Monthly Archives: agosto 2010

Jornada de Cinema Silencioso 2010

Eu adoro a Mostra de Cinema de São Paulo, tento acompanhar o É Tudo Verdade, o Festival de Curtas, o Anima Mundi e boa parte dos eventos de cinema da cidade, mas tenho uma queda especial pela Jornada de Cinema Silencioso, que começou justamente no ano em que eu vim morar por estas bandas. A quarta edição da jornada trouxe algumas pérolas. Conseguir ver onze longas. Aqui estão minhas impressões sobre eles:

Mary Pickford

A Aurora de um Amanhã EstrelinhaEstrelinha
[The Dawn of a Tomorrow, James Kirkwood, 1915]

O filme estrelado pela primeira namoradinha da América foi um dos mais bobinhos da programação. Mary Pickford foi a encarnação da boa moça na era silenciosa e em A Aurora de uma Manhã não fugiu do papel. Mary interpreta Glad, “a órfã mais feliz de Londres”, num conto sem nuances sobre o valor de ser nobre e coisas afins. O filme tem uma realização bastante rudimentar e ainda obedece a uma tradição literário-teatral que dominou os a nos inciais do cinema, mesmo sendo do mesmo ano do primeiro longa de D. W. Griffith.

Clarence Brown Greta Garbo John Gilbert

A Carne e o Diabo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Flesh and the Devil, Clarence Brown, 1926]

Apesar da beleza de muitas imagens, A Carne e o Diabo interessa mais por sua ousadia ao abordar o adultério e mostrar beijos e carícias explícita e eroticamente, numa época em que Hollywood ainda sobrevivia incólume ao moralismo. A história é simples: no filme de Clarence Brown, Greta Garbo safadíssima e tão malvada quanto tenta destruir a amizade íntima, ainda que não explícita, entre dois rapazes. Um deles é John Gilbert, com quem a atriz viveu um romance extra-tela.

Rossi Film

Companhia Paulista de Estrada de Ferro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Companhia Paulista de Estrada de Ferro, Rossi-Film, 1930]

O mais interessante neste documentário, sem assinatura de diretor, são suas imagens de setenta anos atrás que mostram trabalhadores da estrada de ferro construindo artesanalmente locomotivas. O molho especial é perceber como as pessoas se portavam frente a um objetivo ainda relativamente medo: uma câmera.

Allan Dwan

Este Mundo é um Teatro EstrelinhaEstrelinha
[Stage Struck, Allan Dwan, 1925]

Este filme é mais um veículo para Gloria Swanson do que qualquer outra coisa. É uma comédia simples sobre uma garçonete que quer ser atriz e, apesar da assinatura de Allan Dwan, que dirigiria bons westerns, inclusive com John Wayne, tem uma narrativa formal e até truncada. A curiosidade maior foi ver Gloria vinte e cinco anos antes de Crepúsculo dos Deuses, filme que a homenageou justamente como grande diva do passado.

Per Lindberg

As Garotas de Norrtull EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Norrtullsligan, Per Lindberg, 1923]

Se as comédias hollywoodianos muitas vezes engatinhavam em temáticas, a Europa, na mesma seara, mostrava uma rara elaboração. O sueco As Garotas de Norrtull, é um belo exemplo. O filme de 1923 é delicioso: uma comédia feminista sobre quatro mulheres bem resolvidas que dividem apartamento em Estocolmo. Além de um texto cheio de ironia, outro trunfo do filme é como a liberdade das personagens é levada com naturalidade.

Hands Up! Raymond Griffith

Golpes de Audácia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hands Up!, Clarence G. Badger, 1926]

É lamentável que Raymond Griffith tenha sido praticamente esquecido quando se fala dos grandes comediantes do cinema silencioso. Griffith, que era mudo, sumiu do mapa com a chegada dos filmes falados, mas seu talento para o humor físico e a pantomima pode ser comparado ao de Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd. Este Golpes de Audácia é uma comédia maluquinha passada durante a Guerra Civil Americana em que o ator interpreta um espião sulista que se apaixona por duas irmãs. Até chegar ao final libertino, o filme nos leva para um delicioso passeio pelo Oeste dos Estados Unidos, fazendo piada com tudo e todos: governo, índios, escravos negros, mineiros. Sempre na maior democracia.

Lars Hanson

A Herança de Ingmar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ingmarsarvet, Gustaf Molander, 1925]

Gustaf Molander foi bem ousado em retomar a série de filmes de Victor Sjöström que adapta o romance épico Jerusalém, de Selma Lagerlöff. A Herança de Ingmar engana a princípio, com uma história familiar, mas aos poucos vira uma reflexão profunda sobre religião e fanatismo. Mas o que talvez impressione mais no filme é como os efeitos visuais são estilizados, sobretudo na cena fantasmagórica – e brilhante – em que demônios invadem a vila em que se passa a história.

Raoul Walsh

Regeneração EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Regeneration, Raoul Walsh, 1915]

Regeneração é um dos mais antigos longa-metragens que eu vi e é impressionante como um filme relativamente simples, a história de amor e redenção de um marginal, ganhou um tratamento de linguagem rebuscado do diretor Raoul Walsh, em seu primeiro trabalho. A herança de D.W. Griffith, com quem o cineasta novato havia acabado de trabalhar, está por toda parte: movimentos de câmera, montagem de causa-e-efeito, efeitos especiais e até um flashback. A concepção visual é impecável. O filme é considerado o primeiro longa a retratar o cotidiano dos gângsters.

G. W. Pabst

A Rua das Lágrimas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Die freudlose Gaße, Georg Wilhelm Pabst, 1925]

Este é outro filme que engana logo de início, quando parece burocrático, mas G.W. Pabst, aos poucos, revela suas engrenagens e compõe um mosaico bem rico da Viena do pós-guerra, devastada e miserável. A sequência final de A Rua das Lágrimas transforma a trama ingênua envolvendo Greta Garbo, no auge da beleza, em retrato poderoso e cruel de uma época e se integra à ambientaçào sinistra mesmo com um final feliz. Um epílogo pesadíssimo afasta o clichê.

Victor Fleming

O Supersticioso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[When The Clouds Roll By, Victor Fleming, 1919]

Vinte anos antes de dirigir O Mágico de Oz e …E o Vento Levou, Victor Fleming estreou na profissão com uma comédia que acaba de entrar para a lista das minhas favoritas. O astro Douglas Fairbanks escreveu a história, perturbadíssima, sobre um homem que está servindo inadvertidamente de cobaia para as experimentações de um cientista louco. Se O Supersticioso começa esquisito com suas piadas metafóricas explícitas, o humor e a ironia rapidamente assumem o controle e a entrega do elenco, sobretudo Fairbanks, que nunca esquece de mostrar seu lado atleta, dá ao conjunto um polimento raro. Os minutos finais impressionam pela magnitude de uma inundação, com cenários em tamanho real e, pricipalmente, sem nunca perder a piada.

Wara Wara

Wara Wara EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Wara Wara, José Maria Velasco Maidana, 1930]

É bem triste imaginar que este é o único filme silencioso boliviano que resistiu ao tempo. Wara Wara, apesar de demonstrar aqui e ali sua manufatura, nunca esconde suas pretensões épicas. O filme adota o romance clássico entre adversários – Wara Wara é uma princesa nativa – para narrar a chegada dos espanhóis a um reino do Império Inca. As atuações caricatas parecem saídas de um desenho do Picapau, no melhor dos sentidos. Mas se falta refinamento à história e aos intérpretes, sobra aos cenários, figurinos e à fotografia, sempre dispostos a dar as credenciais necessárias ao filme. Algumas imagens, por sinal, são bem bonitas.

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