Monthly Archives: agosto 2009

Anticristo

Anticristo

A sequência que inaugura o novo filme de Lars Von Trier, em tom onírico, parece acontecer em outra dimensão. É um belo exemplo de como o cineasta, quando quer, consegue ter um domínio completo sobre as imagens que utiliza. O prólogo apresenta os personagens e que engatilha a trama, que o diretor afirma ter sido criada num momento de depressão. Von Trier usa a história de um casal que acaba de perder um bebê para o que pretende ser uma investigação sobre o comportamento humano, a maldade inerente ao homem. Não deixa de ser uma extensão do que o dinarmaquês tenta fazer na série iniciada com Dogville (2003), inclusive na utilização de uma fórmula estética radical. A não-direção de arte dá lugar às imagens repulsivas. É como se o filme fosse um gore macabro.

O principal problema que eu tenho com o filme é como essa investigação sobre o mal parece mais do mesmo, dentro e fora da obra do diretor. Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol, sem cenas de mutilação, parece muito mais forte ao pesquisar comportamentos psicóticos, para ficar em apenas um exemplo. Quando Von Trier recorre a cenas que parecem longas ou arrastadas demais, incomoda pelo lado errado. Não cria uma repulsa ou uma reação ao comportamento dos personagens, mas à imagem pela imagem. O barulho pretendido não chega nem na metade. Um filme como esse deveria cobrar do espectador um posicionamento, mas não é tão difícil se distanciar do longa. Em todo o caso, Lars Von Trier é um cineasta que desperta paixões. Então, é obrigatório assisti-lo.

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[Antichrist, Lars Von Trier, 2009]

Filmes em cartaz: À Deriva, Aquele Querido Mês de Agosto, Arrasta-me para o Inferno, Brüno, Budapeste, Desejo e Perigo, Entre os Muros na Escola, A Era do Gelo 3, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, Horas de Verão, Inimigos Públicos, A Partida, Se Beber, Não Case, Se Nada Mais Der Certo, Transformers: A Vingança dos Derrotados, Veronika Decide Morrer.

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Arrasta-me para o Inferno

Allison Lohman, Lorna Raver

Sam Raimi renasceu dos infernos. Depois de sete anos completamente dedicado aos filmes do Homem-Aranha, o cineasta-mor do terror oitentista voltou ao reino das trevas com um dos trabalhos mais deliciosos (e assustadores) dos últimos tempos. Arrasta-me para o Inferno tem um grande diferencial em relação a seus primeiros filmes. Desde que terminou a trilogia Evil Dead, Raimi se transformou num grande diretor, virou um exemplar administrador de cenas e de interpretações. Então, além da criatividade e da brincadeira, maiores armas de Raimi, seu novo filme tem substância.

Isso é fundamental para o resultado final de Arrasta-me para o Inferno. O filme recicla (e manipula) zilhões de clichês do cinema de terror, mas tudo é tão bem amarrado, tem uma embalagem tão perfeita, que nada parece velho e, sim, nostálgico. Lorna Raver, excelente em sua caracterização da velha cigana, mesmo com sua participação reduzida, é o grande nome do filme. Suas cenas ganham atenção especial de Raimi, que cuida de cada detalhe, como a dentadura na primeira aparição da atriz no filme, o lenço amaldiçoado e até a cena do caixão.

Raimi é o rei do susto. E, convenhamos, isso é básico para esse gênero. Há pelo menos uma meia dúzia de grandes sustos no longa. Um deles me fez pular na cadeira. Tudo funciona até mesmo quando o perigo é insinuado, como na cena do vendaval que invade a casa. Ao mesmo tempo, ele não abre mão de soluções trash e não poupa a pobre Allison Lohman da sessão melequeira. Esse resgate das raízes, a maneira como Raimi converte os lugares comuns e o final truqueiro – e saboroso – que reproduz a lógica dos filmes de terror fazem desta uma das melhores maldições do ano.

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[Drag Me To Hell, Sam Raimi, 2009]

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Se Nada Mais Der Certo

Se Nada Mais Der Certo

Foi esquisito quando eu percebi, quando eu me dirigia ao elevador, que as duas únicas pessoas que estavam na mesma sessão em que eu vi Se Nada Mais Der Certo, faziam exatamente o mesmo. Seríamos só nós três, ilustres desconhecidos. Meus colegas eram um senhor de uns 60 anos e um rapaz, na mesma faixa etária que eu, talvez um pouco menos, com uns 30. Entramos no elevador e o silêncio imperou. Os dois iriam para o mesmo andar de garagem. Eu desceria antes, no térreo. Fiquei imaginando que todos os três gostariam de saber o que os outros haviam achado do filme. Mas, pelos olhares baixos, dispersos, parecia que a viagem seria silenciosa.

Ledo engano. Uma peripécia do destino mudaria o final desta história. Assim que a porta do elevador abre, faço o movimento para descer, mas percebo logo em seguida que ainda estava no mesmo terceiro andar do qual queria sair. O elevador havia subido sem ninguém perceber. E voltou para seu andar de origem. Foi então que o senhor acabou com o silêncio: “o que aconteceu?”. Respondi o que achava ser a explicação, mas a deixa havia sido dada: “você estava na sessão desse filme…?”. Nem deixei ele completar a frase. Tudo o que queria tinha sido me dado pelo destino. “Estava sim”. E ele emenda, perguntando se eu havia gostado. “Nossa, adorei”.

O senhor parecia ter arrumado um cúmplice. Falou que tinha gostado bastante, mas que ficou com receio de comentar isso porque nunca se sabe o que as outras pessoas podem achar. O elevador chega ao térreo. Um “boa noite” finaliza a conversa. A opinião do meu colega de plateia tinha me deixado feliz. Mas cheio de dúvidas. O que me fez gostar tanto do filme de José Eduardo Belmonte? Por que Se Nada Mais Der Certo tinha tantas possibilidades de ser o meu filme do ano? Pela terceira vez, eu via um filme do cineasta e ficava sem saber explicar direito o porquê de eu gostar tanto dele. Desta vez, com um agravante. Eu havia achado o filme maravilhoso.

Comecei a revirar meu baú de memórias e buscar minhas impressões sobre a cinematografia do brasiliense. A Concepção e seu grupo alternativo anárquico-guerrilheiro tem exatamente o perfil de filme que eu odeio, mas Belmonte, além de defender suas ideias com uma honestidade latente, comanda o longa de uma maneira tão sem afetações – e com excelência técnica, sobretudo na montagem – que o resultado me parecia muito acima do que eu poderia esperar. Meu Mundo em Perigo, visto recentemente, também havia me surpreendido. Um encontro entre dois estranhos num hotel de quinta se transformou num exercício de análise do momento atual da vida de cada um dos personagens. Algo como um Encontros e Desencontros mais denso.

Se Nada Mais Der Certo segue em outra corrente. Não faz par nem com um, nem com outro, mas forma um conjunto bastante coerente com os dois. Na temática, o filme se aproxima mais de dois “primos pobres”, Crash e Babel, dois dos piores filmes desta década. Os longas de Paul Haggis e Alejandro Gonzalez Iñarritu, sob a égide de mostrar a degradação moral e ética do homem, desrespeitam seus personagens com roteiros maniqueístas e simplistas que mostram a corrupção como inerente à alma humana, produto do meio. Belmonte segue um caminho contrário: seus três protagonistas estão mergulhando num mundo marginal, criminoso mesmo, mas suas integridades nunca são questionadas.

Ao diretor não interessa investigar a perda de parâmetros de seus personagens. Suas motivações estão claras – sustentar a família, sustentar a si mesmos. Tudo é muito prático e pragmático. Mas nunca simplista. Pelo contrário. Belmonte talvez seja hoje o cineasta mais político do Brasil. Seus filmes transbordam uma ideologia renovada, consciente, nunca assumem o panfleto como forma de manifestação. Não acusa por acusar, não defende por defender. O movimento dos personagens é a expressão política do cineasta. Uma expressão tão pura que ganha a voz dos Saltimbancos, amarrando momentos cruciais da história. Mas essa atitude política nunca se resolve em si mesma. Belmonte equilibra sua manifestação política com um imenso respeito pelos personagens.

O diretor não os acusa com juízos de valores, nem os condena pelas mãos do destino, como fazem seus párias de temática semelhante. A ele interessa muito mais como os protagonistas irão se aproximar, interagir e como seu mundo será representado e redefinido a partir disso. O encontro é transformador para os três. Unidos, o jornalista (um Cauã Reymond impressionantemente maduro), o taxista (João Miguel sempre correto) e a traficante (Caroline Abras, arrebatadora) redescobrem afetos e inventam para si uma nova família. É ela em que eles apostam e usam como plataforma e porto seguro. Esta família dá novo sentido ao presente, conceito de tempo que parece imperar no filme embora o tom seja o da nostalgia vaga. A família que se forma é a maior atitude política de Belmonte. É quando o cineasta dá um novo sentido ao “todos juntos somos fortes, não há nada a temer”.

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[Se Nada Mais Der Certo, José Eduardo Belmonte, 2008]

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Aquele Querido Mês de Agosto

Aquele Querido Mês de Agosto

Depois de um primeiro semestre cambaleante, o circuito começa a dar sinais de vida. Amantes estreia na semana que vem e Deixa Ela Entrar e À Prova de Morte têm datas para entrar em cartaz. Mas um filme que chega hoje aos cinemas dificilmente terá um oponente no quesito “filme mais original do ano”. Aquele Querido Mês de Agosto é um misto de documentário e ficção, que apresenta uma vila em Portugal – com seqüências que lembram um filme de Eduardo Coutinho, inclusive ao se revelar o processo por trás seja do documentário, seja do filme de ficção. A primeira parte, com ênfase na coleta de personagens, é genial, principalmente no equilíbrio entre o humor e o drama. A transição para o que deveria ser o filme em si, a historinha, mantém a graça, mas perde um pouco em ritmo – há um excesso no uso de músicas, embora algumas delas sejam deliciosas e o filme retrate uma banda. Mas a resolução recupera o frescor original e o filme fecha com um inteligente e bem humorado momento de “discussão de relação” entre a equipe de filmagem. Realmente, um filme único.

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[Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes, 2008]

P.S.: Brüno, a cópia que Sacha Baron Cohen fez de Borat, também estreia hoje.

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John Hughes

John Hughes
 

John Hughes
 

John Hughes

Esta quinta-feira trouxe uma notícia particularmente triste. O cineasta e roteirista John Hughes morreu, aos 59 anos, vítima de um infarto. Hughes vai ser lembrado para sempre por ter concebido Curtindo a Vida Adoidado, o clássico máximo do cinema pop dos anos 80, o retrato da década, mas sua importância é muito maior. Foi ele o primeiro a conseguir traduzir o adolescente de sua década, a década da falta de perspectivas. Foi ele que deu substância a esse jovem perdido. Sem Hughes, qualquer pessoa que foi jovem nos anos 80 está órfão.

O cineasta dirigiu apenas oito filmes em seus quase trinta anos de carreira. Seu último longa já tem 18 anos de idade. Desde então, permaneceu atuando como roteirista e produtor. Mas, mesmo longe dos holofotes, sua importância enquanto filmador é imensa. Seu melhor filme é o genial O Clube dos Cinco (1985), em que desenha com carinho e precisão cinco dos maiores estereótipos da década e os coloca em conflito, num ambiente fechado. Um filme inesquecível, que ajuda a entender um grupo de pessoas que, até então, não tinham tradução no cinema norte-americano, os adolescentes.

Esse filme metaboliza a investigação do mundo teen que ele lança em Gatinhas e Gatões (1984). Os dois filmes são estrelados pela maior musa adolescente dos anos 80, Molly Ringwald, que entre um e outro, fez A Garota de Rosa Shocking, escrito por Hughes. Como roteirista, ele deixou, além dos filmes escreveu, muitos outros, entre eles Alguém Muito Especial e Esqueceram de Mim, que catapultou Macaulay Culkin ao estrelato. Além de Molly Ringwald e Mac, Hughes lançou ou “bombou” gente como Matthew Broderick, Anthony Michael Hall, Judd Nelson e Ally Sheedy.

É curioso perceber que quando os 80 acabaram, Hughes começou a se recolher. A Malandrinha (1991) é seu último filme como diretor. E certamente o pior. Talvez porque seu cinema só fizesse sentido naquele contexto, naquela década. Talvez porque sua trilha fosse Tears for Fears e Simple Minds. Talvez porque seu trabalho fosse datado, mas não no sentido desagradável da palavra. Seu cinema representava um período, uma época, uma maneira de encarar o mundo.

Os filmes de Hughes como diretor:

Gatinhas e Gatões EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1984)
O Clube dos Cinco EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1985)
Mulher Nota Mil EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1985)
Curtindo a Vida Adoidado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1986)
Antes Só do que Mal Acompanhado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1987)
Ela Vai Ter um Bebê EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1988)
Quem Vê Cara, Não Vê Coração EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1989)
A Malandrinha EstrelinhaEstrelinha (1991)

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