Monthly Archives: março 2007

Antonia

O Dreamgirls brasileiro é bem melhor do que a biografia musical norte-americana. Em Antonia, a trajetória é menor, o sucesso do grupo equivalente a essa trajetória, mas, em se tratando de composição dramática, o filme funciona muito mais. Mesmo com quatro estreantes no cinema, Tata Amaral conseguiu arrancar belas interpretações de suas atrizes, com destaque para Negra Li e, sobretudo, Leilah Moreno, que tem cena excepcionais.

A diretora usa bem câmera na mão, tentando dar conta das personagens por inteiro e desenhá-las de forma mais clara sem aprisionar as personagens em estereótipos. E, olha, é difícil saber dar essa textura de forma correta ao movimento de câmera. O que é mais interessante no filme é como Tata Amaral consegue, ao invadir às vidas dessas quatro mulheres, fazer um recorte de múltiplas dimensões da vida na periferia da cidade grande. Há a violência, há o sofrimento, mas Tata os olha como investigadora e não julga ou condena ninguém. Seu interesse é muito mais humanista.

Aqui, ao contrário de Dreamgirls, a música tem uma função muito mais definida: ele não é apenas um instrumento de mudança, de reabilitação social, o hip hop, muito mais do que qualquer vertente da dita black music, evoca o mundo imediato daquelas quatro meninas, mundo que tem rimas imediatas, às óbvias e até pobres, mas que é genuíno exatamente por isso. E é exatamente por isso que Antonia é tão melhor do que muitos filmes brasileiros (ou estrangeiros) que se dispõem a fazer uma leitura (musical) de uma ou mais vidas: ele parece de verdade. A participação de Thaíde é um brinde.

Antonia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Antonia, Tata Amaral, 2006]

Compartilhe!

2 Comments

Filed under Resenha

Dreamgirls

Dreamgirls

O musical talvez seja o gênero do cinema que mais tenha detratores. Por ser tão específico, ter uma relação forte com um teatro tipicamente norte-americano e por exigir do espectador uma disposição para entender a música e a dança como parte da narrativa, não é difícil perder a paciência com filmes assim. Eu nunca tive problemas com os musicais e, inclusive, prefiro aqueles em que as canções se integram ao roteiro de verdade, sem ser meros adereços. Em Dreamgirls, Bill Condon até tenta fazer isso em alguns momentos, mas nem sempre tem sucesso.

A interpretação de Jennifer Hudson está bem aquém de tanta celebração, mas sua estréia é boa, encarnando o velho perfil da negra desbocada fuckin’ bullshit. O problema é agüentar a moça em seus exageros vocais, como se gritar fosse sinônimo de ter uma voz potente. Curiosamente, Beyoncé, parecendo ter muita noção de suas limitações dramáticas, não tenta ser estrela, o que me pareceu bastante simpático. Anika Noni-Rose fica no meio-termo, entre os excessos e a discrição.

A história das garotas cantantes segue uma fórmula batida, mas Bill Condon tem algumas boas idéias para levar o palco para a tela. A direção de arte e, especialmente, os figurinos são o que o filme tem de melhor, embora haja alguns achados na fotografia, que perde feio para a que Dion Bebee entregou para Chicago (Rob Marshall, 2002), um musical da Broadway que ganhou uma versão bastante eficiente para o cinema. Mesmo quando faz sua crítica à indústria, o filme se mantém no velho duelo certo x errado.

O senão maior ao filme nem é a manjada condição de biografia de grupo musical, com direito a amores e richas, vilões e mocinhos, é sua própria música. Para ficar numa avaliação mais imediata, o filme tem um grande problema para um exemplar do gênero: a música é bem ruim. À exceção de “Love You I Do” ou “Patience”, mais tragáveis, todas as outras canções são emulações baratas da pop black music dos anos 70 para cá, limitadas tanto na criatividade quanto na execução. E olha que nem dá para se animar tanto com a performance de palco de um inspirado Eddie Murphy por causa das canções.

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho EstrelinhaEstrelinha
[Dreamgirls, Bill Condon, 2006]

8 Comments

Filed under Resenha

A Dama da Água, Revisão

Bryce Dallas Howard, Paul Giamatti

É tão difícil defender o que você ama incondicionalmente. Você percebe todos os problemas que os outros apontam, mas as qualidades, elas te parecem tão superiores que você os minimiza ou os ignora. Seu eleito é imperfeito, mas é seu. Você o escolheu assim que colocou os olhos nele e é natural que queira defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. O cinema é meu refúgio e quando eu separo um filme para ser meu, eu posso soar até arrogante ao expressar minhas razões para amá-lo, coisa que eu sempre faço por escrito porque sou um péssimo orador.

Com A Dama na Água foi exatamente assim. Assisti ao filme numa pré-estréia para uma platéia de convidados que gostam de pré-estréias, mas nem sempre gostam de cinema. Fui sozinho e parece que saí do cinema apaixonado igualmente sozinho. Estava encantado com a defesa da fábula, com a celebração do conto de fadas. O primeiro grande motivo para não se gostar deste filme é que qualquer coisa que pareça pertencer ao universo infantil soa quase sempre menos interessante do que elementos do que pode se chamar de um mundo de adultos.

A lei da natureza é assim. A infância é saudada com uma nostalgia do que deve permanecer no passado. Trazê-la para a experiência mais imediata do homem adulto é comumente assimilada como uma tolice. E o que M. Night Shyamalan faz em A Dama na Água é assumir o conto, aumentar um ponto e visitar o lúdico sem o menor pudor ou vergonha. Foi a paixão que o diretor libera pelo universo infantil em cada explicação desleixada, em cada reviravolta atrapalhada que me despertou um interesse inédito por uma de suas obras.

Ao contrário do que fez em A Vila (2004), quando a desconstrução surge como negação da história e como possível golpe de marketing disfarçado de questionamento político, em seu último filme o indiano decanta essa história, desmembra seu conjunto de enredos e personagens, para afirmá-la. A partir de uma história contada para seus filhos, Shyamalan se mostra um defensor do mágico e não do truque, como vinha se desenhando até então. E para que essa história dê certo, ele cobra apenas uma coisa do espectador: acreditar. Um preço muito caro.

Ninguém precisa estar disposto a acreditar. O esforço pode ser deveras musculoso para alguém, digamos, mais sério. É preciso se doar muito para gostar deste filme lento em que, numa revisão, fica muito claro o interesse de seu diretor pelo processo. O processo de montar e contar uma história. É nesse processo que Shyamalan comete seu primeiro grande pecado, vingar-se dos críticos que tinham torcido o nariz para Corpo Fechado e que resolveram interpretá-lo em A Vila. Pecado que fica flagrante na fala de Jeffrey Wright sobre o assunto. Um constrangimento desnecessário já que tudo que a personagem em questão promove poderia estar lá de maneira diferente.

Sua outra grande falta foi querer ser ator e, cada vez mais, ter um papel maior em seus filmes. Shyamalan é um intérprete medíocre e precisa enxergar isso antes que prejudique seus próprios filmes. Um personagem como Vick merecia um grande ator. Como Cleveland mereceu um maravilhoso Paul Giamatti, em sua interpretação mais delicada. É de seu confronto com a fábula que sai grande parte da força deste filme. Não acho que Cleveland não questiona a história mágica que se escreve em sua frente porque precisava se apoiar em algo, mas porque estava disposto a acreditar.

Exatamente como eu, que quase fui às lágrimas em vários momentos da projeção e que quase repito o vexame ao reassistir ao filme em casa. Bem, não para chamar de vexame sentir-se tocado por um filme e querer defendê-lo, afirmá-lo e celebrá-lo. Ninguém precisa concordar, inclusive, porque a questão não é ter entendido um filme. É ter se apaixonado de novo mesmo tendo enxergado todos os problemas que os outros apontaram e os minimizando ou ignorando em prol das qualidades que se vê nele. A Dama na Água é um filme que eu escolhi. É imperfeito, mas é meu.

14 Comments

Filed under Ensaio, Resenha

Trilha sonora: Til the End of Time

They’re just words, they ain’t worth nothing
Cloud your head and push your buttons
And watch how they just disappear
When we’re far away from here

And everybody knows where this is heading
Forgive me for forgetting
Our hearts irrevocably combined
Star-crossed souls slow dancing
Retreating and advancing
Across the sky until the end of time

Oh who put all those cares inside your head
You can’t live your life on your deathbed
And it’s been such a lovely day
Let’s not let it end this way

And everybody knows where this is heading
Forgive me for forgetting
Our hearts irrevocably combined
Star-crossed souls slow dancing
Retreating and advancing
Across the sky until the end of time

Like sisters and brothers we lean on each other
Like sweethearts carved on a headstone
Oh why even bother, it’ll be here tomorrow
It’s not worth it sleeping alone

And look at you and me still here together
There is no one knows you better
And we’ve come such a long long way
Let’s put it off for one more day

And everybody knows where this is heading
Forgive me for forgetting
Our hearts irrevocably combined
Star-crossed souls slow dancing
Retreating and advancing
Across the sky until the end of time

música: Til the End of Time
autor: DeVotchka
intérprete: DeVotchka
filme: Pequena Miss Sunshine (2006)

1 Comment

Filed under Vídeos

Top 10: melhores de 2006 da Contracampo

A Contracampo, a revista eletrônica de cinema mais tradicional do país, finalmente liberou suas listas de melhores do ano, segundo os leitores e a redação. Dois filmes franceses lideram as duas relações. Estranhamente para um site que é acessado por pessoas de todo o país, sem contar com os leitores do exterior, a Contracampo continua considerando elegíveis apenas as estréias nos cinemas do Rio de Janeiro, ignorando o que chegou às telas no resto do país. Isso justifica a aparição do excelente Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin, na lista da redação. O filme tinha sido exibido em São Paulo desde novembro de 2005. A posição do maravilhoso O Céu de Suely na lista dos leitores foi uma surpresa.

[leitores]

1 Caché estrelaestrelaestrelaestrela, de Michael Haneke
2 O Céu de Suely estrelaestrelaestrelaestrelaestrela, de Karim Aïnouz
3 2046 estrelaestrelaestrelaestrela, de Wong Kar-wai
4 Volver estrelaestrelaestrela, de Pedro Almodóvar
5 Miami Vice estrelaestrelaestrelaestrela, de Michael Mann
6 Os Infiltrados estrelaestrelaestrelaestrela, de Martin Scorsese
6 O Plano Perfeito estrelaestrelaestrelaestrela, de Spike Lee
8 Amantes Constantes estrelaestrelaestrelaestrela, de Philippe Garrel
9 Dália Negra estrelaestrelaestrela, de Brian De Palma
9 Ponto Final – Match Point estrelaestrelaestrelaestrela, de Woody Allen

Todos os filmes votados pelos leitores.

[redação]

1 Amantes Constantes estrelaestrelaestrelaestrela, de Philippe Garrel
2 2046 estrelaestrelaestrelaestrela, de Wong Kar-wai
2 Miami Vice estrelaestrelaestrelaestrela, de Michael Mann
4 Os Infiltrados estrelaestrelaestrela, de Martin Scorsese
5 O Plano Perfeito estrelaestrelaestrelaestrela, de Spike Lee
6 A Dama na Água estrelaestrelaestrelaestrelaestrela, de M. Night Shyamalan
7 O Crocodilo estrelaestrelaestrelaestrela, de Nanni Moretti
7 O Novo Mundo estrelaestrelaestrelaestrelaestrela, de Terrence Malick
7 Reis e Rainha estrelaestrelaestrelaestrelaestrela, de Arnaud Desplechin
10 O Céu de Suely estrelaestrelaestrelaestrelaestrela, de Karim Aïnouz
10 Espelho Mágico estrelaestrelaestrela, de Manoel de Oliveira
10 Volver estrelaestrelaestrela, de Pedro Almodóvar

A votação individual da redação.

7 Comments

Filed under Listas