Monthly Archives: março 2009

Pagando Bem, que Mal Tem?

Kevin Smith

Se não fosse por uma cena de que eu gosto muito, acho que eu desistiria de ver os filmes do Kevin Smith. A cena em questão é o momento em que Stacey leva Zack para o quarto e ele cruza a sala e o corredor olhando fixamente para Miri. Ali o clichê da câmera lenta funciona bastante porque Seth Rogen e Elizabeth Banks estão completamente entregues e porque “Hey”, dos Pixies, toca ao fundo. Mas essa sequência é um ponto isolado dentro do fraquíssimo conjunto de Pagando Bem, Que Mal Tem?, que tinha tudo para funcionar – afinal Rogen é o comediante do momento -, mas se perde numa falta de consistência e um humor frouxo impressionantes.

Smith parece querer se aproveitar da nova comédia americana, de que Rogen é um dos expoentes, mas sua capacidade de fazer piadas de que se possa rir parece ter se esgotado. O forte do diretor sempre foi sua coletânea de referências pop, mas quem aguenta mais outra citação de Guerra nas Estrelas? Fora isso, o filme recorre a muito dirty talk e escatologia para tentar manter o interesse. Como eu já passei dos 13 anos, tudo soou muito otário pra mim.

Pagando Bem, Que Mal Tem? EstrelinhaEstrelinha
[Zack and Miri Make a Porno, Kevin Smith, 2008]

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Amantes

Amantes

O mundo provavelmente será muito injusto com Amantes. E a culpa é justamente de seu protagonista. A entrevista de Joaquin Phoenix a David Letterman, em que o ator – em estado estranhíssimo, grotescamente barbado – afirma que deixará o cinema para se dedicar ao rap, é um dos maiores hits dos últimos meses, mas, verdade ou mentira, ofereceu uma visibilidade torta ao filme porque ganhou ares de piada e contornos de trapaça. E isso é tudo o que o cinema de James Gray não é. E essa é toda a atenção que Amantes não precisa.

Gray talvez seja o cineasta que mais me lembra John Cassavetes hoje em dia. É difícil dizer sobre o quê exatamente são seus filmes. Os nós da vida, talvez. Amantes não é diferente. Embora o título ofereça uma expectativa direta, Gray não tem intenção alguma de levá-la a cabo e trabalha com sua própria velocidade, num trabalho completamente particular de composição de cenas, quase todas anti-climáticas, como o primeiro encontro entre Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow. Mesmo assim, em nenhum momento, o filme não deixa de mostrar o cineasta romântico de Os Donos da Noite.

O romantismo de Gray está não no objeto, mas no caminho até ele. Quando filma seus personagens em Amantes, o cineasta mais nos confunde sobre suas intenções e comportamentos do que nos dá informações sobre eles, tanto na maneira de jogá-los no mundo – há momentos em que a câmera parece ter vida própria, ultrapassando o puro recorte – quanto na de registrar seus afetos. É dessa maneira que todos ganham uma humanização raríssima no cinema de hoje em dia. É difícil defini-los, muito menos julgá-los ou culpá-los, mas entendê-los, por outro lado, torna-se uma arte mais fácil.

Quando Leonard diz que ama Michelle, ele está provavelmente sendo tão sincero como quando beija Sandra pela primeira vez porque nada é tão simples assim nos filmes de Gray. Leonard, de certa forma, catalisa a complexidade de como o diretor enxerga o mundo. Embora nunca se afaste das vizinhanças, o personagem vaga pelo mundo após ser tirado do prumo e se dedica agora a buscar trilhos mais uma vez. Joaquin Phoenix, o mesmo culpado por toda a publicidade equivocada para o filme, é, no entanto, o maior suporte de Gray. Sem ele, Leonard provavelmente não seria tão complexo, tão bipolar no melhor sentido do termo. É a interpretação Phoenix que dá estofo a Leonard e que faz Amantes ser o filme gigante que é.

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[Two Lovers, James Gray, 2008]

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Gran Torino

Clint Eastwood

Eu nunca fiz parte dessa nova onda de fãs do Clint Eastwood, que, nos últimos anos, elegem todos seus últimos trabalhos como obras-primas. Na verdade, esse movimento me irrita um pouco porque, apesar de ter dirigido alguns filmes belíssimos, como As Pontes de Madison e Sobre Meninos e Lobos, Clint também fez longas medianos, como A Conquista da Honra e o recente A Troca. Eu, então, tentava sempre ter uma opinião moderada sobre os filmes do diretor. Evitava cair na arapuca do fanboy. Mas a verdade é que Gran Torino me deixou sem chão. Logo este filme.

A última frase se deve por causa de um preconceito meu com a sinopse do filme, que, correndo o risco de ser leviano, seria: velho durão com tendências militaristas e xenófobas começa a se aproximar de seus vizinhos adolescentes de origem asiática. Um plot como estes me fez desenhar na cabeça um daqueles filmes basiquinhos sobre a redenção de um homem e a transformação de suas convicções. O velho conflito entre o que se acredita e o que se aprende. Ou, seja, uma porção generosa de clichês. Depois de ver o filme, eu descobri que essa imagem que eu tinha do longa não estava tão diferente da realidade. Ali havia um material farto para se reclamar. Mas não foi bem assim.

Gran Torino é um filme bastante corajoso. Walt Kowalski representa a Velha América, mas não em tom saudosista ou celebratório. Pelo contrário. O personagem de Clint é o de um homem que não tem o menor pudor de ser racista, que se alimenta do próprio rancor, um cara agressivo que vive do (e no) passado. É a Velha América, mas a Velha América falida, de orgulho ferido e refém do resto do mundo e do próprio passar do tempo, que a fez desmoronar. E isso para um artista do patamar do velho Clint é bem ousado. Testemunhar um republicano convicto se auto-questionar é um momento ímpar.

Nesse sentido, por mais que o roteiro de Nick Schenk, em seu primeiro longa, trabalhe com situações clichê, elas são apenas pontos de partida para as discussões levantadas (discussões que, por sinal, nunca acontecem num primeiro plano – quem tiver um alcance limitado pode perfeitamente sequer vê-las). E, a partir daí, do lugar comum, é que surge a grande força de Gran Torino. O filme se ergue da simplicidade e da sutileza. A maneira como o envolvimento de Waltz com Thaos e Ahney se desenrola não evita temas óbvios como descoberta e transformação, embora desmonte cada chavão com delicadeza e com um subtexto que nunca exige ser desvendado (mas que delicia ao ser descoberto).

O ato final do filme é um dos mais belos golpes de roteiro dos últimos tempos, que deveriam fazer Paul Haggis e Guillermo Arriaga, dois especialistas em golpes finais de roteiro, se envorgonharem até sumir. É ele que arredonda esse pequeno grande filme, que termina ao som de uma das mais belas melodias do ano, a canção que dá título ao longa. O autor dessa música? Clint Eastwood.

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[Gran Torino, Clint Eastwood, 2008]

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Top 10: filmes baseados em HQs

Amanhã estreia Watchmen, o filme baseado nos HQs de Alan Moore. A expectativa é imensa. É fácil, fácil achar na internet e na imprensa alguém falando que esse vai ser o melhor longa adaptado em quadrinhos em todos os tempos. Falaram a mesma coisa de Batman – O Cavaleiro das Trevas, que eu nem acho essas coisas todas. Então, resolvi fazer minha listinha com as melhores adaptações de Hqs para o cinema.

Bryan Singer

1 X-Men 2
X2: X-Men United, Bryan Singer, 2003
baseado nos personagens criados por Stan Lee

As HQs provavelmente nunca vão ganhar uma leitura tão plena. Depois de um primeiro filme correto, Singer mergulha de verdade no universo dos X-Men e incorpora belissimamente a discussão sobre preconceito e aceitação das diferenças presentes nas HQs. A coisa mais bonita que existe nos X-Men é o que povoa cada milímetro da tela: não há diferença.

David Cronenberg

2 Marcas da Violência
A History of Violence, David Cronenberg, 2005
baseado na graphic novel de John Wagner e Vince Locke

Cronenberg naquele que talvez seja seu melhor trabalho, faz um filme sobre a família. Aquela família que é você quem escolhe e sobre o futuro, aquele futuro que é você quem desenha. Tom Stall escolheu sua parceira e com ela teve seus dois filhos. E nada vai fazer com que ele desista da família dele ou do futuro que ele desenhou pra ela.

Sam Raimi

3 Homem-Aranha 2
Spider-Man 2, Sam Rami, 2004
baseado nos personagens criados por Stan Lee e Steve Ditko

Na melhor cena do filme, o herói, sem máscara, é carregado pelas pessoas que o salvaram. Pessoas encantadas com o fato de estarem vendo o rosto de um herói. Mais do que qualquyer coisa, este filme mostra o Aranha como o homem comum, o cara da esquina, acerta por mostrar a identificação do espectador vinda de sua natureza falível.

Akira

4 Akira
Akira, Katsuhiro Ôtomo, 1988
baseado no mangá de Katsuhiro Ôtomo

O futuro apocalítico desenhado por Katsuhiro Ôtomo ganhou uma versão tão poderosa para as telas quanto o material original. Akira, além de enxergar uma tragédia iminente, é um espétaculo para os olhos, com suas cores fortes e seus seres fantásticos misturados ao ambiente tecnológico.

Richard Donner

5 Superman – O Filme
Superman – The Movie, Richard Donner, 1978
baseado nos personagens criados por Jerry Siegel e John Shuster

Por mais que os efeitos visuais tenham envelhecido, embora eu ainda goste muito deles, Donner, o cineasta mais versátil de Hollywood, acerta no tom ora ingênuo, ora maduro para desenhar o personagem. Um Superman não poderia ser diferente e, embora Christopher Reeve tenha tido sua importância catapultada depois de sua morte, é um perfeito homem de aço.

Park Chanwook

6 Oldboy
Oldboy, Chan-wook Park, 2003
baseado no mangá de Nobuaki Minegishi

Chanwook Park, além do notável dominío sobre o tempo no cinema, tem uma noção espacial assustadora. Consegue aproveitar cada espaço mínimo de forma a multiplicar a geografia de seu filme. A saga de vingança, estruturada numa teia tão inteligente quanto intrincada e bem resolvida, talvez seja o filme mais plástico dos últimos tempos.

Tim Burton

7 Batman, o Retorno
Batman Returns, Tim Burton, 1992
baseado nos personagens criados por Bob Kane

Este aqui continua sendo meu Batman preferido. Embora Michael Keaton continuasse sendo um equívoco (tudo bem, Christian Bale também é), Gotham City está muito mais sombria e bem estabelecida e Danny DeVito e, especialmente, Michelle Pfeiffer acertam na concepção dark de seus personagens.

When the Wind Blows

8 When the Wind Blows
When the Wind Blows, Jimmy T. Murakami, 1986
baseado na graphic novel de Raymond Briggs

A catástrofe atômica ganhou neste filme um marco definitivo. A tragédia de Raymon Briggs, uma das histórias mais tristes já escritas, foi adaptada com um lirismo raro, que passa longe da pieguice. O traço eminentemente infantil multiplica a força do material pelo choque que provoca ao narrar uma história tão adulta.

Robert Downey Jr.

9 Homem de Ferro
Iron Man, Jon Favreau, 2008
baseado nos personagens criados por Stan Lee

Robert Downey Jr. é um ator de primeira, que dá contrastes necessários a tudo o que pega pela frente. Aposta de risco que se paga logo na primeira cena, única em que se faz uma citação indireta ao alcoolismo do personagem. Assim como Tobey Maguire é o Peter Parker e Hugh Jackman é o Wolverine, Downey Jr. é Tony Stark.

Ghost in the Shell

10 O Fantasma do Futuro
Ghost in the Shell, Mamoru Oshii, 1996
baseado no mangá de Masamune Shirow

Embora seja um filme de ação (ou não), este anime tem sua força maior no poder de seu texto, uma inspiração para Matrix. O visual arrojado serve de suporte para que Mamoru Oshii lance suas questões. A maior delas é a mais difícil de se responder: o que é um ser humano?

Quase chegaram lá: Dick Tracy (1990), Warren Beatty, O Gato Fritz (1972), Ralph Bakshi, Hellboy (2004), Guillermo del Toro, Homem-Aranha (2001), Sam Raimi, Homens de Preto (1997), Barry Sonnenfeld, Mundo Cão (2001), Terry Zwigoff, Persépolis (2007), Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, X-Men (2000), Bryan Singer.

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