Monthly Archives: julho 2008

Nome Próprio

Nome Próprio

O surgimento dos blogues reinventou o poder sobre o texto. Sem editores, censores ou chefes, qualquer um podia escrever o que quisesse. Panfletos, críticas, xingamentos. Tudo, inclusive ficção. A tecnologia tinha golpeado não a literatura, mas o sistema editorial em cheio. As portas restritas para esse meio já nem eram mais tão importantes porque quem quisesse poderia simplesmente abrir um blogue. Era a revolução, a quebra de paradigmas. No entanto, o início da era dos blogues era também restrito e os pioneiros ganharam status diferenciado. Sobretudo quem escrevia ficção. De espaço alternativo, a internet virou plataforma para que novos escritores pudessem divulgar seu material e chamar atenção.

Foi assim com Clarah Averbuck, um dos nomes mais famosos da etapa inicial da blogosfera brasileira. Seus blogues chamaram atenção e seus textos migraram do virtual para o velho e bom papel. Dois de seus livros, escritos a partir de anunciadas experiências pessoais, pariram o roteiro de Nome Próprio, filme de Murilo Salles. Uma verdadeira jornada entre suportes, eu diria. Mas o filme, apesar de um esforço visível de se mostrar antenado, nasceu datado. E o culpado disso é justamente o material original, o texto, que envelheceu, revelando suas fragilidades. No plural.

Primeiro, Nome Próprio é um amontoado de frases feitas, tentando misturar vestígios de uma cultura underground, de Fante a Bukowski, com uma visão limitada de mundo, aquela coisa pós-adolescente de achar que palavrões, metalinguagem (“ficção não acontece contigo o tempo todo? então me reescreve?”) e mais um pouco de álcool e drogas fazem de algo, algo importante. A sensação é de que as frases são pensadas vinte vezes para que tenham um valor extra (“aqui escrevo, escrevo porque preciso”), para que signifiquem (“a dor são poros por onde transpira a escrita”), com maneirismos moderninhos que ficaram datados (“todo mundo já deve ter copiado, redirecionado”). E, sob o pretexto de não ter pudores, qualquer citação a sexo é banalizada. E isso já vem com a defesa acoplada de que quem não gostou deve ser careta.

O melhor do filme é Leandra Leal. Pensando bem, a única coisa boa do filme é Leandra Leal. Mas nem a interpretação da moça, bastante esforçada em dar credibilidade a sua frágil personagem, salva o longa de Murilo Salles, que confessou não ter muita intimidade com a internet e peca por um certo didatismo em relação à web. A idéia das sobreposições de texto funcionam até a segunda página, depois ficam com cara de coisa velha. Como a rebeldia pré-fabricada do texto (“O problema é eu fico achando que caos é ordem”). Mas, numa certa altura, a própria protagonista avisa (e lava as mãos): “não gostou? não lê”. Mas para saber que não se gosta, tem que dar uma espiadinha, não é?

Nome Próprio Estrelinha
[Nome Próprio, Murilo Salles, 2007]

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Batman – O Cavaleiro das Trevas

Christian Bale, Gary Oldman, Heath Ledger

O tipo de filme que mais me incomoda é aquele sobre o qual eu não consigo dar uma palavra final. Não um decreto para ninguém, mas uma decisão para mim mesmo. “Este filme é bom” ou “deste filme, eu não gosto”. O tempo ou uma revisão geralmente faz as coisas pesarem para um lado ou para outro, mas Batman – O Cavaleiro das Trevas tem a maior cara de que vai me torturar por anos a fio. Quem lê esse blogue sabe que eu sou fã de quadrinhos desde criança, especialmente Marvel e DC, especialmente especialmente DC Comics, e que nem sempre eu sei separar meu amor pelos personagens das minhas impressões sobre o filme (nem sei se isso é realmente necessário ou se faz parte do jogo), mas eu gostaria mesmo é de gostar deste longa pelo que ele é e não pelo que ele envolve.

Mas a sensação maior depois de assistir ao novo trabalho de Christopher Nolan é incômoda, como se dois filmes convivessem dentro de um. E eles não são muito amigos. O primeiro é aquele que todos imaginavam, uma seqüência imediata do amado/odiado Batman Begins, o filme sóbrio sobre o personagem, fugindo do fantasioso mundo de Tim Burton ou dos carros alegóricos de Joel Schumacher. O cenário abre as portas para a aguardada performance de Heath Ledger como o Coringa, muito menos descontrolada ou anárquica do que se podia esperar, mas não menos genial, composta com cuidados milimétricos, uma caracterização impecável, onde o filme aposta todo o texto bom, com destaque para a cena do interrogatório.

Neste primeiro filme, estão os atores que se esforçam para que o pacote saia íntegro, como Michael Caine, que mesmo num papel resumido mostra porque está entre os melhores, Gary Oldman, que segue negando os tiques que pontuaram sua carreira, desta vez com destaque maior dentro da trama, e o grande Aaron Eckhart, que poderia ter sido facilmente engolido pela interpretação de Ledger, mas se revela o ator mais equilibrado do filme, muito bem da primeira à última vez em que dá a(s) caras. Por sinal, eu que costumo ser relutante a novas versões sobre as origens dos personagens, acho que as soluções encontradas para Harvey Dent deram muito certo.

O segundo filme que mora dentro de O Cavaleiro das Trevas é um monstrengo grandalhão, que me fez imaginar se não teriam deixado as cenas de ação sob o comando de Michael Bay. Juro. Há (muitas) seqüências tão interessadas em demonstrar o quanto podem ser barulhentas e destruidoras que eu pensei que aquilo só poderia fazer sentido para Bay ou para os fãs de Duro de Matar. Conseguiram deixar o batmóvel ainda mais feio, parecendo um modelo inacabado de tanque de guerra. Sei que era essa a idéia, mas o filme não justifica essa visão de Gotham City com a cidade dominada pelos criminosos dos quadrinhos. E, olha, não tenho nada contra filmes de ação pela ação, mas não acho que certas coisas coexistam pacificamente com outros elementos do filme.

O que combina direitinho com essa massa bruta meio disforme é a interpretação de Christian Bale – ô atorzinho tosco! – que não tem a menor idéia do que fazer com sua canastrice, ainda mais com tanta gente boa em sua volta. É até covardia comparar os embates verbais entre o protagonista e Ledger ou Eckhart, mas ele apanha até nas conversinhas mais românticas com Maggie Gyleenhaal – eficiente, assumindo o papel de Rachel Dawes. E não há ninguém que possa me convencer que não foi um sabotador que inventou aquela voz mecânica pro Batman. Sinceramente. É uma escolha estúpida, que desmoraliza qualquer diálogo.

Por sinal, quando eu disse que reservaram o melhor do texto para Ledger, não quis dizer que somente Bale perdeu com isso. Assim como no longa anterior, O Cavaleiro das Trevas também peca por ser muito didático. Existe uma idéia que percorre todo o filme que é a de diferenciar o Batman dos heróis tradicionais ou mesmo de um herói. É uma idéia meio ingênua porque qualquer pessoa com o mínimo de informação, que não precisa ter lido uma HQ na vida, sabe que o Batman não é o Superman ou Capitão América. No entanto, o roteiro de Christopher e seu irmão Jonathan Nolan tem umas idéias interessantes, como o debate ético entre Bale e Morgan Freeman sobre a criação de um sistema espião, que lembra o Irmão Olho das HQs. É quando percebemos a moral discutível do vigilante.

É dessas diferenças que se constrói o filme. Há um espaço farto para que os bons atores entrem em cena, um cuidado para arrendorar personagens, uma decisão corajosa de deixar alguns personagens para trás e um certo esforço para que a investigação central do filme tenha alguns elementos detetivescos, mas também há muita preocupação em atrair platéias com piadas (quando elas vêem de Michael Caine ou Heath Ledger até as ruins ficam boas) e, sobretudo, com as explosões, perseguições e resgates que transformam um filme num blockbuster. Não consigo saber o que pesa mais. Não quero ser condolescente nem injusto, por isso, por enquanto, por agora, eu prefiro mesmo o meio termo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas EstrelinhaEstrelinha½
[The Dark Knight, Christopher Nolan, 2008]

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O Escafandro e a Borboleta

O Escafandro e a Borboleta

O Escafandro e a Borboleta é um desafio o espectador. Durante seus primeiros trinta (talvez mais) minutos, não vemos o rosto do protagonista. Num clássico filme de doença, passado quase que inteiramente dentro de um hospital, Janusz Kaminski reiventa o que se chama de fotografia, assumindo não apenas o ponto de vista de quem conta a história, como transformando sua visão turva e limitada num carrossel de experimentos visuais e sensoriais em que os atores encaram a câmera o tempo todo. Um trabalho impressionante que precisa ser visto para dar conta de sua totalidade.

Em seu terceiro longa, Julian Schnabel radicaliza seu compromisso com o marginal, que ficava mais em seus objetos nos filmes anteriores que dirigiu, Basquiat e Antes do Anoitecer, e leva suas experiências plásticas para a forma como filma. É seu trabalho mais apurado, embora a radicalidade do primeiro ato seja abafada depois de uma reviravolta, espertamente justificada no roteiro, tornando o filme mais convencional e talvez mais palatável para um espectador que busca apenas uma bela história. Afinal, o filme é sobre um editor de uma revista que sofre um derrame, perde os movimentos, mas consegue escrever um livro.

Mesmo assumindo esse lado mais clássico, Schnabel adota alguns métodos que deixam O Escafandro e a Borboleta diferenciado dos outros exemplares de seu ‘gênero’. Primeiro, Ronald Harwood, que escreveu aquela ode à tristeza que é O Pianista, não apenas adaptou o livro de Jean-Dominique Bauby, como tentou capturar seu antes e seu imediatamente depois, rendendo um monólogo aparentemente interior que ganha a cumplicidade do espectador, o único capaz de ouvir o personagem principal, o que cria uma intimidade silenciosa.

O segundo grande trunfo é como, apesar de bastante delicado e inevitavelmente entristecido, o filme tem um enorme senso de humor, com Mathieu Amalric fazendo piadas sucessivas sobre a condição de seu personagem e todos que o cercam. Um grande trabalho de interpretação, por sinal, já que o ator só tem diálogos em flashback, mas se desdobra para dar conta da complexidade do protagonista. O restante do elenco, cujas performances são quase que sempre uma conversa com a câmera, também é desafiado, com Emmanuelle Seigner e, principalmente, Marie-Josée Croze sendo as melhores em cena.

Entre o filme de doença e o experimento cinematográfico, Julian Schnabel conseguiu um meio termo bastante equilibrado. Um filme inteligente, que tenta trazer um algo novo e que, ao mesmo tempo, é uma homenagem singela que talvez mereça uma estrelinha a mais.

O Escafandro e a Borboleta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Scaphandre et la Papillon, Julian Schnabel, 2007]

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