas sem diálogos usam o som – afetado, assustador – como mola propulsora e o resultado é bárbaro. Por sinal, todas essas cenas, longas e memoráveis, parecem dirigidas por um sádico porque Hitchcock faz com elas levem o espectador ao limite do pânico. Que o diga Tippi Hedren, que fez sua estreia no cinema neste filme e passou por uma experiência traumatizante ao ser submetida a todo tipo de tortura física e psicológica. Mas o cineasta não parecia se importar com o excesso. Tudo está um tom acima e a ideia parece ser essa mesmo: perder a medida. Os efeitos visuais, que hoje podem parecer simples demais, provam isso. A tecnologia necessária para criar imagens perfeitas ainda não existia, mas isso não segurou Hitch e ele partiu, mais uma vez, para a invenção, criou cenas assustadoras e um filme pertubador.

Os Pássaros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Birds, Alfred Hitchcock, 1963]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Mostra Hitchcock – parte quatro

Janet Leigh

Psicose EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Psycho, 1960, Alfred Hitchcock]

Adianta, 51 anos depois, dizer que este é filme revolucionário? Hitchcock apresenta uma protagonista e a mata depois de meia hora. Janet Leigh tem um tempo reduzidíssimo, mas consegue dar complexidade ao papel, enquanto Hitchcock usa esse primeiro ato para seus exercícios de cinema. O jogo entre Marion Crane e o policial é o maior exemplo. Tenso e sem um take fora do lugar. Embora o impacto da figura da mãe tenha envelhecido, a cena do chuveiro ainda é uma coisa linda. Assim como, o segundo assassinato, na escada. A aparição de Norman Bates para o personagem de Vera Miles é assustadora, sobretudo pelo usa da música de Bernard Herrmann, quase um codiretor. Sua trilha quase se impõe sobre as cenas, dá sua exata medida, tom, intensidade. E Anthony Perkins, frágil, afetado, desmoronando, é um rei. A explicação final, que sempre me pareceu excessiva, desta vez não só me convenceu, como me pareceu necessária de tão bem encenada.

Tippi Hedren

Os Pássaros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Birds, 1963, Alfred Hitchcock]

Os Pássaros é o filme mais sensorial de Hitchcock. As cenas sem diálogos usam o som – afetado, assustador – como mola propulsora e o resultado é bárbaro. Por sinal, todas essas cenas, longas e memoráveis, parecem dirigidas por um sádico porque Hitchcock faz com elas levem o espectador ao limite do pânico. O diretor não parece se importar com o excesso. Tudo está um tom acima e a ideia parece ser essa mesmo: perder a medida. Os efeitos visuais, que hoje podem parecer simples demais, provam isso. A tecnologia necessária para criar imagens perfeitas não existia, mas isso não segurou Hitch e ele partiu, mais uma vez, para a invenção. E criou cenas assustadoras.

Alfred Hitchcock

Topázio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Topaz, 1969, Alfred Hitchcock]

Quase não lembrava de Topázio, que é uma ótima aventura na Guerra Fria, com Hitch escondendo quem é seu protagonista por mais de meia hora, deslocando seu cenário como raramente fez e e evitando rostos conhecidos. Este filme é sempre considerado menor na filmografia do diretor – e não deixa de ser – mas revela um interesse de Hitchcock pelo que acontecia no mundo. A cena no hotel dos cubanos revela uma visão preconceituosa do cineasta, mas é filmada com maestria. E o filme inteiro parece um filme B. Delicioso, isso. Gosto muito de toda a seqüência em Cuba, longa, que quebra o filme no meio, totalmente inesperada. Topázio ganha muito com esse pequeno caos.

4 Comments

Filed under Mostras, Resenha

Mostra Hitchcock – parte três

Grace Kelly, Anthony Dawson

Disque M para Matar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dial M for Murder, 1954, Alfred Hitchcock]

Em Disque M para Matar, Hitchcock repete a experiência de Festim Diabólico, de fazer um filme dentro de um só ambiente. Existem pouquíssimas cenas fora do apartamento onde tentam matar Grace Kelly. Mas, sem a proposta de um filme sem cortes aparentes, Hitch assume outro desafio. Transformar um texto feito para o palco num filme dinâmico. A montagem, junto com a trilha de Dimitri Tiomkin, é exata: deixam o espectador sem fôlego mesmo quando a cena é apenas uma conversa entre Ray Milland e o criminoso. Milland, por sinal, está brilhante. Seu sarcasmo é delicioso, uma de suas maiores interpretações. O inspetor chefe de John Williams, a garantia cômica desse filme refinado, também merece aplauso.

Grace Kelly, Cary Grant

Ladrão de Casaca EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[To Catch a Thief, 1955, , Alfred Hitchcock]

Toda vez que eu revejo Ladrão de Casaca, eu me pergunto se algum filme um dia conseguirá ser tão delicioso quanto esse. Porque taí um filme que me deixa em estado de graça do começo ao fim. E olha que ele está longe dos meus Hitchcocks favoritos justamente por não ter a complexidade de tantos outros. Mas Cary Grant, Grace Kelly, o texto despudorado e a leveza com que Hitch comanda tudo me fazem bater palmas lá no fundo em agradecimento ao prazer que o filme me proporciona. Destaque para a cena de perseguição no mercado de flores: uma aula de direção.

Alfred Hitchcock

O Terceiro Tiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Trouble with Harry, 1955, , Alfred Hitchcock]

Minha memória havia me traído em relação a O Terceiro Tiro. Em vez de um filme de papo e nada ágil, redescobri uma pérola perdida na filmografia de Hitchcock. Talvez seu filme mais inglês, mesmo sendo uma produção totalmente norte-americana. Sua falta de pressa é apenas uma desculpa para o diretor tecer uma crônica sobre os moradores de cidadezinhas e sua moral distorcida. Tudo na forma de uma comédia de humor nigérrimo, releta de gags visuais e com um texto afiadíssimo. Embora Shirley MacLaine e John Forsythe não tenham tanto talento assim, o elenco de apoio é impecável: Edmund Gwenn, Mildred Natwick e Mildred Dunnock. Fotografia e trilha belíssimas.

3 Comments

Filed under Mostras, Resenha

Mostra Hitchcock – parte dois

Judith Anderson, Joan Fontaine

Rebecca, a Mulher Inesquecível EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Rebecca, Alfred Hitchcock, 1940]

Rebecca é um filme visivelmente conflituoso. A chegada de Hitchcock em Hollywood mostra que o diretor teve que adaptar sua marca a do produtor David O. Selznick. Ao filme, falta aquela pitada popular que consagrou Hitchcock. Ela parece disfarçada de novela de época, que deveria ser o que Selznick considerava como arte. Deu certo. O filme ganhou o Oscar, mas parece rebuscado demais, literário demais, o que, de certa maneira, o deixa numa posição interessante na filmografia de Hitch. Joan Fontaine peca pelo excesso, embora tenha cenas memoráveis, mas a performance de ouro neste filme é a de Judith Anderson, impecável, como a mais pura tradução do mal encarnado.

Teresa Wright, Joseph Cotten, Edna May Wonacott, Henry Travers

A Sombra de uma Dúvida EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Shadow of a Doubt, Alfred Hitchcock, 1943]

Alfred Hitchcock dirigiu poucos filmes tão perfeitos quanto A Sombra de uma Dúvida. A transição entre o peso da trama dramática e as dezenas de contrapontos cômicos é tão sutil quanto adequada. Hitchcock gasta um tempo importante desenvolvendo cada um dos personagens da família Newton, dedicando carinho especial para a pequena Ann de Edna May Wonacott, dona da interpretação adorável de uma nerd em gestação. Joseph Cotten e Teresa Wright estão em seus momentos mais inspirados. Cotten acerta em cada expressão. Passa do perverso para o adorável em segundos. Hitchcock constrói seu suspense de uma maneira quase maquiavélica. Desde o começo sabemos que se trata de um homem mau próximo a uma família boa. Não há o que descobrir, o que revelar. A tensão surge dessa convivência. E é o clima é claustrofóbico o tempo inteiro.

Ingrid Bergman, Cary Grant, Alfred Hitchcock

Interlúdio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Notorious, Alfred Hitchcock, 1946]

Uma das melhores cenas de mistério dirigidas por Hitchcock está neste filme maravilhoso. O diretor precisa de uma chave e do rosto atormentado de Ingrid Bergman para criar suspense em seu estado puro. A seqüência é eletrizante e, ao mesmo tempo, parece minúscula demais. Prova de que o diretor pode emprestar potencial cinematográfico a qualquer coisa. E Interlúdio é um de seus filmes mais lindos. Porque, no fundo, é uma história de amor grandiosa. Outra seqüência que impressiona é a do beijo interminável entre Ingrid Bergman e Cary Grant, que não se separam nem para atender o telefone. Apesar disso, o beijo tem várias interrupções por causa do limite de três segundos por beijo imposto pelo Código Hays, a censura da época. Ingrid está luminosa, uma de suas melhores interpretações, prova de que elas estava anos-luz da maioria das atrizes de sua época. Há um contraponto que Hitchcock aproveita muito bem: enquanto Ingrid é uma ‘rebelde’ recuperada, Grant, mesmo apaixonado, se finge de indiferente o filme inteiro. Isso isola a personagem de Ingrid e aumenta o suspense. O final de Interlúdio é uma porrada.

4 Comments

Filed under Mostras, Resenha

A Falta que nos Move

A proposta de A Falta que nos Move é bem suspeita: cinco atores são convidados a fazer um filme numa casa onde ficarão isolados e receberam orientações de roteiro por mensagens de celular. Em sua primeira meia hora, o resultado fica acima do esperado justamente porque a espontaneidade faz surgir uma ironia simples, com piadas de-reunião-de-amigos levando a plateia às gargalhadas. Caso se mantivesse assim, sem grandes pretensões, o filme seria um encontro simpático, ainda que algo vazio. Mas a diretora Christine Jatahy decidiu dar mais peso ao material, supostamente querendo dar estofo ao isolamento numa espécie de momento big-brother-de-embate-entre-machos. Aí o negócio pesa e a espontaneidade dá lugar a um tom agressivo, que, real como quer o projeto ou não, soa pedante.

A Falta que nos Move EstrelinhaEstrelinha
[A Falta que nos Move, Christiane Jutahy, 2009]

1 Comment

Filed under Resenha

Top 20: primeiro semestre 2011

Cisne Negro talvez entrasse nos próximos 20. O Discurso do Rei – quem sabe? – numa lista de 50. Inverno da Alma, Trabalho Interno, Rango e Bróder foram considerados para este seleto grupo, mas nenhum filme conseguiu bater esses aqui na minha lista pessoal de melhores longas exibidos em circuito no primeiro semestre de 2011.

Divirtam-se. Ou me odeiem.

Chang-dong Lee

20 Poesia
Shi, Chang-dong Lee, 2010

Richard J. Lewis, Paul Giamatti, Rosamund Pike, Barney's Version

19 A Minha Versão do Amor
Barney’s Version, Richard J. Lewis, 2010

Clint Eastwood, Cécile de France

18 Além da Vida
Hereafter, Clint Eastwood, 2010

Matt Damon, George Nolfi, Emily Blunt, The Adjustment Bureau

17 Os Agentes do Destino
The Adjustment Bureau, George Nolfi, 2010

Unknown

16 Desconhecido
Unknown, Jaume Collet-Serra, 2011

Sylvain Chomet

15 O Mágico
L’Illusioniste, Sylvain Chomet, 2010

Woody Allen, Owen Wilson, Marion Cotillard

14 Meia-Noite em Paris
Midnight in Paris, Woody Allen, 2011

Manoel de Oliveira

13 Singularidades de uma Rapariga Loura
Singularidades de uma Rapariga Loura, Manoel de Oliveira, 2009

Mathieu Amalric

12 Turnê
Tournée, Mathieu Amalric, 2010

Michael Fassbender

11 X-Men – Primeira Classe
X-Men: First Class, 2011, Matthew Vaughn

Continue reading

11 Comments

Filed under Listas