Monthly Archives: fevereiro 2009

Os melhores filmes ainda inéditos no Brasil…

…ou um toque nas distribuidoras

Passado o Oscar, passado o Carnaval, resolvi fazer um apelo para as minhas queridas distribuidoras brasileiras. Que tal tirar da gaveta alguns ótimos filmes produzidos nos últimos dois anos e que até agora não chegaram ao circuito comercial, hein? Escolhi sete títulos que ou têm diretores importantes ou tiveram grande repercussão, mas, misteriosamente, permanecem inéditos nos cinemas brasileiros.

Quentin Tarantino
À Prova de Morte, Quentin Tarantino

Os filmes do Tarantino não são absurdos sucessos de bilheteria, mas nunca passam despercebidos pelo cinema. Este aqui tem Kurt Russell, mulheres gostosas e aquela embalagem estética e o texto ultrapop que consagrou o cineasta, mas, mesmo assim, continua inédito desde 2007 no Brasil. Maluco, né?

Miguel Gomes
Aquele Querido Mês de Agosto, Miguel Gomes

Se os cinema português consegue espaço com coisas absolutamente desinteressantes, por que não lançar um dos filmes mais inovadores dos últimos tempos e que, ainda por cima, é delicioso de ser assistido e extremamente popular? Falta de conhecimento sobre o material ou descaso mesmo?

Tomas Alfredson
Deixe Ela Entrar, Tomas Alfredson

Um dos filmes europeus mais elogiados e premiados do ano passado, foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo de 2008 legendado, mas as distribuidoras nunca anunciam previsão de lançamento. Estranho porque tem tudo para se tornar cult. Um longa que leva a sério uma história sobre uma vampira mirim nunca vai ser ignorado nos cinemas.

Ang Lee
Desejo e Perigo, Ang Lee

Desde 1993, todos os filmes de Ang Lee chegaram ao circuito comercial brasileiro. Todos, inclusive quando eles eram pequenos e muito chineses. Então, quando o diretor faz um filme que um belo drama de espionagem, com visual caprichado, que ainda ganhou o Leão de Ouro em Veneza, o que a distribuidora faz? Adia, adia… e some com o filme!

Brian De Palma
Redacted, Brian De Palma

O diretor é um dos mais importantes dos últimos 40 anos nos EUA, sua assinatura é reconhecida, mas o filme permanece inédito desde 2006. O pior é que o “gancho” da Guerra do Iraque ficou meio velho. No entanto, as imagens fortes e a embalagem visual do longa garante sua perenidade. E aí?

Kyoshi Kurosawa
Sonata de Tóquio, Kyioshi Kurosawa

Outro filho da Mostra de SP, elogiado, assinado por um diretor cultuado, embora nunca devidamente homenageado por nosso circuito, que continua inédito. Um filme que certamente mobilizaria o público do circuito de “filmes de arte” e que interessaria à comunidade japonesa, que sempre prestigia sua língua.

Hou Hsiao-Hsien
A Viagem do Balão Vermelho, Hou Hsiao-hsien

É difícil entender porque se lança tanto filme oriental nos cinemas brasileiros e se ignora um de seus autores mais queridos. Além disso, o novo filme de Hou Hsiao-hsien, que lotou sessões na Mostra e apareceu nas listas de melhores do ano passado, traz Juliette Binoche, a musa francesa que garante o interesse de um público maior.

P.S.: uma notícia? No IMDB, À Prova de Morte aparece com estréia programada para o dia 3 de abril de 2009. Será que é mesmo?

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O Oscar dos Meus Sonhos – versão 2009

Esta seria a lista ideal do Oscar 2009 para mim. Me baseei na lista de filmes elegíveis, incluindo apenas Um Conto de Natal e Deixe Ela Entrar na relação. Estes dois estrearam nos EUA, o que garantiria sua elegibilidade, mas estranhamente não aparecem entre os filmes que podem concorrer ao Oscar (acho que eles erraram feio).

filme

Um Conto de Natal
Gran Torino
O Lutador
Milk
Wall-E

direção

Andrew Stanton, Wall-E
Arnaud Desplechin, Um Conto de Natal
Darren Aronofsky, O Lutador
Gus Van sant, Milk
Jonathan Demme, O Casamento de Rachel

ator

Colin Farrell, Na Mira do Chefe
Frank Langella, Frost/Nixon
Mathieu Amalric, Um Conto de Natal
Mickey Rourke, O Lutador
Sean Penn, Milk

atriz

Anne Hathaway, O Casamento de Rachel
Catherine Deneuve, Um Conto de Natal
Melissa Leo, Rio Congelado
Meryl Streep, Dúvida
Sally Hawkins, Simplesmente Feliz

ator coadjuvante

Brad Pitt, Queime Depois de Ler
Emile Hirsch, Milk
Heath Ledger, Batman – O Cavaleiro das Trevas
Josh Brolin, Milk
Philip Seymour Hoffman, Dúvida

atriz coadjuvante

Chiara Mastroianni, Um Conto de Natal
Emmanuelle Devos, Um Conto de Natal
Marisa Tomei, O Lutador
Misty Upham, Rio Congelado
Viola Davis, Dúvida

roteiro original

O Casamento de Rachel
Um Conto de Natal
O Lutador
Na Mira do Chefe
Wall-E

roteiro adaptado

O Curioso Caso de Benjamin Button
Deixa Ela Entrar
Frost/Nixon
Homem de Ferro
Quem Quer Ser um Milionário?

filme estrangeiro

Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal)
Entre os Muros da Escola (França) (sem ver)
Leonera (Argentina)
Tulpan (Casaquistão)
Valsa com Bashir (Israel)

filme de animação

Bolt
Valsa com Bashir
Wall-E

fotografia

Um Beijo Roubado
O Casamento de Rachel
Deixa Ela Entrar
Milk
A Troca

montagem

Um Conto de Natal
Frost/Nixon
O Lutador
Milk
Wall-E

direção de arte

O Curioso Caso de Benjamin Button
Foi Apenas um Sonho
Hellboy II
Speed Racer
Wall-E

figurinos

A Duquesa
Foi Apenas um Sonho
Milk
Speed Racer
A Troca

maquiagem

O Curioso Caso de Benjamin Button
Hellboy II
Tropicão Tropical

trilha sonora

Aprendendo a Viver
O Curioso Caso de Benjamin Button
Milk
Quem Quer Ser um Milionário?
Simplesmente Feliz

canção

“Gran Torino”, Gran Torino
“Jay Ho”, Quem Quer Ser um Milionário?
“The Wrestler”, O Lutador

som

Batman – O Cavaleiro das Trevas
Cloverfield
Homem de Ferro
Speed Racer
Wall-E

efeitos visuais

O Curioso Caso de Benjamin Button
Speed Racer
Wall-E

edição de som

Batman – O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro
Kung Fu Panda
Speed Racer
Wall-E

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Frost/Nixon

Frost/Nixon

Michael Sheen Frank Langella Rebecca Hall Kevin Bacon

Ron Howard

Faz tempo que eu trabalho em televisão e, nesses anos todos, vi poucos filmes que conseguissem retratar com alguma fidelidade os bastidores deste meio. Geralmente se está tão interessado em demonizar a área que a falta de pesquisa incomoda, banaliza e compromete o resultado final. Dessa maneira, seria difícil acreditar que Ron Howard, um cineasta comumente medíocre, quando não ruim mesmo, fosse capaz de comandar um filme bom sobre a entrevista que Richard Nixon deu ao jornalista britânico David Frost depois de renunciar à presidência dos Estados Unidos por causa do Watergate.

A missão era árdua: ser responsável ao tratar de um momento histórico importante e delicado, transportar para o cinema um texto herdado de uma peça de teatro e, embora o filme não se concentre nos bastidores de um emissora de TV e tenha um foco um pouco mais aberto, ser fiel ao universo que tenta recriar. Se a tarefa seria difícil até para cineastas com talento reconhecido, imagina para Howard, responsável por babas hollywoodianas como Uma Mente Brilhante e A Luta pela Esperança? Mas o resultado surpreendeu: Frost/Nixon não é apenas bom; é ótimo.

O primeiro ponto positivo foi a escolha de atores. Frank Langella e Michael Sheen reprisam seus papéis no teatro e são os carros-chefes do filme. Langella, como disse o Sérgio Alpendre, está em “estado de graça”. Sua interpretação é impressionantemente detalhista e segura. O ator mostra uma habilidade única em equilibrar o Nixon personagem e o Nixon real. Michael Sheen também surpreende, imprimindo um toque ingênuo e doce ao showman Frost, evitando a caricatura. Kevin Bacon, Sam Rockwell e Oliver Platt têm momentos excelentes, com destaque para o equilíbrio de Bacon e a cena impagável em que Platt “interpreta” Nixon.

Howard parece nunca deixa os atores passarem do ponto, embora todos pareçam ter bastante liberdade para criar. O diretor trabalha ainda com um trunfo: Peter Morgan, o autor da peça original limpou a herança teatral do roteiro, mesmo em se tratando de um filme que se ergue sobre texto e interpretações. Howard estrutura seu longa como um filme documental, em ordem cronológica devidamente explicitada e com intervenções em que os atores, na pele de seus personagens, avaliam e explicam contextos e bastidores. Nada é exatamente original, mas cada parte funciona perfeitamente e resulta num filme coordenado com segurança e um talento inédito ao diretor.

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[Frost/Nixon, Ron Howard, 2008]

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Rio Congelado

Rio Congelado

O cinema independente norte-americano criou uma série de regras que viraram maneirismos e clichês. Nos últimos anos, a produção indie parecia tão interessado em se diferenciar pela esquisitice que parecia impossível vislumbrar um futuro para novos cineastas. O filme de estréia de Courtney Hunt me fez mudar de idéia, embora tudo levasse a crer no contrário. Rio Congelado se passa na fronteira gelada entre EUA e Canadá, aborda a situação indígena, a imigração ilegal e ainda é protagonizado por uma mulher abandonada pelo marido com duas crianças. Tinha tudo para ser um daqueles filmes metidos a significativos, chatos e óbvios. Mas a história é bem diferente.

Apesar da inexperiência como diretora e roteirista, Hunt acerta no tom que resolve adotar para tocar o filme. A velocidade de Rio Congelado é bem próxima da velocidade da vida real. As coisas acontecem como no dia-a-dia, sem aquele mecanismo típico do cinema de promover estalos para registrar o início de processos. As coisas fluem por aqui. Mas Hunt tanto se afasta bastante de uma visão simplista do cotidiano do interior norte-americano quanto consegue tornar os dramas da protagonista, à primeira vista desinteressantes (como evitar que um TV alugada seja devolvida), em desafios reais para a personagem e o espectador.

Apesar do trabalho da cineasta, o filme não seria metade sem a presença magnífica de Melissa Leo, a melhor entre as cinco candidatas ao Oscar, que impõe uma força impressionante à personagem, mas evita maneirismos buscando refúgio numa naturalidade extrema. A grande atriz, com 25 anos de carreira, já havia provado seu talento em Três Enterros. Há pelo menos mais dois destaques no elenco: Misty Upham, que faz o contraponto de Melissa, dribla a caricatura e entrega um papel triste e solitária. Já o moleque Charlie McDermott, que faz o filho mais velho da protagonista, também é excelente. O trio sabe criar personagens cheios de arestas, inclassificáveis. Os atores combinados ao texto, que sempre surpreende sem a necessidade de choque, mostram que Courtney Hunt tem muito futuro.

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[Frozen River, Courtney Hunt, 2008]

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Simplesmente Feliz

Simplesmente Feliz

À primeira vista, Simplesmente Feliz pode parecer um objeto estranho à filmografia de Mike Leigh, o mais trise dos cineastas britânicos. Mas a personagem sunshine criada por Sally Hawkins, injustamente ingorada na lista do Oscar deste ano, mora na mesma Londres fria, seca e melancólica de Segredos em Mentiras ou Agora ou Nunca. O que a diferencia dos tipos criados por Brenda Blethyn ou Timothy Spall é que sua Poppy é uma rebelde, mesmo que sem se dar muito conta disso. Ao contrário dos outros moradores da cidade, a professora primária nunca se deixa subjugar pela frieza que encontra nas pessoas ou pelo pessimismo que impera nas ruas.

Poppy é feliz. Assim, fácil. É uma mulher que não sabe negar sua natureza, que não se deixa vencer pelo modelo que esperam que ela siga. É uma revolucionária na mesma medida que os personagens que costumam garantir Oscars de melhor atriz. Mas como essa sua revolução ganha a forma de bom humor, simpatia e gentileza, a solidão e o confinamento de Poppy não parecem tão óbvios. É difícil perceber que ela é um soldado tentando mudar o mundo, pelo menos o mundo em sua volta. Como Poppy não faz barulho, sua postura não parece guardar nada de especial. É uma incompreendida em seu inconformismo.

Mike Leigh testa sua personagem o tempo inteiro, desde a cena pós-créditos de abertura, na livraria, até o ápice do filme, um duelo fortíssimo com o instrutor de direção, interpretado por um inspirado Eddie Marsan. É o único momento em que o mundo de Poppy realmente parece abalado. Mas a protagonista conta com uma aliada nessa batalha, a performance de Sally Hawkins. A atriz, discreta, sabe dar a densidade necessária para uma personagem que é só sorrisos e boas intenções. Sem Sally dificilmente seria possível acreditar em Poppy. Ainda bem que ela nos deu esse presente.

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[Happy-Go-Lucky, Mike Leigh, 2008]

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Milk

Milk

A última vez que Gus Van Sant se aventurou por um filme de narrativa clássica resultou em Encontrando Forrester, fraquíssimo exemplar de cinema para senhoras elegantes. Depois dele, o cineasta se dedicou a uma linguagem mais experimental que resultou em quatro belos filmes: Gerry, Últimos Dias, Paranoid Park e a obra-prima Elefante. A notícia de que Van Sant voltaria aos filmes lineares, com historinha, parecia assustadora. Mas Milk, apesar de suas concessões é um ótimo filme.

Concessões, sim, porque Milk segue à risca a cartilha da cinebiografias: apresenta o personagem, mostra o nascimento de envolvimento com a política, com recortes de sua vida pessoal e segue até seu repentino fim. No entanto, o longa guarda todo o cuidado de Gus Van Sant na elaboração de um filme. Se a montagem é linear, em contraponto aos espirais que ordenavam seus trabalhos anteriores, ela é precisa: pontua cada virada da trama discretamente, sem alarde. O brilhante Harris Savides entregou uma fotografia igualmente singela e eficiente e Danny Elfman compôs uma trilha belíssima e suave. E é exatamente esse o tom do filme.

Mas a estrela do filme é mesmo o roteiro de Dustin Lance Black, que deve ganhar o Oscar. O navoto faz o improvável: consegue nunca ser panfletário ao defender um militante gay, um ícone do movimento envolvidíssimo nas causas de sua sexualidade, um homem sempre à frente no front de batalha. Esse tratamento dá a Milk um espírito universal, apesar da afetação do retratado. O trabalho de Sean Penn, por sinal, é comovente. Ele consegue equilibrar a fragilidade do protagonista em sua vida doméstica com os arroubos de fortaleza de sua persona pública.

Se Penn está genial, seu elenco de apoio não fica atrás, com exceção de Diego Luna. Josh Brolin compõe seu Dan White com tantas nuanças que termina exatamente por definir o personagem: um homem imprevisível. Está soberbo. Emile Hirsch tem em seu melhor momento no cinema: sua cena de apresentação é fenomenal e as demais mostram como o garoto evoluiu como ator. E James Franco, num papel que poderia nunca ganhar destaque porque não tem grandes viradas ou cenas que ressaltem sua interpretação, consegue reinventar o homem comum. Assim como o filme, Franco parece não fazer muita coisa, mas está lá, sólido, perfeito o tempo todo.

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[Milk, Gus Van Sant, 2008]

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