Monthly Archives: novembro 2006

Eu, Você e Todos Nós

Eu, Você e Todos Nós

Faz exatamente uma semana que eu vi o filme de estréia de Miranda July e eu ainda não sei vou ter argumentos corretos para o fato de não ter gostado dele. Eu, Você e Todos Nós guarda uma diferença do cinema das personagens à parte que infesta o cinema independente dos Estados Unidos há um bom tempo: ele se envolve numa aura de ternura e fragilidade diferente da desilusão dos filmes de um Todd Solondz, o coitado que virou sinônimo de indie ruim, da nostalgia oca de um Hora de Voltar, ou da tentativa de comédia maluquinha.

Esta moldura garante ao filme um ar de exclusividade, de certa forma, raro neste universo de exploração ou exaltação de personagens marginais. July, que também tem um dos principais papéis, no entanto, não deixa o filme escapar de uma série de pecados, sobretudo na caracterização destas personagens. Quase todos podem ser encaixados em definições como “a maluquinha”, “o psicótico”, “o pedófilo”, “a menina sexy”, “a enrustida”, embora sempre travestidos de uma fragilidade que os deixa talvez excessivamente simpáticos para um público muito específico, um público, exatamente isso, um público indie.

É aí que a aparente delicadeza do roteiro de July se aproxima perigosamente, e a meu ver não escapa, dos clichês de seus filmes-parentes. Mesmo se esforçando para não contaminar as cenas com gratuidade – não é bem esse o termo – a diretora-roteirista recorre muitas vezes a algumas táticas bastante desagradáveis, como tentativa de dar poesia a, olha só, a história de um peixinho dourado ou na célebre cena dos dois irmãos numa sala de perversões sexuais na internet. Neste momento, a fragilidade do filme se revela meio calculada e o que aparece verdadeiramente frágil é a intenção de Miranda July. Não seria essa uma cena Solondziana?

Pois então, por mais que tenham decretada rasa a compreensão de quem faz uma comparação entre os cinemas de Miranda e de Solondz, eu não consigo dissociá-los, mesmo que a oficina seja outra. Para os dois, interessa o cinema-celebração de personagens esquisitas aos olhos comuns, que são condenados por não entederem um outro conceito de puro e belo. Mas o elogio ao incomum não é o problema e, sim, a dicotomia de se louvar os marginais através de estereótipos que os enclausuram como animais selvagens numa jaula de zoológico.

Eu, Você e Todos Nós
[Me, You and Everyvone We Know, Miranda July, 2005]

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Síndromes e um Século

Apichatpong Weerasethakul

Síndromes e um Século, a princípio, se apresenta com um exemplar do cinema oriental que finalmente parece genuíno ao tratar do microverso do cotidiano, dos pequenos amores, dos detalhes. Apichatpong Weerasethakul está atento a tudo e nos oferece uma lupa para descobrirmos segredos e sensações, seguindo um fluxo que corre a velocidade da vida. Mas depois de estabelecer personagense dramas, o tailandês nos explica que seu filme é sobre o mundo em construção. E, como conseqüência, é o cinema em construção.

Neste renascimento do filme, há um momento que condensa a experiência do diretor, quando numa passarela, dois grupos se cruzam, como se Weerasethakul saudasse o duplo e instalasse seu cinema num tempo zero, onde a história sempre amanhece outra vez, sempre de outro jeito. E então, numa cena casual, num momento em que nada parecia ser mais genial, meus olhos se enchem d’água quando a câmera se move e revela que a velha doutora tailandesa estava ali, me olhando, testemunhando tudo o que eu acho que descobri.

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[Sang Sattawat/Syndromes and a Century, Apichatpong Weerasethakul, 2006]

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O Céu de Suely

Hermila Guedes, João Miguel

A sina de Hermila é a da inquietude. O reencontro com a pequena cidade do interior do Nordeste que ela deixou em busca de um algo mais que não veio é emoldurado pela frustração. Hermila não reconhece aquele lugar como seu, nunca chegou a reconhecer. Viver num espaço de possibilidades tão limitadas era um martírio do qual ela queria escapar a todo custo. Para isso empreendeu uma jornada ao lado de Mateus, aquele que viria a ser ser marido, até o outro canto do país. Agora, de volta, com um filho nos braços, seu único alento é a espera pela volta retardada do amado para descobrir como recomeçar.

A cena que abre O Céu de Suely, numa belíssima deformação em superoito, de certa forma, expressa alguns dos porquês da protagonista. Sua vontade de movimento é maior do que ela mesma e ao mesmo tempo a deixa imensa, pronta para qualquer desafio, para qualquer perda, para qualquer escolha de Sofia. Nem sua condição de filha pródiga, seu retorno à família, à amiga, a um antigo amor podem dar conta de sua inconformidade. Mas Hermila, que não cabe mais ali, que vende uma rifa para vender seu diferencial, seus cabelos tingidos, essa Hermila não ter um lugar para ir.

Karim Aïnouz, em seu segundo longa-metragem, fez um filme cheio de camadas. Há o êxodo do nordestino que foge da pobreza, mas há algo muito maior, há a fuga de uma mulher que quer provar o mundo. E o cineasta sabe transformar essas texturas dramáticas em texturas pictóricas. A câmera aberta, seja nos belos planos do céu, seja no breu das estradas, reforça o isolamento da personagem, deixando-a refém daquele lugar que ela renega. O espaço opressor, ao mesmo tempo em que confina Hermila à solidão, praticamente a expulsa como um corpo estranho.

Como num filme iraniano, as personagens ganharam os primeiros nomes de seus intérpretes, intensificando as relações dos atores com seus duplos, reforçando o naturalismo nas performances. Se João Miguel, mais uma vez encantador, é João, Maria Menezes, com timing preciso, é Maria, e Georgina Castro, graciosa, é Georgina, mais do que todos, Hermila Guedes, revelada na boléia da caminhonete de Cinema, Aspirina & Urubus (Marcelo Gomes, 2005), é Hermila. Do lírico ao àspero, a interpretação dessa menina para uma mulher incomodada com sua inquietude, é o que traduz esse filme gigantesco.

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[O Céu de Suely, Karim Aïnouz, 2006]

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