Monthly Archives: dezembro 2008

Top 30: os melhores filmes de 2008

Na próxima segunda-feira, dia 5, vou publicar aqui a lista de indicados para meu Oscar pessoal, o Frankie, que já existe há 16 anos. Eu só considero para esse meu prêmio os filmes que eu assisti exclusivamente nos cinemas e exclusivamente no ano da premiação, no caso, 2008. Podem entrar tanto filmes que estreram em circuito quanto vistos em festivais, mostras e sessões especiais. Por causa disso, filmes que eu vi fora de circuito antes de 2008 e que só agora foram lançados comercialmente não são elegíveis para este prêmio.

Para que 2008 não ficasse sem uma lista de melhores entre os filmes lançados em circuito aqui no blogue, resolvi escolher meus 30 filmes favoritos entre as estréias do ano. A ordem aqui é alfabética.

Cristian Mungiu
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (*)
Cristian Mungiu

Ao mesmo tempo em que trabalha num patamar interior, buscando transbordar os instintos mais primários dos personagens, o filme sempre se aproxima de uma espécie de lição do moral sobre o tema – e se equilibra nesse dueto inusitado desde que a situação central se estabelece, o que leva bastante tempo. Como crônica social, crítica de costumes e investigação de psiquês, o filme é quase uma experiência de terror, com cenas trabalhadas para incomodar e deixar o espectador tenso. Visto no Festival do Rio, em 2007.

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (*)
Sidney Lumet

Lumet transporta o filme de assalto para o ambiente dos filmes de família. É do encontro dos dois que surgem estranheza e genialidade. O texto se ergue numa base perigosa, que muitas vezes risca a fronteira do ridículo, com suas semelhanças e coincidências, mas tudo dá absolutamente certo. Parece coisa de escritor veterano, mas este é o único crédito de roteiro de Kelly Masterson. Talvez seja de sua ousadia junto com a direção segura de Lumet que tenha saído o casamento perfeito. Visto no Festival do Rio, em 2007.

Canções de Amor
Canções de Amor (*)
Christophe Honoré

Uma deliciosa ode musical ao espírito livre e à quebra das convenções. A diferença deste filme em relação a tantos outros é que ele, por mais que tenha uma postura política implícita, recusa veementemente se transformar em panfleto, seja do amor livre, do ménage a trois, da homossexualidade. As coisas acontecem naturalmente, não porque têm que acontecer, mas porque podem acontecer. Honoré evoca Truffaut e o faz encontrar os musicais de Jacques Demy. Visto na Mostra de Cinema de SP, em 2007.

Cloverfield: Monstro
Matt Reeves

Estamos diante de um filme de monstro, sem dúvida, mas este aqui vai além. O que interessa não envolve militarismo, mas trajetórias, especialmente a de um grupo de amigos e de uma câmera digital. E é ela a protagonista do filme porque simbolizar nossa dependência do registro. É a transcrição para a tela de uma sociedade apaixonada pela imagem, pelo explícito e pela invasão da ‘vida real’. E se essa reflexão vem na forma deliciosa de um filme-catástrofe, melhor ainda. Visto em circuito.

Arnaud Desplechin
Um Conto de Natal
Arnaud Desplechin

Desplechin reúne uma família inteira para uma atípica ceia de Natal que colocará os históricos conflitos familiares em ebulição. E ele desenvolve as subtramas das maneiras mais improváveis, revelando uma família separada pela falta de afeto, onde as relações se mantêm por conveniência ou comodidade. O personagem do genial Mathieu Amalric sintetiza, resume, traduz sua família e o cinema de Arnaud Desplechin. É a ovelha negra num mundo de lugares comuns. Visto na Mostra de SP, neste ano.

Desejo e Reparação (*)
John Wright

O primeiro terço do filme é o melhor, onde Wright se revela um exímio administrador da tensão. Um encontro entre tons certos: no texto, em como o cineasta move sua câmera, no uso da excelente música, na montagem, nos desempenhos dos atores, especialmente o da mocinha Saoirse Ronan. E embora o resultado não seja de completo equilíbrio, este filme confirma que este diretor é um dos que melhores sabem traduzir literatura para o cinema sem ranço e vícios. Visto na Mostra de SP, em 2007.

Julian Schnabel
O Escafandro e a Borboleta
Julian Schnabel

Um desafio o espectador. Durante seus primeiros trinta minutos, não vemos o rosto do protagonista. Num clássico filme de doença, passado quase que inteiramente dentro de um hospital, Janusz Kaminski reiventa a fotografia, assumindo não apenas o ponto de vista de quem conta a história, como transformando sua visão turva e limitada num carrossel de experimentos visuais e sensoriais. Um trabalho impressionante que precisa ser visto para dar conta de sua totalidade. Visto em circuito.

Paul Verhoeven
A Espiã
Paul Verhoeven

Paul Verhoeven voltou a Holanda para recuperar a forma perdida. E a encontrou não na ousadia que pontuou sua carreira, mas num filme classudo, feito à moda antiga e com uma protagonista hipnótica. O diretor acerta a mão para costurar os gêneros, transformando a Segunda Guerra em palco para uma trama de suspense deliciosa e simultaneamente estudando as metamorfoses interiores geradas pelo conflito. A melhor cena, a da fuga pós-injeção, deixaria Hitchcock orgulhoso. Visto em circuito.

Claude Chabrol
Uma Garota Dividida em Dois
Claude Chabrol

Chabrol é o cineasta que melhor consegue operar certas revoluções narrativas que, se caíssem em outras mãos, certamente não encontrariam tom adequado. Este filme sobrevive no limite entre o sóbrio e o exagero, característica do cinema do francês. A mudança de rumo poderia facilmente parecer manobra de romance barato, mas Chabrol sabe tornar essas decisões de roteiro mais do que dignas, brilhantes. Benoit Magimel, afetado, descontrolado, impiedoso, está excelente. Visto em circuito.

Jon Favreau
Homem de Ferro
Jon Favreau

Favreau mantém a estrutura linear, mas sabe explorar bem cada fase do roteiro, dando substância aos personagens. Robert Downey Jr. é um ator de primeira, que dá contraste a tudo o que pega pela frente. Aposta de risco que se paga logo na primeira cena, em que se faz uma citação indireta ao alcoolismo que viria a ser um dos maiores vilões do heróis nos quadrinhos. Seu Tony Stark entra para a galeria de grandes traduções de heróis de HQ para o cinema e, mais ainda, é uma das melhores performances do ano. Visto em circuito.

Os Indomáveis
James Mangold

Temos um western que não se prende aos ‘limites territoriais’ do gênero e invade outras muitas searas, com um duelo quase shakespereano entre um excelente Russell Crowe e um Christian Bale distante de sua canastrice. Temos um remake de um filme de 50 anos antes que consegue a dificílima tarefa de modernizar o material, mesmo que ainda se trate de um filme de época. E, de bônus, Ben Foster, o dândi psicopata do Velho Oeste, corre com chances de ser o grande ator coadjuvante do ano. Visto em circuito.

Juno
Jason Reitman

Embora não fuja dos elementos da fórmula indie mais fácil, é um filme que vai bem além disso. Seu texto passa por todos os clichês do cinema independente raspando, mas quase sempre sai ileso, apelando para soluções muitas vezes inteligentes e muitas outras encantadoras. O roteiro nunca é simplório em sua invasão do mundo teen. Sabe dar consistência à falta de maturidade de sua personagem sem julgá-la ou diminuir seus dramas. A performance de Ellen Page é impecável. Visto em circuito.

Pablo Trapero
Leonera
Pablo Trapero

Leonera não oferece respostas ou convicções. A protagonista está presa e não sabe se ela é culpada ou não. Mas este não é um filme sobre um crime, nem muito menos uma viagem infernal sobre o sistema carcerário, mas o retrato quase documental de uma mulher em sua jornada para continuar. Trapero lança reflexões sobre a Argentina, sobre a maternidade, sobre a forma como as coisas devem ser. É um longa universal que parte de um cenário fechado entre quatro paredes (e algumas barras de ferro). Visto em circuito.

Walter Salles e Daniela Thomas
Linha de Passe
Walter Salles e Daniella Thomas

O filme dialoga com um cinema contemporâneo que tenta fazer os personagens ganharem em complexidade, mas é meio refém de certas marcas narrativas. No entanto, o encontro dessas referências deu certo. Como um filme de família, mesmo que se tente não abusar da emoção, Linha de Passe fala muito próximo ao peito. O roteiro parece beijar a testa de cada personagem antes de soltá-lo numa estrada que passa pelo Brasil da periferia, pelo cinema do mundo e pelas relações humanas. Visto em cabine para a imprensa.

Longe Dela (*)
Sarah Polley

A história de um casal separado pelo Mal de Alzheimer seria a premissa ideal para que fosse instalado um clima piegas e de comiseração. Sarah não pula nenhuma etapa do processo de envelhecimento da personagem de Julie Christie, mas passa ao largo de qualquer excesso de sentimentalismo. É um exercício de maturidade e sutileza, que respeita seus personagens sem tentar fazê-los vencer o espectador pela pena. Tem o equilíbrio e a segurança que Sarah Polley nunca conseguiu como atriz. Visto na Mostra de SP, em 2007.

Todd Haynes
Não Estou Lá (*)
Todd Haynes

Uma das grandes coisas do filme é como ele está impregnado de cinema. De como as imagens nos sugerem, mesmo que o que esteja em jogo sejam interpretações ou conceitos abertos. Do corpo morto de uma das primeiras cenas, nos preparamos para uma autópsia. Não que o que vem a seguir seja literal – essa idéia simplesmente inexiste para Todd Haynes – a exumação é apenas um primeiro oferecimento do ídolo ao público. Uma oferta que não tem o interesse de ser completa, mas de estimular. Visto no Festival do Rio, em 2007.

Frank Daranbont
O Nevoeiro
Frank Daranbont

A história de Stephen King nos amedronta mesmo é com uma volta à barbárie. Estamos diante da civilização em reverso. Vemos o surgimento da política, da organização social e da religião. E Darabont filma essa confusão exemplarmente, com movimentos de câmera inteligentes, aproveitando ao máximo o cenário limitado. Em tempos de fúria, o oráculo interpretado por uma genial Marcia Gay Harden domina. A cena final coroa este projeto com coragem e uma desenvoltura impressionante. Visto em casa e revisto em circuito.

Guilherme de Almeida Prado
Onde Andará Dulce Veiga?
Guilherme de Almeida Prado

Eu custei um pouco a entender, mas depois percebi o quanto este filme trafegava entre o sóbrio e o exagero e o quanto isso fazia dele um exemplar fiel de um cinema noir primal, geralmente cheio de furos e acabamento duvidoso que lhe emprestam certi charme. Não uma homenagem ou uma releitura, mas um filme feito àquela maneira. É como se Maitê Proença, mais adorável do que de costume, falasse para você: “ser fake é legal” – e você concordasse. Visto em circuito.

Onde os Fracos Não Têm Vez
Joel Coen e Ethan Coen

A verdade é que eu não consegui formular uma linha sobre este filme depois que o vi. Tudo que eu ensaiava escrever me parecia pouco e pobre para descrever esta pequena obra-prima. Um filme que vai muito além da primeira leitura que pode ter. Um trabalho que é muito mais do que um faroeste moderno, que conta muito mais do que a história de uma mala cheia de dinheiro. É um filme sobre o tempo, sobre a mudança, sobre a natureza do ser humano. Tommy Lee Jones e Javier Bardem impecáveis. Visto em circuito.

J. A. Bayona
O Orfanato (*)
J. A. Bayona

Numa época em que os filmes de terror cada vez recorrem a pirotecnias visuais (ou cerebrais) e à tortura para se venderem, este aqui é um retorno a um tempo em que apagar a luz já era garantia de um belo calafrio. Há momentos do terror mais puro, do medo mais primitivo, do susto, sensações que fazem falta na maioria dos exemplares atuais de um gênero que precisa delas para existir. Muito da força do longa está no desempenho de Bélen Rueda, num das melhores interpretações deste ano. Visto na Mostra de SP, em 2007.

Gus Van Sant
Paranoid Park (*)
Gus Van Sant

Mais uma vez o cineasta se propõe a investigar o mundo adolescente, mas aqui abandonando a abordagem em espiral que deixava os filmes anteriores menos deterministas. Agora há um ponto de vista e, a partir daí, a história de um jovem e seu conflito com a culpa. Muitos planos são memóráveis em sua qualidade formal e na função de espelho do protagonista. Enquanto continuação da obra de Van Sant, o filme ocupa espaço no reaproveitamento de marcas, na releitura de sua estética. Visto no Festival do Rio, em 2007.

Persepolis
Persepolis (*)
Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi

Esta belezinha ganhou o prêmio do público na Mostra de SP por dois fatores: 1) é narrado de uma forma deliciosa, simples – mas cheia de boas idéias -, tem um humor refinado, mas sabe ser sério; e 2) é um dos filmes mais fortes a tratar do conflito Irã-Iraque e da formação do estado do Irã em sua encarnação mais recente. E ainda é uma história pessoal, contada com delicadeza. É um filme bem bonito, bem fácil de ser gostado e a animação não-americana mais interessante dos últimos tempos. Visto na Mostra de SP, em 2007.

Joel e Ethan Coen
Queime Depois de Ler
Joel Coen e Ethan Coen

É o típico exemplo de filme despretensioso que logo se revela uma pequena pérola – e cresce à medida que as costuras do roteiro se revelam. Joel e Ethan, que há anos não trabalhavam com um texto original, acertaram no tratamento dado material. Ao mesmo em que é um conjunto de gags simples, o filme é bastante inteligente. O humor convive com momentos de extrema sensibilidade. Frances McDormand e Brad Pitt poucas vezes estiveram tão geniais. Visto na Mostra de SP, neste ano.

Nicolas Klotz
A Questão Humana (*)
Nicolas Klotz

Uma obra-prima sobre o quão pesada é a História sobre nossos ombros. O foco da investigação que Simon, um brilhante Mathieu Amalric, tem por missão (cujo objetivo, em outras palavras, é a salvação do capitalismo, a manutenção do status quo) se abre, revelando nossa pequenez perante o mundo. Klotz arquiteta o passo-a-passo das descobertas como um labirinto sinistro onde personagem e espectador começam a duvidar de si mesmos. Visto na Mostra de Sp, em 2007.

Sangue Negro
Paul Thomas Anderson

Os primeiros minutos são uma demonstração de força, da selvageria como meio para a civilização. O homem vence em troca de algo muitas vezes chamado de humanidade. O filme é a trajetória de um homem, ou um país, que se deixou corromper. A performance de Daniel Day-Lewis é devastadora, dona de uma potência para o pavor que falta em filmes de terror, mas que mora na dubiedade nas cenas de demonstração de afeto de pai para filho. Em sua exaltação ao excesso, Paul Thomas Anderson fez seu melhor filme. Visto em circuito.

Senhores do Crime (*)
David Cronenberg

Cronenberg está entre o punhado de diretores que trocaram suas deliciosas esquisitices por um cinema mais maduro, mas ainda incrivelmente fiel a sua proposta inicial. Aqui, ele volta a flertar com o submundo com elegância, cenário para dramaturgia refinada e grandes interpretações. Apesar de redescobrir o grande ator que é Armin Mueller-Stahl, resgatado do ostracismo, não há como não se impressionar com a performance avassaladora de Viggo Mortensen, carregando no sotaque e na violência. Visto na Mostra de SP, em 2007.

John Cameron Mitchell
Shortbus (*)
John Cameron Mitchell

Embora possamos dizer que se trata de um cinema político, com público específico, os filmes de Mitchell não têm alcance limitado. O discurso do personagem do ex-prefeito de Nova York tem um dos mais belos textos deste ano, partindo do específico para o universal. E é quando é universal (mesmo que seja num clube gay – ou uma versão revista e ampliada disso) que o filme funciona plenamente. É a prova que mesmo partindo de um microverso pode-se abrir a janela para todo o resto. Visto na Mostra de SP, em 2006.

Jean-Pierre e Luc Dardenne
O Silêncio de Lorna
Jean Pierre Dardenne e Luc Dardenne

Apesar de ter um roteiro mais explicadinho do que seus outros trabalhos, é um dos melhores filmes dos Dardenne, que souberam transformar seus personagens geralmente gelados em figuras cheias de camadas. A protagonista se revela aos poucos, seja no roteiro que entrega em pequenas doses o que está se passando na tela quanto na atriz que serve a uma transformação silenciosa de sua personagem. É um Dardenne mais acessível e redondinho. Visto na Mostra de SP, neste ano.

Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
Tim Burton

É bem menos arriscado do que o que se costuma esperar dos filmes de Tim Burton. Com a base sólida do musical original e um elenco muito à vontade, sua direção cresce e o cineasta passa a trabalhar num patamar, digamos, mais sério. Respeita toda sua bagagem, experimenta menos, aprimora seus pontos fortes. Da mesma maneira que a interpretação de Johnny Depp aqui não tem par, o filme ganha uma consistência até então inédita na fimografia de Burton. Estranhamente, talvez seja o filme que resuma sua obra. Visto em circuito.

Andrew Stanton
Wall-E
Andrew Stanton

Para Stanton, o homem que está por vir vai perder todos os padrões, especialmente a capacidade de se comunicar, de viver em grupo, de coexistir. A crítica à maneira como o planeta está sendo tratado é aguda e, ao mesmo tempo, discreta. O filme se arrisca na falta da palavra e ganha uma graça melancólica. Num momento em que o cinema aposta em linhas retas fáceis ou ziguezagues exibicionistas para dar um recado, nunca uma ‘mensagem’ conseguiu um caminho tão sensível e inteligente. Visto em circuito.

(*) filmes que não podem concorrer ao Frankie, meu prêmio de melhores do ano, porque ou não foram vistos no cinema, ou foram assistidos em festivais e mostras antes de 2008.

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Otto; or Up with Dead People

Bruce LaBruce

Raramente eu assisto a filmes durante o Mix Brasil. A seleção, infelizmente, é cheia de filme ruim, mal escrito, mal dirigido, mal interpretado (alguns com cara de filmes pornôs) e isso me desanimou ao longo dos anos. No festival de 2008, assisti a apenas duas sessões: Derek, documentário sobre o cineasta Derek Jarman, e este Otto; or Up with Dead People, do veterano diretor militante Bruce LaBruce que tinha um diferencial: é um filme gay de zumbis.

Mesmo que fosse apenas tosco e não oferecesse nada além disso, o filme já seria um programa bastante original. Mas o longa vai além: Bruce LaBruce e seu “futuro muito próximo” onde as pessoas morrem e retornam como zumbis gays é uma coleção de reflexões sobre preconceito, perseguição e sobre ainda ser um pária diante da sociedade. As idéias são melhores do que realização, muitas vezes simplista como as interpretações fraquinhas de todo o elenco, mas a intenção é o que conta.

O próprio LaBruce afirmou antes da sessão que seu cinema radical foi fazendo concessões para aumentar sua aceitação. Mas isso não diminui o impacto do filme. Ele evoca Romero e suas idéias sobre o comportamento da sociedade, mas seu alvo é muito mais específico. LaBruce não deixa de colocar cenas de sexo explícito em seu filme, cenas que não tem função além de demarcar o território de seu cinema. A marginalidade de zumbis e gays também ganha o apoio da metalinguagem ao retratar um cinema marginal.

Bobo e raso. Engajado e inteligente. Cheio de referências e gratuito. Otto cabe em diversas classificações. É um filme de altos e baixos, visivelmente irregular, mas uma obra com um conceito fechado e extremamente rígido, capaz de criar cenas belíssimas e de muitas vezes se aproximar de uma obra-prima maldita, nada morta, muito viva.

Otto; or Up with Dead People EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Otto; or Up with Dead People, Bruce LaBruce, 2008]

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Feliz Natal

Feliz Natal

Selton Mello é um dos melhores e mais engajados atores do país. Cavou espaço na TV para nos entregar personagens singulares, como o Chicó de O Auto da Compadecida e o dândi de Os Maias. E foi corajoso o suficiente para dar uma parada numa carreira promissora e se dedicar ao cinema, onde voltou a mostrar como é um bom intérprete em filmes como Lavoura Arcaica ou Árido Movie. Resumindo, Selton Mello é um artista admirável. E é por isso mesmo que eu sinto um pouco não ter gostado tanto assim de seu filme de estréia.

Não que Feliz Natal seja um filme ruim. Muito pelo contrário. O longa é uma reunião de talentos, começando pelo excelente trabalho de fotografia, pela trilha precisa, pelo conjunto do elenco e pelo visível esforço do diretor em tornar tudo o que se vê bem feito, bem acabado, nada óbvio e com substância. No entanto, é igualmente perceptível como Selton recorre a certos maneirismos de cineasta estreante aqui. O tom triste, embora certeiro em boa parte das cenas, parece exagerado aqui e ali, como que feito para entregar ao filme uma aura de importante.

Há um namoro forte com toda aquela dramaturgia brasileira que se dedica à degradação familiar. Aqui, muita coisa funciona: Leonardo Medeiros, sempre bom; Darlene Glória, que vaga com um copo de uísque pela casa como um fantasma recorrente; e Paulo Guarnieri, que nos apresenta o personagem mais triste do filme de forma surpreendente. Mas Selton não consegue dar uma função ao personagem de Lúcio Mauro, que não se encaixa em nenhuma linha narrativa. E recorre a lugares comuns como as cenas da piscina (que parece enfeiada propositadamente, numa referência explícita a Lucrecia Martel) e com a sequência final do excelente garotinho Fabricio Reis.

Se ainda não é o grande diretor em que parece que vai se transformar, Selton Mello é, talvez, o projeto mais promissor de homem de cinema que o Brasil tem hoje.

Feliz Natal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Feliz Natal, Selton Mello, 2008]

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Gabriel

 Muita coisa boa aconteceu nos últimos dias, os últimos do meu inferno astral. A melhor de todas é este carinha aí em cima, o Gabriel. Quando minha irmã caçula me falou que estava grávida, eu disse prontamente: “Maria, vai ser menino”. Não deu outra. Depois, quando perguntei qual seria o nome do bebê, ela ainda não sabia. Sugeri na hora: “por que não coloca Gabriel?”. Acatado. Ontem à noite, meu cunhado me liga e me convida para ser padrinho do mocinho. Não deu pra segurar. Chorei. O Gabrielzinho foi meu presente de aniversário. Melhor, impossível.

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