Monthly Archives: abril 2007

Conflito Mortal

Andy Lau, Maggie Cheung

O domingo não prometia nada. A ida à locadora, que há tempos não fazia parte da minha vida, foi para tentar reassistir o melhor filme do ano passado, O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), mas as poucas cópias já haviam sido locadas. Foi então que uma olhada rápida nas prateleiras de lançamentos me levou para um tal de Conflito Mortal, filme estrelado por Andy Lau e Maggie Cheung. Como tem um monte de coisas orientais interessantes chegando em DVD, peguei o filme e vi que se tratava do primeiro longa de Wong Kar-Wai, As Tear Goes By, em mais um caso de tradutor que merece a forca.

O filme, de 1988, tem uma estrutura conflituosa, entre o filme de ação, com cenas bastante violentas e montagem com todos os maneirismos do gênero, muita câmera lenta e som alto nas perseguições, e o drama, com o protagonista dividido entre o destino e o amor. Desse confronto temático, surge um ensaio do cinema de um dos diretores mais interessantes surgidos nos últimos tempos. Em certa medida, o filme antecipa tanto a narrativa urbana de filmes como Amores Expressos e Anjos Caídos quanto os que formam a trilogia encerrada com 2046.

Dos primeiros, há a grande cidade e os personagens que sobrevivem – e que são reféns – daquele ambiente urbano. Dos seguintes, o filme antecipa uma série de características do cinema de Kar-Wai, como os protagonistas tentando reformular suas vidas, a consciência da solidão e a busca por um papel no mundo. O filme, que já anuncia o namoro do diretor com os enquadramentos menos tradicionais – o que se consolidaria logo depois com o começo de sua pareceria com Christopher Doyle – também é a matriz para estabelecer a relação de Kar-Wai com a música.

Numa seqüência longa, caminhando a centímetros do kitsch, o cineasta usa de um ícone da música pop, “Take My Breath Away”, do Berlin, numa versão, acredite, em chinês, para emoldurar o reencontro dos personagens, filmado como um clipe romântico dos anos 80. O resultado é sublime. Tanto no envolvimento que a cena provoca, transformando a dupla em seres comuns, populares, da esquina, quanto na maneira como Kar-Wai se apropria da linguagem para ilustrar aquele trecho da história.

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[Wong Gok ka Moon/As Tear Goes By, Wong Kar-Wai, 1988]

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Proibido Proibir

Caio Blat, Maria Flor

O retorno do chileno Jorge Durán à direção, 20 anos depois de assinar seu último longa, sinceramente funcionaria melhor se não o projeto tivesse a vontade de se fazer importante enquanto filme de denúncia. Toda a parte política, sociológica, inclusive as entrevistas mal inseridas no decorrer do filme, tudo isso é muito menos interessante (e muito menos ainda bem resolvido) do que o triângulo amoroso a la Jules et Jim, miolo narrativo do longa.

No entanto, o desequilíbrio ainda assim é claro porque a interpretação de Alexandre Rodrigues está anos-luz abaixo das performances de Maria Flor e Caio Blat, este muito bem. Por sinal, a relação da personagem de Blat com a paciente interpretada por Edyr Duqi é a coisa mais legal do filme. Durán, coautor do roteiro de Pixote – A Lei do Mais Fraco, tenta encorpar a história simples com essas pitadas de reflexão social, mas o filme patina quando tenta se aprofundar em alguma questão.

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[Proibido ProibirJorge Durán, 2007]

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Maria Antonieta

A História entra para a História como se fosse uma linha reta, mas não é bem assim. De vez em quando é preciso vir alguém para usar uma pinça e mudar esse relevo, destacando um evento ou um personagem. É isso que Sofia Coppola fez em Maria Antonieta, assumindo o papel de advogada de defesa da rainha teen que foi parar na guilhotina. Seu filme é tendencioso, parcial e maniqueísta: e só é bom por causa disso.

Para Sofia, Maria Antonieta sofre do mesmo não-pertencer de Charlotte e Bob Harris em Encontros e Desencontros (2003), o que, ao contrário do que teimam em propagar, deixa seu cinema uníssono. Ela é uma estrangeira por imposição, uma refém de circunstâncias políticas e manobras de poder. Ao mesmo tempo, a diretora enxerga nessa adolescente sentimentos e inconsistências semelhantes aos de qualquer um na sua idade através das eras. Maria Antonieta não era exatamente especial. Era comum, era mais uma. Em escala ampliada.

Mas Sofia constrói sua rainha como heroína responsável, vencida pela necessidade de se submeter para se integrar. Antonieta é uma adolescente como a sua prima, mas é uma mulher dos anos 1780, com toda a carga de deveres e culpas que uma mulher recebia à epoca. Sofia enxerga a rainha também como uma mulher que sabia que era o papel dela conquistar seu marido e gerar um herdeiro e que se esforçou como pôde, mesmo sem saber muito bem, para fazer o que deveria. Essa duplicidade gerou um filme que não tem a intenção de fazer História, mas de ressaltar um personagem.

E, na defesa de sua escolhida, Coppola vai até o fim, sempre com a proposta clara de quebrar as expectativas de quem assiste ao filme. A melancolia é traduzida na exploração nostálgica de hits dos anos 70, 80 e 90, que – apesar de terem sido talvez o principal motivo para a sucessão de ataques abobalhados que o filme recebeu – emolduram as cenas com graça. O exagero da concepção de arte e figurinos reflete não um filme afetado, mas uma época afetada onde nossa heroína foi jogada bruscamente em carreira solo. A imagem do all star (não vi, que puxa!) – assim como a trilha – transporta o filme da condição de registro para a de impressão, opinião.

Não era pra todo mundo comprar a idéia mesmo. Sofia se arrisca e nos apresenta a sua visão/versão de Maria Antonieta sem se preocupar muito com a parcialidade do material. Kirsten Dunst entendeu tudo e se entrega à personagem despudoradamente. Adorável.

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[Marie Antoinette, Sofia Coppola, 2006]

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