Monthly Archives: junho 2009

Top 5: mais superestimados do semestre 2009

David Fincher

5 O Curioso Caso de Benjamin Button
The Curious Case of Benjamin Button
David Fincher, 2008

David Fincher sempre dividiu opiniões, mas depois de Zodíaco parecia ter caído nas graças de um público inteligente e da crítica que odeia Clube da Luta. Tudo era novo: a narrativa, a câmera belíssima, a temática. Benjamin Button seria a prova dos nove. E Fincher passou no teste: sua adaptação do conto fantástico de F. Scott Fitzgerald foi reconhecida no Oscar (11 indicações) e terminou elogiada por quase todo mundo. Mas não é bem tudo isso. O diretor adota um tom que, se não cai no melodrama fácil, chega a ser apático em muitos momentos. O filme dura mais do que deveria e Brad Pitt nem fede, nem cheira.

Veredito: sem sal, mas tem seus momentos.

Clint Eastwwod

4 A Troca
Changeling
Clint Eastwood, 2008

Basta Clint Eastwood ligar a câmera para chamarem seu novo filme de obra-prima. Às vezes, ele é (Gran Torino é, por exemplo). Outras vezes, está bem longe disso. A Troca não é um filme ruim, mas tem umas falhas imperdoáveis. A primeira é a montagem. As duas linhas narrativas funcionam bem, mas separadamente. Quando se juntam, enfraquecem. A cena mais importante do filme, em que um garoto revela a existência de um crime, simplesmente não funciona porque o menino é mal dirigido e não consegue dar credibilidade à sequência. Em outro momento, quando John Malkovich fala para Angelina Jolie, em boa performance, sobre a corrupção da polícia, o diálogo é ilustrado por uma “reconstituição” da ação dos policiais. Tipo assim, “Linha Direta”.

Veredito: básico, poderia ser melhor.

Stephen Daldry

3 O Leitor
The Reader
Stephen Daldry, 2008

Alguém me explica o que é que esse O Leitor tem para ser “tão bom”, como muita gente acha? Eu saí do cinema certo de que vi um dramalhão de quinta, que ainda tem a audácia de querer ser um filme importante, se apoiando num tema que abala geral, o Holocausto. Melhor seria ter parado no soft porn dos primeiros minutos, mas Stephen Daldry resolve levar a fundo sua trama maniqueísta, abarrotada de clichês e com um pequeno grande mistério mais fácil de se descobrir do que o Geninho no final do desenho da She-ra. A cena final, que pretende encerrar o filme com chave de ouro, ajuda a afundar tudo. E Kate Winslet, convenhamos, está caricata e mal maquiada.

Veredito: sofrível.

Matheus de Souza

2 Apenas o Fim
Apenas o Fim
Matheus Souza, 2008

Ouvimos muita besteira sobre este Apenas o Fim. Será que citar o Super Mario Bros., a Vovó Mafalda e mais uns 7 quilos e meio de referências representa uma geração? Será que fazer um filme de D.R., todo no bate-papo, basta para ser comparado à nostalgia sóbria de um Antes do Pôr-do-Sol ou ao repertório de experiências dos filmes do Domingos Oliveira? Bem, o longa do Matheus Souza é imensamente simpático, fácil e gostoso de assistir, só não é a salvação do cinema nacional. No mínimo uma pausa para respirar e dar umas risadinhas.

Veredito: bonitinho, mas ordinário.

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Quatro clássicos

Gene Kelly e Stanley Donen
Cantando na Chuva EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Singin’ in the Rain, Gene Kelly e Stanley Donen, 1952

Eu sempre revejo Cantando na Chuva com a esperança de achar defeitos porque é bem óbvio considerar este filme uma obra-prima. Mas acho francamente impossível. Continua sendo, na minha opinião, o filme que melhor falou sobre o cinema, ainda é o melhor musical já feito (com um punhado de números geniais) e, mesmo tendo uma produção caprichada, não perdeu um certo espírito independente, de provocação. Gene Kelly e Stanley Donen caçoam do cinema comercial hollywoodiano dos anos 20 ao mesmo tempo em que se empenham para mostrar como aconteceu a maior revolução da história dos filmes. Make ‘em Laugh, minha música favorita, traz um Donald O’Connor inspiradíssimo. Mas em que cena ele não está assim? O’Connor, sem fazer força nenhuma e mesmo sob a sombra imponente do ditadorzinho que dizem que Kelly era, passa da condição de coadjuvante de luxo para co-protagonista num piscar de olhos. É um dos personagens mais adoráveis que eu já vi. E com Kelly e Debbie Reynolds forma uma das santíssimas trindades do cinema.

Francis Ford Coppola
Drácula de Bram Stoker EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Bram Stoker’s Dracula, Francis Ford Coppola, 1992

Esse Drácula é um filme tão estranho que seria impossível que não fosse a belezura que é. Francis Ford Coppola foi apresentado ao projeto por Winona Ryder (que faria o filme para a TV) e resolveu transformá-lo numa obra única. Não é exagero. Ainda que seja uma história de amor de proporções gigantescas, o filme de Coppola é uma homenagem à história do terror e à história do cinema. Seus acertos são inúmeros: da concepção visual estilosa à trilha quase macabra até a escalação de Gary Oldman, em seu personagem perturbado mais convicente, e um inspirado Anthony Hopkins, que dá um tom sarcástico e alucinado a seu Van Helsing. Mas o que faz de Drácula um filme especial é, sem dúvida, como Coppola o constrói como um filme de horror à moda antiga, com truncagens e efeitos visuais quase feitos à mão que criam um constrate provocante com a grandiosidade da história e da produção. Só eu não sabia (ou lembrava) que a Monica Bellucci é uma das noivas do príncipe das trevas?

Martin Scorsese
A Época da Inocência EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
The Age of Innocence, Martin Scorsese, 1993

Confesso que esse filme não me empolgou tanto quando o vi no cinema, há distantes 15 anos. Mas essa revisão, que vem sendo adiada há tempos, derrubou minhas memórias. Longe do seu habitual cenário, o diretor se debruça sobre uma clássica história de amor impossível, de época, adaptando um texto feminino (Edith Wharton). Nada menos óbvio. Nada mais adequado para Scorsese exercitar suas habilidades. É impressionante como o diretor é discreto e preciso no uso da narração (Joanne Woodward em momento especial assume a voz da autora) e a utiliza para costurar o filme, naquele que talvez seja um dos trabalhos mais eficientes e delicados da montadora Thelma Schoonmaker. A fluidez da narrativa, que nunca foge de sua herança literária, nem muito menos a renega, ganha ainda o reforço de uma câmera que baila pelos sets e da lindíssima trilha de Elmer Bernstein. Winona Ryder, muito bem, concorreu ao Oscar, mas é o belo casal formado por Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer que merece os mais entusiasmados cumprimentos.

Philip Kaufman
Invasores de Corpos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Invasion of the Body Snatchers, Philip Kaufman, 1978

Sem nenhum demérito a Vampiros de Almas (1956), de Don Siegel, a versão de Philip Kaufman para a mesma história fica anos-luz do longa original. Siegel traduzia a paranóia de sua época num delicioso, mas datado filme b. Kaufman eleva o nível e nos traz um cinema refinado, com uma fotografia empenhada em defender o clima de desespero (vide uma das melhores cenas do filme, em que Donald Sutherland liga para as autoridades). O cineasta lança um olhar profundo para o desmoronamento da ordem social, tornando o grupo de personagens centrais muito mais do que fugitivos, mas figuras subversivas. A Kaufman interessa muito mais o suspense criado pelo desespero da solidão do que qualquer tentativa de figurar o inimigo (à exceção da cena dos clones no jardim). Brooke Adams, logo no começo do longa, domina o filme, mas Leonard Nimoy, excelente, rouba a cena já em sua primeira aparição. No entanto, minha favorita no filme é Veronica Cartwright, descontrolada.

P.S.: e o Theo Becker foi embora. Perdeu a graça, mas eu votei pra ele sair. O que era aquilo? Abstinência? Meus comentários sobre “A Fazenda” e outras bobagens no meu twitter.

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Top 50 filmes de amor

Como algum filminho deve ser meu companheiro para passar o Dia dos Namorados, resolvi fazer uma lista com belos filmes de amor. A ideia era fazer uma relação menos óbvia do que as que sempre aparecem por aí. Em comum, o amor romântico no centro da história. Tentei deixá-la bem heterogênea, de comédias românticas a filmes mudos; de longas e terror a melodramas clássicos. Filmes que dão conta de toda a história do cinema e que, de uma maneira ou de outra, ficaram de vez na minha memória. A lista foi elaborada depois de uma animada conversa com minhas amigas jornalistas e cinéfilas Ivana Perecin e Cristiane Massuyama.

David Lynch

50 Coração Selvagem
Wild at Heart
David Lynch, 1990

Nancy Meyers

49 Alguém Tem que Ceder
Something’s Gotta Give
Nancy Meyers, 2003

PJ Hogan

48 O Casamento do Meu Melhor Amigo
My Best Friend’s Wedding
P.J. Hogan, 1997

Adrian Lyne

47 9 1/2 Semanas de Amor
Nine 1/2 Weeks
Adrian Lyne, 1986

Woody Allen

46 Todos Dizem Eu Te Amo
Everyone Says I Love You
Woody Allen, 1996

Wong Kar-Wai

45 Felizes Juntos
Chun Gwong Cha Sit
Wong Kar-Wai, 1997

Bernardo Bertolucci

44 O Último Tango em Paris
Last Tango in Paris
Bernardo Bertolucci, 1972

Paul Thomas Anderson

43 Embriagado de Amor
Punch-Drunk Love
Paul Thomas Anderson, 2002

Richard Donner

42 Ladyhawke – O Feitiço de Áquila
Ladyhawke
Richard Donner, 1985

Nick Cassavetes

41 Loucos de Amor
She’s so Lovely
Nick Cassavetes, 1997

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Curtindo a Vida Adoidado

Curtindo a Vida Adoidado

Madrugada fria em São Paulo. O cobertor como melhor amigo e uma porção de filmes para escolher. Terminei decidindo por Curtindo a Vida Adoidado, o maior clássico de John Hughes que havia visto muito tempo atrás, mas que terminei colocando em primeiro lugar na lista das melhores sessões da tarde da minha vida. Deu até um certo medinho. A maioria dos filmes (de que gostava muito) que tenho revisto caíram bastante no meu conceito. Este aqui poderia ter o mesmo destino. Quando levou às telas “o dia de folga” de Ferris Bueller, Gatinhas e Gatões, Mulher Nota Mil e, principalmente, o genial O Clube dos Cinco ajudaram a escrever o nome de Hughes em Hollywood e a torná-lo o número 1 do cinema adolescente.

Confesso que a interpretação de Matthew Broderick me pareceu menos genial. Embora ainda seja uma performance adorável, de um sarcasmo invejável, seu Ferris Bueller perde muito sem o quesito novidade. O que ainda fica é o espírito livre e de liderança do personagem, que o tornam irrestível para seus coadjuvantes e para o espectador, que é convidado a se tornar um cúmplice do protagonista. Continua ousado colocar o personagem para interagir com quem assiste. E Matthew domina muito bem a transição entre a história do filme e a metalinguagem. John Hughes habilmente abre seu filme logo na primeira sequência, com Ferris Bueller conversando com a tela.

Essa revisão serviu para desfazer alguns mitos: Mia Sara, linda, é nada mais do que uma escada para Broderick. A melhor atriz em cena é Jennifer Grey, que um ano antes de virar uma megaestrela com Dirty Dancing, está impagável como a irmã que odeia Ferris. Do lado masculino, Jeffrey Jones continua grande. Seu rival/vilão se aproxima bastante dos rivais/vilões de cartoons, mas foi a interpretação de Alan Ruck que me surpreendeu. Mais do que um personagem de apoio, Ruck, numa performance sensível, compõe um jovem complexo, que vive à sombra do melhor amigo enquanto tenta administrar suas fragilidades. É a grande interpretação do filme.

Se os anos 80 foram marcados pelo comodismo, como se prega por aí, Hughes soube, em Curtindo a Vida Adoidado, revolucionar pela segunda vez o cinema adolescente, que ele mesmo havia ajudado a revolucionar dois anos antes. É um filme leve, mas inteligente; ousado, mas familiar; ingênuo, mas irônico. Um filme que se comunica com qualquer um sem ser qualquer filme. Um clássico que me aqueceu numa madrugada fria em São Paulo.

Curtindo a Vida Adoidado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ferris Bueller's Day Off, Johh Hughes, 1986]

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