Monthly Archives: novembro 2008

Top 50 filmes dos anos 40

A Liga dos Blogues Cinematográficos prepara mais um ranking que faz um balanço de uma década do cinema. Os anos 40 e seus Welles, Hitchcocks, Fords, Wilders e Capras – só pra ficar no básico, estão em foco desta vez. Aqui segue minha listinha de 50 mais (somente os 20 primeiros contam na eleição da Liga.

Este Mundo é um Hospício

Cidadão Kane

As Vinhas da Ira

1 Este Mundo é um Hospício (1944), de Frank Capra
2 Cidadão Kane (1941), de Orson Welles
3 As Vinhas da Ira (1940), de John Ford
4 Desencanto (1945), de David Lean
5 Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder
6 O Tesouro de Sierra Madre (1948), de John Huston
7 Bambi (1942), de David Hand
8 Núpcias de Escândalo (1940), de George Cukor
9 Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock
10 Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks

Meu primeiro colocado está top ten da minha vida. A comédia de humor negro de Frank Capra fala no meu ouvido. Em seguida, o maior dos clássicos – acho uma bobagem quererem subestimar o filme só porque gostar dele virou clichê. Cidadão Kane é um filme de invenção, um filme que ajuda a transformar uma arte. Poucos são assim. O encontro dos Johns – Ford e Steinbeck – vem depois, abrindo espaço para David Lean e o filme mais romântico do mundo, Billy Wilder e o melhor dos noirs, e mais John Huston, George Cukor, Hitch e Howard Hawks. E por que Bambi? Porque ele é perfeito. E a lista continua:

Michael Powell e Emeric Pressburger

vários

Sergei Eisenstein

11 O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed
12 O Boulevard do Crime (1945), de Marcel Carné
13 Original Pecado (1943), de George Stevens
14 Os Sapatinhos Vermelhos (1948), de Michael Powell e Emeric Pressburger
15 Laura (1944), de Otto Preminger
16 Na Solidão da Noite (1945), de Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden e Robert Hamer
17 Retrato de Mulher (1944), de Fritz Lang
18 Festim Diabólico (1948), de Alfred Hitchcock
19 Ivan, o Terrível (1944), de Sergei Eisenstein
20 As Oito Vítimas (1949), de Robert Hamer

Fantasia

John Huston

Manoel de Oliveira

21 Fantasia (1940), de dez diretores
22 Ladrões de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica
23 Soberba (1942), de Orson Welles
24 Paixão dos Fortes (1946), de John Ford
25 Relíquia Macabra (1941), de John Huston
26 Aniki-Bobó (1942), de Manoel de Oliveira
27 Alemanha Ano Zero (1948), de Roberto Rossellini
28 Consciências Mortas (1944), de William A. Wellman
29 Sabotador (1942), de Alfred Hitchcock
30 Rancor (1947), de Edward Dmytryk

John Ford

Robert Siodmak

John M. Stahl

31 Como Era Verde o Meu Vale (1941), de John Ford
32 As Damas do Bois de Bologne (1945), de Robert Bresson
33 Silêncio nas Trevas (1945), de Robert Siodmak
34 Amar Foi Minha Ruína (1945), de John M. Stahl
35 A Sombra de Uma Dúvida (1943), de Alfred Hitchcock
36 Münchhausen (1944), de Josef von Báky
37 Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini
38 Carrossel da Esperança (1947), de Jacques Tati
39 Pinóquio (1940), de Hamilton Luske e Ben Sharpsteen
40 A Incrível Suzana (1942), de Billy Wilder

Jean Cocteau

George Sidney

Ben Sharpsteen

41 A Bela e a Fera (1946), de Jean Cocteau
42 Macbeth – Reinado de Sangue (1948), de Orson Welles
43 Ser ou Não Ser (1942), de Ernst Lubitsch
44 Casablanca (1942), de Michael Curtiz
45 Pai e Filha (1949), de Yasujiro Ozu
46 Duelo ao Sol (1946), de King Vidor
47 A Mulher do Dia (1942), de George Stevens
48 A Grande Ilusão (1949), de Robert Rossen
49 Marujos do Amor (1945), de George Sidney
50 Dumbo (1941), de Ben Sharpsteen

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A Bela Junie

Lea Seydoux, Louis Garrel, Gregoire Leprince-ringuet

Há uma grande diferença entre ver e olhar. Ver geralmente parece demandar mais inteligência e conteúdo porque mira no resultado. É associado à descoberta, à percepção, tem um começo, um meio e um fim. O ver se resolve, é satisfação garantida. Já o olhar não. O olhar termina meio depreciado, esquecido, incompreendido porque o importante em olhar não é exatamente o objeto, mas o meio do caminho. O olhar está muito mais próximo do movimento, do deslocamento. É a maneira, o modo, enquanto ver é a ação. O que difere Christophe Honoré de seus comparsas no cinema francês é justamente o olhar.

Fazia tempo que não surgia um cineasta com uma visão tão particular do mundo. E o que é tão particular na maneira como Honoré olha para o mundo é que ele rejeita o pessimismo que geralmente vem vinculado ao círculo intelectual. Seus filmes reproduzem o imenso carinho que Honoré parece ter pelas pessoas e pelo mecanismo que as coloca juntas ou separadas. Seus personagens podem ser românticos ou despudorados, estarem no meio de melodramas ou comédias, mas nunca são fáceis ou rasos – e o modo como são conduzidos ao longo das tramas do diretor revela respeito e reverência pelo humano.

Os filmes do diretor têm formatos diferentes, mas parecem todos ajudar a construir o mesmo universo. De certa forma são todos o mesmo filme, depurando a paixão pelo cotidiano e pelas relações humanas que Honoré exala. Os irmãos de Em Paris são opostos complementares na mesma medida em que o trio (ou o dueto final) de Canções de Amor, embora um filme equilibre o melodrama romântico com o humor ácido e o outro seja um musical sem a mínima vergonha de sua amoralidade. Ambos os filmes mostram a leveza e a naturalidade com que Honoré lida com temas sérios.

A Bela Junie, seu novo filme, parece menos ambicioso do que os anteriores, mas é apenas um reflexo da coerência com seu universo principal, o de um grupo de jovens estudantes. Honoré desenha neles os futuros personagens de seus longas adultos. Seus dilemas e paixões surgem mais ingênuos e instintivos, mas não menos insinuantes. Para deixar claro que não saiu de seu terreno, o diretor espalha seus colaboradores pelo filme. Junto com a novata Léa Seydoux está Grégoire Leprince-Ringuet, e em participações menores aparecem Clotilde Hesme, Alice Butaud e até Chiara Mastroianni, em uma cena única, sem uma fala sequer. Parece estar ali apenas para demarcar o território de Honoré.

O personagem de Louis Garrel, que é digamos um coadjuvante principal, é mais uma vez a síntese de como o diretor percebe o mundo. Ele é um professor sedutor, um homem que ama as mulheres, sejam colegas ou alunas. Isso não garante um dilema para o personagem ou para Honoré. A questão não é sequer levantada. O cineasta – e seu alter ego – entendem que as pessoas se movimentam a partir de suas paixões. A mesma lógica vale para todos os personagens. Essa lógica da paixão mantém um romance secreto, provoca uma violenta cena de ciúme, faz alguém partir, faz alguém se despedir. Não cabem questionamentos morais, não há espaço para pudor. Numa época em que pretensos novos Godards surgem aos cachos a cada ano, perceber que Truffaut tem pelo menos um herdeiro de verdade é muito, muito agradável.

A Bela Junie EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Belle Personne, Christophe Honoré, 2008]

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007 – Quantum of Solace

007 - Quantum of Solace

O que Cassino Royale conseguiu construir para a série de James Bond é destruído em pedacinhos por este Quantum of Solace. O segundo longa estrelado por Daniel Craig na pele de 007 é uma mutação equivocada do filme anterior, deixando de lado a concepção mais inteligente e refinada da criação de Ian Fleming por um modelo truculento de fazer filmes que anda altamente em voga.

Se o outro longa era aberto por uma cena de ação de primeira linha, neste aqui quase todos os momentos de força bruta parecem querer reprisar as seqüências de perseguição em larga escala de Batman – O Cavaleiro das Trevas, pecando justamente no mesmo ponto: tudo parece inflado, maximizado, exagerado – e chato. A estréia de Craig no papel já indicava a mudança no tom do personagem, mas aqui esse movimento perdeu o caráter passional e se deformou numa novelinha que me parece inédita na carreira do herói.

Sem o contraponto amoroso do longa anterior, Bond é apenas um homem atrás de vingança como tanto outros. Sem espaço para o romance e com um lugar diminuto para o humor que sempre deu equilíbrio à série, Quantum of Solace se tranformou num daqueles filmes de macho pra macho que encontrou num diretor ruim (Marc Forster fez filmes horrorosos como Em Busca da Terra do Nunca e O Caçador de Pipas) o pior defensor que poderia ter.

007 – Quantum of Solace Estrelinha
[Quantum of Solace, Marc Foster, 2008]

 

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Mostra SP 2008: balanço final

Eu faço parte daquela legião de obcecados pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aquele banco de malucos que tiram folga, férias, fazem fila, gastam os tubos e adoram ver quatro, cinco, seis filmes por dia durante o festival. Mas eu acho difícil dimensionar o que a Mostra significa pra mim. Foi ela quem me fez decidir morar em São Paulo, a mudança mais radical da minha vida. Não pelo deslocamento em si (muita gente foi muito mais longe), mas pela minha natural queda pelo comodismo. A Mostra me fez mudar. E não foi uma mudança apenas para ver filmes, o que na minha lógica própria já seria motivo suficiente. A Mostra, e suas dimensões gigantes, e sua pluralidade, que fizeram decidir que São Paulo seria uma casa melhor para mim. Um lugar onde eu estaria mais perto do que me interessa, o cinema, a produção de cultura, a vida inteligente. Esta foi minha nona Mostra (deveria ter sido a décima, mas nem sempre você pode largar tudo para trás). E eu já começo a imaginar o que me reserva o ano que vem.

Bom, falando de balanço, minha idéia geral sobre o festival deste ano é que faltaram bons filmes. Além dos novos longas de Hayao Miyazaki, Laurent Cantet e Lucrecia Martel, entre outros, não estarem na seleção de 2008, os filmes que vieram não formaram um conjunto tão forte quanto o de outros anos. Geralmente eu termino a Mostra com quatro ou cinco filmes que eu considero obras-primas. Neste ano, só um mereceu cinco estrelas na minha visão. Dois outros chegaram bem perto disso, mas só chegaram. No entanto, para um festival em que eu não estava de férias e trabalhava durante o horário de boa parte das sessões, ter visto 51 filmes foi um feito.

Vamos então aos meus eleitos.

Top Ten Mostra SP 2008

Arnaud Desplechin

1 Um Conto de Natal EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Arnaud Desplechin

Kyoshi Kurosawa

2 Sonata de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kiyoshi Kurosawa

Miguel Gomes

3 Aquele Querido Mês de Agosto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Miguel Gomes

Jonathan Demme

4 O Casamento de Rachel EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jonathan Demme

Tomas Alfredson

5 Deixa Ela Entrar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Tomas Alfredson

Domingos Oliveira

6 Juventude EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira

Antonio Campos

7 Depois da Escola EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Antonio Campos

Sergey Dvortsevoy

8 Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Dardenne

9 O Silêncio de Lorna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Emily Atef

10 Um Estranho em Mim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Emily Atef

outros dez que merecem consideração

11 Queime Depois de Ler EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Joel e Ethan Coen
12 Horas de Verão EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Olivier Assayas
13 Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker
14 A Fronteira da Alvorada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Philippe Garrel
15 Meu Winnipeg EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Guy Maddin
16 24 City EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Jia Zhang-ke
17 Todo Mundo Tem Problemas Sexuais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Domingos de Oliveira
18 Che: O Argentino EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
19 Os Primeiros Anos de Wim Wenders EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Marcel Wehn
20 Liverpool EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Lisandro Alonso

melhores diretores
1 Kiysohi Kurosawa, por Sonata de Tóquio
2 Arnaud Desplechin, por Um Conto de Natal
3 Miguel Gomes, por Aquele Querido Mês de Agosto

melhores atores
1 Mathieu Amalric, por Um Conto de Natal
2 Toni Servillo, por Il Divo
3 Benicio Del Toro, por Che: O Argentino

melhores atrizes
1 Kyôko Koizumi, por Sonata de Tóquio
2 Anne Hathaway, por O Casamento de Rachel
3 Susanne Wolff, por O Estranho em Mim

melhores atores coadjuvantes
1 Brad Pitt, por Queime Depois de Ler
2 Jérémie Renier, por O Silêncio de Lorna
3 Bill Irwin, por O Casamento de Rachel

melhores atrizes coadjuvantes
1 Emmanuelle Devos, por Um Conto de Natal
2 Catherine Deneuve, por Um Conto de Natal
3 Joan Chen, por 24 City

melhores roteiros
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Um Conto de Natal
3 Deixa Ela Entrar

melhores fotografias
1 A Festa da Menina Morta
2 O Céu, a Terra e a Chuva
3 A Fronteira da Alvorada

melhores montagens
1 Aquele Querido Mês de Agosto
2 Sonata de Tóquio
3 Os Primeiros Anos de Wim Wenders

melhores direções de arte
1 Jodhaa Akbar
2 A Festa da Menina Morta
3 Meu Winnipeg

melhores trilhas
1 Jodhaa Akbar
2 Deixa Ela Entrar
3 Juventude

Os outros filmes:

Acácio EstrelinhaEstrelinha, de Marília Rocha
Adoração Estrelinha, de Atom Egoyan
Alvorada em Sunset, de Jeff McGary
O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky
O Canto dos Pássaros EstrelinhaEstrelinha, de Albert Serra
Cavalo de Duas Patas, de Samira Makhmalbaf
O Céu, a Terra e Chuva EstrelinhaEstrelinha, de José Luis Torres Leiva
Che: A Guerrilha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Steven Soderbergh
Cinzas do Passado Redux EstrelinhaEstrelinha, de Wong Kar-Wai
O Clone Volta para Casa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kanji Nakajima
Confissões de Super-Heróis EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Matt Ogens
Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky
Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino
A Festa da Menina Morta EstrelinhaEstrelinha, de Matheus Nacthergaele
Gomorra EstrelinhaEstrelinha, de Matteo Garrone
Hanami – Cerejeiras em Flor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Doris Dörrie
Ice EstrelinhaEstrelinha, de Makoto Kobayashi
Julgamento EstrelinhaEstrelinha, de Leonel Vieira
Lições Particulares Estrelinha, de Joachim Lafosse
Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera
O Menino do Pijama Listrado, de Mark Herman
Palermo Shooting EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Wim Wenders
La Rabia EstrelinhaEstrelinha, de Albertina Carri
Rebobine, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Michel Gondry
El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita
Rufião do Inferno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Kihachi Okamoto
Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch
Terra Vermelha EstrelinhaEstrelinha, de Marco Becchis
Three Monkeys EstrelinhaEstrelinha, de Nulri Bilge Ceylan
Vicky Cristina Barcelona EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Woody Allen
Waltz with Bashir EstrelinhaEstrelinha, de Ari Folman

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Mostra SP 2008: boletim 11

Carlos Ruíz Ruíz

Maldeamores Estrelinha, de Carlos Ruíz Ruíz e Mariem Pérez Riera

O público gostou bastante, mas essa coleção de histórias de amor, ou quase isso, é pobrezinha demais. O roteiro preguiçoso recicla clichês de comédias românticas e melodramas familiares. O texto é raso, o humor fácil e os personagens, mal construídos, estereotipam o latino ao máximo grau. Os diretores investem na fórmula do menos que é mais e fazem um filme para o povão pouco exigente. Porto Rico fica devendo.

Paolo Sorrentino

Il Divo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paolo Sorrentino

Engraçado, Il Divo é saudado como um exemplar do cinema italiano renovado, mas nada mais é do que um filme político com a montagem no fast. As cenas são calculadíssimas, o que resulta em alguns momentos realmente inspirados (sobretudo quando as soluções encontradas por Paolo Sorrentino pinçam o filme da condição de história para “ei, isto aqui é cinema, é truque”). Mas esse cinema pensado demais também cansa um pouco. A trilha berra em nossos ouvidos, mas é bem usada para os fins do diretor. A interpretação de Toni Servillo, embora invada muitas vezes a caricatura, é o que de melhor o filme tem a oferecer.

Dmitry Travoksky

Conhecendo Andrei Tarkovsky EstrelinhaEstrelinha, de Dmitry Trakovsky

Começou prometendo ser uma experiência interessante, com um tom bastante pessoal, onde o diretor compatriota de Tarkovsky tenta descobrir mais sobre seu cineasta favorito. Mas a inexperiência do autor (não sei se o sobrenome é de verdade ou se ele surrupiou de seu objeto de estudo) não soube concluir sua ambiciosa proposta: materializar o modo de Tarkovsky encarar o mundo. Era difícil mesmo. Então, embora ele tente pintar todas as entrevistas e informações que coleta ao longo do filme com um verniz de mais sério e profundo, o resultado fica no óbvio. O sentimento de frustração é inevitável, mas a viagem vale a pena, nem que seja pra ver a imagem da vila onde Tarkovsky nasceu, hoje uma área alagada, onde a única coisa que se vê é o topo de uma enorme cruz.

Toshifumi Matsushita

El Regalo de Pachamama EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Toshifumi Matsushita

O que esse japonês foi fazer na Bolívia é um mistério. Provavelmente tem a ver com sua experiência com documentários. El Regalo de Pachamama poderia bem ser um daqueles longas documentais que apresentam o cotidiano de personagens que vivem isolados, no caso o povo quéchua, que vive na Rota do Sal, mas vai além disso. Matsushita cria uma historinha mínima que funciona do começo ao fim (sendo o fim uma micro-história de primeiro amor), não se perde em excesso de detalhes, nem na vastidão na paisagem (o que virou marca do cinema latino-americano) e dirige seus não-atores melhor do que qualquer iraniano. Não tem nada de muito especial, mas é uma experiência válida.

Ashutosh Gowariker

Jodhaa Akbar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ashutosh Gowariker

Eu não recomendo este filme a ninguém porque ele exige bastante concessões do espectador. Primeiro, tem que se ter a mínima noção do que é Bollywood e da lógica do cinema comercial indiano. Segundo, é preciso ter paciência porque este é um filme com vários números musicais – e ele tem quase três horas e meia de duração. Quem não estiver disposto a relativizar certamente tentará ridicularizar esse filmaço, um espetáculo kitsch de primeira grandeza, uma ode ao exagero, pouquíssimo preocupado com verossimilhança, e coerente com uma filmografia popular. Jodhaa Akbar se baseia em fatos históricos pouco confiáveis para criar uma epopéia máxima, algo como um Cecil B. De Mille dos tempos atuais. Exagera em tudo.

Os figurinos multicoloridos explodem ao longo do filme, que começa com uma batalha que usa discretamente efeitos digitais. Os atores, limitados, são sempre orientados para o overacting. A Juliana Paes indiana, a lindíssima Aishwarya Rai, a maior atriz do país, lidera o elenco no papel título, contracenando com um galã bombadíssimo, canastrão como há tempos não se via. Há uma cena fantástica, em que a princesa começa a se interessar pelo imperador e admira seu torso nu ao sol, na melhor linha do antigo Cine Privê, da Band. Mas o melhor mesmo é a trilha sonora. A primeira música só chega aos 40 minutos de filme, mas traz dezenas de coleguinhas sucessivamente. E quando não canções, existe a trilha instrumental que joga um estrondoso “tanran!!!” em cada cena de tensão do filme.

Micha Lewinsky

O Amigo EstrelinhaEstrelinha, de Micha Lewinsky

A idéia inicial é boa: mulher pede a um cara que ela mal conhece para ele fingir ser seu namorado e depois morre. Ele resolve assumir o papel para a família da moça. No entanto, o diretor não sabe muito bem por onde levar o filme, não acha um tom interessante e se perde. Aqui e ali há uns cacoetes (a mãe do protagonista é superprotetora e carente; a relação entre a mãe da morta e a irmã é difícil; o pai é um cara amoroso), mas também existem cenas onde o filme muda de cores (como na carta lida no velório). O diretor termina tapando como pode as arestas que deixou (a relação entre o personagem principal e sua mãe se resolve sem explicação), abusa de imagens óbvias (como as da praia) e chega um resultado conciliatório meia-boca.

Jennifer Lynch

Sob Controle EstrelinhaEstrelinha, de Jennifer Lynch

Quando dirigiu Encaixotando Helena, Jennifer Lynch tinha 25 anos. O trauma foi tão grande que somente agora, 15 anos depois, ela se aventura novamente no comando de um longa-metragem. Há de se dizer que a filha de David Lynch envoluiu, embora a temática ainda seja a América doentia (bem próxima da América doentia de seu pai, diga-se de passagem) e os personagens continuem desequilibrados. Felizmente Jennifer resiste à tentação de introduzir elementos oníricos à narrativa do filme, o que seria uma herança entendível. Mesmo assim, Sob Controle, apesar de bem amarradinho, não é lá essas coisas. Depois do choque, parece fácil, truqueiro, clichezão. A projeção digital prejudica bastante o filme, que fica parecendo um daqueles longas policiais b com mistérios e reviravoltas, que passavam na Sessão de Gala.

Sergey Dvortsevoy

Tulpan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sergey Dvortsevoy

Tulpan é uma gracinha. Imagino o quanto essa palavra – gracinha – possa ser entendida como sinônimo de um filme feito para “distintas senhoras”. Mas não é bem isso o que eu quis dizer. Esse longa é surpreendente porque tudo indicava (sinopse, lugar de onde ele veio, atores não-profissionais) que ele seria mais um daqueles exemplares de filme pequenos sobre lugares pequenos dispostos a encantar o espectador por sua simplicidade e seus personagens singelos. Mas Sergey Dvortsevoy passa ao largo desta proposta, com dois grandes acertos: uma ótima direção de atores e um roteiro bem escrito e executado, que exalta a história e não cai no conto da paisagem bonita. Tulpan acerta porque é universal.

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