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Oscar 2007: o ano do conjunto da obra?

Eu assisti a Os Infiltrados, ao lado da minha amiga Cyntia, que hoje divide apartamento comigo, no meio do Festival do Rio, no ano passado. Saí do do cine Palácio, talvez a melhor sala do Rio de Janeiro, muito feliz com um filme maravilhoso que tinha visto. Tinha adorado o roteiro, que soube absorver, mesmo sem tanta preocupação com verossimilhança, o espírito de Conflitos Internos, longa oriental de onde Martin Scorsese adaptou seu filme. A lógica de um obra de ação oriental estava em Hollywood, assinada, corroborada, por um grande mestre.

Gostei mais ainda da montagem, que segue justamente os parâmetros dos filmes orientais e das interpretações de Leonardo Di Caprio, que ainda é injustamente visto com um galã de blockbuster, apesar de ser um grande ator, e de Jack Nicholson, muito desgastado em suas eternas repetições, que estava nada menos do que brilhante. Foi um filme de que eu gostei muito. Não era o melhor filme do ano nem nada, não era o filme que iria dar o Oscar a Martin Scorsese nem nada, mas foi um filme de que eu gostei.

Festival, você sabe, é um filme atrás do outro. Na porta da sala onde eu e minha amiga assistiríamos nossa outra sessão, um amigo dela rebate nossa empolgação com críticas à montagem, ao roteiro e até à interpretação de Di Caprio no filme, comparando o cinema que Scorsese faz hoje em dia a um lanche do McDonald’s. Com o tempo, percebi que essa era a visão de boa parte da crítica brasileira, que via Scorsese como um diretor que passou e que xingava Thelma Schoonmaker de velha. Nesta época, eu nunca esperaria que Os Infiltrados fossem concorrer a melhor filme. Mas eu estava enganado.

Vieram as campanhas, o filme se tornou um lock entre os indicados e, nominados anunciados, começou o buzz em torno de uma eventual vitória do filme. Como? Um filme policial, adaptado de um longa oriental, dirigido por Martin Scorsese, o eterno perdedor do Oscar, ganhar melhor filme? Inimaginável. Apostaram na metástase do ridículo vencedor do ano passado (Crash, de Paul Haggis), o apático e retardado Babel, de Alejandro Gonzalez Iñarritu, no esquemático e raso Pequena Miss Sunshine, da dupla que fazia os clipes dos Smashing Pumpkins, e deram como possível a vitória de Cartas de Iwo Jima, belo drama de guerra de Clint Eastwood, falado em japonês. A corrida ao Oscar deste ano, ao mesmo tempo que foi animada, foi de uma esquizofrenia só. Cada um apontava para um lado.

A festa do Oscar começou bem. Ellen De Generes, sutil e no ponto, comandou a festa com um timing perfeito, irônica sem ser agressiva e inteligente sem ser excessiva. Sua presença lá foi uma resposta da direção da Academia à derrota vergonhosa de O Segredo de Brokeback Mountain na categoria principal no ano passado. A festa terminou tendo sua cota de celebração gay, com Ellen, com Melissa Etheridge agradecendo à esposa e derrotando as três canções fracas e esganiçadas de Dreamgirls e até com a apresentação da homenagem aos mortos por Jodie Foster, linda como nunca.

O fato de ter sido limado da lista de candidatos a melhor filme enfraqueceu bastante Dreamgirls, que ganhou os esperados prêmios de mixagem de som e de atriz coadjuvante para Jeenifer Hudson, primeira grande pista de que Pequena Miss Sunshine não seria o melhor filme da noite. Como muita gente previa, o número reduzido de votantes na categoria de filme em língua estrangeira tirou o prêmio de O Labirinto do Fauno, em prol de A Vida dos Outros. No entanto, o filme de Guillermo del Toro papou as estatuetas pela direção de arte e pela maquiagem, esperadas, e ainda surpreendeu derrubando Filhos da Esperança e ganhando fotografia.

 

Piratas do Caribe: o Baú da Morte ganhou um merecido prêmio de efeitos visuais e Cartas de Iwo Jima levou o de edição de som por dois motivos: merecimento e consolação. A certa altura, já estava na cara que o filme de Clint estava fora da disputa. Por isso, foi lindo o momento em que ele subiu ao palco para homenagear o maior músico da história do cinema, Ennio Morricone, o melhor Oscar pelo conjunto da obra dos últimos anos. Outra cena inesquecível foi ver Milena Canonero, uma das grandes figurinistas de todos os tempos, ganhar seu Oscar por um maltratado Maria Antonieta.

Al Gore dá de dez a zero em George W. Bush, mas mereceu atenção e espaço demais, não? Uma Verdade Incoveniente, o blockbuster da lista, faturou documentário, como era de se esperar. A surpresa veio por minha previsão errada mais comemorada da noite, a vitória do ótimo Happy Feet, o Pingüim sobre o fraquinho Carros, provando que ganhar o Annie não é mais garantia alguma na corrida para o Oscar.

Mas a noite estava esquentando ainda. Os resultados ainda embolavam os três principais candidatos a melhor filme. Alan Arkin, num momento “conjunto da obra” do Oscar, derrotou o favorito – por pouco – Eddie Murphy, me assustando sobre as possibilidades de uma eventual vitória de Pequena Miss Sunshine como melhor filme, inclusive, depois de ele ter ganho o prêmio de roteiro original. A este ponto, eu achava que Babel estava morto e enterrado, mas aí acontece o prêmio mais esdrúxulo da noite, a vitória de Gustavo Santaolalla em melhor trilha sonora.

William Monahan tinha ganho melhor roteiro adaptado, vitória mais do que certa. Restava ver porque estavam segurando o prêmio de melhor montagem. Suspeitava que era para não dar a dica de que Martin Scorsese tinha ganho melhor direção já que o prêmio foi para Thelma Schoonmaker por Os Infiltrados. Quando o nome dela foi anunciado, a vitória de Marty, emocionado com as belas palavras da amiga para ele, era certa. Mas isso seria o suficiente para um melhor filme? Eu queria muito que sim, mas ainda tinha dúvidas.

Neste meio tempo, Helen Mirren ganharia seu merecido e esperado prêmio de melhor atriz por A Rainha e Forest Whitaker faria o melhor, mais sóbrio e sério, discurso da noite por sua vitória em O Último Rei da Escócia. E, então, conforme meu amigo Diego Maia tinha me falado pelo MSN, entram no palco um trio invejável para apresentar o Oscar de melhor diretor: George Lucas, Francis Ford Coppola e Steven Spileberg. A geração dourada do cinema norte-americano da virada dos 60 para os 70 estava lá e só faltava um de seus principais representantes: Martin Scorsese, que, depois de tantas indicações, se juntou a eles para receber seu prêmio.

Agora éramos nós: de um lado, eu, torcendo imensamente para Os Infiltrados, que não é o melhor filme de Scorsese, mas é um filme que eu adoro, e a dupla Jack Nicholson e Diane Keaton, envelope na mão. Quando vi que era Jack que entregaria o prêmio de melhor filme, tremi nas bases porque fora ele, com cara de ponto de interrogação, que, no ano anterior, anunciou que o raquítico Crash tinha ganho melhor filme no maior exemplo de estupidez da Academia em anos.

Quem ganharia? Babel, que tinha ganho um inesperado prêmio de trilha sonora? Pequena Miss Sunshine, que levou roteiro original e ator coadjuvante? Ou Os Infiltrados, que ganhou direção, roteiro adaptado e montagem, geralmente os prêmios que mais pesam para uma vitória na categoria principal? Pois bem, a corrida pelo Oscar terminou como começou. Confusa, sem um filme de maior destaque, podendo abraçar qualquer resultado. E, entre as opções, a Academia, geralmente ávida por cometer equívocos, fez a melhor escolha. Preciso contar pra Cyntia.

Boa noite e até o ano que vem.

prêmios (entre parêntese em que posição o vencedor estava entre as minhas apostas)

filme: Os Infiltrados (1º)
direção: Martin Scorsese, por Os Infiltrados (1º)
ator: Forest Whitaker, por O Último Rei da Escócia (1º)
atriz: Helen Mirren, por A Rainha (1º)
ator coadjuvante: Alan Arkin, por Pequena Miss Sunshine (2º)
atriz coadjuvante: Jennifer Hudson, por Dreamgirls (1º)
roteiro original: Pequena Miss Sunshine (1º)
roteiro adaptado: Os Infiltrados (1º)
filme estrangeiro: A Vida dos Outros (2º)
documentário: Uma Verdade Incoveniente (1º)
animação: Happy Feet, o Pingüim (2º)
fotografia: O Labirinto do Fauno (3º)
montagem: Os Infiltrados (1º)
direção de arte: O Labirinto do Fauno (1º)
figurinos: Maria Antonieta (2º)
maquiagem: O Labirinto do Fauno (1º)
trilha sonora: Babel (4º)
canção: “I Need to Wake Up”, de Uma Verdade Incoveniente (2º)
mixagem de som: Dreamgirls (1º)
edição de som: Cartas de Iwo Jima (1º)
efeitos visuais: Piratas do Caribe: o Baú dos Mortos (2º)

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Oscar 2007 – apostas e perspectivas

Há muito, muito tempo a categoria mais concorrida do Oscar não é a de melhor filme. O que, para muitos, é sinal de um ano fraco, na verdade, me parece um dos momentos mais interessantes do prêmio em vários anos. Diferentemente, do ano passado, quando a surpresa aconteceu apenas na abertura do último envelope e o equívoco chamado Crash, de Paul Haggis, venceu, neste ano, o ponto não é uma eventual surpresa, mas o fato de ter chegado a essa altura sem um favorito de verdade.

Resquícios de uma corrida confusa desde o começo. À exceção de A Rainha, todos os outros candidatos a melhor filme já tiveram seu momento frontrunner. Tudo começou com Babel, que depois de ganhar direção em Cannes e de ter suas semelhanças com o vencedor do ano passado ressaltadas, começou a figurar nas especulações. Em seguida, Cartas de Iwo Jima ganha o National Board of Review e vai aparecendo em praticamente todos os prêmios de críticos.

Depois, Pequena Miss Sunshine começa a ganhar perenidade e substância com os resultados dos principais guilds. Por fim, já no derradeiro suspiro da corrida, Os Infiltrados está no topo de praticamente todas as listas de apostas. Na verdade, a única certeza de que se tem é que a Academia vai ter que inventar seu grande vencedor neste ano. Vejamos a lista de indicados por ordem de possibilidades de vitória, segundo minha mais humilde opinião (as estrelas significam minha avaliação pessoal para o filme em cada categoria).

1 Os Infiltrados estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
produzido por Graham King

É minha aposta. No ambiente de confusão instalado, como eleger o melhor? Indo com o maior. Dentre os filmes, Os Infiltrados é o que mais parece grande, épico e é um dos que é assinado por um grande diretor que nunca ganhou um prêmio da Academia mesmo tendo sido finalista uma pá de vezes. O longa tem a seu favor um reforço importantíssimo: Martin Scorsese deve finalmente ganhar seu Oscar de direção e o filme é o favorito absoluto entre os roteiros adaptados. Pronto, seria perfeito, não? O melhor filme do ano teria ganho filme, direção e roteiro. Para o negócio ficar bom mesmo, o filme ainda poderia aparecer no palco em montagem (ou vocês acham que Crash 2 vai ganhar?) e na categoria de ator coadjuvante, que já tá uma bagunça mesmo. É mais difícil, mas não impossível. Muito se fala sobre Os Infiltrados não ser material de Oscar. Sua indicação na categoria principal parecia absurda. Mas, que filme do Scorsese tinha cara de Oscar? Taxi Driver, Touro Indomável, Os Bons Companheiros? O apoio da crítica carimbou o passaporte e permitiu que a Academia pudesse corrigir sua falta com o diretor.

2 Pequena Miss Sunshine estrelinha pequenaestrelinha pequena
produzido por David T. Friendly, Peter Saraf e Marc Turtletaub

Seria uma alternativa para os acadêmicos, uma “saída pela esquerda”, premiar um filme indie, querido, sair de bonzinhos. Mas, para isso, precisaria ser um vencedor verdadeiramente inventado. Alguém lembrou que Conduzindo Miss Daisy, em 1989, ganhou melhor filme sem ter o diretor indicado, mas, naquele ano, o filme era franco favorito num dos quesitos principais (melhor atriz, que ganhou) e tinha o maior número de indicações, nove. Pequena Miss Sunshine tem só quatro. É bem verdade que deve ganhar roteiro, mas, diga lá, o melhor filme do ano só teria dois prêmios. Qual a última vez que isso aconteceu? A solução, no entanto, é possível. Atacar de Alan Arkin como ator coadjuvante, fazendo as vezes de repescagem de um veterano e/ou eleger Abigail Breslin como atriz coadjuvante, celebrando a criançada. Com quatro prêmios, teríamos um vencedor de bom tamanho, mas será que um filme tão pequeno teria fôlego para tirar 100% de aproveitamento nas indicações?

3 Babel estrelinha pequena
produzido por Alejandro González Iñárritu, Jon Kilik e Steve Golin

É um terceiro caminho. Apostar na “inovação” de texto, direção e montagem, na reunião de nome no elenco, na escalada globalizada, mas Crash, um filme de que este segue o modelo para desespero de seu diretor, já não era “ousado” o suficiente para a Academia mostrar que é moderna (e disfarçar seu preconceito ao não premiar O Segredo de Brokeback Mountain)? O que é que credencia este filme a vencer o posto de melhor do ano? Ele não ganhou nenhum precursor, só ressurgiu no Globo de Ouro, sem vencer, e se manteve apagado nos guilds. Não acho que vão cair na do Iñarritu não, ainda mais com um Scorsese na jogada, mas para isso acontecer, Babel teria que ganhar em roteiro e montagem e, talvez, eleger uma de suas coadjuvantes.

4 Cartas de Iwo Jima estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
produzido por Clint Eastwood, Steven Spielberg e Robert Lorenz

É um belíssimo filme e seria uma séria ameaça se 1) Clint Eastwood não tivesse ganho os dois Oscars principais há dois anos; e 2) não fosse quase que completamente falado em japonês, o que o transformou num filme estrangeiro para alguns prêmios de críticos. O Kris Tapley aposta numa comoção da Academia pela possibilidade ver Eastwood e Steven Spielberg, produtor do filme, no palco, juntos. Acho pura viagem, mas se Cartas de Iwo Jima tem alguma chance de ganhar o Oscar, ela mora mais da confusão do ano do que em seus muitos méritos, escondidos para quem morre de preguiça de ler legendas. Para isso acontecer, ou Clint teria ser eleito melhor diretor, o que resultaria num massacre contra a Academia, ou o roteiro teria que vencer.

5 A Rainha estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
produzido por Andy Harries, Christine Langan e Tracey Seaward

É, na realidade, o único filme sem chances de vitória e, por isso mesmo, se ganhar vai deixar todos boquiabertos. Não há nada no seu histórico de premiações que indique que ele não tenha sido comprado como um belo filme de atriz, de performer. Como só vai ganhar no quesito de atriz e tem chances menores em roteiro e trilha, sua eleição fica inviabilizada.

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Oscar 2007 – apostas e perspectivas

[oscar 2006 – fotografia]

1 Filhos da Esperança estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Emmanuel Lubezki
2 O Ilusionista – Dick Pope
3 O Labirinto do Fauno estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Guillermo Navarro
4 Dália Negra estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Vilmos Zsigmond
5 O Grande Truque estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Wally Pfister

comentário: a ameaça mais imediata ao favoritismo de Filhos da Esperança é O Ilusionista, que andou aparecendo em premiações por aí, mas uma eventual surpresa com O Labirinto do Fauno não está, de maneira alguma, descartada. No entanto, como o trabalho de Emmanuel Lubezcki é bastante braçal e junta domínio técnico e um belo trabalho de saturação, acho que o Oscar vai para ele mesmo. O excelente trabalho de composição do veterano Vilmos Zsigmond, em Dália Negra, não tem chances, infelizmente.

num mundo provável: Filhos da Esperança
num mundo perfeito: Filhos da Esperança
num mundo perdido: O Grande Truque

num universo paralelo: Dália Negra

[oscar 2006 – montagem]

1 Os Infiltrados estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Thelma Schoonmaker
2 Babel estrelinha pequena – Stephen Mirrione e Douglas Crise
3 Vôo United 93 estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Clare Douglas, Christopher Rouse e Richard Pearson
4 Filhos da Esperança estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Alex Rodríguez e Alfonso Cuarón
5 Diamante de Sangue estrelinha pequenaestrelinha pequena – Steven Rosenblum

comentário: aqui é simples assim: se Os Infiltrados ganhar melhor filme, ganha melhor montagem. Se o resultado for outro na categoria principal, há duas opções: ou dá Babel (mas o Oscar já não teve sua cota de montagem carrossel no ano passado?) ou dá Vôo United 93, filme sério, de prestígio, na única oportunidade de premiá-lo.

num mundo provável: Os Infiltrados
num mundo perfeito: Vôo United 93
num mundo perdido: Babel

num universo paralelo: 007 – Cassino Royale

[oscar 2006 – direção de arte e decoração de sets]

1 O Labirinto do Fauno estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
direção de arte: Eugenio Caballero
decoração de sets: Pilar Revuelta
2 Dreamgirls
direção de arte: John Myhre
decoração de sets: Nancy Haigh
3 O Bom Pastor
direção de arte: Jeannine Oppewall
decoração de sets: Gretchen Rau e Leslie E. Rollins
4 Piratas do Caribe: o Baú da Morte estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
direção de arte: Rick Heinrichs
decoração de sets: Cheryl A. Carasik
5 O Grande Truque estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
direção de arte: Nathan Crowley
decoração de sets: Julie Ochipinti

comentário: confesso que aqui eu vou mais de maria-vai-com-as-outras do que sigo minha intuição, que diz: – Dreamgirls! Dreamgirls!. Nem vi o filme, mas seria um Oscar tão natural que não sei não… A questão é que o musical de Bill Condon, apesar de líder de indicações, chegou tão fraco que fica difícil apostar nele em muitas categorias – e eu já apostei em três! Duvido que dê outro filme que não Dreamgirls ou O Labirinto do Fauno. Então, por enquanto, é isso, mas minha aposta pode mudar até o começo da festa.

num mundo provável: O Labirinto do Fauno
num mundo perfeito: O Labirinto do Fauno
num mundo perdido: todos são trabalhos bons.

num universo paralelo: Dália Negra

[oscar 2006 - figurinos]

1 Dreamgirls – Sharen Davis
2 Maria Antonieta – Milena Canonero
3 O Diabo Veste Prada estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Patricia Field
4 A Rainha estrelinha pequena estrelinha pequena estrelinha pequena – Consolata Boyle
5 Curse of the Golden Flower – Yee Chung Man

comentário: o trabalho de Sharen Davis, além de parecer muito bom, é extremamente chamativo. Isso somado ao fato de musicais terem perfil para esta categoria a deixam como frontrunner. Milena Canonero seria um Oscar genial, embora eu nem tenha visto o filme ainda, mas Maria Antonieta ficou resumido a esta categoria, sem chances, portanto. Apesar de ser bem legal ver dois trabalhos contemporâneos indicados, acho que este é o lugar para trabalhos de época ou de fantasia. Nenhum tem muitas chances.

num mundo provável: Dreamgirls
num mundo perfeito: Maria Antonieta
num mundo perdido: A Rainha

num universo paralelo: Dália Negra

[oscar 2006 - maquiagem]

1 O Labirinto do Fauno estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – David Marti e Montse Ribe
2 Apocalypto estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Aldo Signoretti e Vittorio Sodano
3 Click – Kazuhiro Tsuji e Bill Corso

comentário: é estranho que justamente na categoria em que Piratas do Caribe: o Baú da Morte parecia ter mais chances, o filme sequer foi indicado, o que é uma lástima pelo fato de ele ter um trabalho realmente impressionante e completamente novo. Diante disso, Mel Gibson e Adam Sandler não são páreo para o belo trabalho de maquiagem de O Labirinto do Fauno, um dos locks mais locks da noite.

num mundo provável: O Labirinto do Fauno
num mundo perfeito: O Labirinto do Fauno
num mundo perdido: Click

num universo paralelo: Piratas do Caribe: o Baú da Morte

[oscar 2006 – efeitos visuais]

1 Superman, o Retorno estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Mark Stetson, Neil Corbould, Richard R. Hoover e Jon Thum
2 Piratas do Caribe: o Baú da Morte estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – John Knoll, Hal Hickel, Charles Gibson e Allen Hall
3 Poseidon estrelinha pequenaestrelinha pequena – Boyd Shermis, Kim Libreri, Chaz Jarrett e John Frazier

comentário: sei, é uma aposta arriscada e, provavelmente, eu vou perder aqui. Talvez, inclusive, só tenha apostado em Superman, o Retorno para colocar a foto aqui já que eu amo HQs e esse herói é o meu herói desde que eu tinha 4 ou 5 anos. O maior de todos. O que eu acho – quero mais do que acho – que pode acontecer é que tenham muitos votantes da Academia que esperaram tanto pela volta do Superman para as telas quanto eu e que essa volta catapulte os votos no filme em detrimento de um trabalho impecável na porcaria que é o segundo Piratas do Caribe.

num mundo provável: Superman, o Retorno
num mundo perfeito: Piratas do Caribe: o Baú da Morte
num mundo perdido: Poseidon

num universo paralelo: O Labirinto do Fauno

[oscar 2006 – trilha sonora]

1 O Labirinto do Fauno estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Javier Navarrete
2 A Rainha estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Alexandre Desplat
3 Notas sobre um Escândalo – Philip Glass
4 Babel estrelinha pequenaestrelinha pequena – Gustavo Santaolalla
5 Segredos de Berlim – Thomas Newman

comentário: não acho nada difícil que um tema tão reprisado e tão encantador quanto o de O Labirinto do Fauno ganhe o Oscar de trilha sonora, ainda mais num filme que recebeu tantas indicações. Seria mais ou menos o que aconteceu com A Vida é Bela há alguns anos. Sua verdadeira ameaça é Alexandre Desplat, pela primeira vez indicado, mas que concorre por uma trilha fria, apenas correta. Se ganhasse seria apenas mais um prêmio para A Rainha, que só deve ganhar atriz e tem alguma chance em roteiro. Glass é sempre uma possibilidade, mas mão acho que arremate um Oscar neste ano.

num mundo provável: O Labirinto do Fauno
num mundo perfeito: O Labirinto do Fauno
num mundo perdido: Babel

num universo paralelo: A Conquista da Honra

[oscar 2006 - canção]

1 “Listen” – Dreamgirls estrelinha pequenaestrelinha pequena
música de Henry Krieger e Scott Cutler; letra de Anne Preven
2 “I Need to Wake Up” – Uma Verdade Inconveniente estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
música e letra de Melissa Etheridge
3 “Patience” – Dreamgirls estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena
música de Henry Krieger; letra de Willie Reale
4 “Our Town” – Carros estrelinha pequenaestrelinha pequena
música e letra de Randy Newman
5 “Love You I Do” – Dreamgirls estrelinha pequenaestrelinha pequena
música de Henry Krieger; letar de Siedah Garrett

comentário: ano fraquíssimo de boas canções, então, pela lógica, o musical que conseguiu emplacar três indicadas ganha. É bem provável, mas diante da concorrência fraca, tudo pode acontecer, inclusive o James Taylor. Ainda assim, eu acho que “Listen”, que é bem fraquinha, tem mais chances por ser a canção da Beyoncé, a estrela.

num mundo provável: “Listen” – Dreamgirls
num mundo perfeito: nenhuma destas.
num mundo perdido: “Love You I Do” – Dreamgirls

num universo paralelo: Song of The Heart – Happy Feet, o Pingüim

[oscar 2006 - mixagem de som]

1 Dreamgirls – Michael Minkler, Bob Beemer and Willie Burton
2 A Conquista da Honra estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – John Reitz, Dave Campbell, Gregg Rudloff and Walt Martin
3 Piratas do Caribe: o Baú da Morte estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Paul Massey, Christopher Boyes and Lee Orloff
4 Apocalypto estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Kevin O’Connell, Greg P. Russell and Fernando Camara
5 Diamante de Sangue estrelinha pequenaestrelinha pequena – Andy Nelson, Anna Behlmer and Ivan Sharrock

comentário: aqui, a lógica é parecida com a categoria de edição de som, ainda mais que os indicados são praticamente os mesmos. A diferença é que aqui só há um filme de Clint Eastwood, justamente o menos cotado, e temos Dreamgirls, que, apesar de ter sido esnobado nas categorias principais, ainda é o filme mais indicado do Oscar deste ano. E é um musical.

num mundo provável: Dreamgirls
num mundo perfeito: A Conquista da Honra
num mundo perdido: Diamante de Sangue

num universo paralelo: Superman, o Retorno

[oscar 2006 - edição de som]

1 Cartas de Iwo Jima estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Alan Robert Murray
2 Piratas do Caribe: o Baú da Morte estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Christopher Boyes and George Watters II
3 A Conquista da Honra estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Alan Robert Murray and Bub Asman
4 Apocalypto estrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequenaestrelinha pequena – Sean McCormack and Kami Asgar
5 Diamante de Sangue estrelinha pequenaestrelinha pequena – Lon Bender

comentário: não é uma categoria tão óbvia assim. Pelo seu histórico, seria mais lógico abraçar o blockbuster e apostar em Piratas do Caribe, pelo tamanho do dinheiro investido no filme, inclusive no som. Mas filmes de guerra geralmente tem seu espaço nesses quesitos sonoros e quando eles levam a assinatura de Clint Eastwood, o negócio fica mais sério. Cartas de Iwo Jima não deve ganhar mais nenhum Oscar – a não ser que a noite tem mais surpresas do que já é esperado – então, levar este aqui seria bastante confortável.

num mundo provável: Cartas de Iwo Jima
num mundo perfeito: Cartas de Iwo Jima
num mundo perdido: Diamante de Sangue

num universo paralelo: Superman, o Retorno

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Os filmes do Oscar 2007

Domingo é dia de Oscar e eu estou atrasadíssimo nos meus comentários e previsões. Culpa da quantidade de trabalho que veio ao meu encontro nos últimos dois meses. Mas, enfim, antes do buzz, vamos aos filmes que eu já vi e o que eu acho deles.

À Procura da Felicidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Gabriele Muccino

Um belo melodrama, com mão equilibrada de Muccino e um bom momento de Will Smith. Mas não passa disso.

Apocalypto EstrelinhaEstrelinha, de Mel Gibson

Mel Gibson cada vez mais grandioso, usando seu dinheiro e sua capacidade de tornar tudo épico para fazer uma ode ao instinto, ao bruto e à família como instituição sagrada. Se fosse outro, até passava…

Babel Estrelinha, de Alejandro Gonzalez Iñarritu

Ainda estou na dúvida sobre qual é pior. Este ou Crash, de Paul Haggis, que pelo menos era assumidamente maniqueísta e tinha moral torta. Este aqui me parece ser amoral e não querer dizer nada e mesmo assim tentar ser grande.

Borat EstrelinhaEstrelinha½, de Larry Charles

O sarcasmo quase sempre funciona, mas não raramente o filme reproduz boa parte das coisas que quer denunciar. Idiotizar para dar sua visão me parece excessivo demais.

Carros EstrelinhaEstrelinha, de John Lasseter, co-dir. Joe Ranft

A animação é de primeira, lindona mesmo, mas o filme perderia feio numa corrida.

A Conquista da Honra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Clint Eastwood

Juro que ainda escrevo sobre ele, mas é um filme muito bom que não consegue emocionar, o que me parece ser um demérito. O trio de protagonistas funciona embora todos sejam canastrões, mas não há histórias ou personagens apaixonantes. No entanto, é fantástico ver mr. Eastwood demolir a América.

Dália Negra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Brian De Palma

O final apressado demais tira os pontos de que o filme precisava para ser uma obra-prima, mas ainda assim é muito bom. Dirigido com elegância e competência.

O Diabo Veste Prada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de David Frankel

Muito melhor do que eu poderia esperar, terminei me identificando com os dramas da protagonista. Anne Hathaway, por sinal, está adorável. Meryl Streep e Emily Blunt, perfeitas.

Diamante de Sangue EstrelinhaEstrelinha, de Edward Zwick

Deveria ser o melhor filme de Zwick se ele não tivesse arrumado aquele final na montanha. Ali, o Bogart de Di Caprio se esvai pela pia e o estandarte “vamos denunciar a exploração na África” vira reportagem de TV.

Filhos da Esperança EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Alfonso Cuarón

Promete mais do que cumpre. O futuro é muito próximo. Tanto que a gente mal percebe que está no futuro. Falta um certo timing e um texto mais Philip K. Dick. Clive Owen está ótimo.

O Grande Truque EstrelinhaEstrelinha, de Christopher Nolan

Nolan mostra aqui que, na verdade, é bem mais ou menos e que precisa mesmo fazer um filme de trás pra frente ou adotar um mito das HQs para chamar atenção. O roteiro é fraco, os atores estão ruins e o que se salva é o visual.

Half Nelson EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Ryan Fleck

Um dos melhores filmes com alguma indicação. Subverte os “filmes de professor” com um momento iluminado de Ryan Gosling e um roteiro que não poupa ninguém, mas nunca é gratuito.

Happy Feet, o Pingüim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de George Miller

Um lindo conto sobre como uma população pode se vender por tão pouco. Tenta manter a esperança, mas é mais cruel do que outra coisa. O pingüinzinho ainda bebê dançando é um dos momentos mais deliciosos do cinema no ano passado.

Os Infiltrados EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Martin Scorsese

Um grande filme coerente com o cinema que Scorsese vem praticando nos últimos anos e que virou alvo. Fecha uma “trilogia americana” com uma lógica de cinema de ação oriental que me parece completamente integrada a seus novos propósitos. Nicholson fenomemal e Di Caprio num grande momento.

O Labirinto do Fauno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, de Guillermo del Toro

Um conto de fadas adulto e um filme político com espírito fabuloso. Uma mistura que só Del Toro poderia fazer de forma tão coerente e cujo acabento é de fazer inveja a Hollywood.

Pecados Íntimos EstrelinhaEstrelinha½, de Todd Field

A voz em off é o melhor do filme que oscila entre o retrato suburbano incômodo e um final moralista inapropriado. Patrick Wilson está bem além de qualquer um do elenco.

Pequena Miss Sunshine EstrelinhaEstrelinha, de Valerie Faris & Jonathan Dayton

Uma decepção imensa porque é muito fake. Os atores até se esforçam, mas ninguém se destaca porque o texto é fraquíssimo, apesar de ter uma vontade danada de ter sido escrito por Wes Anderson.

Piratas do Caribe: o Baú da Morte Estrelinha, de Gore Verbinski

Não fosse a competência na composição visual, seria apenas um filme muito ruim.

Poseidon EstrelinhaEstrelinha, de Wolfgang Petersen

O pior é que não é ruim, mas bom também não é. Petersen é melhor diretor do que seu antecessor, mas faz falta um grande elenco como o original tinha.

A Rainha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Stephen Frears

Um belo filme de bastidores, bastante elegante e refinado, mas não passa disso. O tom é frio porque, afinal, é a família real britânica ou porque Frears não sabe emocionar. Diante disso, apenas Helen Mirren, maravilhosa, se destaca.

Superman, o Retorno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Bryan Singer

Um grande filme, injustamente atacado. Geralmente se cobra que o Superman seja o Batman ou o Wolverine, mas ele é o Superman, o maior de todos. Singer sabe respeitar a obra de Richard Donner e o herói das HQs e ainda introduz bons elementos à série. A cena em que ele observa a casa de Lois é a melhor.

O Último Rei da Escócia EstrelinhaEstrelinha, de Kevin Macdonald

Para minha surpresa, um filme correto que vai desabando na memória. Forest Whitaker, que é coadjuvante, está muito bem, mas James McAvoy, que não faz aquele sotaque afro me parece tão bom quanto.

Volver EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Pedro Almodóvar

Almodóvar tentando se recuperar de Má Educação, mas ainda morno. Penelope Cruz a la Sofia Loren é um ímã para um elenco afinado. No entanto, Carmen Maura tem cenas bobas demais para desenvolver sua personagem.

Vôo United 93 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Paul Greengrass

Greengrass faz muito bem aquele filme de tensão minuto-a-minuto, tocando num tema delicado. A questão é só que o filme tem um tom tão documental que às vezes parece ser um programa de TV.

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Borat

É impossível negar que há méritos notáveis em Borat, mas o falso documentário não raramente se afoga no mesmo mar de situações que pretende denunciar. Incomoda um pouco a premeditada falta completa de escrúpulos, que, apesar de ter, talvez, motivações exatamente contrárias, rende episódios misóginos, racistas e de intolerância, que, sob a égide do engraçado, sarcástico, irônico e jocoso, ganha sua justificativa. O vale-tudo a que o filme se propõe abre espaço, já de início, para a idiotização de um povo e de uma cultura. Há cenas geniais, como a do discurso no meio do rodeio ou a do jantar, onde, aí sim, de verdade, Sacha Baron Cohen desconstrói certas lógicas do pensamento do norte-americano médio (e medíocre) colocando esse norte-americano em suas próprias armadilhas, mas há episódios desnecessários e de mau gosto como boa parte das citações sexuais, que de tão assumidamente estúpidas perdem o efeito, ou a entrevista com as feministas. Em certo ponto, os efeitos do filme guardam certas semelhanças deploráveis com os do cinema de Michael Moore, que-deus-o-tenha, uma coisa tipo “o sujo falando do mal lavado” ou “os fins justificam os meios”. O humor fácil, que arrebata rapidamente, é um instrumento perfeito para uma crítica ácida, mas faz ressoar preconceitos às avessas.

Borat – o Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Casaquistão Viaja à América EstrelinhaEstrelinha
[Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, Larry Charles, 2006]

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A Rainha

Competente relato de Stephen Frears, que há tempos nos devia um filme bom de verdade, sobre a semana seguinte à morte da princesa Diana no Palácio de Buckingham. Como era esperado, Helen Mirren está maravilhosa, mas sem picos de explosão como se espera das grandes interpretações (e cuja ausência talvez faça desta uma grande interpretação). O filme tem o tom frio da nobreza britânica e, mais do que crítica à família real, é uma ode à princesa morta. As inserções documentais enriquecem o contexto, mas, de certa forma, enfraquecem a dramaturgia. É um filme bom que sabe se esgueirar sem alardes belos bastidores da intrigas palacianas, mas não é tão grande quanto queriam.

A Rainha 
[The Queen, Stephen Frears, 2006]

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[o último rei da escócia]

[em cartaz]

[o último rei da escócia ]
direção: Kevin Macdonald.

The Last King of Scotland, 2006. O que mais me impressionou em O Último Rei da Escócia é que a interpretação de James McAvoy, o adorável fauno de As Crônicas de Nárnia: o Leão, o Guarda-Roupas e a Feiticeira (2005), única coisa que presta no filme por sinal, rivaliza com a festejada e premiada performance de Forest Whitaker, que deve ganhar o Oscar pela encarnação do ditador Idi Amin. McAvoy, a meu ver, é o verdadeiro protagonista do filme. Seu tipo irresponsável ganhou ótima composição. Já
Whitaker, um grande ator em momento generoso, é um coadjuvante categoria um, mais ou menos isso. A dupla, em seus encontros ou nas cenas solo, são o que há de melhor no filme, exemplar básico de cinema histórico. As inserções sonoras são um diferencial interessante, mas apenas deixam a forma menos óbvia.

Com James McAvoy, Forest Whitaker, Gillian Anderson, Kerry Washington.

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Apocalyto

 

[apocalypto ]
direção: Mel Gibson.

Apocalypto, 2006. Mel Gibson é aquela mala pesada e um cara que não merece perdão pela sua estupidez, mas ele tem seu talento. O problema é que esse talento é hiperdimensionado seja para o bem, seja para o mal. Como diretor, seu maior mérito ainda é Coração Valente (1995), que é um bom filme, exemplar de cinema masculino bem realizado, e seu maior demérito, A Paixão de Cristo (2004), exercício de arrogância quase racista e afeito à violência extrema como se ela significasse fazer um cinema realista. É a mesma lógica de filmes imbecis como a trilogia Jogos Mortais só que com o manto de Jesus usado como escudo protetor. Algo como cale-se e aceite a palavra de Deus ou serás um infiel.

Em Apocalypto, Gibson recupera a virilidade de seu grande acerto, mas a mescla com a brutalidade gratuita de seu grande pecado. A caça à anta é divertida e bem filmada até o bicho ir pro espeto e você se tocar de que só é muito macho quem tem coragem de mostrar uma cena daquelas. Ou pelo menos é assim que acha o comandante dessa história. Mas há algumas coisas que precisam ser admirado no diretor: ele sabe se cercar de bons auxiliares (em Apocalypto, a fotografia a-bruxa-de-blairiana funciona muito bem, a montagem estamos-em-uma-grande-corrida igualmente e a composição sonora – a trilha não, que é ruim – é perfeita). Além disso, bancar um filme falado numa língua morta (?), com grande investimento em cenários, viagens e efeitos visuais não é para qualquer um. Mas se utilizar da desse material para realizar um compêndio de violência, escatologia e uma tosquíssima mensagem sobre proteger sua família – seria um trocadilho conceitual com tudo o que Mel acredita? – é validar o cinema como um campo de batalha sem qualquer nuance, estúpido como seu diretor, que é uma pessoa ruim, mas sabe fazer filme musculosos como ninguém. Ainda bem, basta um.

Com Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Carlos Emilios Baez.

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[diamante de sangue]

[em cartaz]

[diamante de sangue ]
direção: Edward Zwick.

Blood Diamond, 2006. Confesso que estava animado com o filme, com seu protagonista de moral falha, interpretado com um sarcasmo Bogartiano pelo Leonardo Di Caprio. Parecia um filme não apenas divertido – afinal, é um filme de aventura com contexto atual em moldes antigos -, mas de certa forma com alguma preocupações ingênuas que temos o hábito de condenar pelo bom mocismo, mas que devem ser preservadas. Era, até certo ponto da projeção, o melhor filme de Edward Zwick. Comecei a pensar que ele havia evoluído, largado o dramalhão em troca das causas sociais (elas são chatas, mas nem tanto quanto). Então, o filme que já estava quase ganhando suas três estrelinhas ganha contornos de revolução espeiritual, quando o protagonista, no que deveria ser o clímax de seus atos de canalhice, fica bonzinho. Mas tão bonzinho que põe quase tudo a perder. Depois desse ato de bondade (não deixa de ser uma revolução ficar sem protagonista nos dez minutos finais de um filme praticamente escorado em seu astro), Zwick mostra como é um diretor de poucas idéias e emula o final de O Jardineiro Fiel (Fernando Meirelles, 2005) para dizer tchau em tom grandioso para o espectador.

Com Leonardo Di Caprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Michael Sheen.

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