Monthly Archives: fevereiro 2008

Sangue Negro

Sangue Negro

Não há palavra possível para descrever a luta do homem contra a natureza, explica Paul Thomas Anderson. Os primeiros minutos do filme, que o silêncio parece multiplicar, são de demonstração de força, da selvageria como meio para a civilização. O embate é árduo e lento, mas o homem sempre vence em troca de algo muitas vezes chamado de humanidade. O prólogo de Sangue Negro, concebido num misto de ousadia formal e classicismo temático, é uma porta de entrada coerente para o filme que vem a seguir, que traça a trajetória de um homem que se deixou corromper.

Para Anderson, mais do que um personagem perverso, Daniel Plainsview foi um homem talhado na mesma pedra em que buscou petróleo. É como aquele velho conceito de produto do meio. Dominar o ambiente o fez assumir uma natureza interior completamente sua. Com essa natureza, não há luta. Há uma cena que mostra sua lógica quase infantil: Plainsview e o filho aguardam seu almoço quando um concorrente que havia tentado comprar seus poços entra no restaurante. O protagonista, que àquela altura tem exatamente tudo que podia, não se controla até humilhar o adversário apenas para se assegurar de sua superioridade.

O filme respeita essa condição do personagem e o faz ressonar em sua própria estrutura quando toma para si a opção de praticamente só enxergá-lo em detrimento de tudo o que está em volta. Então, podemos falar de um filme que toma partido. Uma decisão radical e arriscada, que concentra a responsabilidade pelo filme nas costas de Daniel Day-Lewis. A performance do ator é devastadora, dona de uma potência para o pavor que falta em filmes de terror, mas que mora na dubiedade nas cenas de demonstração de afeto para com o filho de Plainsview.

Nessa relação de pai e filho mora grande parte da riqueza do roteiro. Se Plainsview é assumidamente um homem brutal e de poucos escrúpulos, é com seu filho que ele supre sua necessidade de demonstrar e receber carinho. Mas, ao mesmo tempo, não há pudores em usar o garoto como espelho de um homem de família ou como escudo para os ataques de seus adversários. Dillon Freasier, a princípio um menino sem expressões, impressiona com a coerência e maturidade como defende seu personagem. É a extensão adversa de Plainsview, a metástase que não deu certo.

Mesmo dominando o filme, Day-Lewis ainda abre espaço para uma performance surpreendente de Paul Dano. A primeira cena em que Eli aparece na tela é simples: uma apresentação e um aperto de mão. Foi o suficiente para eu me emocionar. Sutil, o ator cresce aos poucos sempre seguro de até onde pode ir. E mesmo quando sentimos falta de uma voz mais grossa ou de alguém mais corpulento, Dano não decepciona. A cena do batismo, a mais forte do filme provavelmente, é escandalosamente boa, com um duelo dos mais fortes dos últimos tempos.

É também o filme em que Anderson demonstra maior controle de sua equipe técnica, com colaboradores em momentos iluminados. A fotografia que tenta abraçar a imensidão do cenário, o som é competentíssimo, mas o que mais chama a atenção é a trilha sonora genial de Jonny Greenwood, uma obra-prima, que vai do atonal ao melódico, como o embalo incômodo mais harmônico para uma história onde o exagero domina, onde a escolha é ser radical, onde o risco é assumido sem culpa. Em sua exaltação ao excesso, Paul Thomas Anderson fez seu melhor filme.

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[There Will Be Blood, Paul Thomas Anderson, 2007]

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Cloverfield

Matt Reeves

Cloverfield certamente vai ser lembrado pelo hype. 1) filme de monstro no sentido mais clássico da expressão, tem como seu principal fiador J.J. Abrams, o cultuado criador de Lost; 2) fez um mistério em torno de sua criatura como há tempos não acontecia; 3) tem um formato ‘câmera na mão’ que, junto com o mito gerado pelo suspense pré-filme, rendeu comparações imediatas com a experimentação de A Bruxa de Blair. Será uma maneira equivocada de se lembrar do filme. Cloverfield não é apenas muito bom, mas muito inteligente.

Estamos diante de um filme de monstro, sem dúvida. Não há concessões quanto a isso. Extremamente impiedoso, o longa traz um bicho gigante devastador, que além da força bruta ainda vem com companhia, e solta a criatura diante de uma Nova York sem muita resistência. Há muita competência em se promover suspense, terror, pânico, elementos que fazem de um filme com esta proposta um bom filme. Cloverfield é bastante eficiente nesse aspecto, embora o formato mais, digamos, livre possa provocar reações adversas. Filmes de monstro não são para todos.

Mas este filme está um passo além disso. O foco, embora haja a presença de militares pontuando o longa, não é a capacidade de resistência da cidade. Não interessam as estratégias bélicas, mas sim trajetórias. Especialmente a de um grupo de amigos e de uma câmera digital. E é ela a protagonista do filme, mas não porque dá um formato mais moderninho para Cloverfield. Nesse quesito, a idéia de rodar o filme 100% com uma câmera, adotando literalmente um ponto de vista diante da tragédia, é mais radical do que os planos fixos de Festim Diabólico, por exemplo.

A câmera intencionalmente ou não termina por simbolizar a paixão e a dependência cada vez maior do homem atual pelo registro. A preservação da imagem está presente na abertura e em toda a duração do filme. O personagem do amigo a que é dada a função de gravar depoimentos em uma festa de despedida – e que ganha uma personalidade quase psicótica quando toma para si a missão de registrar o ataque – é a transcrição para a tela de uma sociedade apaixonada pela imagem, pelo explícito e pela invasão da ‘vida real’. E se essa reflexão vem na forma deliciosa de um filme-catástrofe, melhor ainda.

Cloverfield – Monstro Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela
[Cloverfield, Matt Reeves, 2008]

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O Lutador

Mickey Rourke, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei

Este é um texto sobre corpos e carcaças. Sobre o eterno duelo com o tempo.

Mas antes…

Seria extremamente legítimo duvidar de O Lutador. O último parto de Darren Aronofsky havia sido aquela sucessão de equívocos chamada Fonte da Vida e seu novo projeto, sobre um lutador velho que vive das glórias passadas, seria estrelado por Mickey Rourke, um ator velho que caiu no ostracismo depois de ser um dos maiores astros dos anos 80 (e que também andou dando uns sopapos nos ringues). Aronofsky parecia querer fazer uma homenagem a Mickey e filmes-homenagem geralmente são limitados, cansativos e não levam a lugar algum.

Mas O Lutador é completamente diferente do que se poderia imaginar. Ele não está à sombra do histórico ou da figura de Mickey Rourke. Randy “The Ram” e o ator têm pouco a ver. Seu único ponto em comum talvez seja o fato de como ambos são resultados dos desacertos de suas histórias. A certeza desta desassociação enobrece o filme, que, apesar de tudo, certamente mora num tempo distante. Sua trilha soft metal traduz o personagem principal, um herói de uma outra época, preso a um passado não exatamente de tantas glórias, mas de promessas e deslumbramentos. Um homem que resolve deixar de ser refém de seu corpo.

Não há uma só palavra no filme sobre a aparência de Randy. Mas é justamente este visual, o de um homem que abriu mão de todo o resto para investir na expansão de sua massa muscular, que motiva e justifica O Lutador. O filme só existe porque seu corpo decadente é reflexo de suas escolhas. E o personagem sabe muito bem disso. Randy é um homem consciente da exaustão de seu corpo, de sua decadência como atleta, que decide tentar preservar o que resta de sua carcaça. Sua vida, ou o que ele sempre entendeu como sua vida, já deu o que tinha que dar, rendeu o que rendeu, chegou ao limite. O que um homem faz quando tudo o que lhe importa virou passado?

“The Ram”, que apesar dos músculos sempre foi um homem doce, resolve partir em busca de conforto. Seja nos braços de Cassidy, a dançarina vivida por Marisa Tomei, deslumbrante, em quem enxerga um possível amor e um pilar de reconstrução; seja na tentativa de reaproximação da filha, para quem sua figura é apenas um fantasma incômodo; seja no esforço para arrumar outro emprego, seguir uma nova vida, sobreviver. Este parágrafo possivelmente parece condenar o filme a uma história de redenção – e náo seria errado classificá-la assim porque, pondos os pingos nos is, o que Randy quer é ter a chance de poder recomeçar. Mas o roteiro nunca trata as coisas de forma tão fácil.

A relação entre “The Ram” e Cassidy é bastante exemplar. A dançarina é tão dependente de seu corpo quanto o lutador, mas os dois vivem momentos diferentes. Se Cassidy, que ainda tem pleno domínio sobre seu corpo, resiste a interferências e mudanças em sua vida, Randy procura uma transformação para enfrentar a falência de sua forma. Mas o roteirista Robert D. Siegel nos incita a pensar: essa busca do protagonista é genuína ou é um simples reflexo de seu estado de consciência de suas limitações? É possível negar nossa história? Nossa história não somos nós? Desse terreno de incertezas, desses personagens complexos em sua simplicidade se nutre um dos melhores filmes do ano.

O Lutador EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Wrestler, Darren Aronofsky, 2008]

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Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Sweeney Todd

Chegou o momento de uma confissão, algo escondido lá no fundo que agora precisa ser revelado: eu nunca gostei muito do Johnny Depp. Ícone de uma geração, da minha geração, esse ator atravessou duas décadas alimentando um mito de outsider que abafava a maneira caricata como interpretava. Sua canastrice nunca me convenceu. O tom farsesco e afetado que ele resolveu adotar para sempre me incomoda e, a meu ver, só funciona de verdade em dois filmes. Filmes que permitem esse exagero e essa superficialidade. Um deles é o belo Ed Wood, onde a afetação ganha ares de homenagem e reverência, e o outro é a comédia boba Don Juan de Marco, cujo personagem é um Munchausen que vive imerso em seu próprio universo de mentiras. O melhor Depp até hoje.

Até hoje.

Já na primeira cena de Sweeney Todd, o ator se revela diferente. Os elementos que o fizeram famoso estão todos lá, mas, desta vez, nos lugares e nos tons certos. Mas o que mais impressiona é que Depp, afeito à brincar de interpretar, escolhe soluções mais maduras para cada uma de suas expressões. Duvidei a cada minuto que ele fosse segurar a onda durante todo o filme. Estava enganado. Johnny Depp está genial como Sweeney Todd. Finalmente, um ator de verdade. O maior reflexo disso é que os atores que o cercam e que ancoram seu personagem também se vêem desobrigados de perseguir a afetação. Helena Bonham Carter é quem mais encanta, num papel que é um misto dificílimo de vilã e mulher apaixonada, com direito a uma ‘escolha de sofia’. A seqüência em que seus sonhos vêm à tona é deliciosa, o ‘momento sunshine’ do filme.

‘Sunshine’ porque Sweeney Todd é um filme literalmente nascido nas trevas. A fotografia preta, que no começo incomoda pelo ‘excesso de maquiagem’ se revela um suporte óbvio para a incursão de Tim Burton no universo musical de Stephen Sondheim. Incrível como dois autores tão à parte conseguiram encontrar tantos pontos em comum em suas obras. Sondheim, usando a mesma técnica de composição que lhe encheu os bolsos, em versão dark se transformou num irmão gêmeo para Burton. Num filme musical – literalmente já que os atores cantam em 90% das cenas -, Tim, pouco amigo do realismo, do naturalismo e da verossimilhança, encontrou seu mundo fantástico mais uma vez. Ou o ajustou para algo próximo a isso. E aqui ele deita e rola.

Sweeney Todd é bem menos arriscado do que o que se costuma esperar dos filmes de Tim Burton. Com a base sólida do musical original e um elenco muito à vontade, sua direção cresce, amadurece e o cineasta passa a trabalhar hum patamar, digamos, menos infantil, e mais sério. Algo como o que aconteceu com Pedro Almodóvar a partir de A Flor do Meu Segredo. Ele respeita toda sua bagagem e, experimentando menos, aprimora seus pontos fortes. Da mesma maneira que a interpretação de Johnny Depp aqui não tem par, o filme ganha uma consistência até então inédita na fimografia de Burton. Talvez seja sua obra-prima, mas algo me diz que ele ainda vai além.

Sweeney Todd: o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela
[Sweeney Todd: the Demon Barber of Fleet Street,  Tim Burton, 2007]

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