Monthly Archives: setembro 2007

Querô

Maria Luísa Mendonça

A comparação mais óbvia que pode ser feita ao se tratar deste filme de estréia de Carlos Cortez é com Pixote, a Lei do Mais Fraco, o clássico da delinqüência juvenil brasileira, de 1980. Tão imediata que o próprio Cortez fez questão de acentuá-la já na primeira imagem do filme, referência a uma das cenas mais famosas do longa de Hector Babenco. Tão forte que, não satisfeito, o diretor voltou a reforçá-la na imagem seguinte. Coisa de gênio. Transformar em homenagem a semelhança que poderia ser uma fragilidade do filme e torná-lo alvo fácil.

Revertido esse possível primeiro revés, o filme se escora com toda a força na interpretação de Maxwell Nascimento, um ‘natural’, diriam os norte-americanos, algo como uma pequena força natureza transformada em ator. Pelo menos é o que se pretende já que não há comparação possível com o demoniozinho criado por Douglas Silva em Cidade de Deus, por exemplo. O garoto até tem talento, mas sua fúria, ainda que pareça espontânea, é tão bruta (no sentido de faltar lapidação) que a força dramática da história tem um limite.

Não dá pra dizer que gosto do universo de Plínio Marcos, o que realmente relativiza minha visão sobre o filme, mas Querô, não apenas por se tratar de um texto dos anos 70, parece um filme datado. Mesmo com aquela câmera trêmula, que, convenhamos, virou o maior clichê do cinema que se pretende realista, é realizado de forma tão convencional, tão antiga, soa meio perdido no tempo, preso a uma época. Pode-se até argumentar que o assunto ainda é atual, mas fazer um filme que certamente ganharia tom de denúncia sobre uma questão de hoje como se faria há vinte, trinta anos não limita possibilidades?

Num ano em que as favelas e a vida bandida ganharam tantos filmes atuais, bons ou ruins (Antonia, Cidade dos Homens, Tropa de Elite), onde Querô se encaixa? Num lugar de homenagem saudosista a um escritor maldito? Numa tentativa de modernizar (há isso?) a denúncia das crianças nas ruas? Acho o filme sincero e com alguns achados: o próprio protagonista, o Brandão de Ailton Graça (insuportável), um, apenas um, dos muitos flashbacks borrados (no meio, os outros são toscos), e mais isso ou aquilo. Mas no geral o filme parece ser de outra época, num sentido ruim. E Plínio Marcos tem data de validade. O tempo o venceu.

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[Querô, Carlos Cortez, 2007]

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Encontros ao Acaso

Ashley Judd

É engraçado imaginar que Joey Lauren Adams, a maluquinha protagonista do filme mais redondo de Kevin Smith, Procura-se Amy, seja a autora deste filme tão maduro. Maduro porque Encontros ao Acaso termina por refletir sobre a dificuldade de se comunicar travestido de drama interiorano tipicamente norte-americano. Ashley Judd, que segue em grande fase, entrega mais uma bela interpretação sobre a mulher que bebe para conseguir um parceiro para uma noite de sexo, mas que não sabe encarar o dia seguinte e tem que enfrentar o fato de que alguém se interessou de verdade por ela.

E, então, como agir se você simplesmente não sabe o caminho, a maneira? Se você acha que pode se machucar, se a possibilidade de um namoro em vez de confortar faz você se sentir rumo a uma jaula num lugar desconhecido. Como aprender a crescer quando você já é adulto, quando jogar um peça de roupa íntima no lixo faz todo o incômodo desaparecer e tudo voltar a ficar arrumado e confortável? O que fazer quando o problema é seu e o mundo te pede mais?

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[Come Early Morning, Joey Lauren Adams, 2006]

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O Vigarista do Ano

Richard Gere, Hope Davis

O que mais se comentou a respeito de O Vigarista do Ano foi a brilhante interpretação de Richard Gere como o escroque que quis publicar uma biografia pouco crível sobre o mítico Howard Hughes. Minha ida ao cinema foi muito mais apoiada nessa informação do que em qualquer outra coisa já que a filmografia de Lasse Hallström é umas das mais desinteressantes que Hollywood já produziu (ou deturpou já que, pelo que eu lembre, Minha Vida de Cachorro era um filme lindo; bem, mas isso faz 20 anos…).

Ao término da sessão, queria realmente entender os parâmetros para se julgar uma interpretação. Não que Gere, que nunca fez nada demais – Chicago foi seu vôo mais alto –, esteja mal, mas sua performance merece um ‘correta’ e nada mais. Seu personagem, esse sim, é interessantíssimo e acho que muitas avaliações são feitas a partir disso. Mas grande ator mesmo ele continua sem ser.

E se não há brilho especial na interpretação, o resto do filme segue da mesma maneira. Hallström, pelo menos, deixou de lado os melodramas lacrimosos que vinha realizando e se dispôs a fazer uma comédia com alguma ironia. Mas tudo termina no quase. Há ou outra cena mais instigante, coadjuvantes cumprindo suas funções e o fantasma de Howard Hughes no filme todo. Talvez seja o melhor. E talvez esse melhor não seja tanto assim.

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[The Hoax, Lasse Hallström, 2007]

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O Ultimato Bourne

O Ultimato Bourne

O Ultimato Bourne não é apenas um belo desfecho para a trilogia estrelada por Matt Damon. É o melhor filme de ação produzido pelo cinema norte-americano em muito, muito tempo (Duro de Matar? Você caiu nessa?). Paul Greengrass nunca foi tão certeiro no domínio da câmera trêmula e na condução da história de Jason Bourne, que ganha contornos wolverinescos. Não seria muito errado dizer que o trabalho dele é quase hercúleo e que isso o faz um dos melhores diretores do ano porque o capítulo final da trilogia é, mais do que tudo, extremamente equilibrado com ritmo nervoso e um coesão dramática poderosa. Há várias cenas de ação filmadas com um talento gigante e preocupação com a verossimilhança, mas o que mais impressiona é como a força dramática do filme domina toda sua duração. Texto bem escrito, decupagem precisa e, o melhor, atores especialíssimos. Joan Allen, eu amo você, mas Julia Stiles está soberba e discreta.

O Ultimato Bourne EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Bourne Ultimatum, Paul Greengrass, 2007]

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