Monthly Archives: julho 2009

Top 5: piores do semestre 2009

O primeiro semestre de 2009 foi fraco para o cinema. Fazer uma lista de melhores foi complicado, mas mais difícil foi fechar uma relação de piores. A competição era forte demais. Os cinco campeões estão aqui:

Scott Derrickson

5 O Dia em a Terra Parou
The Day The Earth Stood Still
Scott Derrickson, 2009

Os cineastas que se propõem a refilmar um material clássico deveriam assistir a este filme. Tudo o que não deve ser feito está no longa de Scott Derrickson. Se o original trazia um clima b completamente entendido pelo ótimo Robert Wise, o remake tenta dar credibilidade à história, tornando o filme, um filme sério. Mas O Dia em que a Terra Parou parece apenas uma comédia involuntária. Keanu Reeves, robótico como sempre, quer emprestar sua falta de expressão a seu Klaatu, mas só consegue provocar risos. O que Jennifer Connelly resolveu fazer aqui é o grande enigma.

Frank Miller

4 The Spirit
The Spirit
Frank Miller, 2009

Frank Miller que me perdoe, mas, numa época em que os filmes baseados em HQ ganham consistência, seu trabalho é um dos mais ocos. Pra começar, o longa é completamente escorado em seu visual e isso é um problema. É um sub-produto que pega carona no impacto que outros filmes tiveram. E aí surgem mais dois problemas. O primeiro: não há mais novidade. O segundo: em boa parte de seus mais de 100 minutos, o visual do filme é de gosto bastante duvidoso. Miller parece não saber como controlar essa opção pelo fake e, talvez na intenção de se aproximar do humor de Will Eisner, entre o sarcástico e o inocente, conduz os atores em interpretações farsescas que quase nunca funcionam. Tudo no lugar errado.

Michael Bay

3 Transformers: A Vingança dos Derrotados
Transformers: Revenge of the Fallen
Michael Bay, 2009

O nome de Michael Bay nos créditos já é garantia de gosto duvidoso, embora seus filmes geralmente sejam mais massacrados do que merecem. Mas Transformers: A Vingança dos Derrotados impressiona: é um complexo tão monstruoso de equívocos, clichês e decisões estúpidas que fica difícil acreditar que não se esteja sonhando – ou tendo um pesadelo – no cinema. Bay não se conformou em fazer um filme chato de carros, com perseguições mais chatas ainda, filmadas de forma mecânica. Ele resolve dar corpo à história, evocando origens ancestrais e se complica todo. E o pior: o humor de que Bay tenta impregnar o filme é insuportável. A personagem da mãe poderia ter saído de Férias do Barulho.

Stephen Daldry

2 O Leitor
The Reader
Stephen Daldry, 2008

Os primeiros minutos de O Leitor indicam que o filme seguiria a linha do comodismo em adaptar obras literárias, sempre apostando que a embalagem vende o ordinário como mercadoria de luxo. Daldry tenta dar volume ao material, sustentando a trama com uma série de cenas de erotismo light e tentando embasar um misterinho pontual (que também serve para que o espectador chegue ao momento da revelação dizendo: “eu já sabia”). Se terminasse assim, seria apenas mais do mesmo, raso e frustrante. Mas O Leitor vai além: ele tenta ser um filme importante.

Somos repentinamente jogados num drama pós-Holocausto, que consegue destruir tudo o que Kate Winslet faz na primeira metade do filme para que sua personagem fosse menos óbvia. A atriz rapidamente é engolida pela trama que se pretende rica e significativa, que mergulha numa desastrosa série de soluções de roteiro. No meio de toda essa sucessão de abobrinhas (recheadas de maquiagem), vem o já citado momento da grande revelação, que a metade mais esperta da platéia já havia descoberto uns quarenta minutos antes. Antes da cena final, inexpressiva, resolve-se, pela primeira vez, refletir sobre os atos da protagonista, mas isso vem na forma de uma sequência de bate papo mal escrita e mal montada.

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Zona Sul

Zona Sul

Este filme boliviano foi a maior surpresa do cinema sul-americano nos últimos anos. A primeira impressão é de que o longa esbarraria em suas próprias pretensões: todas as cenas são filmadas em plano-sequência, sem cortes e com movimento, retratando cenas do cotidiano de uma família que mora numa mansão num bairro rico de La Paz. Os personagens parecem estereotipados, mas o roteiro se revela aos poucos, num exercício de sutileza, que, a cada cena, elege um ponto de partida para examinar a situação política do país, mas sem nunca colocá-la em primeiro plano. Essa narrativa circular, inteligente, justifica o projeto estético que se revela um projeto de linguagem. Filmaço.

Zona Sul EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Zona Sur, Juan Carlos Valdivia, 2009]

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Top 10: melhores do semestre 2009

Metade de 2009 já passou e deixou alguns filmes dignos de (boa) nota. Meus dez favoritos estão relacionados aqui. Pensei em listar uns vinte, mas não consegui chegar aos quinze, forçando um pouco a barra. Então, parei nos dez mesmo. Agora é esperar que a segunda metade do ano traga filmes ainda melhores e que as distribuidoras tomem vergonha na cara e lancem Deixe Ela Entrar, À Prova de Morte e Sonata de Tóquio.

Man on Wire

10 O Equilibrista
Man on Wire
James Marsh, 2008

O Equilibrista é um documentário à moda antiga, sem o ranço atual de fazer o narrador interferir na narrativa. É essa simplicidade que faz o espectador se envolver com sua história, naturalmente atraente. O grande trunfo do diretor foi limitar as entrevistas do personagem principal porque sua tendência a se considerar um astro poderia comprometer o filme.

Há Tanto Tempo que te Amo

9 Há Tanto Tempo que te Amo
Il y a Longtemps que je t’Aime
Philippe Claudel, 2008

Claudel constrói sua história com simplicidade, evitando a maneira mais fácil de se contar um segredo. O roteiro impressiona porque, ao mesmo tempo em que apresenta um complexo nível de elaboração ao revelar o passado da protagonista em goles mínimos, quase que por acaso, consegue fazer essas revelações brotarem com uma espontaneidade invejável.

Craig Gillespie

8 A Garota Ideal
Lars and the Real Girl
Craig Gillespie, 2007

Primeiro: mesmo com um tema arriscado, não trata o espectador de maneira simplista, fugindo da decisão fácil de partir para a comédia idiota, que anda na moda, e evitando ao mesmo tempo outro lugar comum do cinema indie, um certo namoro com o grotesco, tentando vender o filme pelo esquisito, como faz boa parte da produção independente.

Frost/Nixon

7 Frost/Nixon
Frost/Nixon
Ron Howard, 2008

Howard estrutura seu longa como um filme documental, em ordem cronológica devidamente explicitada e com intervenções em que os atores, na pele de seus personagens, avaliam e explicam contextos e bastidores. Nada é exatamente original, mas cada parte funciona perfeitamente e resulta num filme coordenado com segurança e um talento inédito ao diretor.

Gus Van Sant

6 Milk
Milk
Gus Van Sant, 2008

A estrela do filme é o roteiro. O novato consegue não ser panfletário ao defender um militante gay iconizado. O tratamento dá a Milk um espírito universal. O trabalho de Sean Penn, por sinal, é comovente. Ele consegue equilibrar a fragilidade do protagonista em sua vida doméstica com os arroubos de fortaleza de sua persona pública.

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Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Esta é a quarta vez que eu escrevo sobre um filme do Harry Potter neste blogue. Confesso que gosto (ou mais ou menos) de todos eles, mas, embora eu ainda ache Harry Potter e o Cálice de Fogo o mais fraco destes quatro filmes comentados, confesso que saí um pouco decepcionado do cinema. O novo Harry Potter e o Enigma do Príncipe perde principalmente quando comparado ao longa anterior, que marcava a estreia de David Yates no comando da série.

Yates foi o diretor que melhor entendeu o universo de J.K.K. Rowlins. Foi ele quem melhor mesclou o respeito à mitologia e o desenvolvimento dos personagens com a habilidade de seduzir o espectador com os avanços cronológicos da história e com cenas filmadas excepcionalmente. Harry Potter e a Ordem da Fênix é, de longe, o filme mais bem dirigido da série. O único que verdadeiramente produziu encantamento. Não é um filme de ação, pelo contrário, tem um ritmo bem mais tranquilo, mas suas sequências mais, digamos, animadas são de tirar o fôlego (em especial aquela que abre o filme).

No novo longa, Yates opta pela elaboração do cotidiano dos personagens, com pouquíssimo material novo acrescido à mitologia. O Enigma do Príncipe parece mesmo apenas ter a função de ponte entre A Ordem da Fênix e os filmes-gêmeos baseados no último livro da série. Trinta minutos já dariam conta de fazer essa transição. No entanto, mesmo significando pouco para a cronologia, o filme tem um trunfo que o faz valer a pena: David Yates. O diretor conduz a trama com a mesma mão do filme anterior, embora sem a mesma excelência. Isso deixa o material mais encorpado.

Sem muito o que fazer, o cineasta mira num mistério sem grandes consequências, que lança dúvidas sobre alguns personagens, e gera algumas das melhores cenas do filme. Cenas filmadas com a competência habitual de Yates para o visual que ajudam a estabelecer a tensão de que a história carece. Mesmo as cenas de humor, ganham um contorno simples e afetivo, provavelmente por causa da intimidade de Yates com os personagens – ele é o primeiro diretor que comanda dois filmes da série desde Columbus.

O roteiro também centra fogo nos momentos mais cotidianos que remetem aos primeiros filmes, mas que, de quebra, elaboram a aproximação entre os casais e ajudam a transformar Hogwarts numa high school. É como se, já que não pode antecipar o que realmente importa, Yates resolvesse deixar os personagem mais desenvolvido para o desafio final. Mas, curiosamente, essa opção não vem acompanhada por grandes interpretações. O melhor no filme é Alan Rickman, com um humor pontual, mas seu personagem ganha pouquíssimo espaço na tela.

Estranhamente, embora este filme pareça dar mais tempo para trabalhar os personagens, o sub-aproveitamento aqui parece ainda mais grave que nos últimos filmes. Os personagens como o da professora Minerva, Hagrid, Bellatrix Lestrange e Draco Malfoy, este bastante importante para a trama, são mal aproveitados. Até Ronny e Hermione, que praticamente dividiam as cenas mais importantes com Harry nos últimos filmes, ficaram para trás, só ganhando destaque em momentos cômicos. Mesmo assim o filme sai no positivo. Talvez porque David Yates sabe bem como embalar um filme, talvez porque embora nunca seja memorável, Harry Potter e o Enigma do Príncipe é um aperitivo irresistível.

Um top para a série:

1 Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007)
2 Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004)
3 Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009)
4 Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005)
5 Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001)
6 Harry Potter e a Câmera Secreta (2002)

Harry Potter e o Enigma do Príncipe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Harry Potter and the Half-Blood Prince, David Yates, 2009]

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SP Terror: Mangue Negro e Eden Log

Mangue Negro

Mangue Negro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mangue Negro, Rodrigo Aragão, 2008]

Mangue Negro é um achado. O primeiro longa do capixaba Rodrigo Aragão é, basicamente, um filme de zumbis levado a sério, mas ecoa influências variadas, desde o Sam Raimi de A Morte do Demônio até os primeiros anos de David Cronenberg. Isso sem perder a cota de humor. Aragão busca mostrar que o projeto é sério desde a cena de abertura, com um texto diferenciado, quase um monólogo teatral. Esse texto nos introduz a um tom em que, sem fazer panfleto ou discurso – e sem ser chato, sócio-ambiental. Aragão utiliza o apodrecimento o mangue como metáfora para falar sobre a degradação da sociedade (parte séria) e para o surgimento dos zumbis (parte divertida). Mesmo pesando a mão no trash a partir de sua segunda metade, Mangue Negro é um filme muito bem feito. A fotografia, mais do que bem cuidada, é esforçada e nos presenteia com efeitos e truncagens simples e impressionantes. A edição é ágil, sem recorrer aos maneirismos de praxe. Há inclusive uma cena em stop-motion. Na esfera sonora, a música, competente, foi cortesia de uma orquestra e a edição de som também surpreende. A maquiagem funciona muito em alguns momentos e deixa a desejar em outros, mas isso nunca é problema. A sequência da Preta Velha, que começa desmerecendo o filme rapidamente se torna um respiro delicioso no roteiro e revelando um personagem que, de tão mal interpretado, é apaixonante.

Franck Vestiel

Eden Log EstrelinhaEstrelinha
[Eden Log, Franck Vestiel, 2007]

O filme de Franck Vestiel tem uma proposta interessante: um homem acorda numa caverna e tenta descobrir quem é e o que está fazendo lá, mas para isso precisa enfrentar ameaças desconhecidas que vivem no escuro. O diretor tem cuidado em ambientar a história. A direção de arte e o desenho das criaturas são bem feitinhos, reproduzindo uma série de referências de filmes de ficção-científica. O desenrolar da história, talvez pelo tom excessivamente sério, não flui tanto assim, mas nunca deixa de manter o interesse. O grande senão é a fotografia. Vestiel joga todas as fichas na possibilidade de terror criada pelo claro-escuro, mas a iluminação não funciona nada na projeção em DVD, que desaparece com as nuances, desbota as cores e, muita vezes, deixa a tela num black total.

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