Monthly Archives: setembro 2008

Paul Newman

 Paul Newman

“But there’s one thing I know
The blues they send to meet me won’t defeat me
It won’t be long till happiness steps up to greet me”
(Burt Bacharach, Raindrops Keep Falling on My Head)

Astro de cinema. Nos dias de hoje, qualquer um tem esse título. Astro de cinema, hoje, é o Ashton Kutcher, o Jason Biggs, o Tyrese, o Vin Diesel. Que tempo triste é o de hoje. Tempo em que um cara bonita, um jeito engraçado, um corpo sarado ou um batalhão de músculos valem mais do que o talento. Tá, sempre foi assim… mas havia Paul Newman. Paul Newman era um homem lindo, era divertido, mas comprometido com seu trabalho ao mesmo tempo, sempre esteve em forma e, o melhor, era um poço de talento. E também era um alento. Sua simples existência já confortava os mais desiludidos com os rumos do cinema. Lá na tela grande ele foi Rocky Graziano, o marido de Liz Taylor e o último grande herói de Hitchcock. Foi o jogador Eddie Felson em 1961, o jogador Eddie Felson em 1986, deu um golpe de mestre, viveu um inferno numa torre. Foi ainda o indomado e o indomável, o homem de MacKintosh e o juiz Roy Bean. Foi mafioso, presidiário, advogado, megaempresário. E foi Butch Cassidy, o que já bastava. A última vez que o vi foi se divertindo em A Última Loucura de Mel Brooks. Era um ator que sabia a dose certa, o timing, que multiplicava qualquer papel, um ator impossível de se esquecer. Que dia triste é o de hoje. Dia em que morreu um astro de cinema.

Os filmes que eu vi:

Marcado pela Sarjeta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1956)
O Mercador de Almas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1958)
Gata em Teto de Zinco Quente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1958)
Desafio à Corrupção EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1961)
O Indomado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1963)
Cortina Rasgada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1966)
Rebeldia Indomável EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1967)
Butch Cassidy EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1969)
Uma Lição para Não Esquecer EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1971)
O Emissário de MacKintosh EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1973)
Golpe de Mestre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1973)
Inferno na Torre EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1974)
A Piscina Mortal EstrelinhaEstrelinha (1975)
A Última Loucura de Mel Brooks EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1976)
O Dia em que o Mundo Acabou EstrelinhaEstrelinha (1980)
Os Apaches do Bronx EstrelinhaEstrelinha (1981)
Ausência de Malícia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1981)
O Veredito EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1982)
Meu Pai, Eterno Amigo EstrelinhaEstrelinha (1984)
A Cor do Dinheiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1986)
Blaze, o Escândalo EstrelinhaEstrelinha (1989)
Mr. & Mrs. Bridge – Cenas De Uma Família EstrelinhaEstrelinha (1990)
Na Roda da Fortuna EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1994)
O Indomável – Assim É Minha Vida EstrelinhaEstrelinha (1994)
Fugindo do Passado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1998)
Uma Carta de Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (1998)
Estrada Para Perdição EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha (2002)
Carros EstrelinhaEstrelinha (2006)

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Alice

Karim Aïnouz e Sergio Machado

Alice, a série que Karim Aïnouz e Sérgio Machado dirigiram para a HBO (que já tinha nos brindando com a excelente Filhos do Carnaval), estreou ontem à noite com uma semelhança interessante com uma linha do cinema contemporâneo que lança seus protagonistas em busca de seu lugar no mundo. A Alice de Andréia Horta, ótima atriz, tem um quê da Hermila de O Céu de Suely ou da Emily de Clean. Todas se descobrem, das mais variadas maneiras, insatisfeitas com seus papéis, seus espaços, suas condições. No caso de Hermila, mudar de cidade significa passar a existir, buscar um significado. Já para Emily, tentar a carreira na música significa completar algo que estava perdido, retomar as rédeas da próprias vida.

Ainda não dá pra saber para onde Alice nos levará. Ela se deu conta de maneira tão súbita seu incômodo que, se aproveitar de um deslize para escolher ficar ao invés de ir, foi uma decisão natural. Perceber que estava perdida numa cidade imensa teria feito a moça perceber que estava perdida mesmo na sua vidinha normal? É assim, sem muita explicação, que as coisas acontecem. Alice me fez lembrar quando eu decidi que queria morar em São Paulo. Foi em outubro de 99. Na Mostra de Cinema. Minha primeira vez aqui. Decidi que queria o cinema mais perto, que queria o mundo mais inteiro, que queria todas as possibilidades. Se eu, como Alice, já me sentia perdido na minha vidinha normal, melhor seria escolher me perder por conta própria, na imensidão que esta cidade oferece.

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Oscar 2008: última parada

Última Parada 174, que estréia no mês que vem, vai ser o candidato do Brasil a uma vaga entre os filmes em língua estrangeira na próxima edição do Oscar. O lobby da família Barreto funcionou mais uma vez, mas o filme era um dos mais prováveis indicados mesmo, diante da decisão dos diretores de Linha de Passe de não inscreverem seu filme por falta de tempo para participar da campanha.

Refletindo sobre isso, é bem humilhante este processo de seleção. A Academia determina que países podem mandar seu representante. Um comitê em cada país se estapeia para escolher um entre os postulantes – no Brasil, o filme de Bruno Barreto deixou treze para trás. O indicado oficial de cada país (são mais de 90) vai disputar umas das cinco vagas finais.

Outro comitê, desta vez da própria Academia, assiste aos candidatos e define os cinco. Ou seja, é uma sucessão de panelinhas onde os filmes são jogados na fogueira. Mais de 80 saem como derrotados porque não foram selecionados. Por que será? Qual a diferença? Por que simplesmente não se leva o critério da estréia em solo norte-americano?

Estreou, seria elegível. Como para as outras categorias. Não haveria derrotados porque não haveria pré-selecionados; haveria possibilidades. Seria mais justo porque o resultado (indicados e vencedor) seriam escolhidos por todos e não por um comitê. Seria mais simples. Mas o povo adora complicar. E assim deixar bem claro que quem não fala em inglês merece ficar no seu cantinho. Cada um no seu quadrado.

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O Nevoeiro, revisão


Thomas Jane, Laurie Holden, Marcia Gay Harden

Quando uma névoa estranha cerca uma cidade, o horror encontra o momento exato de se fazer aparecer. Há mais de 25 anos, John Carpenter lançou essa premissa num longa correto chamado A Bruma Assassina. Hoje, Frank Darabont revisa e amplifica o tema, ancorado num texto de Stephen King. Num ano em que filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez, Sangue Negro e Não Estou Lá chegaram aos cinemas, é meio difícil de acreditar que um longa de terror possa estar entre os melhores do ano. Mas O Nevoeiro é um filme perfeito (ou algo bem perto disso).

O texto, escrito por King, que anda em baixa no cinema há uns bons dez anos, trabalha num nível além da lógica do susto, que move o gênero e que nem sempre funciona. E, na revisão, o filme de Frank Daranbont, em sua quarta adaptação de uma obra de King, fica ainda melhor. O Nevoeiro não é exatamente uma obra de terror. Há monstros, há perigos, há medo, mas não é o horror que dá o tom central do filme. Para o escritor, o mais assustador que o homem pode encontrar pela frente é o espelho. É nele que vemos monstros de verdade.

Quando sua névoa misteriosa deixa preso um grupo de pessoas dentro de um supermercado, estamos diante da civilização em reverso. Stephen King nos amedronta mesmo é com uma volta à barbárie. Cada uma das pessoas trancadas naquele espaço tem que aprender a se portar diante da perda de parâmetros: é aí que surgem a política, a organização social e a religião – e, então, aparecem os papéis. E Darabont, que sempre me pareceu um cineasta apenas correto, filma essa confusão exemplarmente, com movimentos de câmera inteligentes, aproveitando ao máximo o cenário limitado.

Em tempos de fúria, o oráculo interpretado por Marcia Gay Harden, talvez no momento mais alto de sua carreira, ganha um destaque inevitável. Mas Thomas Jane, um ator limitado, dá uma credibilidade inesperada a seu herói comum. Em torno deles, uma casta de coadjuvantes eficientes: Jeffrey DeMunn, Andre Braugher, Laurie Holden, Toby Jones e Frances Sternhagen. Daranbont sabe explorar os personagens com calma, dando espaço para os atores dimensionarem seus papéis e nos entregarem belas interpretações.

O Nevoeiro se projeta o tempo inteiro. Funciona num outro plano. É um dos melhores filmes baseados num texto de King, que talvez só perca para as incursões de Stanley Kubrick e Brian De Palma no universo do autor. Um dos poucos filmes que sabem usar o material original como plataforma para um salto maior. A cena final coroa este projeto com coragem e uma desenvoltura impressionante, que deixa Um Sonho de Liberdade no chão. King aposta no desespero como conseqüência do nosso medo do desconhecido, que transforma o homem numa aberração. Onde apontar inimigos a sua volta parece a única coisa que resta quando o que importa é sobreviver.

O Nevoeiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Mist, Frank Daranbont, 2007]

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Um Oscar para o Brasil?

O Ministério da Cultura divulgou hoje a lista com os filmes que vão disputar a indicação oficial do Brasil para uma candidatura ao Oscar no próximo ano. Entre os 14 títulos, alguns notáveis e com poucas chances, como o excepcional Mutum, de Sandra Kogut. Pela lógica comercial, acho que vai dar Os Desafinados, que eu ainda nem vi. Rodrigo Santoro + Bossa Nova (em plena copmemoração pelos 50 anos). Mais cara de Estados Unidos, impossível. Hector Babenco, que já disputou até os Oscar de melhor filme e diretor, e Bruno Barreto, o cineasta mais internacional do Brasil, também me parecem com boas chances. O sucessinho Meu Nome Não é Johnny pode ser o azarão.

Nosso país tem muito azar nesta categoria, que é a mais maluca do Oscar mesmo. Pouco gente vê os indicados, pouca gente vota. O Brasil só conseguiu ser finalista quatro vezes – a última faz dez anos, com Central do Brasil, que perdeu para A Vida é Bela. Nem o megasucesso Cidade de Deus nem competentíssimo O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, nossa aposta no ano passado, conseguiram ser finalistas. Vamos ver o que este ano nos reserva.

Segue a lista dos filmes inscritos e minha cotação para os que eu já vi:

A Casa de Alice EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Chico Teixera
Chega de Saudade, de Laís Bodanski
Os Desafinados, de Walter Lima Júnior
Era uma Vez EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Breno Silveira
Estômago EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Marcos Jorge
Meu Nome Não é Johnny EstrelinhaEstrelinha, de Mauro Lima
Mutum EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Sandra Kogut
Nossa Vida Não Cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro
Olho de Boi, de Hermano Penna
Onde Andará Dulce Veiga? EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Guilherme de Almeida Prado
O Passado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Hector Babenco
O Signo da Cidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Carlos Alberto Riccelli
Última Parada 174, de Bruno Barreto
A Via Láctea EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Lina Chamie

Mas, apesar de algumas estrelinhas a mais, neste ano, não vou torcer por ninguém. Pelo menos não muito.

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Canções de Amor

 Louis Garrel, Clotilde Hesme, Gregoire Leprince-Ringuet, Chiara Mastrianni, Ludivine Sagnier A cada dia que passa, eu me convenço um pouco mais de que a melhor maneira de se encarar o mundo é tentar flutuar sobre as coisas, mesmo aquelas com as quais você não concorda, mesmo aquelas que você não entende, mesmo aquelas de que você não gosta muito. É mais ou menos isso que Christophe Honoré faz em Canções de Amor, delicioso manifesto musical em forma de ode ao espírito livre e à quebra das convenções. A diferença deste filme em relação a tantas outras obras é que ele, por mais que tenha uma postura extremamente política implícita, recusa veementemente se transformar em panfleto, seja do amor livre, do ménage a trois, da homossexualidade. As coisas acontecem naturalmente, não porque têm que acontecer, mas porque podem acontecer.

Honoré evoca o Truffaut de Beijos Proibidos e Domicílio Conjugal e o faz encontrar os musicais de Jacques Demy, sempre costurando a trama a partir das canções excelentes de Alex Beaupin. Louis Garrel, seu colaborador mais fiel, encarna mais uma vez o ser humano livre, como fez a obra-prima Em Paris, do mesmo Honoré. Aqui ele ganhou a companhia de Ludivine Sagnier, uma das pérolas que o cinema francês revelou nos últimos dez anos, e a ótima Clotilde Hesme, com quem Garrel já tinha divido a tela e os lençóis em Amantes Constantes. Na ponta final do quadrado, Gregoire Leprince-Ringuet, que impressiona ao criar a ingenuidade de um primeiro amor. Ele, ao lado de Garrel, estrela o melhor momento musical do filme, “As-tu déjà aimé?”. Os outros destaques na trilha/tela são “Au Parc”, cantada por Chiara Mastroianni, e “Je n’aime que toi”, com Garrel, Sagnier e Hesme nos entregando às ruas de Paris.

Esta foi a segunda vez que eu vi Canções de Amor. A primeira foi durante a Mostra de Cinema de São Paulo, em novembro, num programa duplo com Em Paris. Eu já tinha me apaixonado pelo filme, por sua leveza e por sua maneira de se lançar ao mundo, e já tinha amado cada uma das belíssimas canções que compõem a trilha sonora, devidamente baixadas e ouvidas à exaustão ao longo deste dez meses. Na semana passada, quando vi o trailer do filme, senti um aperto e imediatamente decidi revê-lo ao lado da minha amiga Fabiana, uma das pessoas mais queridas da minha vida. Sabia que nem todo mundo gosta de musicais e que provavelmente ela também torceria o nariz, mas sabia que, se ela fosse comigo, ela entenderia tudo o que é o filme, mesmo que não gostasse muito dele. No sábado, a Fabi foi comigo ao Cine Bombril. Viu o filme ao meu lado e adorou. E me fez imensamente feliz porque uma das melhores coisas da vida é dividir as coisas que você ama com as pessoas certas.

Canções de Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Chansons d'Amour, Christophe Honoré, 2007]

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Shortbus

Shortbus

Faz poucos dias desde que eu vi pela primeira vez a ópera rock gay Hedwig – Rock, Amor e Traição, filme de estréia de John Cameron Mitchell. Confesso que fiquei impressionado com a consistência do longa, que se escora no universo do cinema gay e, que, como tantos outros, poderia facilmente ter caído na armadilha de ser um filme sectário, panfletário ou, simplesmente, raso. Mitchell sabe dar o tom exato a seu protagonista, interpretado por ele mesmo, tornando-o complexo e encantador. Ao mesmo tempo, seu filme reproduz a fórmula de filme de rock, com humor e sarcasmo, sem falar na trilha sonora excepcional (com destaque para o novo clássico “Wig in a Box”).

Faz poucos dias que estreou em circuito Shortbus, o segundo longa de Mitchell. Ele não é o mais o protagonista, o filme não é um musical, mas a temática ainda é a mesma: o universo gay. Mas o cinema de Mitchell, embora possamos dizer que seja um cinema político, com público específico, não tem um alcance limitado. Muito pelo contrário. O discurso do personagem do ex-prefeito de Nova York tem um dos mais belas textos deste ano, partindo do específico para o universal. E é quando é universal (mesmo que seja num clube gay – ou uma versão revista e ampliada disso) que o filme de John Cameron Mitchell funciona plenamente.

A música, cortesia do Yo La Tengo, talvez seja a melhor do ano. Com uma beleza rara na cena indie norte-americana, o longa tem um equilíbrio impressionante entre as piadas sem qualquer pudor e a melancolia em que você pode acreditar, material difícil de encontrar por aí. Só peca em algumas soluções conciliadoras, único ponto em que se rende aos clichês do cinema gay. Com Shortbus, Mitchell prova que mesmo partindo de um microverso pode-se abrir a janela para todo o resto.

Shortbus EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Shortbus, John Cameron Mitchell, 2006]

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