Monthly Archives: outubro 2007

Mutum

Mutum

Mutum é sobre dois Thiagos. Um deles tem dez anos e mora com sua família no interior de Minas Gerais. Um lugar tão seco quanto o sertão nordestino. Pobre, vive numa casa isolada, longe de cidades e escolas. Seu principal compromisso é brincar com o único amigo que tem, seu irmãozinho, Felipe. Uma rotina que o leva a um universo particular, onde pipocas viram brinquedo.

Este Thiago, no entanto, é um menino crescendo. Certo dia, seu tio o leva para um povoado distante para ser crismado. E é a partir daí que ele começa a enxergar o tamanho do mundo. Quando volta para casa, Thiago já tem outra visão do espaço que ocupa e percebe o perigo que está ao seu lado. É obrigado a ajudar o pai no campo, descobre a violência dentro de casa e tem que lidar com despedidas.

No original, Thiago se chama Miguilim. Ele é o protagonista da história que leva seu nome em Campo Geral, livro de Guimarães Rosa. O autor de difícil adaptação ganhou tradução peculiar nas mãos de Sandra Kogut. Mutum, o filme, herdou o nome do pedaço de terra onde vive o menino. No longa, estréia da diretora em filmes de ficção, Miguilim mudou de nome por causa de um segundo Thiago, o ator da história.

Thiago da Silva Mariz é um achado. Um pequeno líder de um elenco quase totalmente amador é capaz de um feito enorme. É a ele que Kogut entregou a tarefa de unir dois pontos distantes da obra de Guimarães Rosa: de um lado, a aridez da vida no campo com seus diálogos ríspidos e rudes; do outro, a delicadeza do olhar da criança, puro e apaixonado, cheio da emoção mais inocente, ávido por descobertas.

Mas, apesar da força da performance de Thiago, o que faz Mutum realmente funcionar é o quanto seus realizadores estão sintonizados com um cinema humanista feito hoje em dia. O emocional ganhou reflexo na bela fotografia, onde a câmera está sempre em busca de um rosto, de um olhar, de uma expressão. Enquanto o clima árido se abrigou na montagem, com cortes brutos, secos, impiedosos.

A maior qualidade de Mutum é ser um cinema duro na forma como traduz a brutalidade da transformação e, ao mesmo tempo, sabe ser extremamente delicado com seu protagonista e com seu espectador.

Mutum EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mutum, Sandra Kogut, 2007]

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A Casa de Alice

 

Três filmes brasileiros estão entre os dez selecionados para disputar o Troféu Bandeira Paulista, o prêmio principal da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que vai ser entregue na quinta-feira (1). O favorito entre esses finalistas é o primeiro longa-metragem de ficção dirigido pelo carioca Chico Teixeira, que tem uma carreira estabelecida como documentarista.

Em A Casa de Alice, Teixeira volta ao universo da família, que já tinha sido abordado em seu último longa a chegar ao circuito, Carrego Comigo, documentário sobre irmãos gêmeos. Mas, desta vez, o foco e o tratamento são outros. O novo filme é o retrato de uma casa de classe média baixa, onde os personagens se revelam aos poucos.

Num primeiro momento, somos apresentados aos seis membros da família (pai, mãe, três filhos e avó) para, a seguir, conhecermos os pequenos pecados guardados por cada um. Temas como traição, sexualidade, velhice e honestidade entram em cena pincelados. Não há a intenção de se aprofundar, fazer análises e muito menos julgamentos dos personagens.

Imagine um Beleza Americana, onde todos também guardam suas falhas, sem a busca por chocar o espectador. Nesse sentido, A Casa de Alice é um filme mais plausível, mais real. O diretor enxerga o comportamento muitas vezes questionável de seus personagens como conseqüências do cotidiano, da vida em grupo. Tudo é natural e compreensível.

O único senão é que, às vezes, o roteiro se acomoda a essa idéia e não gera grandes conflitos. O filme de Chico Teixeira é circular. Parte de um ponto para, depois de uma imensa volta, chegar num lugar não muito distante. O que interessa ao diretor é o impacto que esse movimento causa na vida dos envolvidos. Carla Ribas, a protagonista, está ótima.

A Casa de Alice EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[A Casa de Alice, Chico Teixeira, 2007]

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Jogo de Cena

Jogo de Cena

Eu andava meio desconfiado dessa idéia de Eduardo Coutinho de misturar depoimentos reais e encenados em Jogo de Cena, mas o cineasta me venceu fácil. Além da nada nova habilidade de entrevistador, que se aprimora a cada filme, retirando histórias de pequenas tragédias com facilidade, Coutinho estabeleceu um paralelo impressionante entre as mulheres de verdade e as atrizes de verdade. Quando Andréa Beltrão não segura as lágrimas ao ‘interpretar’ uma mulher que não chora, foi impossível me conter. Mas, além da comparação, há a investigação. As atrizes são entrevistadas em seguida sobre o processo de ‘tradução’ das personagens. E quando você acha que não poderia haver mais, um golpe final: uma história triste se transforma em interpretação e uma personagem real surge para provar que as aparências enganam mesmo.

Jogo de Cena EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Jogo de Cena, Eduardo Coutinho, 2007]

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Mostra SP 2009: dia 1

O Passado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Hector Babenco
Memórias de Setembro Estrelinha, de Hiroshi Toda
Tebas Estrelinha, de Rodrigo Areias
Morte do Presidente EstrelinhaEstrelinha½, de Gabriel Range
Sonhando Acordado Estrelinha½, de Michel Gondry
Não Toque no Machado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, de Jacques Rivette

Meu primeiro dia oficial de Mostra foi aberto com O Passado, de Hector Babenco, feito a partir do romance de Alan Pauls. Apesar de não ter como comparar tradução e original, o resultado me pareceu acima da média, sobretudo para quem vinha de um insatisfatório Carandiru. Babenco investiga como o peso de nossa história reflete em nossa trajetória com duas ajudas importantes: a trilha melancólica e sombria de Ivan Wyszogrod e a assustadora interpretação de Analía Couceyro. Se Gael García Bernal fosse um ator mais do que correto, o filme provavelmente seria bem melhor.

Memórias de Setembro é um filme equivocado do começo ao fim. O diretor Hiroshi Toda tenta atacar de cult e comete uma história com que começa com um clima etéreo artrificial e descamba em algumas cenas de impacto forçado. Reunir tantos intérpretes ruins deve ter difícil. Bola fora.

O português Tebas não fica atrás. Além de ter sido filmado num digital horrendo, o filme é pretensiosíssimo, tentando associar – ora metaforicamente, ora literalmente – a viagem do protagonista inexpressivo às lendas gregas, criando algumas cenas grotescas. Nada funciona.

Mesmo que fosse completamente ruim, Morte do Presidente já teria interesse garantido porque Gabriel Range realizou um sonho para boa parte do planeta. No entanto, o diretor soube usar direitinho a estrutura de um documentário para narrar a investigação do assassinato fictício de George W. Bush. O filme é eficiente, bem montado (se aproveitando de material de arquivo usado à revelia), além de curiosamente, bastante respeitoso. Além disso, o desfecho é bem bom. Pena que ele perca o timing na segunda metade e fique meio arrastado.

Michel Gondry tenta fazer seus filmes de uma só idéia sem um roteirista decente e dá nisso. O maior problema de Sonhando Acordado é como ele aposta todas as fichas no quanto o espectador vai se interessar por seus devaneios oníricos, sem garantir a mínima consistência a eles. Gael García Bernal não entendeu o papel e o resto do elenco, à exceção de um espirituoso Alain Chabat, parece ter sido jogado na tela. Algumas imagens e piadas funcionam isoladamente, mas nunca formam um conjunto. Cadê o Charlie Kaufman?

Jacques Rivette cometeu um filme clássico, com montagem bem rígida: não há cortes nas cenas, mas a câmera se movimenta dentro delas, suave e permanentemente, o que estendeu a duração do filme. Essa preocupação classicista transformou Não Toque no Machado, baseado em Balzac, num filme essencialmente masculino, apesar de sua grande intérprete ser a ótima Jeanne Balibar.

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Viagem a Darjeeling

Viagem a Darjeeling

Todos os filmes de Wes Anderson parecem ter o mesmo objetivo: promover uma reunião de família. Uma família geralmente desestruturada. Era assim com os Tenenbaums e com os Zissou – e é novamente assim com a história dos irmãos Francis, Peter e Jack, que partem pela Índia na busca de uma mãe reclusa numa viagem improvável.

A maior qualidade do cinema de Anderson talvez seja o talento que seus roteiros têm para extrair uma melancolia boa de tragicomédias repletas de personagens esquisitos. Ao mesmo tempo em que faz piada de sua pré-anunciada jornada de auto-conhecimento, o texto sabe dar o tratamento necessário para ela se justifique e se reafirme.

Seus personagens rapidamente se vêem transformados de caricatos em reais e sensíveis – e eles nunca são óbvios. Trabalhar nesse patamar, tão próximo da farsa, é dificílimo, mas Anderson sabe navegar as ondas da melancolia, escolhendo atores, músicas e criando cenas simples, mas inesquecíveis. Imagine quando Bill Murray conseguir pegar o trem.

Viagem a Darjeeling EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Darjeeling Limited, Wes Anderson, 2007]

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

Anamaria Marinca, Vlad Ivanov

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias poderia, muito bem, ser a terceira Palma de Ouro em Cannes dos irmãos Dardenne. A narrativa e a concepção visual do filme são parentes de primeira geração do cinema feito pela dupla belga de Rosetta A Criança, um cinema de investigação do humano, que sempre busca transbordar os instintos mais primários dos personagens.

O curioso sobre o longa de Cristian Mungiu é que, ao mesmo tempo em que trabalha nesse patamar interior, ele sempre se aproxima de uma espécie de lição do moral sobre o tema. O filme se equilibra nesse dueto inusitado desde que a situação central se estabelece – por sinal, quem chegar ao cinema sem ter muita informação sobre o filme vai aproveitá-lo bem mais – e isso só acontece depois de uns belos 40 minutos de filme.

Como crônica social, crítica de costumes e investigação de psiquês, o filme é quase uma experiência de terror, com cenas trabalhadas para incomodar – a imagem fixa no banheiro é dolorida – e deixar o espectador tenso – a saga que se segue à imagem. A questão é que, por outro lado, esse tratamento pode ser encarado como um panfleto bem arquitetado como arma contra as práticas das protagonistas. Nessa indefinição, o filme acaba e lança muitas perguntas. No fim, isso deve ser bom. Ou não?

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile, Cristian Mungiu, 2007]

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Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

A primeira dica sobre este novo filme de Sidney Lumet merece atenção: não leia uma única linha de qualquer sinopse deste filme. Nada. Todas elas estragam boa parte da deliciosa impressão que esta estranhíssima obra-prima nos traz. O que você precisa sabaer sobre o filme, se realmente precisa, é que Lumet transporta o clássico gênero dos filmes sobre assaltos para o mais clássico ainda gênero dos filmes de família. É do encontro dos dois que surgem a estranheza e a genialidade. O texto se ergue numa base perigosa, que muitas vezes risca a fronteira do ridículo, com tantas semelhanças e coincidências e é impressionante como tudo dá absolutamente certo. Parece coisa de escritor veterano, mas este é o único crédito de roteiro de Kelly Masterson. Talvez seja de sua ousadia junto com a direção segura de Lumet que tenha saído o casamento perfeito, onde tudo funciona: a montagem com saltos anunciados pela trilha sonora – Carter Burwell em mais uma obra-prima – e a movimentação do elenco – ninguém brilhante, mas todos formando um conjunto sem par.

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Before the Devil Knows You're Dead, Sidney Lumet, 2007]

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Paranoid Park

Paranoid Park

Não são poucas as vezes em que o novo filme de Gus Van Sant lembra Elefante, seu longa mais celebrado. Isso tem seus méritos e deméritos. Estamos de volta ao ambiente escolar, aos atores-com-cara-de-personagens, aos sons que invadem às falas e à montagem transversal. Mais uma vez o cineasta se propõe a investigar o mundo adolescente, mas, desta vez, abandonando a abordagem em espiral que deixava seus filmes anteriores menos deterministas e adotando um ponto de vista. A partir daí, temos a história de um jovem e seu conflito com a culpa.

Depois de consecutivos trabalhos ao lado do diretor de fotografia Harris Savides, que, digamos, definiu a embalagem visual de Gus Van Sant nos últimos anos, o cineasta retomou a parceria com outro gênio das câmeras, Christopher Doyle, que manteve a unidade plástica de sua obra recente. Muitos planos são memóráveis tanto em sua qualidade estética, quanto na função de espelho do protagonista. A trilha sonora e a edição de som tem novamente papel fundamental, ecoando outros trabalhos e, por vezes, se mostrando ainda mais complexas.

Então, enquanto continuação da obra de Van Sant, Paranoid Park ocupa espaço rapidamente, no reaproveitamento de marcas, na releitura de sua estética. Mas eu sinceramente queria ter gostado mais. Desde Elefante, que é um dos filmes da minha vida, eu espero um projeto ainda mais ousado e desafiador deste cineasta. Aqui, mesmo adotando uma outra lógica narrativa, o diretor parece mais estar dando seqüência a uma filmografia do que criando um trabalho específico.

Paranoid Park EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Paranoid Park, Gus Van Sant, 2007]

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Tropa de Elite

Tropa de Elite

Não acho que o problema de Tropa de Elite seja o discurso, como quer parte da imprensa. O filme, a meu ver, não chega exatamente a defender alguma coisa. Ele apenas se joga para um outro lado da questão da violência urbana. Lado que, por sinal, permanece obscuro porque os artistas brasileiros consideram que é politicamente incorreto tomar partido da polícia. A questão, na verdade, é muito complicada. De um lado, temos a apresentação de um ponto de vista quase inédito, o que é altamente saudável. Do outro, há perigoso conformismo com um sentimento do tipo “as coisas são mesmo assim”. Este é o problema.

O diretor José Padilha já tinha feito algo parecido em seu longa anterior, o documentário Ônibus 174, lançado no começo da nova onda de docs menos impessoais, onde a imparcialidade não é fundamental. A extensa pesquisa feita para este filme terminou tendo um efeito questionável. Segundo ele, o rapaz que seqüestrou um ônibus e matou pessoas somente o fez porque o sistema e o mundo o cooptaram para tanto. Os atos do assassino, embora não defendidos, terminam sendo justificados porque ele sofreu muito ao longo de sua vida. No novo longa, Padilha volta à parcialidade num assunto complicado.

O Brasil ainda vive à sombra do Regime Militar. Se muitos se rebelaram para serem presos, torturados e exilados, muitos mais souberam não apenas se adaptar à situação com ganhar em cima deste novo sistema de vida. Há alguns anos, diante de uma notícia de violência provocada por bandidos, uma pessoa próxima soltou um “na época dos militares, isso não acontecia”. Realmente. Acontecia dentro de quartéis e delegacias. O comportamento de nossas autoridades de segurança é herança direta desta época, deste modo de encarar o mundo.

Como Tropa de Elite é um filme bem dirigido, bem produzido e tem um protagonista muito certeiro na composição de um personagem de caracterização delicada, não é difícil que o longa termine sendo percebido como uma visão honesta da questão que trata. Sobretudo no Brasil, o filme faz parte de um tipo de obra que é facilmente identificável com o sentimento torto de justiça que os brasileiros, em sua maioria, têm. Sentimento que não apenas faz com que se defenda a pena de morte ou o armamento da população, mas que cria cada vez mais adeptos de que é justo fazer justiça com as próprias mãos.

Enquanto filme, Tropa de Elite funciona perfeitamente: Padilha se mostra hábil na condução de filme policial que pode ser associado a alguns hard thrillers norte-americanos ou europeus que nunca tinham encontrado par no Brasil. A montagem funciona, a câmera funciona e o roteiro é bem escrito. No entanto, as imagens reforçam um sentimento imperativo de que a violência pode apenas ser combatida com violência, associando, mesmo que sem mostrar orgulho por isso, a figura do assassino de bandidos ao heroísmo. Por outro lado, não seria meritoso mostrar um lado já que o todo está meio fora de alcance? Talvez a intenção seja essa: fomentar a discussão.

Mas, por enquanto, meu sentimento sobre o filme é apenas o de incômodo. No dia em que matar for uma decisão acertada, Tropa de Elite vai receber meu aplauso.

Tropa de Elite EstrelinhaEstrelinha
[Tropa de Elite, José Padilha, 2007]

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Não Estou Lá

Não Estou Lá

Bob Dylan é uma figura tão múltipla que é impossível ser interpretado por um ator apenas, impossível ser uma pessoa apenas. A idéia, por si só, é perfeita: retratar as inúmeras fases/faces do músico com um performer para cada uma delas e com uma história para cada um deles. E a execução desta idéia é tão cuidadosa quanto criativa, gerando muitas cenas memoráveis, como o curtinho e belíssimo encontro de Dylan com os Beatles.

O filme de Todd Haynes é o mais inesperado possível sobre o tema, contrariando – e até renegando – o formato clássico da biografia musical em voga nos últimos anos, que rendeu filmes quadrados e esquálidos como Ray ou Johnny & June. Centrados no um (um músico; um ator), o gênero acaba privilegiando as interpretações, geralmente emulando o retratado sem traduzi-lo, e fazendo sua obra de adorno.

Em Não Estou Lá, é tudo diferente. Ao criar um formato à parte, Haynes rejeitou o golpe da empatia popular (já que o povo ama uma historinha) e abraçou a obra de Dylan. Não no linear, listando canções e passagens importantes da vida de seu personagem, mas associando características de seu trabalho à própria estrutura do filme. Seqüestrar essas marcas é tão arriscado quanto pulverizar a história e a persona de Dylan e entregá-las a tantos.

A perigosa seleção de elenco foi certeira. Um escalado errado poderia desequilibrar o conjunto e, neste filme, as atuações são fundamentais para que o conjunto dê certo. Além da comentadíssima Cate Blanchett, deusa, e do sempre bom Heath Ledger, todos os Dylans estão bem em cena, do menino Marcus Carl Franklin a um improvável Richard Gere. Minha surpresa maior foi com a atuação precisa de Christian Bale, um ator de quem geralmente não gosto, que está no ponto certo, num dos papéis mais difíceis do longa.

Uma das grandes coisas do filme é como ele está impregnado de cinema. De como as imagens nos sugerem, mesmo que o que esteja em jogo sejam interpretações ou conceitos abertos. Do corpo morto de uma das primeiras cenas, nos preparamos para uma autópsia. Não que o que vem a seguir seja literal – essa idéia simplesmente inexiste para Todd Haynes – a exumação é apenas um primeiro oferecimento do ídolo ao público. Uma oferta que não tem o interesse de ser completa, mas de estimular.

Quando o espectador já entende do que se trata (e possivelmente se frustra porque esperava uma biografia convencional), Haynes resolve percorrer outros caminhos. Então, a multiplicidade, que era apenas do(s) protagonista(s), ataca outro personagem, quase um antagonista nos deixando cientes de que não há verdade, não há certeza e que há muito mais depois do ponto final. Coisa de quem entendeu que a resposta que se procura está soprando no vento.

Não Estou Lá EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[I'm Not There, Todd Haynes, 2007]

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