Monthly Archives: agosto 2008

Cinema Silencioso

Se um dia eu fosse condenado a assistir filmes de somente uma fase da história do cinema, a época que eu escolheria certamente seria a do cinema mudo. Não sei exatamente o porquê, mas meu amor pelos filmes silenciosos é gratuito e absoluto. Alguns deles moram até hoje nas minhas listas de melhores de todos os tempos, como Aurora, de F. W. Murnau, e A Paixão de Joana D’Arc, de Carl Theodore Dreyer. A II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, que acontece até domingo na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, então, é um presente delicioso. Mais ainda porque muitos filmes ganharam trilha sonora ao vivo. Vi algumas sessões e devo assistir a mais algumas.

Yasujiro Ozu
Um Garoto Sincero EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Tokkan Kozo, 1929
Yasujiro Ozu

Antes de se tornar um dos maiores, senão o maior cineasta japonês, com seus filmes sobre os microversos familiares, Yasujiro Ozu dirigiu muitas comédias curtas, como este Um Garoto Sincero, delicioso exercício de timing e de simplicidade. A história é a de um homem que seqüestra um menino, mas não sabe como controlá-lo e o enche de doces e brinquedos, o que faz com que ganhe uma indesejada simpatia do garoto. A relação entre os dois é como a do Vagabundo e do menininho em O Garoto, de Charles Chaplin, trocando o melodrama por uma comédia tanto ingênua quanto anárquica, como se o tom do filme obedecesse a regras e lógicas de uma criança. Ozu já revelava aqui sua habilidade para contar histórias do cotidiano e para a direção de atores. O garotinho Tomio Aoki ficou tão famoso que mudou seu nome para Tokkan Kozo, título original do filme, e trabalhou em alguns longas de Ozu nos anos seguintes.

King Vidor
O Grande Desfile EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
The Big Parade, 1925
King Vidor

Se o Oscar tivesse sido criado alguns anos antes, este filme dificilmente perderia o prêmio principal. O Grande Desfile é um romance épico, um filme de guerra questionador e o primeiro grande marco na carreira de King Vidor, um cineasta de primeira. Pode parecer datado para quem só vê o cinema de hoje, mas é um filme que está na base de tudo. A cópia exibida respeita as marcações de colorização, reproduzindo o filme nos tons em que ele foi exibidos nos cinemas à época do lançamento. Dividido em três atos bastante diferentes (a família, o romance e a guerra), o longa guarda um impacto grande para as cenas de batalha, com uma sucessão elaboradíssima de truncagens, efeitos e uso de material de arquivo. O filme apresenta ainda uma visão bem moderna para a guerra, passando longe de criar heróis tradicionais e subvertendo o patriotismo com cenas pouco convencionais (soldados de bunda de fora tomando banho) e um espírito cômico em boa parte do filme. No epílogo, além da mutilação ser usada como uma crítica ao belicismo, há uma cena impressionante: um flashback, algo que me parece bastante ousado para a época, onde a personagem da mãe refaz na memória a vida de seu filho.

Kenji Mizoguchi
A Marcha de Tóquio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Tokyo Koshin-kyoku, 1929
Kenji Mizoguchi

O curta de Kenji Mizoguchi começa como uma sinfonia da cidade, com imagens e texto que remetem aos primeiros documentários, mas logo A Marcha de Tóquio assume os ares de um melodrama convencional, onde incomoda a sensação de que ali havia o roteiro de um longa espremido em 22 minutos. A novela em que o filme se baseia começa com uma questão social de diferença entre classes para um tom ainda mais dramático quando entra numa esfera familiar. Parece bastante influenciado pelo cinema e pela literatura ocidentais, mas ainda assim, já guarda elementos do cinema que Mizoguchi defenderia nos anos seguintes, como a questão da mulher.

Minoru Murata
A Sereia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Muteki, 1933
Minoru Murata

A Sereia começa bastante curioso, com a presença de vários rostos ocidentais num filme mudo japonês. Rapidamente percebe-se o quanto de ocidental o filme emulou, sobretudo em seu roteiro. O longa de Minoru Murata volta a ficar muito interessante quando aparecem as marcas expressionistas de sua fotografia (e na maquiagem do personagem norte-americano, vivido por um japonês), com closes macabros e jogos de sombras. A trilha criada pelo músico Cid Campos, que acompanhou ao vivo a exibição, começou parecendo deslocada, mas funcionou perfeitamente na meia hora final, quando o filme assume um tom tenso e extremamente forte.

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Batman – O Cavaleiro das Trevas, um mês depois

Heath Ledger, Aaron Eckhart, Christian Bale

E, então, depois da expectativa das pré-estréias e do furor dos primeiros dias de exibição, eu fui ao cinema para rever Batman – O Cavaleiro das Trevas. Mas antes de relatar como foi minha reavaliação do filme, gostaria de lançar alguns pensamentos sobre algumas questões instaladas nos últimos dias.

Primeiro, acho formidável o êxito do filme. Até hoje, quinta, dia 7, às 22h, ele já é a sétima maior bilheteria da história em números absolutos e daqui a pouco entra nas 50 mais nos números relativos, com os valores corrigidos pela inflação. Aplaudo mesmo. É admirável porque abre espaço para uma investida mais massiva da DC Comics no cinema, porque sedimenta o próprio gênero do filme de super-herói, porque leva mais gente ao cinema. Não há nada que conte contra esse sucesso.

No entanto, é meio assustadora a devoção que esse filme gerou – e isso, antes mesmo de ter sido lançado. Um mês antes da estréia, todos já pareciam prontos para esperar uma das maiores obras-primas da história do cinema. Talvez a maior. E não se tratava apenas de fãs fervorosos do personagem ou leitores vorazes de HQs. Era todo mundo mesmo. E, com os primeiros comentários muito elogiosos, achar algo diferente disso seria pecado. Mortal. Algo como comportamento de infiel perante uma igreja intolerante. O novo filme do Batman deveria ser louvado, reverenciado, idolatrado.

Rapidamente, surgiram textos comparando o trabalho de Christopher Nolan ao de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Michael Mann, Orson Welles. No maior site de cinema do mundo, o IMDB, o filme rapidamente se tornou o melhor da História, segundo a opinião dos leitores. No fim do primeiro dia de exibição, ele já tinha a maior média de todas e 80% dos votos eram uma “nota dez”.

Esse fenômeno me parece uma conjunção de fatores: um filme de um dos heróis mais amados do planeta; um filme do herói mais respeitado e complexo do planeta; um tom sério que credibiliza as eventuais “coisas de criança” que super-heróis trazem consigo; uma embalagem grandiosa que vai desde uma seleção forte de atores até a cenas filmadas com gigantismo, o que sempre causa a impressão de “porra, que filme do caralho”; e, por fim, o réquiem de um ícone jovem, consagrado e celebrado, sex symbol e grande ator, no papel de um vilão psicótico.

Como recusar esse prato sem ser despeitado, enjoado, metido a alternativo?

Então, há exatamente um mês, eu fui ver a tal obra-prima pela primeira vez. E saí achando que havia muita coisa que me agradava no filme, mas existiam outras que não me pareciam tão legais assim. Escrevi o que achei, que o filme ficava num meio termo. Que era retórico demais em alguns momentos, que exagerava no blockbuster em outros. Choveram pedras, cuspes e canivetes. Tentei sair o mais ileso possível e terminei adiando por um bom tempo o dia de minha reavaliação. Nesta semana, num fim de tarde, eu revi o filme.

Por pontos, então:

1) o assalto, a seqüência de abertura, é muito bem filmado. Tem corpo, inteligência e um quê vintage que parece querer dominar o longa inteiro;

2) a interpretação de Heath Ledger é uma obra-prima. Cada entonação, respiro, linguinha pra fora funcionam com perfeição. É realmente uma perfomance superior, mesmo em cenas difíceis como a da enfermeira, que poderia facilmente cair no ridículo;

3) todo o conceito do personagem, o Coringa, é acertadíssimo. O psicótico, além do grande ator que ganhou, foi desenhado pelo roteiro com absoluta coerência. É um dos vilões mais bem definidos que eu já vi;

4) a série de aparições do jornalista vivido por Anthony Michael Hall, de Clube dos Cinco, que não havia me chamado atenção antes, amarra bem a história inteira, desde sua entrevista com o prefeito até seu resgate, funcionando, de certa forma, como a espinha do filme;

5) Aaron Eckhart sabe fazer a virada de seu personagem com elegância e sutileza, mesmo a mudança exigindo grande dose de violência;

6) a cena em que Alfred (Michael Caine, muito bem) decide o destino do bilhete deixado por Rachel Dawes é bem bonita, filmada de maneira simples, sem excessos sentimentais;

7) tudo funciona com o personagem de Gary Oldman, talvez a escolha mais improvável do elenco, mas que subverte tudo o que esperaríamos de uma boa interpretação de Gary Oldman. É um de seus melhores papéis;

8) o roteiro administra bem várias situações, com destaque para o atentado e a visita à casa dos Gordon, o seqüestro que termina em morte e até mesmo a canastrice de Eric Roberts como o líder mafioso. O irmão de Julia funciona direitinho;

Mas nem tudo são flores mesmo. Rever o filme só me fez ter certeza de como ele não me deslumbra nem um pouco e, às vezes, até chega a irritar:

9) a grande seqüência de perseguição é longa, cansativa e barulhenta – parece existir apenas para que o já citado “porra, que filme do caralho” pudesse ser usado sem medo de errar, mas, além de ser inflada demais, não parece fazer parte do universo do Batman, muito menos espetacular do que o de outros heróis;

10) o momento Hong Kong do filme é o supra-sumo do exagero. Pra quê aquilo? Desnecessário, tenta aproximar o herói de James Bond ou afins e é filmado como se Nolan estivesse dirigindo um carrinho bate-bate no parque de diversões;

11) a cereja mofada nesta história é mesmo Christian Bale. Tudo relacionado a ele é ruim e sem talento. Bale continua um ator medíocre inventando que é grande, como no grotesco O Operário ou no “quero ganhar uma grana fingindo que sou sério” Psicopata Americano. Caricato, careteiro, limitado. No dia em que franzir a testa for sinônimo de interpretar bem, eu fundo um fã-clube dele;

12) e a voz, hein? Me poupem;

13) até agora não entendi como não conseguiram pensar em alguma coisa melhor para explicar a evolução do traje do Batman do que a seqüência dos bat-clones com a participação do Espantalho. É simplesmente gordura. Eu cortava fácil na ilha de edição. Conseguiram deixar o uniforme do herói tão tosco quanto os de seus fãs, sob o pretexto de ele deveria ser mudado;

14) esta cena parece ter um segundo e maior motivo, que é o de questionar a influência do herói sobre o público. O que deveria ser uma grande questão moral para Bruce Wayne é tratado de forma relaxada e não convence;

15) por sinal, incomoda bastante esta tentativa de multiplicar o lado “importante” do filme. Não que eu ache que tudo é uma grande festa e que o filme é de diversão. Não mesmo. Eu levo super-heróis bem a sério, mas precisava aquele papo furado sobre heróis de verdade durante o filme inteiro? Precisava ficar explicando tão repetidamente e de forma tão didática que o Batman não é um medalhista olímpico, mas um vigilante sombrio? Praticamente todos os personagens principais do longa tem algo a dizer sobre o assunto.

Por fim, minha revisão me fez chegar à seguinte conclusão: o maior problema do filme é como ele nos implora para significar algo mais. “Why so serious?”, hein?

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Encarnação do Demônio

Encarnação do Demônio

Numa cena bastante significativa, depois de sair da prisão onde passou as últimas quatro décadas, Zé do Caixão diz para seu assistente Bruno: “40 anos, Bruno. 40 anos de resistência”. Muito mais do que a continuidade da história de seu personagem, José Mojica Marins estava falando ali de si próprio. Um dos realizadores independentes mais importantes do país só conseguiu fazer o filme que fecha a trilogia de sua criação mais famosa depois de quarenta anos – mesmo com sua redescoberta como ícone cultural mundial há mais de uma década e meia. O simples fato de Encarnação do Demônio existir já é motivo de grande e justa comemoração, ainda mais com a embalagem de primeira linha que o projeto recebeu, mas um pouco de parcimônia faz bem à saúde.

Se o quê artesanal dos dois primeiros longas, dirigidos nos anos 60, era um dos atrativos do personagem, esse encantamento pelo bruto foi trocado por outro tipo de encantamento, desta vez pela concepção visual bastante competente. Nesse novo filme, Mojica se viu cercado de colaboradores apaixonados, realmente empenhados em remodelar o universo do Zé do Caixão. Fotografia, montagem, som, e, sobretudo, a excelente direção de arte de Cássio Amarante fazem do filme um produto extremamente cuidadoso, com momentos deslumbrantes. A trilha de André Abujamra e os efeitos visuais, simples, mas muito, muito eficientes, completam o pacote. É um filme realmente bonito, todo bem acabado, sem senões em seu arrojado visual.

O conceito continua complexo: muito mais do que um assasino maléfico, ele um idealista, um visionário em busca da pureza perdida. Mas o que me incomodou um pouco foi que Zé do Caixão ficou meio perdido nesse cenário tão bonito. A interpretação do velho mestre ainda se utiliza dos mesmos trejeitos de 40 anos atrás e parece não acompanhar essa evolução de linguagem. Mesmo sendo fiel a sua filosofia do sangue, o personagem me pareceu deslocado. As cenas de tortura, que seguem uma linha mais atual do cinema de terror, parecem querer tentar modernizar as coisas – e até conseguem – mas ainda me senti desconfortável diante disso tudo.

A cena da visita ao Purgatório, assim como a descida ao Inferno no filme anterior, é filmada com bastante competência, mas merecia ter sido encaixada melhor na trama. A idéia de aproveitar Jece Valadão, que morreu no decorrer da filmagens, criando um irmão para seu personagem deixou as coisas um pouco confusas. Embora o resultado não seja tão equilibrado, o filme tem momentos muito bons, como todas as cenas em que Helena Ignez aparece, soberbamente caracterizada, ou no final, quando o futuro lança suas possibilidades. A festa macabra para marcar a volta do maior maldito do cinema brasileiro é mais do que justa.

Encarnação do Demônio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Encarnação do Demônio, José Mojica Marins, 2008]

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