Monthly Archives: junho 2008

Wall-E

Andrew Stanton, Ben Burtt

Há tantas respostas para a pergunta “o que faz de uma obra uma obra-prima” que elencá-las seria trabalhoso demais. Talvez a melhor delas seja a singularidade, as características que somente aquele livro, disco ou filme têm – ou que só eles têm daquela maneira. Todos os dias aparecem autores tentando buscar esta singularidade, mas quase todos eles geralmente pecam pelo excesso, por uma estranheza calculada ou a radicalidade sob a forma de inovação de linguagem. É raro chegarmos ao tom exato, como fez Andrew Stanton na maior parte de Wall-E, que talvez nem seja uma obra-prima, mas que é algo bem perto disso.

Numa discussão inicial, o novo longa da Pixar é um experimento bastante arriscado, já que, destinado a um público infinito, consegue abolir de mais de sua metade o elemento mais essencial da comunicação. Em plena era da troca de informações, Wall-E é, na maior parte, um filme mudo. Mas ao contrário de outras intervenções do tipo, como no brasileiro A Festa de Margarette ou num dos episódios de Three Times, essa opção não é um fim, mas um meio. Wall-E não tenta se vender pelo diferencial como o primeiro, nem homenagear as técnicas antigas de filmagem como o segundo. Para Andrew Stanton, o silêncio é apenas mais uma forma de se comunicar.

O longa, naturalmente, termina evocando o humor simples e direto do cinema sem som, usando artifícios corriqueiros a Chaplin, Buster Keaton ou Harold Lloyd, mas isso acontece sem esforço, como um movimento natural da opção de linguagem escolhida. Esse humor, assim como nos primeiros filmes, convive em perfeita harmonia com uma melancolia novamente simples que parece conseqüência imediata da solidão do protagonista, um robozinho ‘lixeiro’, único de sua espécie a resistir numa Terra de um futuro distante, devastado e abandonado. Melancolia, por sinal, parece demérito já que virou padrão artístico de um cinema independente atual, empenhado em revelar pérolas tristes em série. É a produção em massa de uma dor de mentira, da qual este filme parece estar bem distante.

Continuar nesse terreno (silêncio-solidão-melancolia), poderia tanto se tornar cômodo, já que se conseguiu um equilíbrio desejado, quanto claustrofóbico, vitimando o longa se seu formato fosse transformado numa grande armadilha esquemática. Mas Stanton muda de tom depois de uma primeira, numa sacada de mestre. A princípio, parece que Wall-E vai ganhar contornos mais comuns, com a chegada de novos personagens, a conseqüente introdução da fala e a adoção de um humor e um ritmo mais imediatos. No entanto, o filme surpreende ao manter seus elementos iniciais (a fala é usada apenas no necessário) e ainda seguir o caminho natural de um cinema de aventura.

Mas essa inteligência no trânsito entre as formas não é o único grande acerto de Wall-E, que apresenta uma das mais pessimistas visões do futuro da humanidade que o cinema já viu. Para Stanton, o homem que está por vir vai perder todos os padrões, especialmente – e aí temos de volta a melancolia – a capacidade de se comunicar, de viver em grupo, de coexistir. A crítica à maneira como o planeta está sendo tratado é aguda e, ao mesmo tempo, discreta, como M. Night Shyamalan precisa aprender a fazer. Num momento em que o cinema aposta em linhas retas fáceis ou ziguezagues exibicionistas para dar um recado, nunca uma ‘mensagem’ conseguiu um caminho tão sensível e inteligente.

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[Wall-E, Andrew Stanton, 2008]

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A Mulher da Areia

A Mulher da Areia

Niki Jumpei é um entomologista, um homem que estuda insetos. Ele vai a uma região de dunas na caça por uma espécie nova. Niki quer fama e notoriedade. Envolvido com suas descobertas, ele perde o último ônibus de volta para casa. Encontra um morador da área, bastante afastada das grandes cidades. Este oferece um pouso para o cientista. A casa de uma viúva, que fica embaixo de uma espécie de penhasco de areia. É aí que A Mulher da Areia se transforma num filme de terror. Não o horror propriamente dito, mas num grande exercício de terror psicológico, onde a impotência diante de um opressor inatingível é um golpe de máxima crueldade.

O longa de Hiroshi Teshigahara pode ser encarado de inúmeras formas, principalmente por causa de suas figuras de linguagem, mas o diretor arquiteta tudo de maneira que o filme funciona tanto como um estudo do comportamento humano quanto como um thriller com cara de filme de arte. O texto, adaptado para o cinema pelo autor da novela em que se baseia, Kôbô Abe, transporta tanto protagonista, vivido por Eiji Okada de Hiroshima Mon Amour, quanto seus carrascos para uma espécie de ser humano em estado bruto, um privado de sua liberdade, lutando por sua sobrevivência; os outros, afastados de conceitos da civilização, homens primários, basicamente fazendo o mesmo.

A caracterização destes últimos na cena que muda os rumos do filme é assustadora. Máscaras, armas e vestes rudes evocam um barbarismo impensado na época em que vivemos, do qual não há como saber o que se esperar. Nesse ponto do filme, Teshigahara atinge o ápice de seu controle sobre o projeto, coordenando atuações, música e câmera como se estivesse no comando de uma orquestra macabra. É uma vitória do instinto sobre a razão, duelo que está na espinha dorsal do longa e do qual o protagonista tenta escapar. A prisão de areia de Niki Jumpei, fotografada com uma beleza rara, é um dos cárceres mais horrendos da história do cinema.

A Mulher da Areia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Suna no Onna, Hiroshi Teshigahara, 1964]

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O Incrível Hulk

O Incrível Hulk

O principal motivo para a existência de O Incrível Hulk não é nada nobre: dinheiro. Como a investigação psicológica do personagem feita por Ang Lee não foi assimilada pelo público, a Marvel resolveu fazer tudo de novo – ignorando completamente o filme de cinco anos atrás. É ruim ter que admitir isso – ainda se tratando de um longa de Ang Lee -, mas foi a melhor coisa a se fazer. O novo filme não tem uma assinatura de peso, mas, além de pagar as contas, é um eficiente filme de ação e trata o personagem bem melhor sem tantas estripulias psicológicas.

Ang Lee, convenhamos, se esforçou. Tentou dar densidade ao drama de Bruce Banner, mas pecou por dois motivos: o primeiro é o excesso de explicação, com pesadelos e visões ganhando espaço demais na narrativa. Ficou acima do tom. O segundo foi a inclusão de um corpo estranho que modificou radicalmente a origem do personagem, tentando dar mais peso à questão psicológica, o pai de Bruce, que ganhou uma interpretação grotesca de Nick Nolte. No filme de Louis Leterrier, ele nem é sequer citado.

O diretor do novo longa não é, digamos, um autor como Ang Lee. Em seu currículo, os filmes de porrada têm destaque. Mas isso funciona em favor do filme, já que Leterrier se concentra na ação, o que faz corretamente, e respeita o roteiro menos pretensioso de Zak Penn, mais fiel à HQ e que finalmente entrega ao Hulk um vilão de verdade, o Abominável. Penn tem um texto mais fluido e encara o personagem muito mais como um melancólico lone rider do que como um homem perturbado.

O maior trunfo do filme é Edward Norton, fã do Hulk, que – além de ser um ator excelente para viver a dicotomia de Banner – ainda dissecou o roteiro, o que conferiu certo tom íntimo ao filme, contrastando com a aventura concebida pelo diretor. William Hurt e Tim Roth são um acerto e Liv Tyler está, como de hábito, bem fofinha, embora Jennifer Connelly tenha sido uma Betty Ross muito melhor. Além da sintonia com o momento Marvel (mais uma vez temos uma alusão ao futuro filme dos Vingadores), o roteiro deixa dois personagens para futuros filmes solo do herói: o Dr. Sampson e o Líder, que aparecem ainda sem poderes.

Embora a ação seja o forte (o monstro digital incomoda menos, embora eu gostasse do primeiro), há belas cenas dramáticas – quase todas as de Betty com a criatura. É bastante curioso que um filme mais assumidamente comercial tenha se saído tão melhor na função de dar conta de um personagem do que uma visão mais autoral e arriscada. Tavez se trate de uma conjunção de talentos complementares, talvez a explicação seja mais simples ainda. É provável que alguém como Hulk funcione mesmo para esmagar.

O Incrível Hulk EstrelinhaEstrelinha½
[The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008]

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Tetsuo

Tetsuo

No mês do centenário da imigração japonesa, começo uma maratona com filmes importantes na História da Terra do Sol Nascente. Kobayashi, Miike, Miyazaki, Suzuki e Teshigahara, entre outros, passarão por aqui ao longo dos próximos dias, mas resolvi começar o passeio pelo Japão pela obra de Shinya Tsukamoto, autor do clássico alternativo Tetsuo, o Homem de Ferro, um filme bastante perturbado sobre um homem e seu processo gradual de transformação em máquina. O filme leva em sua essência o espírito do pós-moderno. Desde os primeiros minutos, pode-se perceber que o diretor tem a clara intenção de criar um objeto de culto: trama esquisita, imagens fortes e dezenas de referências, desde o cinema de ficção-científica dos anos 50 até Lynch e Cronenberg, passando pela cultura anime e pelo terror trash de Sam Raimi nos 80.

Tetsuo não tem vergonha de ser uma colagem. Esta é provavelmente sua maior qualidade. Embora, em várias cenas, os excessos quase se transformem em brincadeira, existe uma coerência espantosa em sua confecção. O que mais impressiona é como o filme solta pinceladas de história e aposta todo seu poder de comunicação na trilogia imagem-montagem-música. Durante a maior parte de sua duração, o filme é nada mais do que uma sucessão de estímulos visuais e sonoros excitantes que provocam o espectador, convidando-o a se livrar de uma narrativa convencional e sentir o filme. Parece uma proposta bem boba, cabeça, mas funciona até porque Tetsuo não é um filme pretensioso.

Tsukamoto promove um passeio pelo absurdo, com direito a momentos grotescos malucos como a cena do pênis-broca, a partir de uma tentativa até ingênua de trazer algo novo. É justamente por isso que Tetsuo II seja um pouco decepcionante. Com mais dinheiro e à sombra do inesperado sucesso do filme original, o cineasta sucumbiu a uma narrativa mais linear, praticamente refilmando o longa anterior (que, por sinal, já era a versão estendida de um curta seu). O resultado é que o universo criado foi revisitado, respeitado e ganhou novos desdobramentos, mas o quesito originalidade, que era a marca maior do primeiro filme morreu na praia. A concepção visual continua caprichada, mas até os efeitos visuais perdem para as truncagens do longa original. Tetsuo II é bem divertido de se ver, mas deixa saudade do espírito-livre da experiência anterior.

Tetsuo II

Tetsuo, o Homem de Ferro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Tetsuo, Shinya Tsukamoto, 1989]

Tetsuo II, the Body Hammer EstrelinhaEstrelinha
[Tetsuo II, the Body Hammer, Shinya Tsukamoto, 1992]

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