Monthly Archives: abril 2011

Thor

Chris Hemsworth, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston

A verdade é que Thor é o filme mais arriscado dentro dessa aventura dos heróis da Marvel nos cinemas. A possibilidade do longa derrapar nas bilheterias poderia colocar em cheque a construção do universo que a editora vem trabalhando há anos para materializar. O filme do deus do trovão é o que mais trabalha com elementos mágicos, místicos, pouco palpáveis num no meio de uma série de personagens que sempre pareceram muito próximos do espectador.

Para trabalhar esses aspectos pouco realistas (deuses, imortalidade, coisa e tal), a Marvel tomou uma decisão acertada: foi ao teatro. Ao contratar Kenneth Branagh para comandar o filme, o estúdio deu à toda mitologia que existe em torno do herói um tratamento de palco. Thor continuou à parte de “gente” como o Homem de Ferro, Hulk ou até mesmo os X-Men, mas agora está menos inacessível. É como se Asgard estivesse num palco. Num plano diferente, mas mais próximo.

É meio impossível fugir do óbvio. Branagh destaca nos mitos nórdicos que a Marvel transpôs para os quadrinhos os elementos teatrais da trama. As intrigas familiares, os jogos de poder e as traições ganham um tratamento shakespereano que ajuda a tornar o tom do filme menos opulento. Desta maneira, a conversa entre filme de herói e material mitológico fica mais fácil. A direção de arte, que assustava desde o trailer, se revelou extremamente bem resolvida. Tem aqueles dourados foscos de shoppings dos anos 80 misturados na medida certa com elementos tecnológicos, como na ponte de Asgard, que mantêm a imponência sem perder o kitsch de uma monarquia de outrora.

Outra surpresa foi como Kenneth Branagh se revela um diretor de ação bastante eficiente. Ele consegue coordenar bem essa transição entre a palatabilidade necessária a um longa baseado num personagem de HQ à substância fundamental a um filme com essa ambientação. As cenas de ação são divertidas e acertam no tom do drama. Branagh, que há anos não dirigia nada memorável, deu uma renovada em sua carreira. E sua experiência de ator ajudou a retirar performances interessantes do elenco. Anthony Hopkins, como Odin, tem seu melhor papel em anos: consegue o espaço ideal para fazer funcionar seus cacoetes. E Chris Hemsworth, que à primeira vista parecia acéfalo, consegue reproduzir bem os princípios e a “doçura” de um viking.

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[Thor, Kenneth Branagh, 2011]

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Homens e Deuses

A princípio, Homens e Deuses segue as normas do que se espera de um filme político francês, com muita observação do cotidiano dos personagens. Os monges missionários estão instalados numa Argélia dos anos 90, época em que o país está rachado por uma guerra civil. O diretor Xavier Beauvois gasta muito tempo na construção da relação de duas mãos entre os monges e o local em que eles executam sua “missão”.

O ritmo de contemplação pode incomodar, mas é fundamental para estabelecer os conflitos internos dos personagens – que servem de contraponto para os conflitos do próprio local. São esses dilemas interiores que despem os monges de suas túnicas. A partir deles, os homens se sobrepõem a crenças e religiões e precisam enfrentar suas próprias limitações.

O cineasta, contando uma história real, transforma o projeto numa obra poderosa sobre o direito de duvidar e o dever de proteger. O elenco tenta materializar essa dicotomia, mas é o personagem de Michael Lonsdale, deslumbrante como o frei médico, quem dá o pontapé para a cena mais bonita e importante do filme. No ápice da crise, todos estão reunidos à mesa. Um momento em que música e rostos em close falam mais do que qualquer outra coisa.

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[Des Hommes et des Dieux, Xavier Beauvois, 2010]

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Sobrenatural

Sobrenatural

James Wan e Leigh Whannell são os principais responsáveis pela monstruosa tsunami de filmes de tortura que domina o terror no cinema há alguns bons anos. A dupla assinou direção e roteiro de Jogos Mortais, um filme de exploitation plastificada que não gerou apenas uma série de tumores secundários como infectou meio mundo e espalhou a metástase pelo gênero. Por isso mesmo, é surpreendente que esses mesmos dois tenham feito, sem recorrer à violência explícita, o filme de espíritos mais assustador dos últimos anos.

Sobrenatural é tudo o que Revelação, de Robert Zemeckis, tenta, mas não consegue ser: uma homenagem aos longas de terror dos anos 70 e 80 que passeavam por casas assombradas e colocavam os personagens frente ao desconhecido. E o filme faz isso da maneira mais simples e eficiente possível. Os criadores usam os elementos mais clássicos do gênero (vozes macabras, aparições na janela e vultos pela casa) sem chances para que o espectador pare para respirar. E não se trata de velocidade, mas intensidade. O resultado é um assombro. De verdade.

É interessante como o roteiro avança pelo tema. O sobrenatural surge com insinuações, mas vai se materializando aos poucos até o momento em que assume completamente a mitologia do gênero, com direito a caçadores de fantasmas e uma legião de seres de outro mundo. Wan sabe manter o mistério, dando um tratamento visual macabro ao filme, embora nunca passe do ponto. O diretor se arrisca muitas vezes nesse processo, mas, exceto pela cena em que o protagonista chega ao covil do inimigo, tudo se encaixa direitinho.

A escalação do elenco ajuda a dar corpo ao filme. Patrick Wilson e Rose Byrne estão muito bem. E Lin Shaye e Barbara Hershey nos fazem crer em parapsicologia. Atores sérios projetam o filme, que passeia com orgulho pelos limites entre o kitsch e susto, para literalmente outro plano. Criam um tipo de relação mais sólida com o espectador. Aproveitando essa sustentação, Wan cria intermináveis sequências de pavor. E, me perdoem os defensores do cerebral, das texturas e do improviso, mas é exatamente isso o que a gente espera de um filme de terror.

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[Insidious, James Wan, 2010]

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A Garota da Capa Vermelha

A Garota da Capa Vermelha

Catherine Hardwicke não deve ter se recuperado por não ter dirigido outros filmes da saga Crepúsculo além do primeiro porque este seu novo longa é praticamente uma cópia da plástica e do estilo que a série consagrou. A primeira semelhança está no visual de A Garota da Capa Vermelha, que radicaliza a opção pelo fake, com cenários de estúdio e muito cromaqui, efeitos visuais de segunda linha e excesso de câmera lenta.

Hardwicke já foi uma diretora melhor, mas aqui parece ter se escondido por trás de uma fórmula para atrair adolescentes interessados em ação e tensão sexual. Ambas existem de sobra no filme, mas da forma mais pasteurizada possível. O triângulo amoroso de Crepúsculo ganha uma reprise frágil. Para se ter uma ideia, o longa de estreia da saga era bem melhor. Essa nova versão de Chapeuzinho Vermelho reproduz as tentativas de transformar ficção em realidade, como Rei Arthur e Robin Hood. Como nos dois casos, não dá muito certo.

Bons atores como Gary Oldman e Julie Christie servem para chamar atenção, mas eles são conduzidos ao exagero e suas partipações, que deveriam ser um bônus, viram muito um mico. Chegar até o final deste filme foi complicado.

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[Red Riding Hood, Catherine Hardwicke, 2011]

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Bróder

Bróder é um filme de altos e baixos, mas quando acerta ele é brilhante. O diretor Jeferson De conta uma história de amizade na favela sem trejeitos e maneirismos. Acerta em cheio em praticamente todas as cenas em que os amigos estão juntos. Tanto nos diálogos quanto no desenvolvimento. O cineasta, que estreia na direção, faz um trabalho excelente com o elenco. Caio Blat prova que pode ser uma grande ator quando tem um papel bem escrito e é bem dirigido. Silvio Guindane e, para minha surpresa, Jonathan Haagensen também estão ótimos.

Jeferson De constrói o cenário da vida na favela da maneira mais trivial possível, deixando a criminalidade em segundo plano. A trama policial, por sinal, é totalmente desinteressante, o ponto fraco do longa, mas ela não tira os méritos de um filme simples e direto sobre amigos que se reencontram e escolhas decididas há muito tempo. E viva Cássia Kiss, que se livra do fantasma de suas últimas aparições caricatas e devora suas cenas.

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[Bróder, Jeferson De, 2010

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Rio

Rio é a propaganda mais cara da história do Rio de Janeiro. E também a mais bem paga. O filme é visualmente muito bonito, inclusive nos movimentos de “câmera”, que não são poucos. O 3D é exaustivamente usado – finalmente um filme que honra o rótulo! A reconstrução da geografia da cidade impressiona pela fidelidade, embora tudo seja limpinho pra turista ver, que é o que molda não apenas a plástica, mas a própria ideia do filme.

No entanto, Carlos Saldanha consegue equilibrar esse Rio pra exportação com um Rio nostálgico numa história simples sobre uma arara azul criada nos EUA que vem para o Brasil para procriar e salvar a espécie. O clima remete a longas animados do passado, como Bernardo e Bianca e Os Aristogatas. O resultado é um filme inocente, mas com um humor gostosinho de acompanhar, mesmo não fugindo da fórmula de animais fofinhos que passam por grandes aventuras. No conjunto, não dá pra comparar o acabamento da história com o refinamento dos longas da Pixar, mas Rio provavelmente seria campeão no grupo de acesso.

Embora a trilha seja assinada pelo experiente John Powell, é inegável que os números musicais têm um samba com sotaque. Isso mesmo que Sergio Mendes, que hoje talvez seja menos brasileiro do que Powell, seja creditado como consultor. Mas o incômodo nem é tão grande: as músicas, integradas à narrativa, quase sempre dão certo e parecem fazer referência a musicais antigos. Destaque para o tema do vilão. Jesse Eisenberg, mesmo reprisando seus cacoetes, mais uma vez, está impagável.

Ah, e uma coisa é certa: o Carnaval nunca foi tão bem filmado.

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[Rio, Carlos Saldanha, 2011

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Turnê

Turnê marca o retorno do ator Mathieu Amalric à direção de um longa-metragem depois de sete anos. O filme foi imediatamente comparado aos trabalhos de John Cassavetes – e há uma certa razão. Amalric parece partir do improviso, abusando de uma direção naturalista, onde a única interpretação verdadeiramente “encenada” é justamente a dele. O francês é um dos melhores atores dos dias de hoje e parece sempre impor disciplina a um caos próprio. No entanto, aqui, talvez para equilibrar o clima do filme, já que suas atrizes-dançarinas de primeira viagem são explosão pura e simples, ele assume o papel de ator sério.

Um grande diferencial é que o cineasta não conta propriamente uma história, prefere acompanhar a trupe de dançarinas americanas – e seu empresário francês – em sua turnê pela costa da França como que num vídeo-registro. A câmera captura o cotidiano colorido do grupo e seu humor ácido, quase sexual, como se estivesse de passagem. E é aí que o cineasta acerta ao batizar seu filme: como diário de viagem, Turnê funciona lindamente. Quando tenta inserir um drama a seu personagem, o filme perde o foco, parece claramente querer dar substância a um material rico justamente pelo evasivo, pelo fugaz. Mesmo assim, ainda é uma obra rara.

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Tournée, Mathieu Amalric, 2010

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Academia de Boxe

Academia de Boxe

Aos 80 anos de idade e quase 50 de carreira, Frederick Wiseman sabe bem o que quer. O diretor, um dos maiores documentaristas norte-americanos, aqui deixa claro que, muitas vezes, o objeto de um cineasta fala por si mesmo sem precisar de estímulo extra. A câmera de Wiseman passeia quase invisível pelas cenas cotidianas de uma academia de boxe em Austin, no Texas, e compõe um mosaico completo e complexo do lugar através da observação dos personagens que circulam por ali. A ação ali se resume à presença da câmera. Todo o resto é espontâneo. Wiseman, inclusive, não raramente, transforma a própria academia num personagem em sequências onde não há diálogos, apenass uma sucessão de imagens e áudio ambiente. Cenas de uma musicalidade impressionante.

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[Boxing Gym, Frederick Wiseman, 2010]

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É Tudo Verdade 2011

Goran Olsson

The Black Power Mixtape 1967-1975 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Black Power Mixtape 1967-1975, Göran Hugo Olsson, 2011]

Este é um documentário suculento sobre o movimento negro nos EUA feito da maneira menos óbvia possível. O filme aproveita um fartíssimo material gravado entre 1967 e 1975 pela TV sueca e cria um painel amplo sobre a questão. Existem dois grandes trunfos: o próprio acervo já tem um tom analítico, imparcial, de quem via a situação de fora, o que dá um diferencial para o filme, que, em sua montagem final, adota uma raríssima verve politizada e engajada sem ranços, maniqueísmos e panfletagem.

Ali Amahi

A Onda Verde EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Green Wave, Ali Samadi Ahadi, 2011]

Ali Samadi Ahadi consegue, em A Onda Verde, uma combinação difícil: equilibra documento, denúncia e sensibilidade com parcimônia. O filme reconstitui o levante popular que prometia e não conseguiu derrubar o presidente-ditador, Mahmoud Ahmadinejad, nas últimas eleições no Irã. O diretor trabalha com imagens feitas quase que artesanalmente com depoimentos de iranianos exilados e completa o material contando, em forma de animação, os episódios pelos que os personagens passaram e dos quais não existem registros. Poderia facilmente recorrer a maneirismos e simplificações – ou partir para a metralhadora – mas, sem nunca pegar leve nas acusações, o cineasta dá substância ao que vem de seu auto-falante. E o resultado é algo que Valsa com Bashir gostaria de ser.

Frederick Wiseman

Academia de Boxe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Boxing Gym, Frederick Wiseman, 2010]

Aos 80 anos de idade e quase 50 de carreira, Frederick Wiseman sabe bem o que quer. O diretor, um dos maiores documentaristas norte-americanos, aqui deixa claro que, muitas vezes, o objeto de um cineasta fala por si mesmo sem precisar de estímulo extra. A câmera de Wiseman passeia quase invisível pelas cenas cotidianas de uma academia de boxe em Austin, no Texas, e compõe um mosaico completo e complexo do lugar através da observação dos personagens que circulam por ali. A ação ali se resume à presença da câmera. Todo o resto é espontâneo. Wiseman, inclusive, não raramente, transforma a própria academia num personagem em sequências onde não há diálogos, apenass uma sucessão de imagens e áudio ambiente. Cenas de uma musicalidade impressionante.

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