Monthly Archives: julho 2007

Bobby

Quando Bobby estreou no Festival de Toronto do ano passado, começou a aparecer em praticamente todas as listas de apostas para o Oscar. Personagem edificante (o futuro presidente que iria mudar os EUA), tema sério, nostálgico, com um elenco cheio de astros e estrelas e um diretor-ator, condição que a Academia adora consagrar. Apesar disso tudo, no dia do anúncio das indicações, o filme não conseguiu nenhuma, nem mesmo a ‘barbada’ que parecia ser a música composta por Bryan Adams. Foi esquecido mesmo.

Hoje, quando eu sentei para escrever este texto, finalmente descobri o porquê. Assisti ao filme na noite de sábado passado, numa pré-estréia. E me surpreendi porque o material era bem melhor do que eu tinha imaginado, mas mesmo assim decidi somente escrever sobre ele quando entrasse em circuito. O resultado é que eu quase esqueci. Os méritos de Bobby existem, mas eles não são muito resistentes ao tempo.

O primeiro deles é a falta de pretensão. Apesar da trabalhar desavergonhadamente com a reverência histórica – Robert Kennedy era um homem perfeito, segundo Emilio Estevez -, a inserção de material documental é usada com equilíbrio e o filme nunca assume um tom definitivo, é muito mais uma homenagem. Essa condição fica ainda mais evidente quando se percebe que o longa conta a história de mais de vinte personagens… fictícios.

Então, por mais que aborde (com inteligência, como a Guerra do Vietnã – Lindsay Lohan e Elijah Wood inspirados) assuntos mais sérios, o trabalho de Estevez se apóia numa fórmula de ‘filme de hotel’ – acabei de inventar… – que o deixa ainda mais nostálgico, muito mais ‘cotidiano’ e com cara de reunião de amigos. O que é mais interessante é que, apesar do elenco elástico, o roteiro consegue dar harmonia à distribuição de tempo em tela a cada um dos personagens.

Em contrapartida, quase todos os atores conseguem deixá-los suficientemente interessantes para que queiramos descobrir ‘o que acontece no final’ com cada um deles. Há apenas dois que não funcionam: a jornalista tcheca (que parece aquelas atrizes bronzeadas e com caras de burras de comédias idiotas) e o hippie drogadinho de Ashton Kutcher, que sofre com o ator ruim.

De resto, todo mundo tem algum mérito, inclusive Demi Moore, vivendo uma cantora pé-de-cana, que, numa das melhores cenas do filme, tem um diálogo com Sharon Stone, em frente ao espelho, sobre o envelhecer de uma estrela. Melhores estão o hypado Shia LaBeouf e Brian Geraghty, que passam o filme sobre o efeito de alucinógenos, e Freddy Rodríguez, ótimo como o garçom chicano boa praça. Pena que tanta simpatia não faça a empolgação de Bobby durar muito. Mas será que a idéia não era essa?

Bobby EstrelinhaEstrelinha½
[Bobby, Emilio Estevez, 2006]

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Ponte para Terabítia

Ponte para Terabítia

Uma das melhores coisas que a arte pode provocar é a surpresa. Ir ver um filme sem grandes expectativas e descobrir um pequeno tesouro é uma experiência deliciosa. Ponte para Terabítia come pelas bordas e ganha o espectador aos poucos com uma mistura impressionantemente bem conduzida de drama infantil com fábula cheia de elementos fantásticos. O diretor desconhecido Gabor Csupo sabe equilibrar essas duas vertentes com graça e, sobretudo, com seriedade. Coisa raríssima em filme destinados aos público infantil é levar a sério o que se está filmando, mesmo reciclando clichês como é o caso aqui (se a gente for querer discutir as coisas nesse ponto, o que não é o caso).

Ponte para Terabítia se passa num outro plano. Um plano superior em que não se discute méritos técnicos (que o filme tem de sobra; os efeitos visuais ao mesmo tempo simples e impressionantes), mas a capacidade de encantamento, o amor pela imaginação, o poder de uma criança. Por sinal, Josh Hutcherson e AnnaSophia Robb, a versão-mirim da Keira Knightley, estão adoráveis. Um filme para ver com os olhos cheios d’água e um sorriso enorme no rosto.

Ponte para Terabítia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Bridge to Terabithia, Gabor Csupo, 2007]

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Na noite mais triste

Na noite mais triste, eu tive a oportunidade de voltar a ser repórter.

Na noite mais triste, eu tive a chance de voltar a estar no local de um fato, de voltar a acompanhar uma cobertura.

Na noite mais triste, eu voltei a estar mais perto de uma notícia, a ser o primeiro interlocutor entre ela e quem a recebe.

Na noite mais triste, eu conheci e interagi com colegas que estavam na mesma situação que eu, enfrentando o improviso para informar.

Na noite mais triste, eu fiquei um pouco feliz por ter tido essa nostalgia, me senti fazendo um trabalho importante.

Nesta noite mais triste, eu lembrei de que eu era jornalista. Não que eu deixasse de ter sido, mas eu tinha lembrado disso.

Mas, na noite mais triste, eu também fiquei triste. E não foi por causa do frio, da chuva e do vento. Foi porque, às vezes, eu me questionava sobre a natureza da minha função.

Na noite mais triste, na porta do IML, minha notícia eram números. Minha função era atualizar a chegada de corpos. Não que eu gostasse ou sentisse algum prazer mórbido com a chegada de cada rabecão. Mas havia, a cada telefonema com uma nova informação para a redação – e quando se trabalha para um portal os telefonemas são vários -, uma sensação de dever cumprido.

O momento mais triste da noite mais triste foi quando chegaram os primeiros parentes. Foi quando um irmão disse que soube que seu irmão mais velho era um dos passageiros de um vôo que virou chamas pela televisão. E quando o pai dos dois disse que a última vez que viu o filho foi há pouco mais de um mês, quando foi ao Rio Grande do Sul para o batizado do netinho, um bebê que hoje tem três meses.

Na noite mais triste, eu, por quase um segundo, pensei: – eu tenho uma história boa nas mãos. Mas aí lembrei que, de boa, aquela notícia não tinha nada. E entendi porque o jornalista tem aquela fama de urubu. E, olha, que ninguém que estava ali, pelo menos que eu saiba, ultrapassou o limite incerto entre ser ético e ser desrespeitoso.

Na noite mais triste dos últimos tempos, eu fiquei pensando na natureza do que eu faço e gosto de fazer. E cheguei à conclusão de que, mais cruel do que parece ser minha profissão aos olhos de quem vê de fora, é saber que, na maioria das vezes, me vêem completamente diferente do que eu realmente sou por causa do que eu faço.

E isso era bem pequeno, quase um segredo, numa noite tão triste.

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As Tentações do Irmão Sebastião

Agora ficou difícil. Depois de Baixio das Bestas e Carreiras, mais um filme nacional entra na disputa pelo título de pior filme do ano. As Tentações do Irmão Sebastião é a prova de que toda obra, absolutamente toda obra, pode ser viabilizada nesse país onde tanta gente reclama de falta de dinherio. Radical, ele é. Ousado, também. Mas o adjetivo mais adequado para o longa – do mesmo José Araújo do belo O Sertão das Memórias, 1996 – é ruim mesmo. A idéia é ser uma versão da vida do santo, mas, além de ser uma mistura de gêneros, de sexo e religião, de cristianismo e candomblé, tão mal resolvida quanto mal interpretada, encenada, escrita, é de um mau gosto estupendo em se tratando de suas imagens toscas e da direção de arte pulguenta. O objetivo parece ser chocar, provocar, mas a repulsa não é pela forma e, sim, pela qualidade do conteúdo.

As Tentações do Irmão Sebastião Estrelinha
[As Tentações do Irmão SebastiãoJosé Araújo, 2006]

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Anima Mundi 2007

Minhas visitas ao Anima Mundi não me apresentaram a nenhuma obra-prima, mas há algumas pérolas na minha lista de filmes favoritos. O russo Lavatory-Lovestory, simples no traço e na trama, foi meu favorito. O oscarizado The Danish Poet, igualmente simples, é outra preciosidade. A minha decepção ficou com o novo filme de Alexander Petrov, mesmo diretor de O Velho e o Mar, que continua lindo, mas parece mais do mesmo.

top ten Anima Mundi 2007:

1 Lavatory-Lovestory, de Konstantin Bronzit
2 The Danish Poet, de Torill Krove
3 Lapsus, de Juan Pablo Zaramella
4 Wanted, de Damien Bapst, Dan Créteur e Somin Cuisnier
5 Vida Maria, de Marcio Ramos
6 The Cleaner, de Dustin Rees
7 Moya Lyubov, de Aleksandr Petrov
8 Recto Verso, de Gabriel Jacquel
9 Liebeskrank, de Ute Dilger
10 Caution, The Doors Are Opening!, de Anastasia Zhuravleva

filmes vistos, separados por estrelas (nenhum recebeu cinco):

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Lavatory-Lovestory, de Konstantin Bronzit
The Danish Poet, de Torill Krove
Lapsus, de Juan Pablo Zaramella
Wanted, de Damien Bapst, Dan Créteur e Somin Cuisnier
Vida Maria, de Marcio Ramos
The Cleaner, de Dustin Rees

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Moya Lyubov, de Aleksandr Petrov
Recto Verso, de Gabriel Jacquel
Liebeskrank, de Ute Dilger
Caution, The Doors Are Opening!, de Anastasia Zhuravleva
Tidevandet, de Mette Skov
Off Beat, de Will Becher
Burning Safari, de Vincent Aupetit, Florent De Lataille, Jeanne Irzenski, Maxime Maleo, Aurélien Pedal, Claude-William Trebutien
Prey, de Tom Kyzivat
As Pedras de Aston, de Lotta e Uzi Geffenblad
Ark, de Grzegorz Jonkajtys
Weird Al Yankovic “Don’t Download This Song”, de Bill Plympton
Georg Wächst, de Matin Schmidt
Limbo, de Rômulo Eduardo D’hipólito
Moutons, de Simon Blanc, Vivien Cabrol e Arnaud Valette
Zoudov, de Clément Bolla, Laurent Gillot e Aurelia Vernhes
Mr. Jones: o Mapa, de Oysteine Stene
Le Building, de Marco Nguyen, Pierre Perifel, Xavier Ramonede, Olivier Staphylas e Rémi Zaarour
7Tonnes2, de Nicolas Deveaux
Jantar em Lisboa, de André Carrilho
Doll Face, de Andy Huang
Le Due Cose Preferite Dagli Esseri Humani, de Luca Frattini
Apnee, de Claude Chabot
No Time for Nuts, de Chris Renaud e Michael Thurmeier
Dust Echoes 2: Whirlpool, de James Calvert
Rockfish, de Tim Miller
Pib e Pog ‘Peter’s Room’, de Peter Peake
Sigg Jones, de Mathieu Bessudo, Douglas Lassance e Jonathan Vuillemin
Carte de Visite, de Paul O Flannagan

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A Lenda do Brilho da Lua, de Gabriela Carolina Dreher de Andrade
Rindin, o Baiacu, de Len Simon
Palavra Animada, de Paulo Pappera
Lua Lunática, de Martin Schiffter
Capelito Pesca-Pouco, de Ricardo Pastor
Bandeira, de Antonio Fialho
Roxo e Marrom, de Richard Webber
Haunted Hogmanay, de Neil Jack
The Runt, de Andreas Hykade
Shhh…, de Fumio Obata
Unplugged, de Stjepan Mihaljevic
Dust Echoes 2: The Bat and the Butterfly, de Dave Jones
Shish, de Igor Veichtagin e Marina Karpova
Silence Is Golden, de Chris Sheperd
Making Of, de Rémi Chapotot, Damien Tournaire e Aurore Valery
La Marche Des San Nom, de Jean Constantial, Nicolas Laverdure e Luca Vigroux
The Life, de Jin-Ho Ryu
Teat Beat of Sex, de Signe Baumane
Gwenn, de Maximilien Decroix, Florent Esbelin e François Malary
Forest Murmurs, de Jonathan Hodgson
En Tus Brazos, de François-Xavier Goby, Edouard
Dicht/Vorm Klassiekers: Regen, de Michael Sewnarain
Silencijum, de Davor Merdurecan e Marko Mestrovic
Nestané Nardzeniny Péti Fotky, de Galina Miklinová
Pika Pika 2007, de Takeshi Nagata e Kazue Monno
The Mystery of Pig City, de Garth Jones e Johnny Luu
Mauvais Temps, de Alain Gagnol e Jean Loup Felicioli
I Met Walrus, de Josh Raskin
Had Tany, de Rahmy Saleh
Dust Echoes 2: Mermaid Sorty, de James Calvert
Pirates, de Daniel Pinheiro Lima
L’Evasion, de Arnaud Demuynck, Gilles Cuvelier e Gabriel Jacques
Melna Kaste, de Jurgis Krasons
Celestina, de Ricardo Werdesheim
Not the End, de Clemens Steiger
Face, de Hendrick Dussolier
Snill, de Astrid Aakra
Devoção, de Rafael Ferreira

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Die Erde Ist Rund, de Jadwiga Krystyna Kowalska
Tango Finlandia, de Hannu Lajunen e Tomi Riionheimo
Jazz Song, de Jorge Gonzalez Varela
Gil Ministr Oboroni, de Boris Korshunov
Os Três Porquinhos, de Cláudio Roberto
The Act, de Omar Khudari
Dust Echoes 2: Moon Man, de Luke Jurevicious e Toby Quarmby
Justiça Emplaca, de Alexandre Bersot

bolinha

The Mouse Trap, de Han Woon
We Three, de Laura Di Trapani
Dokumanino, de Malgorzata Bosek
Radio Kebrle, de Zdenek Durdil
Ministry Messiah, de Gints Apsits
Une Instituut, de Mati Küut

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Harry Potter e a Ordem da Fênix

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Eu comecei a ler quadrinhos com uma revista que mostrava uma aventura dos Novos Titãs, o grupo de sidekicks (os parceiros adolescentes) dos heróis mais famosos da DC Comics. Os Titãs eram diferentes de todos os heróis que eu conhecia. Suas histórias mostravam muito mais seu cotidiano do que lutas espetaculares ou grandes sagas. Elas existiam, claro, mas eram minoria. Asa Noturna, Moça Maravilha, Kid Flash, Ravena, Mutano, Cyborg e Estelar eram adolescentes que começavam a ensaiar seus primeiros passos solo, encarando o mundo.

Assistir a Harry Potter e a Ordem da Fênix me fez lembrar muito dos Titãs. No quinto filme da série, Hogwarts é cenário de uma revolta juvenil. O motivo em questão tem menos a ver com hormônios e mais com responsabilidades. Os meninos da escola de mágicos se unem porque somente assim têm chances frente a um mal tão desconhecido quanto assustador. Mal que pode fazer com que eles, meninos, morram, deixem de existir, percam seus queridos, percam o mundo como conhecem.

O novo longa impõe ao grupo o peso de uma idade adulta precoce contra o que está errado e contra a ditadura. Desta vez não apenas Harry está na contramão. Ele e seus fiéis Ronnie e Hermione ganharam aliados, que ainda não sabem muito bem como administrar seus dons, mas que foram um grupo de verdade, como os Titãs, aprendendo juntos como passar para a próxima página. O texto de J.K. Rowling, traduzido para o cinema por Michael Godenberg com mesma precisão que Marv Wolfman fazia nos quadrinhos que eu lia é emocionante.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Diante de um material mais rico, o diretor estreante na série, David Yates, vindo de séries da TV britânica, conseguiu resultados impressionantes. Primeiro, trabalha sem excessos. Na mesma medida em que o filme tem momentos mais dramáticos, em que ressalta laços familiares e, sobretudo, laços de amizade, não há cenas chorosas, muito menos pieguice. A delicadeza é a escolha certeira, como nas flores que emolduram o primeiro beijo de Harry ou nos encontros com a família Weasley.

Yates também é seguramente o melhor diretor de atores de todos os filmes. Além de revitalizar as interpretações de Rupert Grint e Alan Rickman, escanteados em tempo e espaço no longa anterior, aproveita melhor tanto Daniel Radcliffe quanto Emma Watson, ambos muito bem, deixa Gary Oldman num tom certíssimo e nos apresenta duas novas e excelentes aquisições: a primeira é a estreante Evanna Lynch, dona de um olhar incômodo e de algumas das melhores cenas sem ação ao lado de Harry. A segunda é Imelda Staunton, uma vilã genial, neurótica e nervosa. Candidata séria a melhor atriz coadjuvante do ano.

Eu falei de ação, não é? Pois é, assim como nas HQs dos Titãs, ela quase inexiste no filme, que só fica mais ‘animadinho’ na meia hora final. Mas a falta de cenas de ação é recompensada com a excelência e a unidade da direção de Yates, que fez o mais bem decupado dos filmes. Apesar disso, o cineasta sabe dar textura dramática às cenas em que se precisa de esforço físico. A primeira cena é filmada de maneira inédita na série, com sua câmera trêmula. O duelo na sala das profecias também é exemplar nesse sentido.

À medida em que o tempo passava, meu amor pelo filme só fazia aumentar. Gostava de tudo, de todos. Saí de Harry Potter e a Ordem da Fênix exatamente como quando terminava de ler uma revista dos Titãs. Morrendo de vontade de chegar a continuação.

Harry Potter e a Ordem da Fênix estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha
[Harry Potter and the Order of the Phoenix, David Yates, 2007]

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Ratatouille

Ratatouille

Eu tenho um blogue que trata exclusivamente sobre cinema há quase cinco anos. Os textos que eu publico aqui são meus. A maioria, resenhas. Eu nunca gostei de chamar o que eu escrevo aqui de ‘críticas’, mas não é raro receber essa classificação. Muitas vezes, sou relaxado em me aprofundar sobre determinado aspecto, para elaborar meus argumentos, preguiçoso para pesquisar mais, me falta rigor na revisão dos textos e, às vezes, minha dislexia – único aspecto em que eu Tom Cruise temos muito em comum – me faz cometer impropérios.

Mas é fato que, quando eu sento atrás do computador para dar minha opinião aqui, eu estou me atrevendo a determinar se um filme é bom ou não. Verdade, por mais que o texto seja menos incisivo, ele sempre traz um aval (ou uma reprovação). Eu escrevo que isso é isso e aquilo é aquilo. E essa imposição da minha opinião termina por ter um caráter arrogante, manipulador e autoritário. Uma vezes mais, outras menos, mas sempre tem.

É claro que na internet – e no mundo dos blogues, mais especificamente – tudo depende de compartilhar. Minha ousadia em dar um ponto final sobre algum filme também sobrevive da sua disposição em me dar alguma ‘moral’. Eu nem sempre mereço. Nem sempre gosto dos meus textos. É claro que, como jornalista, me orgulho de ter escrito este ou aquele, de perceber que uma criação sua ficou realmente boa. Mas estes casos não são tão comuns. E o pior é que às vezes você se pega incluindo determinada palavra ou expressão ou pensamento no texto porque sabe que aquilo vai gerar discussão.

Eu tento não fazer isso de maneira gratuita, mas é difícil lidar com certas ‘obrigações’ que esta função – de comentador, não de crítico – traz. Não gosto, realmente não gosto, daqueles que escrevem apenas para polemizar. Ter fama de ranzinza, radical, linha dura faz muitas carreiras. Mas geralmente é tão irritante, mal educado e desnecessário ler textos deste tipo… No entanto, às vezes comparo o que eu escrevo com os desses e vejo que nem sempre evito as armadilhas.

Em Ratatouille existe o personagem de um crítico, grande composição de Peter O’Toole. Por mais que a historinha do ratinho que queria ser cozinheiro e do rapaz que queria ser levado a sério seja emocionante, bem contada e que se utilize da tecnologia de uma maneira especial, não há nada mais encantador do que a participação do crítico no longa. É muito fácil prever o que vai acontecer, afinal este é um filme infantil clássico, com catarse e lição de moral. O difícil é saber como vai acontecer. E é aí que Brad Bird ganha muitos pontos porque ele sabe que ser definitivo é muito chato.

Discorde sempre que você quiser, por favor.

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[Ratatouille, Brad Bird, 2007]

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O Despertar de uma Paixão

É muito fácil ‘ler’ este filme como um draminha simplório, antigo, quadradão. É muito burro também. O Despertar de uma Paixão nunca é simplório. É um filme simples, mas cheio de pequenas complexidades no estabelecimento da reconstrução de uma amor. A credibilidade surge do frescor, da vitalidade do texto, mesmo num filme feito à moda antiga, que poderia não saber se livrar dos clichês, que poderia ser apenas a bela fotografia e a excelente música de Alexandre Desplat. Mas é mais. Ser formal, clássico, não é pecado nem demérito. Ainda mais quando se tem Naomi Watts e Edward Norton para dar paixão a seus personagens.

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[The Painted Veil, John Curran, 2006]

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500 Almas

Belo filme de Joel Pizzini, que é extremamente carinhoso com a apresentação dos remanescentes da tribo Guató, que sobrevivem no Pantanal mato-grossense. O documentário é intercalado por aparições de Paulo José, que nas peles de generais, juízes e religiosos ajuda a compor o histórico do povo, que foi considerado extinto por quase uma década. Algo que eu pensei que não fosse funcionar, mas que se revela bem eficaz a cada nova intervenção. A fotografia, a cargo de Mário Carneiro, que assinou vários filmes do Cinema Novo, é um dos pontos altos do filme, que é bem cuidado tanto da montagem quanto na trilha, mas que peca apenas porque muitas das cenas onde há sobreposição de sons ficam incompreensíveis. No entanto, o diretor tem a sábia decisão de não se apoiar no belo conjunto de cenários e cair num formato de especial da National Geographic. Pelo contrário, o filme se afirma como um pequeno recorte dos efeitos da passagem do tempo numa cultura.

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[500 Almas, Joel Pizzini, 2004]

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Paris, Te Amo

O maior problema de um filme em episódios sempre será o desequilíbrio entre eles, mas um final meio “de produtor” até serve para amarrar bem os 18 curtas de cinco minutos que compõem este longa-metragem. O filme que abre Paris, Te Amo é o sem muita graça de Bruno Podalydès, que parecia contar que sua mistura de humor negro e melancolia funcionasse melhor. Gurinder Chadha faz um interessante continho sobre integração, que ao mesmo tempo em que combina perfeitamente com seu cinema globalizado, tem uma cena final bonita, uma ode à Paris de todos. Gus Van Sant não estava nem aí para a cidade (foi o único que fez isso e se deu bem), fez um episódio simples, bem humorado e muito bem resolvido, com direito a Marianne Faithful no elenco.

O filme dos irmãos Coen parece extremamente com seu cinema, mas o humor quase pastelão, bem exagerado, atrapalha um pouco. Alfonso Cuarón, numa só tomada, aposta demais no pequeno segredinho do roteiro que tem nas mãos. E esse segredinho não é lá estas coisas, apesar de o episódio casar bem com o resto. O único completamente estranho aos demais é o de Vicenzo Natali, tentativa de homeangear a Paris fantástica, bem fraquinho. Wes Craven, que faz uma ponta neste episódio certeiro, se sai muito melhor como diretor, na visita de um casal ao túmulo de Oscar Wilde. Muito bom.

Walter Salles e Daniela Thomas fazem parte da cota crítica social. O episódio é fechadinho, mas não está à vontade entre os outros. Ruim mesmo é o de Olivier Schimitz, que se mete a mostrar como o estrangeiro pode ser devorado pela cidade com excesso de invenção. Tom Tykwer utiliza algumas de suas marcas num episódio bastante clichê, mas simpático. Richard La Gravenese aposta na inteligência de seu roteiro e se dá mal, mas tem Fanny Ardant. E Nobuhiro Suwa desperdiça Juliette Binoche num episódio inócuo, que não casa com filme e difícil de comprar.

Isabel Coixet cometeu um dos melhores curtas, um filme narrado em off com um roteiro belíssmo, com Sergio Castellitto redescobrindo como amar. Olivier Assayas conseguiu um belo resultado, embora não tão bom quanto o da espanhola, com uma história simples e bem interpretada. A dupla Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu não tem um grande texto nas mãos, mas o valoriza com o encontro de Ben Gazzara e Gena Rowlands numa mesa de bar.

Christopher Doyle erra feio ao tentar se valer uma fantasia que não sabe dominar. O lúdico funciona muito bem no curta de Sylvain Chomet, que resgata um clássico francês: o mímico. E ainda faz uma curtinha, mas excelente crítica aos turistas norte-americanos. Mas, e talvez por isso mesmo ele tenha sido deixado por último, é de Alexander Payne o melhor dos episódios. O melhor de longe, talvez uma pequenina obra-prima. A princípio, com um carta sendo lida em off, Payne não apenas destrói a ignorância norte-americana, como alfineta a visão pasteurizada e publicitária da cidade, para, em seguida, numa transição digna dos grandes escritores, fazer sua protagonista descobrir um certo porquê da maneira mais linda possível.

Paris, Te Amo estrelinhaestrelinha
[Paris, Je T'Aime, 2012]

Montmartre estrelinhaestrelinha
direção: Bruno Podalydès.

Quais de Seine estrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Gurinder Chadha.

Le Marais estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Gus Van Sant.

Tuileries estrelinhaestrelinha
direção: Joel & Ethan Coen.

Loin du 16e estrelinhaestrelinha
direção: Walter Salles & Daniela Thomas.

Porte de Choisy estrelinha
direção: Christopher Doyle.

Bastille estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Isabel Coixet.

Place de Victoires estrelinha
direção: Nobuhiro Suwa.

Tour Eiffel estrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Sylvain Chomet.

Parc Monceau estrelinhaestrelinha
direção: Alfonso Cuarón.

Quartier des Enfants Rouges estrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Olivier Assayas.

Place de Fêtes bolinha
direção: Olivier Schmitz.

Pigalle estrelinhaestrelinha
direção: Richard La Gravenese.

Quartier de la Madeleine bolinha
direção: Vicenzo Natali.

Père-Lachase estrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Wes Craven.

Faubourg Saint-Denis estrelinhaestrelinha
direção: Tom Tykwer.

Quartier Latin estrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Frédéric Auburtin & Gérard Depardieu.

14e Arrondissement estrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinhaestrelinha
direção: Alexander Payne.

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