Monthly Archives: abril 2010

Homem de Ferro 2

Homem de Ferro 2

Um filme fiel à essência dos quadrinhos, mas sem se exceder na reverência ao super-herói. Um roteiro bem escrito que leva a sério o universo em que mergulha e cujo maior dos méritos é equilibrar ótimas cenas de ação com o desenvolvimento dos personagens. Um elenco afinado em que cada um mostra isoladamente seu talento, mas que funciona muito bem em grupo. Estas são apenas algumas das boas coisas que se pode dizer sobre o filme que Jon Favreau dirigiu há dois anos. Sim, o filme em questão no primeiro parágrafo deste texto é o primeiro Homem de Ferro.

A brincadeira se justifica porque Homem de Ferro 2, que chega aos cinemas dois anos depois da primeira incursão do herói metálico em tela grande é muito parecido com o filme anterior. Parecido sobretudo no tratamento que Favreau e sua equipe dão a Tony Stark e companhia. O roteiro, desta vez assinado por Justin Theroux (aquele ator medíocre de Cidade dos Sonhos, de David Lynch), é impressionante porque, ao contrário do que se poderia esperar, aposta muito mais na evolução dos personagens do que em cenas de ação, típicas de uma sequência.

Estas sequências existem – e Favreau continua se mostrando bastante habilidoso para comandá-las – como na cena no GP de Mônaco de Fórmula 1, mas elas não são o foco. Diretor e roteirista parecem muito mais interessados em explorar o personagem complexo que é Tony Stark, um herói playboy e alcoólatra. Em cena, eles ganham mais uma vez o apoio imprescindível de Robert Downey Jr., cuja caracterização já impressionava no filme original e que aqui é ainda mais sarcástica e irônica, dando estofo ao humor ácido que permeia o filme, mas valorizando a melancolia solitária que está na base do personagem.

É o equilíbrio ideal. Sem a preocupação de introduzir um universo, Favreau dá mais espaço para os coadjuvantes. A Pepper Potts de Gwyneth Paltrow ganha mais importância na trama e a atriz acerta em praticamente todas o que não chega a ofuscar – mas também não perde para – a musa do filme. A Viúva Negra de Scarlett Johansson é quase uma mulher fatal de filme noir. Sua única cena de ação é coreografada lindamente. Um grande viva aos efeitos visuais. Favreau também garante sua cota na tela: seu Happy aparece bem mais e é dono de algumas das melhores piadas do filme.

Don Cheadle, que substitui Terrence Howard, foi um ótimo reforço à equipe. E do lado dos vilões, Mickey Rourke está impressionantemente sóbrio como Ivan Vanko. Por sinal, imaginar que Rourke e Downey Jr., dois ex-párias de Hollywood, agora dividem um filme dessa dimensão é bem divertido. Mesmo assim quem rouba a maior parte das cenas em que aparece é Sam Rockwell, um dos melhores atores da atualidade, que consegue fazer de seu genérico do Lex Luthor de Gene Hackman um personagem que se leva a sério, administrando a afetação com poucos conseguem.

É raros que tantos bons atores em momentos tão inspirados estejam no mesmo filme. E certamente boa parte dos méritos de Homem de Ferro 2 vem da harmonia do elenco. Ponto para Jon Favreau que, de intérprete mediano em comédias bobas, virou um diretor de atores exemplar. E quando texto e atuações são tão importantes quanto cenas de ação espetaculares num filme desse porte, pode ter certeza, por mais que o impacto em relação ao original possa parecer menor, Homem de Ferro 2 é uma pérola no meio de tantos filmes pilotados no automático.

Homem de Ferro 2 EstrelinhaEstrelinha½
[Iron Man 2, Jon Favreau, 2010]

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Top 10: filmes baseados em HQs

Homem de Ferro 2 chega às telas nesta sexta-feira e, na cola dele, convoquei dez apaixonados dos quadrinhos para elegerem os melhores filmes baseados em HQs. Valiam revistas de heróis, quadrinhos adultos, graphic novels, mangás e até tiras de jornal. O resultado segue abaixo:


Kirsten Dunst, Tobey Maguire

10 Homem-Aranha
Spider-Man,
Sam Raimi, 2002
61 pontos; 4 votos

Park Chanwook

9 Oldboy
Oldboy,
Park Chanwook, 2003
63 pontos; 4 votos

Ron Perlman

8 Hellboy
Hellboy,
Guillermo del Toro, 2006
63 pontos; 5 votos

Thora Birch Scarlett Johansson

7 Mundo Cão
Ghost World,
Terry Zwigoff, 2001
72 pontos; 5 votos

Hugh Jackman

6 X-Men 2
X2: X-Men United,
Bryan Singer, 2003
81 pontos; 5 votos

Robert Downey Jr.

5 Homem de Ferro
Iron Man,
Jon Favreau, 2008
97 pontos; 7 votos

Tobey Maguire

4 Homem-Aranha 2
Spider-Man 2,
Sam Raimi, 2004
121 pontos; 8 votos

Viggo Mortensen Maria Bello

3 Marcas da Violência
A History of Violence,
David Cronenberg, 2005
123 pontos; 7 votos

Heath Ledger

2 Batman – O Cavaleiro das Trevas
The Dark Knight,
Christopher Nolan, 2008
134 pontos; 8 votos

Christopher Reeve

1 Superman – O Filme
Superman,
Richard Donner, 1978
138 pontos; 8 votos

Além de mim (@chicofireman), os dez eleitores foram recrutados pelo Twitter: @ailtonmonteiro, @cadusimoes, @deniscp, @doni, @flaviagasi, @filipefurtado, @hectorlima, @marcelohessel, @pablocasado e @tcordeiro. Cada votante mandou seus dez preferidos, na ordem. Foram atribuídos 20 pontos para o primeiro, 19 para o segundo e assim por diante até o décimo ganhar 11 pontos. O número de pontos foi o primeiro critério de classificação. O número de votos foi usado para desempates. Ao todo, 38 filmes receberam pelo menos um voto.

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Alexandria

Alexandria

Alexandria, o último longa do espanhol Alejandro Amenábar, é uma super-produção histórica feita à moda antiga, nos moldes do que Hollywood fazia nos anos 50 e 60, tanto na grandiosidade quanto na burocracia. O diretor adota um tom didático para seu filme sobre a filósofa Hipátia e a chegada do Cristianismo em Alexandria, berço do conhecimento no Egito, tentando desenhar o embate ciência x fé, enquanto idealiza sua heroína.

Os cenários são suntuosos e há efeitos visuais por toda parte, mas visual é bem resolvido pode parecer “limpo” demais, outro ponto em que se assemelha a superproduções de quatro ou cinco décadas atrás. No entanto, o fato de um filme desse porte ser uma produção espanhola já garante a curiosidade. Rachel Weisz encarna o espírito do filme e assume a protagonista em tom professoral. Os novatos Oscar Isaacs e Max Minghella (filho de Anthony Minghella) são seus principais alunos. Estão entre o correto e ordinário mesmo em suas cenas mais importantes.

O final da história real, violento, ganha uma licença poética até bonita que ameniza a violência, mas que não diminui a maneira convencional como Amenábar conduz a história. Pelo contrário, reforça a mão conciliadora do cineasta. Embora direcione a narrativa para este fim, intercalando a trama política às descobertas de Hipátia, Ágora não consegue dar a dimensão histórica da personagem, se perdendo na contextualização e nunca conseguindo se livrar do tom morno.

Alexandria EstrelinhaEstrelinha½
[Ágora, Alejandro Amenábar, 2009]

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Teatro: Cinema, de Felipe Hirsch

Cinema
 

Felipe Hirsch
 

Cinema

Felipe Hirsch sempre fez um teatro visual. A utilização de sobreposições, telões, projeções fez o diferencial de seus espetáculos. Em muitos casos, como em A Vida Cheia de Som e Fúria ou Memória da Água, a inserção de elementos visuais em cena é fundamental para o estabelecimento da linguagem do autor. Então, por qual motivo uma peça que se chama Cinema se afasta justamente dessa proposta? O novo espetáculo de Hirsch, um autor talentoso, é uma experiência cansativa e pouquíssimo visual como o título pode sugerir. Os quinze atores que integram o elenco se revezam, interpretando vários personagens, no cenário, que reproduz a plateia de cinema.

O trabalho ganhou publicidade porque tem no elenco a atriz Beatriz Bartú (a atriz da foto acima), que interpretou o bebê Heleninha na novela Bebê a Bordo.

O espectador da peça ocupa a função de tela de cinema. A permuta funciona na proposta, mas é meio ingênua – e enfadonha no geral. Hirsch opta pelo minimalismo, tanto no texto (essencialmente gags) quanto no visual. É uma espécie de O Baile, de Ettore Scola, versão teatro. Alguns momentos são engraçadinhos, mas nada funciona de verdade, embora o autor passeie pelos mais variados gêneros (até o gore é lembrado) e faça uma porrada de referências cinematográficas (a maioria, meio óbvia: Woody Allen, Godard e Buñuel, numa citação explícita a O Anjo Exterminador). Referências essas no áudio original de vários filmes. O resultado é mais curioso do que necessariamente bom.

Cinema EstrelinhaEstrelinha
[Cinema, Felipe Hirsch, 2010]

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Oscar 2011: apostas de abril

O Oscar foi outro dia e, pode procurar, já tem gente fazendo apostas para a premiação do ano que vem. A tradição manda começar as especulações em abril, quando muitas das produções que chegarão às telas ao longo do ano já foram anunciadas. Aí é só separar os filmes, atores, roteiros que mais têm perfil de Oscar, arriscar em alguns quesitos e fuçar as outras listas por aí. Nem sempre dá certo (muitos filmes são transferidos para o ano seguinte, outros cancelados, outros fracassam junto à crítica e ao público. Mas pra quem gosta disso, a brincadeira está só começando.

Mark Wahlberg David O, Russell
 

Leonardo Di Caprio Christopher Nolan
 

Nicole Kidman John Cameron Mitchell

filme

Another Year, Mike Leigh
Black Swan, Darren Aronofsky
The Fighter, David O. Russell
Get Low, Aaron Schneider
Inception, Christopher Nolan
The Kids Are Alright, Lisa Cholodenko
The King’s Speech, Tom Hooper
Toy Story 3, Lee Unkrich
The Tree of Life, Terrence Malick
The Way Back, Peter Weir

alternativas: Hereafter, Clint Eastwood, Ilha do Medo, Martin Scorsese, Rabbit Hole, John Cameron Mitchell, The American, Anton Corbjin, True Grit, Joel e Ethan Coen.

direção

Darren Aronofsky, Black Swan
David O. Russell, The Fighter
Peter Weir, The Way Back
Terrence Malick, The Tree of Life
Tom Hooper, The King’s Speech

alternativas: Christopher Nolan, A Origem, Martin Scorsese, Ilha do Medo.

ator

Colin Farrell, The Way Back
Colin Firth, The King’s Speech
James Franco, Howl
Mark Wahlberg, The Fighter
Robert Duvall, Get Low

alternativas: Johnny Depp, The Rum Diary, Ryan Gosling, Blue Valentine.

atriz

Anne Hathaway, Love and Other Drugs
Annette Bening, Mother and Child
Hilary Swank, Betty Anne Waters
Natalie Portman, Black Swan
Nicole Kidman, Rabbit Hole

alternativas: Diane Lane, Secretariat, Michelle Williams, Blue Valentine.

Colin Firth Tom Hooper
 

Colin Farrell Ed Harris Peter Weir
 

Robert Duvall Aaron Schneider

ator coadjuvante

Bill Murray, Get Low
Christian Bale, The Fighter
Ed Harris, The Way Back
Mark Rufaflo, The Kids Are All Right
Samuel L. Jackson, Mother and Child

alternativas: Chris Cooper, The Company Men, Tom Wilkinson, The Conspirator.

atriz coadjuvante

Barbara Hershey, Black Swan
Elle Fanning, Somewhere
Helena Bonham-Carter, The King’s Speech
Julianne Moore, The Kids Are All Right
Naomi Watts, Mother and Child

alternativas: Helen Mirren, Brighton Rock, Jessica Chastain, The Tree of Life.

roteiro original

Another Year
Black Swan
Get Low
Inception
Somewhere

alternativas: Blue Valentine, The Kids Are All Right.

roteiro adaptado

Brighton Rock
Love and Other Drugs
Rabbit Hole
The Rum Diary
The Way Back

alternativas: Ilha do Medo, True Grit.

animação

Como Treinar Seu Dragão
Despicable Me
Rapunzel
The Illusionist
Toy Story 3

Vou parar nas categorias principais porque ainda está meio cedo para apostar em fotografias, trilhas e filmes estrangeiros. Essas virão nas próximas rodadas.

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Chico Xavier

Chico Xavier

O cinema brasileiro industrial parece se resumir a dois tipos de filme: as comédias populares e as biografias de grandes personalidades. Ambas com forte herança televisiva, metiê de onde retiram patrocínio para as produções e profissionais para dirigir e, sobretudo, compor seus elencos. Geralmente, esse produto importado da TV é visto com maus olhos, mas o que esperar de um país em que a televisão, independentemente do caminho que levou a isso, se tornou de fato uma indústria enquanto o cinema comercial se viu perdido sem o patrocínio do estado, brigou com o público e, somente nos últimos anos, começou a desenhar uma identidade própria? O Brasil sempre teve sua vanguarda cinematográfica, mas suas tentativas de fazer cinema para as massas (Atlântida, Vera Cruz) morreram em algum momento.

O fato é que, naturalmente, esse novo cinema industrial enxergou na televisão um modelo a copiar para, não apenas ganhar dinheiro, mas sobreviver. Desde a década de 90, com a entrada da Globo Filmes no mercado, o cinema ganhou e perdeu. Perdeu porque uma corporação poderosíssima como a Globo trouxe vários vícios consigo (temas de apelo popular, linguagem palatável, pouca ousadia temática e formal e, aquele que deve ser o maior pecado entre todos, um certo desrespeito pela diferença entre os meios. Boa televisão não necessariamente significa bom cinema. A Globo também trouxe – ou consolidou as carreiras cinematográficas de – muitos de seus criadores. Nomes como Guel Arraes, Jorge Furtado, Jayme Monjardim e Daniel Filho entraram ou voltaram ao cinema. Para o bem e para o mal da nossa produção.

O caso de Daniel Filho talvez seja o mais particular de todos eles. Diretor de novelas desde os anos 60, tinha poucas experiências com o cinema. A mais famosa foi O Cangaceiro Trapalhão, de 1983, um dos filmes mais interessantes do quarteto comandado por Didi Mocó. Voltou à cena cinematográfica apostando num texto de um dos mais populares autores globais, Miguel Falabella – A Partilha, de 2001 – apoiado por um elenco de estrelas televisivas e, desde então, se alternou entre comédias escrachadas, como Se Eu Fosse Você e filmes, digamos, mais sérios, como A Dona da História e O Primo Basílio. O resultado sempre foi razoável, à exceção talvez deste último, bem fraco.

O fato é que Daniel Filho, que já tem hoje respeitáveis 72 anos, resolveu que seu negócio era o cinema e abandonou de vez a televisão. O outro fato é que ele carrega consigo até hoje – e sem remorosos – seus mais de trinta anos de serviços prestados à TV. Uma bagagem considerável que se garante imenso sucesso popular, como no caso de Se Eu Fosse Você 2, também confinava seu cinema a uma eterna dependência do modelo, dos vícios e das características de uma outra mídia. E foi sabendo disso, cheio de certezas pré-estabelecidas, que eu fui assistir a Chico Xavier, a cinebiografia que Daniel dirigiu sobre o médium mais famoso a baixar neste país. Já imaginei que a procura seria grande, mas não imaginava que o filme fosse levar 590 mil espectadores para o cinema em um fim de semana. Dei sorte e consegui um ingresso de primeira.

A cena que abre o filme, a preparação de Chico Xavier para uma entrevista (que ficou famosa) num programa de TV, já dá indícios dos cuidados do diretor em mostrar que a) não seria reverente ao retratado, pecado mortal de nove entre dez cinebios feitas no Brasil, e b) sabe muito bem que cinema é cinema e tevê é tevê. O personagem de Tony Ramos, mesmo sendo real, serve como persona cinematográfica para Daniel Filho, que se declara ateu e lança ali suas incertezas sobre espiritualidade e afins. Este mesmo personagem, justamente um diretor de um programa de TV, serve também para que o cineasta brinque com a montagem de uma forma completamente cinematográfica, mesmo que, teoricamente, dentro dos mecanismos televisivos.

A entrevista serve de base para o roteiro de Marcos Bernstein, um dos autores de Central do Brasil, servindo de gancho para os flashbacks, em ordem cronológica, que contam a vida do médium. Embora Daniel Filho praticamente crie uma vinheta, incômoda, para a entrada dessas pequenas narrativas, o recurso funciona com correção e o que se vê é um modelo clássico de biografia que ganha respeito por sempre tratar a história com sobriedade, tentando deixar o personagem falar por si, sem defendê-lo ou muito menos reverenciá-lo, o que diminui o caráter oficialesco presente em filmes como Cazuza – O Tempo Não Pára, por exemplo.

As cenas da infância de Chico Xavier são, talvez, a parte mais bem resolvida do filme já que, apesar de já conterem muito do caráter espiritual da coisa toda, não dependem exclusivamente desse universo, o que deixa Daniel Filho fazer o trabalho de biógrafo de maneira simples e bem resolvida. O ator Matheus Costa foi uma escolha e tanto. O garoto, muito bem dirigido, consegue se manter intacto diante de tanta possibilidade de se render ao dramalhão. As cenas com maior potencial de se perder a mão, quando o garoto contracena com a mãe, vivida por Letícia Sabatella, são as melhores. A última, em especial, tem um movimento de câmera bonito, inteligente e essencialmente cinematográfico.

O Chico Xavier vivido por Ângelo Antônio talvez seja o mais delicado e, por isso mesmo, o que funcione menos dentro do filme. O ator está esforçado, embora às vezes escorregue no excesso de doçura, o que não chega a compremeter o resultado final, já que ele assume o personagem numa época em que seus “poderes” se manifestam mais evidentemente e quando ele se torna uma pessoa pública. A melhor cena desta fase é aquela em Chico exorciza um espírito do corpo da irmã. No entanto, é nesse momento em que surge a figura de Emmanuel, o guia espiritual do médium, e o maior senão do filme. O tom de sobriedade fica comprometido porque um papel-chave como este ganhou um ator limitado e um figurino óbvio, batido, que evoca uma Obi Wan Kenobi do reino dos céus.

Nelson Xavier, o Chico mais velho, merece todas as piadas sobre sua interpretação “quase espírita” do personagem. Difícil pensar num ator mais perfeito para o papel. Nelson parece ter estudado profundamente o tom de voz, os gestos e movimentos de Chico e os reproduz sem que isso pareça cópia ou imitação. Sempre bastante seguro, garante credibilidade para todo o projeto, que é, sem dúvida, um projeto bastante feliz em tratar de um tema tão delicado, a crença, sem determinismos ou oportunismos, mas com uma consciência absoluta de que se está fazendo cinemão, cinema industrial de qualidade. Parece que Daniel Filho foi o primeiro a chegar realmente lá.

Chico Xavier EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Chico Xavier, Daniel Filho, 2010]

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Sede de Sangue

Sede de Sangue

A cada filme que passa, Chan-wook Park precisa me provar que é realmente um bom cineasta. Desde que dirigiu o neoclássico Oldboy, de 2003, o coreano já fez três filmes – e nenhum deles chegou aos pés de seu trabalho mais famoso. Sede de Sangue, que estreia no Brasil com quase um ano de atraso, é um filme decepcionante. Não dá pra acreditar que Park tenha tomado decisões tão questionáveis com um plot tão interessante (um padre vampiro). O roteiro não tem a medida certa para dosar o humor negro que o filme pretende tomar para si. E o resultado é que, para cada cena boa – e há algumas ótimas, como a sequência final ou o momento em que o protagonista resolve “fazer” uma companheira – há umas três ou quatro cenas ruins, em que o diretor abusa do pastelão – sem parcimônia – e o resultado fica desequilibrado. O filme tem uma bela embalagem visual e sonora, marca do cineasta, mas na maior parte de sua (longa) duração é oco.

Sede de Sangue EstrelinhaEstrelinha
[Thirst, Chan-wook Park, 2009]

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Os EUA contra John Lennon

John Lennon Yoko Ono

O material recolhido pelos diretores-roteiristas de Os EUA contra John Lennon é muito bom, sejam as imagens e entrevistas de arquivo, sejam os depoimentos-análises de gente que viveu o momento ou de personalidades dispostas a avaliar tudo aquilo. O fato é que fazer um filme sobre a perseguição do governo dos Estados Unidos contra o ex-beatle já é um fato, por si só, interessante e meritoso. No entanto, e não sei como poderia ser diferente, me pareceu faltar contraste. A presença de Yoko Ono, com uma boina a la cantorinhas novas da MTV que eu não sei o nome, dá um tom oficial meio incômodo ao filme. E se temos jornalistas que acompanharam o processo, ativistas que tiveram ligação com o casal e até ex-membros do governo Nixon, coletar depoimentos como o de Gore Vidal – por sinal, muito bom – não seria buscar legitimidade para o que deveria ser legítimo sozinho? Em todo caso, o registro histórico é surpreendente.

Os EUA contra John Lennon EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The U.S. Against John Lennon, David Leaf e John Scheinfeld, 2006]

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