Monthly Archives: agosto 2007

Santiago

Santiago

Talvez Santiago, de João Moreira Salles, seja um grande golpe de marketing. Um filme que já se põe à parte pelo formato que apresenta um até então projeto inacabado. Filmes que nunca foram concluídos de cineastas conhecidos ganham auras instantaneamente. E retomar um projeto 16 anos depois é algo que naturalmente chamaria a atenção. Virá-lo pelo avesso multiplica essa visibilidade.

Santiago, o homem, já era um personagem ímpar. De qualquer maneira, o filme seria viável por mais que Salles negue essa possibilidade. E, completado de forma convencional, provavelmente, seria tão feliz quanto os outros bons trabalhos do diretor. Mas isso pode não ter sido suficiente. Possivelmente o cineasta quisesse algo diferente, especial. Talvez quisesse mesmo impacto. Ou ainda se livrar das explicações por ter voltado a seu antigo mordomo já que nega a culpa como motivo.

Aí outro talvez. Talvez seja extremamente calculista assumir-se como vilão, editar-se como arrogante e ‘desmarcarar-se’ para a platéia sob a égide do humilíssimo. Porque é assim que soa, não é? Abrir-se, revelar-se, expor-se. Tudo parece tão digno e honroso – e esse seria um belo filme de despedida, já que João Moreira Salles se anuncia desiludido com o cinema. Ou com um jeito velho de documentar.

Mas isso não seria contradição já que Santiago muda o foco de seu cinema e apresenta outra proposta, outras idéias sobre a idéia do registro? Só me resta especular. Talvez só o tempo – junto com os próximos passos do diretor – irá me dizer o quão sincero este filme foi. Por enquanto, o que me encanta é a habilidade de promover linguagem, de reordenar a memória, de construir a partir da desconstrução. Por enquanto, hoje, para mim, este filme é genial. Ou seu autor é um golpista admirável.

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[Santiago, João Moreira Salles, 2007]

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Ranking Anos 50

 

A Liga dos Blogues Cinematográficos vai eleger os melhores filmes dos anos 50. Cada integrantes contribuirá com 20 títulos. Os meus (acrescidos de mais alguns porque esse é meu vício, afinal) seguem abaixo numa relação bem difícil de fechar e cheia de injustiças.

1 Onde Começa o Inferno (59), de Howard Hawks
2 Cantando na Chuva (52), de Gene Kelly & Stanley Donen
3 O Incrível Homem que Encolheu (57), de Jack Arnold
4 Intriga Internacional (59), de Alfred Hitchcock
5 Morangos Silvestres (57), de Ingmar Bergman
6 Janela Indiscreta (54), de Alfred Hitchcock
7 Os Incompreendidos (59), de François Truffaut
8 Os Esquecidos (50), de Luis Buñuel
9 Rastros de Ódio (56), de John Ford
10 Crepúsculo dos Deuses (50), de Billy Wilder

11 Um Corpo que Cai (58), de Alfred Hitchcock
12 Meu Tio (58), de Jacques Tati
13 Rashomon (50), de Akira Kurosawa
14 A Marca da Maldade (58), de Orson Welles
15 Flor do Equinócio (58), de Yasujiro Ozu
16 Vidas Amargas (54), de Elia Kazan
17 No Silêncio da Noite (50), de Nicholas Ray
18 A Montanha dos Sete Abutres (51), de Billy Wilder
19 Contos da Lua Vaga Depois da Chuva (53), de Kenji Mizoguchi
20 O Batedor de Carteiras (59), de Robert Bresson

21 O Segredo das Jóias (50), de John Huston
22 O Mensageiro do Diabo (55), de Charles Laughton
23 Juventude Transviada (55), de Nicholas Ray
24 Vampiros de Almas (56), de Don Siegel
25 O Sétimo Selo (57), de Ingmar Bergman
26 Pacto Sinistro (51), de Alfred Hitchcock
27 Othello (52), de Orson Welles
28 Hiroshima, Meu Amor (59), de Alain Resnais
29 Doze Homens e uma Sentença (57), de Sidney Lumet
30 O Abismo de um Sonho (52), de Federico Fellini

31 Depois do Vendaval (52), de John Ford
32 Era uma Vez em Tóquio (53), de Yasujiro Ozu
33 Sindicato de Ladrões (54), de Elia Kazan
34 As Férias do Sr. Hulot (53), de Jacques Tati
35 O Salário do Medo (55), de Henri-Georges Clouzot
36 Sinfonia de Paris (51), de Vincente Minnelli
37 Noites de Cabíria (57), de Federico Fellini
38 Glória Feita de Sangue (57), de Stanley Kubrick
39 Quanto Mais Quente Melhor (59), de Billy Wilder
40 A Palavra (55), de Carl Theodore Dreyer

41 O Homem Errado (57), de Alfred Hitchcock
42 Os Sete Samurais (54), de Akira Kurosawa
43 Os Corruptos (53), de Fritz Lang
44 A Roda da Fortuna (53), de Vincente Minnelli
45 Sedução da Carne (54), de Luchino Visconti
46 Vida de Casado (51), de Mikio Naruse
47 Uma Rua Chamada Pecado (51), de Elia Kazan
48 Bancando a Ama Seca (58), de Frank Tashlin
49 Quinteto da Morte (55), de Alexander Mackendrick
50 O Dia em que a Terra Parou (51), de Robert Wise

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Projeto 100

Em janeiro de 2008, meu blogue vai completar cinco anos de existência, entre três endereços. Todos os anos, no aniversário dele, eu me dou de presente uma lista de 20 ou 30 filmes do período em que a página está em atividade. Pensei em fazer o mesmo, mas mudei de idéia. Uma festa de cinco anos merece mais. Aí, comecei a quebrar a cabeça e pensar no que poderia ser feito para marcar a data. Veio uma luz: – que tal os 100 melhores filmes dos últimos cinco anos?

Já estava começando a me debruçar sobre a idéia, quando achei que 100 para cinco anos era meio exagerado. Não que eu não conseguisse preencher a lista. Ela sairia, sem dúvida. Vocês bem sabem que se tem uma coisa de que eu gosto é uma lista. Mas, então, o que fazer? Depois de pensar muito resolvi: a lista vai existir e será de 100 mesmo, mas não dos melhores filmes dos últimos cinco anos.

No dia 29 de janeiro de 2008, vou postar aqui a lista dos 100 melhores filmes da minha vida. Os 100 filmes de todos os tempos. Fiquei desesperado logo no momento que tive a idéia, mas pensei em quem poderia me salvar de tudo o que eu não vi ou não revi: vocês, meus caros leitores. Como eu tenho milhares de faltas na minha filmografia, vou pedir a você para me ajudar a lembrar ou a procurar esse ou aquele filme que você acha que eu não poderia deixar de colocar na minha lista.

Toda terça-feira vou postar alguns filmes aqui, que vão ser divididos por cineastas, estilos, épocas, países, movimentos. E quero a ajuda de vocês para dizer qual faltou, qual foi menosprezado, qual eu preciso ver. Não vou prometer incluir todos na lista final, mas vou procurar assistir aos filmes e descobrir os motivos pelos quais vocês os indicaram. A lista vai ser totalmente minha, mas se vocês me apontarem um filme que vale a pena entrar e, se eu concordar com vocês, isso vai ser genial.

Lembrando que só vou colocar aqui os filmes que eu estou considerando para a lista de 100. Os outros que não têm muitas chances não serão citados.

Alfred Hitchcock

1938 – A Dama Oculta (The lady Vanishes)
1946 – Interlúdio (Notorious)
1948 – Festim Diabólico (Rope)
1951 – Pacto Sinistro (Strangers on a train)
1954 – Janela Indiscreta (Rear window)
1958 – Um Corpo que Cai (Vertigo)
1959 – Intriga Internacional (North by northwest)
1960 – Psicose (Psycho)
1963 – Os Pássaros (The birds)
1972 – Frenesi (Frenzy)

François Truffaut

1959 – Os Incompreendidos (Les 400 coups)
1961 – Uma Mulher para Dois (Jules et Jim)
1968 – Beijos Proibidos (Baisers volés)
1973 – A Noite Americana (La nuit americaine)
1976 – Na Idade da Inocência (L’argente de poche)
1977 – O Homem que Amava as Mulheres (L’homme qui aimait les femmes)

Federico Fellini

1952 – Abismo de um Sonho (Lo Sceicco Bianco)
1963 – 8 1/2 (Otto e Mezzo)
1965 – Julieta dos Espíritos (Giulietta Degli Spiriti)
1971 – Os Palhaços (I Clowns)
1973 – Amarcord (Amarcord)
1983 – E la Nave Va (E la Nave Va)

Michelangelo Antonioni

1960 – A Aventura (L’Avventura)
1961 – A Noite (La Notte)
1962 – O Eclipse (L’Eclisse)
1966 – Blow-up – Depois Daquele Beijo (Blow-up)
1975 – Passageiro – Profissão: Repórter (Professione: Reporter)

Ingmar Bergman

1956 – O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet)
1957 – Morangos Silvestres (Smultronstallet)
1966 – Persona (Persona)
1968 – A Hora do Lobo (Vargtimmen)
1972 – Gritos e Sussurros (Viskningar och Rop)
1982 – Fanny e Alexandre (Fanny och Alexander)

Até os 100, a gente vai se falando. Conto com vocês.

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Mostra Ozu & Mizoguchi

Yasujiro Ozu
Oportunidade especial para quem gosta ou quer conhecer os filmes de dois dos maiores cineasta japoneses: Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi. A partir de amanhã, o Centro Cultural São Paulo exibe uma mostra com alguns de seus melhores filmes em 16mm. Para mim, vai ser uma ótima chance de ter acesso a muitos filmes da dupla que moram nos meus desejos há muito tempo. Entre os que eu já vi, recomendo, em especial, o maravilhoso Filho Único, do Ozu.

dia 14 – terça

16h00 – A Rotina tem seu Encanto, de Yasujiro Ozu
18h00 – O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi
20h15 – Filho Único, de Yasujiro Ozu

dia 15 – quarta

16h00 – Os Amantes Crucificados, de Kenji Mizoguchi
18h00 – Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu
20h30 – Oharu – a Vida de uma Cortesã, de Kenji Mizoguchi

dia 16 – quinta

16h00 – A Nova Saga do Clã Taira, de Kenji Mizoguchi
18h00 – A Rotina tem seu Encanto, de Yasujiro Ozu
20h00 – Pai e Filha, de Yasujiro Ozu

dia 17 – sexta

16h00 – O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi
18h15 – Fim de Verão, de Yasujiro Ozu
20h00 – Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, de Kenji Mizoguchi

dia 18 – sábado

16h00 – Oharu – a Vida de uma Cortesã, de Kenji Mizoguchi
18h30 – Pai e Filha, de Yasujiro Ozu
20h30 – Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu

dia 19 – domingo

16h00 – Filho Único, de Yasujiro Ozu
18h00 – A Nova Saga do Clã Taira, de Kenji Mizoguchi
20h00 – Os Amantes Crucificados, de Kenji Mizoguchi

dia 21 – terça

16h00 – Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, de Kenji Mizoguchi
18h00 – Era uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu
20h30 – Fim de Verão, de Yasujiro Ozu

dia 22 – quarta
16h00 – Pai e Filha, de Yasujiro Ozu
18h00 – Oharu – a Vida de uma Cortesã, de Kenji Mizoguchi
20h30 – O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi

dia 23 – quinta

16h00 – Contos da Lua Vaga Depois da Chuva, de Kenji Mizoguchi
18h00 – A Rotina tem seu Encanto, de Yasujiro Ozu
20h00 – A Nova Saga do Clã Taira, de Kenji Mizoguchi

Mais detalhes no site do CCSP.

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Em Busca da Vida

Jia Zhang-ke

A imagem mais importante do século passado tinha um homem e quatro tanques de guerra. Para ser mais exato, um anônimo bloqueando a passagem de quatro tanques de guerra. Era 1989, na China. Num lugar conhecido como Praça da Paz Celestial. Trabalhadores, estudantes e intelectuais comandaram um movimento em nome da democracia. Um momento isolado na história do país. Um caso de revolta que tomou forma e que, na era da informação, ganhou os jornais, as revistas, a tevê.

Mesmo assim, os revoltados perderam. O rapaz que enfrentou os tanques foi retirado de lá para não ser esmagado. Como a China costuma fazer com quem atravessa seus propósitos. Em Busca da Vida, filme de Jia Zhankg-ke, é sobre pessoas esmagadas. Pessoas cujas histórias ficaram à margem dos objetivos do país de aumentar suas riquezas e de se tornar uma grande potência. Objetivos tão autoritários que custam sua própria geografia. Como uma pretensa celebridade em busca da fama, a China transforma seu corpo.

Mas as incisões numa nação do porte desta afetam milhares e milhões. “Procura um emprego ou uma pessoa?”, perguntam ao protagonista no começo do filme. Ele procura os dois. Um emprego para sobreviver num país em que é preciso se adaptar às novas realidades e mudar a todo momento. Uma mulher e uma filha para tentar reconstruir uma vida ou uma família que se perdeu no passado, que não sobreviveu às transformações impostas em seu seio.

E, no meio da busca, Zhang-ke pede permissão e nos apresenta outra personagem. Outra em busca. Outra que traduz a solidão da distância; outra que quer a transformação. De outro modo, com outro propósito. “Não fique brava comigo. Pra mim também é difícil”, ela ouve. E o pior que deve ser mesmo. Escolher se afastar, decidir ignorar, driblar a saudade, a nostalgia. E ser surpreendido pelo que o tempo faz. No meio destas duas buscas, pistas falsas, coincidências quase perversas, desencontros. No fim das contas, as as pessoas ficam com as ruínas de suas vidas. Com os ecos das transformações.

Mudanças que inundam as vidas de quem mora por lá. Que trazem celulares e Chow Yun-Fat e que transformam donas de casas, senhoras, ‘mulheres de verdade’, em putas. Quem se importa? O que é um na terra de um bilhão? Num país que se encarrega de restringir, conter, segregar, diminuir, se arrepender é pecado e desfazer o que se fez pode não ter volta. Diante de tanto absurdo numa nação que maltrata por tradição, o quão absurdo é ver um disco voador ou testemunhar um prédio levantar vôo?

Voltar para casa não tem mais sentido porque não há mais propriamente uma casa. Os tanques chegaram antes. Não é irônico que as paisagens permaneçam intactas em notas de dinheiro?

Em Busca da Vida estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha
[Still Life, 2006, Jia Zhang-ke]

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