Monthly Archives: julho 2010

A Aldeia dos Malditos / A Estirpe dos Maditos

A Estirpe dos Malditos

Não é sempre que escrevo no blogue sobre filmes antigos, mas quando eles entram para a lista dos melhores de sua vida, alguma coisa precisa ser dita. A Estirpe dos Malditos, filme dirigido pelo britânico Anton M. Leader em 1963, me deu um baque. Primeiro, preciso confessar que confundi o filme com A Aldeia dos Malditos, lançado três anos antes, objeto de culto e alvo de um remake feito por John Carpenter nos anos 90. O filme de Leader é uma continuação do longa original. Uma continuação às avessas, diga-se de passagem.

Na verdade, o filme de 1963 aproveita apenas a ideia de crianças estranhas com poderes telepáticos e olhos brilhantes. As semelhanças param por aí. O longa original, que eu vi, curioso, um dia depois de assistir embasbacado a sua seqüência, trata de acontecimentos esquisitos numa cidadezinha britânica que culminam com o nascimento de crianças loiras que conseguem ler mentes e manipular pessoas. O filme é quase que uma versão britpop dos longas de ficção-científica popularescos dos anos 50 que faziam alusão à Guerra Fria. É diversão com alguma inteligência, mas esbarra num texto pobre, numa encenação apressada e em conceitos mais imediatistas.

Já o filme de Leader, que à primeira vista parece uma continuação picareta, surpreende desde a abertura, com stills incomuns do personagem principal, Paul. As cenas seguintes revelam um elaborado trabalho de fotografia, que serve de apoio para um dos melhores filmes políticos que eu já vi. Hoje em dia, é facil classificá-lo como datado, mas eu custo a lembrar de ver a Guerra Fria ser tão bem traduzida num longa-metragem. O roteiro, correndo o risco da adjetivação, é inteligentíssimo e completamente metafórico; o retrato de uma época e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre intolerância étnica.

Apesar dos olhinhos brilhantes parecem ingênuos, a construção visual é requintadísima, com a fotografia, a montagem e os efeitos muito acima do que se poderia esperar de um diretor inexperiente. Leader, no entanto, fez carreira em TV, assinando episódios de séries clássicas como Agente 86 e Além da Imaginação. Mais requintado do que sua plástica é o texto do filme, ou melhor, o subtexto que recheia cada cena, que ora é sarcástico, ora faz uma reflexão sobre abusos de poder, tensão bélica, conspirações e medo do desconhecido.

Na minha próxima lista de filmes favoritos essa obra-prima chamada A Estirpe dos Malditos terá lugar privilegiado.

A Aldeia dos Malditos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Village of the Damned, Wolf Rilla, 1960]

A Estirpe dos Malditos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Children of the Damned, Anton M. Leader, 1963]

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A Origem

Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ken Watanabe

A Origem é um bom filme, mas não é tudo isso que querem que ele seja não. Primeiro, é preciso deixar claro que eu não sou do time que acha o Christopher Nolan um diretor “do caralho”. Apesar de ter ficado impressionado com Amnésia há quase dez anos, achei Insônia apenas razoável, Batman Begins eficiente, O Grande Truque um belo de um golpe e, atirem as pedras, acho Batman – O Cavaleiro das Trevas superestimado. Muito, eu diria.

Nolan é um cara esforçado, não há como negar. Seus projetos são bem ambiciosos e isso, na maior parte das vezes, é bastante saudável. Além disso, aparente não ser um cara arrogante: parece sempre empenhado em entregar o melhor de um trabalho. No entanto, sua pretensão em criar filmes únicos me parece muito mais ficar na ideia. E ele já provou ser um grande vendedor de ideias, que geralmente são compradas como revolucionárias quando me parecem apenas bem executadas. Nolan não é um criador, mas um operário competente.

Essa impressão se confirma em A Origem, que, repito, é um bom filme, mas não inova em praticamente nenhum aspecto. O novo longa, com uma trama intrincada sobre invasão em sonhos, funciona bem porque seu roteiro é articulado o suficiente para permitir que o espectador embarque em seu conceito com num filme de ação envolvente. Nolan trabalha no subconsciente num nível de realidade virtual, mais elaborado, mas não muito diferente do que Kathryn Bigelow em Estranhos Prazeres, guardando proporções, especificidades e objetos-alvo dos dois projetos.

A Origem usa muitos conceitos caros às HQs, como planos de realidade alternativos e estados de consciência. É legal ver esses conceitos levados a sério num blockbuster hollywoodiano, mas não consigo enxergar nada de pioneiro no que Nolan faz. O filme chega a ser didático na tentativa de manter o espectador atento à trama. Todos os conceitos e as viradas na história são explicados quase em tempo real, principalmente pela personagem de Ellen Page, que parece estar lá para nos guiar.

O que mais me incomodou foi que algumas metáforas são quase óbvias, como a opção pelo lugar onde se escondem os segredos mais íntimos ou a maneira de se passar entre planos. Os signos usados por Nolan remetem diretamente aos que usamos nos sonhos, mas nunca chegam ao grau de complexidade dos filmes de David Lynch, por exemplo, um expert no campo onírico e em inserir seus elementos à narrativa. Lynch é um cineasta mais difícil, mas a maneira como trata os signos é mais fiel a nossa própria construção dessas experiências.

A concepção visual, um dos pontos altos do filme, é realmente muito boa: os cenários, a maioria virtual, são bem bonitos, mas os tão comentados efeitos visuais impressionam em poucos momentos, como na aparição de elementos durante o passeio de Page e Leonardo Di Caprio ou na cena em que a cidade se dobra. No mais, me parecem uma variação – não muito discreta – das câmeras ultralentas de Matrix. São bem feitos, mas raramente originais.

No entanto, o roteiro escrito pelo próprio Nolan é bastante inteligente e funciona da maneira mais pop possível, sempre procurando cutucar o espectador – e aí provavelmente criando a sensação de experiência única. Só isso já merece aplauso. Ele também é um diretor de atores eficiente e domina um elenco cheio de estrelas, com destaque para as performances de Tom Hardy e Marion Cotillard. Todos estão a serviço do filme e de suas pretensões. E a melhor maneira de encerrar esse texto é justamente dizer que, para um filme tão ambicioso, assistir A Origem foi uma experiência bastante divertida.

A Origem EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Inception, Christopher Nolan, 2010]

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Vincere

Filippo Timi, Giovanna Mezzogiorno

O novo filme do veterano Marco Bellocchio é maiúsculo em todos os sentidos. O cineasta elegeu uma história de bastidor que revela uma faceta secreta de Benito Mussollini e mostra como ele conseguiu entrar para a política. Bellocchio aposta no superlativo para falar da juventude do ditador italiano: conduz Vincere como uma ópera furiosa, com um uso excelente da trilha sonora e um talento inegável para reger os atores em cena. O filme assume o vigor do personagem como modelo narrativo. Na primeira meia-hora, os textos e as imagens de arquivo invadem a tela criando numa poesia brutal que quebra o classicismo do tom do longa. O impacto é fortíssimo.

A interpretação de Filippo Timi é impressionante, mas o filme muda de protagonista depois desta seqüência inicial. Com sua história estabelecida, Mussollini particamente sai de cena e Bellochio diminui o ritmo para criar planos belíssimos – e depois retomar sua marcha. Há uma cena em especial em que Ida, interpretada pela grande Giovanna Mezzogiorno, escala as grades do lugar onde está trancafiada. Giovanna assume as rédeas do filme depois que o ditador vira coadjuvante. A atriz, do belo e pouco conhecido O Último Beijo, tem uma das grandes performances do ano. Dor e força convivem numa interpretação que testa os limites do amor e da sanidade.

Vincere EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Vincere, Marco Bellochio, 2009]

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Top 100 filmes dos anos 2000

Há alguns meses, reuni um grupo de amigos para escolher os melhores filmes realizados na década passada. O resultado está aqui. Faltou, no entanto, revelar a minha lista particular; a lista do melhor da década em que este blogue foi criado – e que já sofreu algumas mudanças desde então. E depois de muito sofrimento – cortei uma porrada de filmes que eu gosto na última leva – e um trabalho exaustivo de relacionar minhas listas anuais e melhores filmes, aqui está ela, pronta para vocês concordarem ou discordarem (e, no segundo caso, não esqueçam de fazer suas listinhas nos comentários).

Simon Pegg

100 Todo Mundo Quase Morto
Shaun of the Dead
Edgar Wright, 2004

Richard Linklater

99 Escola de Rock
School of Rock
Richard Linklater, 2003

Ang Lee

98 O Tigre e o Dragão
Wo Hu Cang Long
Ang Lee, 2000

Coen Brothers

97 Um Homem Sério
A Serious Man
Joel e Ethan Coen, 2009

O Ultimato Bourne

96 O Ultimato Bourne
The Bourne Ultimatum
Paul Greengrass, 2007

John Cameron Mitchell

95 Hedwig – Rock, Amor e Traição
Hedwig and the Angry Inch
John Cameron Mitchell, 2001

Abbas Kiarostami

94 Dez
Ten
Abbas Kiarostami, 2002

Steven Spielberg

93 Minority Report – A Nova Lei
Minority Report
Steven Spielberg, 2002

Kinji Fukasaku

92 Batalha Real
Batoru Rowaiaru
Kinji Fukasaku, 2000

Eduardo Valente

91 No Meu Lugar
No Meu Lugar
Eduardo Valente, 2009

Juan carlos Valdivia, Ninón del castillo

90 Zona Sul
Zona Sur
Juan Carlos Valdivia, 2009

Wong Kar-Wai

89 2046
2046
Wong Kar-Wai, 2004

Aleksandr Sokurov

88 Arca Russa
Russkiy Kovcheg, 2002
Aleksandr Sokurov

Bryce Dallas Howard

87 A Dama na Água
Lady in the Water, 2006
M. Night Shyamalan

Fernando Eimbcke

86 Lake Tahoe
Lake Tahoe
Fernando Eimbcke, 2008

Edward Yang

85 As Coisas Simples da Vida
Yi Yi
Edward Yang, 2000

Laurent Cantet Aurélien Recoing

84 A Agenda
L’Emploi du Temps
Laurent Cantet, 2001

Todd Haynes

83 Não Estou Lá
I’m Not There
Todd Haynes, 2007

Lars Von Trier

82 Dançando no Escuro
Dancer in the Dark
Lars von Trier, 2000

Norma Alean dro Hector Alterio Juan José Campanella

81 O Filho da Noiva
El Hijo de la Novia
Juan José Campanella, 2001

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À Prova de Morte

À Prova de Morte

Não existe uma razão minimamente aceitável para que um filme de um diretor como Quentin Tarantino tenha permanecido inédito no circuito comercial brasileiro por quase três anos. À Prova de Morte foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2007 e, desde então, viu sua data de estreia ser adiada várias vezes até que, finalmente, teve que trocar de distribuidora para chegar aos cinemas. Uma estupiez que privou o público brasileiro de um filmaço.

O longa faz parte de um projeto em conjunto com o parceiro de velha data do cineasta, Robert Rodriguez, o filme duplo Grindhouse (a metade de Rodriguez, Planeta Terror, já foi até lançada em DVD). E, a princípio, este é o filme menos pretensioso de Tarantino, uma homenagem aos filmes de velocidade dos anos 70 que se ocupa muito pouco – ou quase nada – com aquele desfile de referências à cultura pop típico da filmografia do diretor. A verborragia continua, mas, nos primeiros 40 minutos de filme, assume a forma de um imenso girl talk.

Sexo, claro, é o assunto principal. E os diálogos, baratos, são deliciosos, inspirados explicitamente nos filmes descrebrados que Tarantino homenageia aqui. Mas essa homenagem não está apenas no texto ou na trilha sonora, mas em todo o resto. A fotografia da primeira metade do filme, assinada pelo próprio cineasta, abusa de ranhuras e borrões para envelhecer o longa. E a montagem de Sally Menke, companheira fiel do diretor, sem brincadeiras com a estrutura, marca tradicional do cinema de Tarantino, usa uma série de truques para reforçar essa proposta, como cortes bruscos e repetições. Às vezes é quase um trabalho de DJ.

 

O filme é claramente dividido em dois. Algum desavisado pode ignorar o guilty pleasure concebido por Tarantino e chamar a primeira metade do longa de misógino, mas isso se anula totalmente na segunda parte, especialmente no final. O único elo entre a primeira e a segunda metades é o personagem de Kurt Russell, o Dublê Mike, de longe a melhor interpretação que o ator já entregou ao público, tradição de Tarantino, que já havia feito o mesmo com Pam Grier, Darryl Hannah e John Travolta.

Em sua segunda metade, o filme muda bastante. O papo feminino, versão do diretor, permanece, mas as interferências visuais praticamente desaparecem, dando espaço para um trabalho de câmera é mais elaborado, embora as imagens continuem à moda antiga. Toda essa concepção retrô vem acompanhada por cenas de ação espetaculares, como a do choque entre os carros, que ganha vários pontos de vista. Todos com detalhes diferentes e imagens igualmente impressionantes.

Talvez a aparência descompromissada esconda o filme mais puro de Tarantino. À Prova de Morte, em sua amoralidade e seu imediatismo, parece ser feito apenas para se divetir. E, na boa, tem coisa melhor?

À Prova de Morte EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Death Proof, Quentin Tarantino, 2007]

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Shrek para Sempre

Quando, em 2001, o personagem Shrek chegou aos cinemas foi literalmente uma revolução. Naquela época, os longas de animação começavam a se arriscar, em busca de um público menos infantil, com histórias menos ligadas a contos de fada e um humor menos inofensivo. O longa de estreia do Ogro virou essas propostas pelo avesso. Shrek, de Andrew Adamson e Vicky Jenson, descontruiu as fábulas, desmoralizou personagens que pareciam intocáveis e fez isso tudo com um humor inteligente.

Mas a ousadia ficou pelo caminho. Se o segundo filme era tão bom – ou até melhor – do que o original, o terceiro, careta, com raros momentos realmente fiéis ao espírito do personagem, decepcionou. Shrek Para Sempre, anunciado como o réquiem da franquia no cinema, segue esta mesma linha e adota exatamente o conceito de franquia para se despedir. Comparando com um belíssimo fim de uma série de animação no cinema, Toy Story 3, o novo filme do Ogro apanha feio.

Enquanto a nova aventura do longa da Pixar serve como coadjuvante ao propósito de oferecer uma despedida aos personagens, o filme de Mike Mitchell, que dirigiu algumas comédias bobas em carne-e-osso antes de se aventurar pela animação, é apenas mais uma história do Shrek. A comparação já é um belo golpe no filme, mas a própria aventura não ajuda. Há algumas cenas legais e piadas engraçadinhas, mas, no geral, tudo é muito quadrado. Este filme é quase um reflexo do que aconteceu com o personagem: depois de casar e virar pai de família, o Ogro perdeu o sarcasmo e seus filmes deram adeus à anarquia. A despedida de Shrek ficou bem sem graça.

Shrek Para Sempre EstrelinhaEstrelinha
[Shrek Forever After, Mike Mitchell, 2010]

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Almas à Venda

Almas à Venda

Enquanto um filme de Quentin Tarantino espera quase três anos para entrar em circuito e um longa de Brian De Palma é completamente ignorado pelas distribuidoras, a diretora Sophie Barthes, estreante em longas-metragens, vê seu primeiro filme chegar aos cinemas brasileiros depois de ser exibido no Festival do Rio do ano passado. Nada contra, caso Almas à Venda não fosse um wannabe de um filme de Spike Jonze em parceria com Charlie Kaufman. Um rascunho ruim do universo maluco da dupla. Com todo o respeito, Barthes não está à altura da empreitada, que envolve elementos fantásticos demais para um diretor inexperiente domar. Então por que diabos ela quis fazer uma cópia tão descarada de Quero Ser John Malkovich? Esta comédia pretensamente insólita sobre tráfico de almas conseguiu juntar no elenco Paul Giamatti, que interpreta a si mesmo, Emily Watson e David Strathairn. Todos tentam dar certa dignidade a seus papéis, o que garantiu a estrela solitária para o filme, mas isso não salva o longa de ser uma experiência constrangedora para todos envolvidos.

Almas à Venda Estrelinha
[Cold Souls, Sophie Barthes, 2008]

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O Guerreiro Silencioso

O Guerreiro Silencioso

Valhalla Rising engana fácil. Tem clima de grande épico, mas é um filme fantasmagórico. A trama parecia girar em torno de um guerreiro viking, se transforma numa Cruzada e, numa metamorfose insinuada lentamente, vira numa jornada sem rumo. O diretor Nicolas Winding Refn criou um projeto arriscado: um épico praticamente sem batalhas, quase mudo, com personagens vagando sem direção. O resultado deve frustar a maioria que pode se interessar pelo filme pela ação que não existe ou pela mitologia nórdica que mal é citada, mas me pareceu instigante.

O filme, anti-climático, é a mais radical desromantização das Cruzadas que eu vi no cinema. Nada que lembre de longe aquela tentativa rasa de criar um filme político-religioso sobre o assunto, como fez Ridley Scott. Aqui, o diretor trabalha muito mais numa arena existencialista e leva seus personagens com ele. A violência existe. Na maior parte das cenas em que há violência, ela é brutal – e muito bem filmada. Mas são poucos esses momentos. O filme, no geral, é um exercício de contemplação. Quase não há ação.

Uma sequência, na virada da primeira hora do filme, é o melhor exemplo para como todos os personagens estão completamente perdidos num lugar sem nome. Chega a ser angustiante. Mas talvez o mais impressionante seja a construção visual de Valhalla Rising. A fotografia, mesmo cheia de filtros, coisa que eu costumo não gostar, é uma obra-prima na criação de quadros. Há pelo menos uns quinze momentos de beleza sublime em que a tela parece pintada. Mas todos eles servem ao roteiro; são fundamentais para a criar a ambientação do filme. Um filme sobre a busca incessante por um sentido.

O Guerreiro Silencioso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Valhalla Rising, Nicolas Winding Refn, 2009]

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Top 20: filmes do primeiro semestre 2010

Os cinemas brasileiros receberam muitos filmes dignos de nota neste primeiro semestre de 2010. De animações a filmes de terror, das etnias mais distantes aos blockbusters norte-americanos. O circuito de cinemas do país ainda ignora muita coisa boa, mas deu sinais de recuperação nos últimos seis meses. Fechar uma relação com 10 títulos foi pouco.

os melhores

Antes da lista final, cinco filmes que merecem atenção: O Profeta, filme supervalorizado, mas muito bem realizado; Tulpan, melhor filme étnico em muito tempo; Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, documentário tradicional, mas com material histórico riquíssimo; Kick-Ass, simples e deliciosa adaptação de quadrinhos e Tudo Pode Dar Certo, retorno de Woody Allen às origens, geográficas ou estilísticas.

Fatih Akin

20 Soul Kitchen
Soul Kitchen, Fatih Akin, 2009

Faço questão de colocar este filme na lista porque foi somente fazendo uma comédia simples que esse diretor conseguiu me convencer. Além de delicioso de se assistir, o longa é ágil, tem um texto inteligente e um protagonista inspirado.

Jane Campion

19 Brilho de uma Paixão
Bright Star, Jane Campion, 2009

A diretora neozelandesa retoma a boa forma com uma simples história de amor à moda antiga, emoldurada na poesia de seu protagonista seja no texto, seja no retrato de época, seja na deslumbrante e mesmo assim discreta embalagem visual do filme.

Joe Johnston

18 O Lobisomem
The Wolfman, EUA, 2010

O filme, quase que completamente menosprezado pela crítica e pelo público, é um dos mais classudos sobre o assunto. A adaptação evoca o tratamento que Coppola deu a Drácula e imageticamente o filme é muito bem resolvido. Benicio Del Toro é um monstro.

Karim Ainouz e Marcelo Gomes

17 Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009

Dividiu opiniões, mas não é nem a obra-prima nem o experimento oco de que foi acusado. A costura de poesia, imagens e canções é irregular, mas se arrisca ao apresentar o Nordeste e o amor como seres vivos, sem que haja alguém para encarar o espectador.

Mary and Max

16 Mary e Max
Mary and Max, Adam Elliott, 2009

Este é um raro exemplo de animação independente que sabe manter o equilíbrio entre sua condição alternativa (diálogos engraçadinhos, fotografia escura) e sua natureza doce (personagens adoráveis, visual encantador). O resultado é estranho e, assim, bom.

Kathryn Bigelow

15 Guerra ao Terror
The Hurt Locker, Kathryn Bigelow, 2008

Esse filme me interessa muito mais por seus atributos técnicos do que necessariamente por sua suposta visão diferente da guerra. A diretora sempre foi muito melhor em forma do que em conteúdo e esse filme aqui é tecnicamente impecável.

Elia Suleiman

14 O Que Resta do Tempo
The Time that Remains, Elia Suleiman, 2009

A história de um país em guerra retratada nos relatos episódicos da vida de um homem. O diretor é extremamente feliz em dar partida a sua proposta, mas não se garante como ator e a pantomima enfraquece o terço final, mas não deixa o filme menos bonito.

Gabriel Illanes, Francisco Miguez, Gabriela Rocha

13 As Melhores Coisas do Mundo
As Melhores Coisas do Mundo, Laís Bondazky, 2010

O Brasil nunca fez um filme que capturasse tão de perto a essência do adolescente de hoje. E este aqui, mesmo que adote padrões extra-classe, é delicadíssimo com seus personagens. Tô pra ver um filme mais sincero com seu público-alvo neste ano.

Coen Brothers

12 Um Homem Sério
A Serious Man, Joel e Ethan Coen, 2009

Não é o melhor roteiro, mas é o filme mais bem dirigido dos irmãos Coen. É aqui que eles mostram todo o domínio técnico que desenvolveram ao longo dos anos: fotografia, montagem, direção de atores perfeitos, um Bar Mitzvah sublime e uma cena final pra fazer pensar.

Robert Downey Jr.

11 Homem de Ferro 2
Iron Man 2, Jon Favreau, 2010

Não há grandes sequências de ação, mas elas divertem. Mas o que é realmente bom nesse filme é como o roteiro esmiuça o personagem principal, em vez de desenvolver melhor novos personagens. Robert Downey Jr. está brilhante mais uma vez.

Procurando Elly

10 Procurando Elly
Darbareye Elly, Asghar Farhadi, 2009

O filme que renovou minha fé no cinema iraniano depois de anos sem um novo material empolgante. O debate sobre verdade e mentira é conduzido da forma menos convencional possível e ainda evoca Michelangelo Antonioni.

O Segredo dos Seus Olhos

9 O Segredo dos Seus Olhos
El Secreto de sus Ojos, Juan José Campanella, 2009

Este filme geralmente é saudado pela cena do estádio de futebol ou pelo golpe final da trama de suspense. Para mim, elas pouco importam. O que me encanta no filme é como o diretor consegue dominar o melodrama e nos entregar uma linda história de amor.

Dean Deblois, Chris Sanders

8 Como Treinar Seu Dragão
How to Train Your Dragon, Dean Deblois e Chris Sanders, 2010

Muito mais do que uma animação que funciona deliciosamente no 3D, muito mais do que um belo filme de aventura, este é um filme sobre crescer, sobre manter sua identidade e sobre guardar para sempre as consequências de seus atos. O final é belíssimo.

Martin Scorsese

7 Ilha do Medo
Shutter Island, Martin Scorsese, 2010

Um artesão exímio que também é um intelectual da arte recicla signos, ângulos, ideias e climas de um cinema de outrora com respeito, mas sem subserviência. O resultado desta costura é uma bela trama de suspense com gosto de velhos tempos.

Spike Jonze

6 Onde Vivem os Monstros
Where the Wild Things Are, Spike Jonze, 2009

A maturidade que o diretor demonstra em seu terceiro filme (oito anos depois do anterior) é o que valida um projeto tão encarcerado no universo infantil. Poucas pessoas poderiam atravessar a barreira do lúdico com delicadeza e voltar ilesas.

Roman Polanski

5 O Escritor Fantasma
The Ghost Writer, Roman Polanski, 2010

O melhor filme do diretor desde Lua de Fel reassume o universo falível de sua cinematografia numa trama noir que ora homenageia o gênero, ora parece tentar desacreditá-lo. A cena final é uma das mais fortes do ano.

Mother

4 Mother
Madeo, Bong Joon-ho, 2009

Depois de desfigurar o filme de monstro, o cineasta reinventa o filme de suspense com uma protagonista improvável e uma história que vai do melodrama mais simples à comédia mais rasgada. E no meio disso tudo cria cenas tão bonitas quanto a da dança no campo.

Lee Unkrich Pixar Disney

3 Toy Story 3
Toy Story 3, Lee Unkrich, 2010

Um filme de despedidas que pode ser extremamente cruel e incrivelmente delicado. A história é simples – assim como as soluções de roteiro – mas fala diretamente com nossa memória afetiva. O final, vocês já sabem, é lindíssimo.

Werner Herzog

2 Vício Frenético
The Bad Lieutenant: Port of Call, New Orleans, Werner Herzog, 2009

A releitura amoral do clássico de Abel Ferrara talvez seja o filme mais bem-humorado do cineasta alemão. Mas o humor refinado está a serviço do retrato de seu protagonista, antologicamente interpretado por Nicolas Cage.

Michael Haneke

1 A Fita Branca
Das Weiss Band, Michael Haneke, 2009

O filme é uma investigação do comportamento humano como resposta à religião em forma de terror psicológico. A violência da cena do diálogo entre pai e filho não precisa de sangue ou contato físico, mesmo assim é de uma crueldade quase monstruosa.

os piores

Já a lista dos piores filmes lançados neste ano é encabeçada pelo exercício de estilo oco chamado Insolação, que marcou a estreia do diretor de teatro Felipe Hirsch no cinema, co-assinando o longa com Daniela Thomas, pela primeira vez sem Walter Salles. No entanto, o Brasil não apenas garantiu a pole position, como emplacou mais dois títulos na lista, um de um diretor novato e outro de um veterano.

Daniela Thomas, Felipe Hirsch

1 Insolação, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch
2 Segurança Nacional, de Roberto Carminati
3 Percy Jackson & o Ladrão de Raios, de Chris Columbus
4 Um Olhar do Paraíso, de Peter Jackson
5 O Amor Segundo B. Schianberg, de Beto Brant

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