Monthly Archives: maio 2008

Na Naureza Selvagem

Na Naureza Selvagem

A trajetória de Sean Penn é uma das mais interessantes de Hollywood. De bad boy que espancava a esposa (no caso, a Madonna) e ator de filmes teen (estava brilhante em Picardias Estudantis, de Amy Heckerling), se transformou num ator maiúsculo, respeitado, engajado e premiado. Na galeria de interpretações que nos ofereceu, destaque para O Pagamento Final, Loucos de Amor, 21 Gramas e Uma Lição de Amor.

Sua passagem para a cadeira de diretor não demorou tanto e, hoje, já estamos diante de seu quarto longa-metragem nesta função. O processo de seu amadurecimento como cineasta é flagrante. Ele começou bem com Unidos pelo Sangue, tropeçou no chatinho Acerto Final, se recuperou com o ótimo e nunca óbvio A Promessa e atingiu seu clímax com o belíssimo episódio de 11 de Setembro, estrelado por Ernest Bornigne.

Então, fica a dúvida: por que ele resolveu fazer um filme tão didático como Na Natureza Selvagem? Dá até para perdoar esta concessão hippie de celebrar a revolta contra o status quo através da história do garoto de classe média que resolve largar a vida urbana capitalista nunca, argh, jornada de autoconhecimento até o Alasca – pois é, dizia ele que, no Alasca, seria feliz. Tudo bem, isso passa, mas porque então aquela narração constrangedora da irmã? Por que fazer um uso tatibitate da trilha sonora de Eddie Vedder? As melodias são lindas, mas as letras são de uma pobreza assustadora, mastigadinhas demais, tentando ratificar o comportamento do protagonista.

O abuso da câmera lenta causa enjôo, principalmente nas cenas em que nosso herói percorre um rio de caiaque até chegar ao México (a Sol de América deve ter se contorcido de raiva). O que salva o filme de um destino mais trágico, com direito ao reencontro com a família mais forçado dos últimos tempos (por sinal, bem oficialesco este filme, né?), são vitórias pontuais na escolha do elenco: Catherine Keener, sensível e discreta, e Hal Holbrook, bastante correto, são os melhores. Emile Hirsch é um ator esforçado, mas ainda não tem o mojo. Um dos maiores acertos é o estabelecimento da relação entre os irmãos. É fácil acreditar no amor e na parceria entre os dois. O chato é ter que suportar aquele texto em tom supostamente literário, parecendo texto de blogue de pseudo-poeta.

Na Natureza Selvagem EstrelinhaEstrelinha
[Into the Wild, Sean Penn, 2007]

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Short Cuts 1

O Filmes do Chico agora tem uma comunidade no Orkut. Sintam-se à vontade para entrar aqui.

Ontem, Vale Tudo, de Gilberto Braga, completou exatamente 20 anos. A novela foi a melhor da história da teledramaturgia desse país.

Beija-me, Idiota foi o primeiro filme de Billy Wilder que eu vi em anos. Não é dos seus melhores, mas a assinatura dele é garantia de muito sarcasmo. Ray Walton e Kim Novak estão fantásticos e a metalinguagem com Dean Martin interpretando a ele mesmo é deliciosa.

Ensaio sobre a Cegueira dividiu a crítica e eu voltei a ficar desconfiado. Sempre achei que era trabalho demais para o Fernando Meirelles, que é um bom diretor, mas que ainda está engatinhando para querer adaptar uma obra-prima. Só Julianne Moore me salva.

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Southland Tales

 

Donnie Darko, o filme de estréia de Richard Kelly, nunca conseguiu me convencer completamente. Se por um lado aquele quê retrô casava com minha queda para a nostalgia, as intervenções mágicas no filme me pareceram algo excessivas. Mesmo assim, eu ainda guardava certa simpatia pelo filme, que além de revelar Jake Gyllenhaal, deu a Patrick Swayze uma de suas melhores aparições no cinema. Agora, depois de assistir ao novo trabalho de Kelly, deu vontade de voltar a sua estréia e descobrir se eu fui bonzinho demais.

Southland Tales vai ser lançado diretamente em DVD no Brasil. Uma prática cada vez mais comum que está atingindo filmes com assinaturas interessantes como os últimos de Neil Jordan e George A. Romero e que reprisa o destino que o primeiro longa de Richard Kelly teve abaixo do Equador. A questão é que o formato realmente parece ser o mais adequado para o filme. Porque Southland Tales é realmente um filme para poucos. Bem poucos. Quase ninguém.

O futuro pré-apocalíptico que serve de cenário para o filme parece o de uma brincadeira sem graça – e este tom é o que domina Southland Tales. É bastante perceptível a tentativa de se fazer um filme mais radical do que Donnie Darko em sua, digamos, revolução. O clima nostálgico foi trocado por uma embalagem de piada interna onde parece que só os atores conseguiram se divertir. A idéia parece mesmo não levar nada muito a sério, o que vai de encontro com a suposta crítica ao belicismo que o filme talvez pretenda carregar.

Esse desencontro de timings deixou o filme bastante confuso – e francamente patético na maior parte do tempo. A remontagem depois da fraca recepção em Cannes não deve ter ajudado muito. A tentativa de sarcasmo fica no esboço. Parece alguém sem muito conteúdo se esforçando para soar inteligente. Sorte de Miranda Richardson e Justin Timberlake, que quase não tiveram que contracenar com ninguém. Por sinal, é de Justin o que se pode chamar de melhor cena do filme: uma cover do Killers com dançarinas. Mas fica por aí, o que é uma pena. Southland Tales parece um filme em que ninguém acreditou, começando por seu diretor.

Southland Tales Estrelinha
[Southland Tales, Richard Kelly, 2006]

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Homem de Ferro

Homem de Ferro

A vitória de Homem de Ferro nas bilheterias é uma das melhores notícias do ano porque, sendo o pontapé inicial da Marvel como estúdio de cinema, é bem provável que tenhamos filmes baseados nas HQs da editora ainda mais autorais e arriscados. É uma das grandes surpresas também porque esse projetos mais íntimos geralmente dão resultados meia-boca, vide as incursões do Mark Steven Johnson no Universo Marvel: um Demolidor insípido, com Ben Affleck deixando raso um dos heróis mais complexos dos quadrinhos, e um Motoqueiro Fantasma ruim, com Nicolas Cage pagando mico.

Quando anunciaram Jon Favreau para o comando da primeira aventura de Tony Stark nos cinemas, confesso que não coloquei nenhuma fé. O cara que fez Zathura, um filme simpatiquinho e boboca, conseguiria tomar conta de uma cria de Stan Lee com alguma decência? Imaginei prontamente que surgiria algo como o que Tim Story (antecedente criminal: Taxi) fez com o Quarteto Fantástico: transformou os heróis num grupo de otários em dois filmes fracos de dar dó. Mas as notícias foram, aos poucos, ficando mais interessantes.

A melhor delas foi a escalação do protagonista. Numa época em que pós-adolescentes ganham quase todos os papéis de heróis (até para dar fôlego às futuras continuações), um quarentão seria a cara de Stark no cinema. E o melhor, Robert Downey Jr. é um ator de primeira, que dá contrastes necessários a tudo o que pega pela frente, como em Zodíaco e O Homem Duplo. Aposta de risco que se paga logo na primeira cena, única em que se faz uma citação indireta ao alcoolismo que viria a ser um dos maiores vilões do heróis nos quadrinhos. Assim como Tobey Maguire é o Peter Parker e Hugh Jackman é o Wolverine, Downey Jr. é Tony Stark.

A estrutura é bem clássica: personagens são introduzidos, herói descobre poderes e passa o o filme tentando lidar com eles até o duelo final contra o rival. No entanto, o que é bem didático em Batman Begins, por exemplo, funciona como um acelerador para motivar o espectador aqui. O desenvolvimento do traje assume ares instigantes – como naqueles programas de TV que revelam nossas possibilidades de futuro – e se torna a linha central de Favreau, que soube explorar bem cada fase do roteiro, que é bem linear, mas consegue dar substância aos personagens, com a ajuda dos atores.

O elenco de apoio é um grande acerto: primeiro temos Gwyneth Paltrow, ótima atriz apesar da campanha contra no Brasil, que surge graciosa da primeira à última cena. Terrence Howard reprisa seu talento e sua arrogância, enquanto Jeff Bridges cria um vilão delicioso, explorando a caricatura com poucos sabem fazer sem cair na obviedade. Uma tarefa difícil. Um grande ator num papel bem diferente do que estamos acostumados a ver. Mas este é, sem dúvida, um filme de Robert Downey Jr., sua inteligência e seu sarcasmo. Seu Tony Stark entra para a galeria de grandes traduções de heróis de HQ para o cinema e, mais ainda, é uma das melhores performances do ano.

Eu costumo exagerar com os filmes baseados em quadrinhos. Quando eu gosto deles, sempre termino multiplicando suas qualidades. Quando desgosto, o mesmo acontece com seus defeitos. Com Homem de Ferro, não há o que errar. Saí da sala de cinema com a certeza de que vi um grande filme.

Homem de Ferro Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela
[Iron Man, Jon Favreau, 2008]

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A volta dos mortos-vivos

O cinema vive de ciclos. A cada temporada, gêneros, estilos, temáticas e formatos são revisitados e, se os precursores dão certo, os revivals se reproduzem mais rápido do que um Gremlin. Em 2003, Danny Boyle ressucitou sua carreira – e de quebra um gênero – com Extermínio, onde um vírus se espalha transformando a maior parte da população da Inglaterra em seres mortos-vivos que se alimentam de gente para continuar mortos-vivos. O filme tinha um punhado de razões para dar certo: um roteiro bem escrito, com especial talento para o suspense, um cenário desolado como nos clássicos B sobre holocaustos futuros, um diretor com habilidade para comandar câmera e montagem, e um jovem protagonista talentoso, que se especializou em personagens perturbados. Foi o renascimento do filme de zumbis.

O gênero surgiu no fim dos anos 60 pelas mãos de George A. Romero, que até o lançamento de Extermínio, ao longo de três décadas, havia dirigido três filmes que mostram, um a um, a ascenção dos mortos-vivos sobre o planeta. A cada filme, Romero elaborava seu exército de zumbis, moldando-os numa poderosa crítica política à sociedade do século vinte, à mesma medida em que instituía toda uma mitologia do horror. A revitalização do gênero gerou dezenas de filhotes nos anos seguintes, sendo o melhor justamente um remake de um dos clássicos de Romero: Madrugada dos Mortos, dirigido pelo então estreante Zack Snyder em 2004. Bastante fiel ao material original, que já estava pronto, Snyder pôde se dedicar ao acabamento, criando um filme de zumbi de primeira, forte, delicioso e bem feito.

Com pelo menos dois novos clássicos bem recebidos no mercado, foi a vez do próprio Romero voltar a seu habitat, abandonado havia vinte anos. Terra dos Mortos não apenas cumpre um papel nostálgico de resgate histórico como se transforma no maior filme político de 2005, um libelo contra o totalitarismo, o imperalismo e a sociedade de consumo, visto como um ataque frontal ao governo Bush. Mas, mais do que um exercício de política, o filme levanta questões ainda maiores, ao reinventar a mitologia dos zumbis, cuja barbárie ecoa os princípios da formação das sociedades, com os mortos-vivos começando a demonstrar consciência e, pela primeira vez, se organizando num grupo. A força metafórica do filme é devastadora. Romero fez com que suas crias ganhassem um motivo e buscassem um improvável futuro.

Depois de Terra dos Mortos, difícil fazer algo à altura explorando esse terreno, mas dois espanhóis, donos da terra que faz o melhor cinema de horror da atualidade há cerca de uma década, resolveram beber da mesma fonte. Jaume Balagueró, diretor do bom A Sétima Vítima, e seu colega Paco Plaza, colaram dezenas de citações e entregaram [REC]. A dupla imaginou um filme que unisse: a) a paixão de nossa sociedade atual pelo registro; b) a paranóia química; c) os filmes de zumbis. Muita coisa para ser amarrada, mas o resultado é impressionantemente feliz. Uma equipe de TV – repórter e cinegrafista, retratados com bastante fidelidade, coisa rara – acompanham bombeiros numa chamada até um prédio onde uma mulher parece ter sido atacada, que em seguida é isolado pelas autoridades com todos dentro. A partir daí, a colcha de referências vai se avolumando.

Com várias seqüências assustadoras, tanto pelo domínio da imagem quanto do suspense, o filme cumpre sua função, mas padece por parecer muito com muita coisa feita nos últimos tempos. Ou seja, parece um plágio múltiplo. O formato é da câmera na mão, o que ecoa A Bruxa de Blair, inspiração que fica mais explícita na seqüência final, quase uma citação do filme mais revolucionário dos anos 90. A paranóia militarista tem muito de Extermínio e a lógica dos zumbis remete diretamente aos filmes de Romero mais antigos, sem preocupação com ecos políticos. Ainda que não comprometa o resultado, essas comparações reduzem bastante o impacto e o filme sofre por isso.

Mas a frustação que [REC] pode despertar não é maior do que a decepção causada pelo novo filme de Romero, sua quinta incursão pelo universo dos zumbis. Diário dos Mortos é um retrocesso inexplicável tanto na mitologia quanto no quosciente político do gênero. Não há mais os zumbis conscientes ou a sociedade barbarizada. Estamos de volta a um status anterior, onde a única atualização é na insipiente reflexão que o diretor tenta fazer sobre nosso caso de amor com o registro e a informação. Um punhado de estudantes de cinema gravam um filme de múmia enquanto a mídia começa a divulgar casos de mortos que ressucitam e atacam os vivos.

O grupo começa a encontrar o exército de zumbis à medida em que um deles resolve tomar para si o papel de registrar tudo o que acontece com sua câmera. Os mortos-vivos são redimensionados a papéis de figurantes. O que incomoda não é ignorar a cronologia porque isso não era necessário, mas voltar a um status primário com discussões muito mais rasas. Desta vez, só interessa a Romero essa obsessão pela informação, ou, mais do que ela, pela divulgação. Seria um viés interessante a explorar caso o texto convencesse, mas as frases feitas, o engavetamento de clichês, as atuações medíocres e quase nenhuma verossimilhança no comportamento dos personagens limitam esse a um filme de terrorzinho adolescente. Cloverfield, com muito menos, fez uma reflexão bem mais eficaz sobre o poder da imagem. Talvez não haja mais muito a acrescentar ao universo dos mortos-vivos. Talvez o poderio crítico que dessa subespécie de cinema já tenha atingido seu ápice. Talvez, e eu lamento muito em dizer isto, Romero já tenha dado toda a contribuição que poderia ao gênero.

Diário dos Mortos Uma estrela
[Diary of the Dead, George A. Romero, 2008]
[REC] Uma estrelaUma estrela
[[REC], Jaume Balangueró & Paco Plaza, 2007]

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Ensaio de um retorno

Oi pessoal,

bem, deixa eu tentar explicar meu sumiço. Há cerca de duas semanas, eu quebrei um osso do pé e comecei uma relação amorosa com uma bota de gesso. Ela só quer me ajudar, mas é uma figura muito pesada, sabe? Então, meu humor tem altos e baixos e minha vontade de fazer qualquer coisa é bem rara. Estou de licença do trabalho, de molho em casa, e tudo o que eu faço é ver Lost (estou atualizado na quarta temporada), mergulhar nas HQs (consegui ler Countdown inteira; tinha parado no 29; e ainda vi todas as séries que derivaram dela mais Liga da Justiça e meus eternos faves, os Titãs). Além de comer e ficar deitado, o que é uma beleza para virar um boi.

Vi alguns filmes também. Estou tentando criar coragem para escrever sobre eles, o que deve acontecer em breve. Breve mesmo. Os filmes que vi foram Margot e o Casamento, de Noah Baumbach, Southland Tales, do Richard Kelly, e [REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza. Estou aqui ainda com As Crônicas de Spiderwick, Jumper, do Doug Liman, e Diário dos Mortos, do Romero. Espero vê-los em breve. O pior de tudo é ficar sem ir ao cinema. No dia D eu havia visto Um Beijo Roubado, do Kar-Wai, sobre o qual ainda não consegui escrever. E para aumentar meu desespero, descobri a nova série de action fugures da DC, DC Universe, cuja primeira série já saiu no Brasil – eu não posso sair de casa pra comprar!

Enfim…

Por enquanto é isso, volto já.

Beijos e abraços,
Chico.

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