Monthly Archives: abril 2006

[três enterros]

[novo diretor, velho Oeste]

Três Enterros são dois filmes em um. Na primeira metade, ele é um filme de Guillermo Arriaga, aquele que adora picotar a narrativa para criar enlaces-surpresas revelados em intermináveis flashbacks, com efeitos diversos. Uns funcionam bem, outros parecem revelar bobagens sem qualquer interesse para a trama; parecem apenas exercícios estilísticos. Esta primeira parte, ainda que o filme assuma um ritmo bem lento, é a conversa do filme com um cinema mais atual, onde o esquartejamento cronológico parece querer determinar invenção, criação, significação. O dispositivo se transformou em modelo desde meados da década passada e se desgastou rapidamente, mas parece que muita gente não partilha da mesma opinião.

A segunda metade é um filme de Tommy Lee Jones, um diretor estreante, que bebe na fonte clássica de nomes com John Ford ou, mais recentemente, Clint Eastwood, e aposta numa narrativa mais fluida com um duelo mais claro entre as personagens. É quando o diretor assume o controle da obra. Há ainda certa exaltação ética do protagonista, do homem do interior: o filme é o cumprimento de um compromisso entre o cowboy interpretado pelo próprio diretor e seu amigo estrangeiro. A viagem que se segue é mais uma daquelas onde a missão factual tem aqueles importantes efeitos de descoberta interior, de entendimento da solidão, mas Jones, que apenas nesta segunda parte parece ter controle do filme, se revela um cineasta simples, direto e, desta forma, muito eficiente.

O que é mais lamentável é que, ao partir para seu verdadeiro filme, o diretor abandone a melhor intérprete em cena, a garçonete de meia idade, feita por Melissa Leo. Em todas as cenas dela, fica clara a dedicação de Jones à composição da personagem, com olhares e silêncios ocupando o lugar de discursos para justificar suas ações. Mas, mesmo com a ausência da atriz, é na segunda fase que o filme realmente existe. E o diretor não teme filmar diálogos com mortos devidamente expostos para revelar as motivações de seu alter ego. Jones está muito em como ator, mas Barry Pepper está melhor. Um vilão que revela sua fragilidade à primeira mudança de contexto. Embora algumas cenas redentoras sejam extremamente dispensáveis, a estréia de Tommy Lee Jones como diretor deu um belo filme. Um filme comum, bem longe da obra-prima que pintaram, mas um belo filme.

[três enterros ]
direção: Tommy Lee Jones. roteiro: Guillermo Arriaga. elenco: Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio Cedillo, Dwight Yoakam, January Jones, Melissa Leo, Mel Rodriguez, Cecilia Suárez, Ignacio Guadalupe, Vanessa Bauche, Irineo Alvarez, Guillermo Arriaga. fotografia: Chris Menges. montagem: Roberto Silvi. música: Marco Beltrami. desenho de produção: Meredith Boswell. figurinos: Kathy Kiatta. produção: Michael Fitzgerald e Tommy Lee Jones. site oficial:
três enterros. duração: 90 min. the three burials of melquiades estrada, estados unidos/frança, 2005.

nas picapes: [lay your trouble on my shoulders, paul mccartney]

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Enquete: qual o melhor filme de Martin Scorsese?

resultado da enquete:

1 Taxi Driver (1976) 26,40% (33 votos)
2 Touro Indomável (1980) 11,20% (14 votos)
3 A Última Tentação de Cristo (1988) 10,40% (13 votos)
4 Gangues de Nova York (2002) 8,00% (10 votos)
4 Depois de Horas (1985) 8,00% (10 votos)
4 A Época da Inocência (1993) 8,00% (10 votos)
7 Os Bons Companheiros (1990) 6,40% (8 votos)
7 Cabo do Medo (1991) 6,40% (8 votos)
9 O Aviador (2004) 4,80% (6 votos)
10 Cassino (1995) 4,00% (5 votos)

e mais:
New York, New York (1977) 1,60% (2 votos)
Caminhos Perigosos (1973) 0,80% (1 voto)
Alice Não Mora Mais Aqui (1974) 0,80% (1 voto)
O Rei da Comédia (1983) 0,80% (1 voto)
A Cor do Dinheiro (1986) 0,80% (1 voto)
Kundun (1997) 0,80% (1 voto)
Vivendo no Limite (1999) 0,80% (1 voto)

Total: 125 votos.

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A Máquina

[o palco como herança]

Há algumas semanas, eu editei uma matéria para a TV em que trabalho sobre o lançamento em Salvador do filme A Máquina, estréia de João Falcão na direção de um longa-metragem. Na entrevista, Falcão afirmava que tinha seguido um caminho completamente diferente do proposto na peça homônima que havia dirigido anteriormente, a partir do mesmo livro de sua mulher, Adriana. Eu demorei bastante para ver o filme e fiquei perplexo com o resultado. Os trechos da entrevista que eu selecionei para ir ao ar não eram verdade. João Falcão foi bem desonesto porque A Máquina, o filme, é teatro, puro teatro.

Da cenografia competente e assumidamente fake (eu não desgosto de cenografias assumidamente fakes quando elas funcionam em favor dos filmes) à marcação do espaço para os atores em cena, tudo é herança do palco, herança que Falcão, tão elogiado pela versão teatral da história, não soube traduzir para o cinema. Quando a gente percebe que um filme se utiliza de elementos de outra forma de expressão para brincar, estamos com um diretor um passo a frente da linguagem de cinema. O cara já domina a linguagem e parte para as referências, para a brincadeira. Mas este está longe de ser o caso aqui.

Mesmo quando tenta usar a montagem para tentar fazer um filme leve e inventivo, Falcão se mostra absolutamente inábil e os resultados são, na melhor das hipóteses, ingênuos, mas seriam melhor definidos como primários. Completamente preso aos cacoetes teatrais, A Máquina não se livrou nem daqueles diálogos montanha-russa em que os atores, para parecerem bons atores, falam muitas coisas muito rápido (e, claro, com muitas frases de efeito). E Gustavo Falcão, ótimo em Árido Movie, com a inconsistência da direção, entrega uma interpretação inexpressiva.

Então, a culpa toda é do tal do João Falcão? Da tal da tradução? Não totalmente porque o texto de que muita gente gosta muito é uma bobagem, recorre a lugares comuns dos mais desgastados, exalta o nordestino por aquela tática perversa de vendê-lo como o ser esquisito, engraçadinho, quase um bichinho. A Máquina, o filme, é uma mentira das grandes. Mas A Máquina, o texto original, já não era grande coisa mesmo.

[a máquina ]
direção: João Falcão. roteiro: João Falcão e Adriana Falcão, baseado em livro de Adriana Falcão. elenco: Gustavo Falcão, Mariana Ximenes, Paulo Autran, Euclides Pegado, Vladimir Brichta, Cristiane Ferreira, Fabiana Karla, Fernanda Beling, Fabrício Boliveira, Val Perré, Mariz, Osvaldo Mil, Prazeres Barbosa, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Aramis Trindade, Zéu Britto. fotografia: Walter Carvalho. montagem: Natara Ney. música: DJ Dolores, Chico Buarque e Robertinho do Recife. desenho de produção: Marcus Figueiroa. figurinos: Kika Lopes. produção: Diler Trindade. site oficial:
a máquina. duração: 90 min. a máquina, brasil, 2006.

nas picapes: [como se fosse a primavera, chico buarque]

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Bonecas Russas

[bonitinho e ordinário]

Eu sou um defensor incondicional da expressão bonitinho. Não consigo entender porque o diminutivo de bonito é tão rechaçado pelas pessoas. Talvez porque elas queiram elogios sempre maiores e, nesse sentido, os ãos e os aços são mais eficientes. Eu já acho que a função do diminutivo é a da aproximação, da demonstração de carinho. Por isso, quando eu acho uma coisa é merece um elogio pela sensibilidade ou que merece mérito pelos pequenos detalhes, eu uso sem dó nem perdão a expressão bonitinho. Albergue Espanhol, filme do francês Cédric Klapisch, de uns dois ou três anos atrás, se encaixa perfeitamente na descrição: um filme bobo, despretensioso, que vence pela identificação, pelo carinho com as personagens, pela maneira fácil, mas inteligente, de se apresentar uma discussão.

Começava com a viagem de um jovem francês para a Espanha, onde foi fazer faculdade, e se desenvolvia numa casa onde o protagonista passou a morar com outros cinco estudantes de nacionalidades diversas. O filme se utilizava do método para questionar os efeitos da criação da União Européia e discutir o conceito de identidade. Foi um dos filmes mais pop daquele ano. E ainda tinha umas brincadeiras de linguagem, que davam um molhinho extra. Engraçado que o filme parecia ter cumprido seu papel, mas Klapisch resolveu que não e ressucitou o mesmo protagonista numa continuação sem graça chamada Bonecas Russas.

As peripécias amorosas de Xavier parecem menos interessantes do que sua relação com seus ex-flatmates de nacionalidades diferentes. Enquanto o filme anterior aposta num discurso menos empostado para discutir identidade numa época em que os limites geográficos são mais fragéis, Bonecas Russas aposta numa busca pela mulher perfeita num molde desgastado, disfarçado de moderninho. O novo filme utiliza os mesmos artifícios do longa original e não apresenta novas idéias. O frescor não existe mais. Se o primeiro apostava no Radiohead como trilha, este vai de Beth Gibbons. Klapisch só usa as personagens que julga necessárias para compor a nova história e força a barra num desfecho todos-juntos-somos-fortes desinteressante.

Ah, qual foi a razão para fazer este filme? Oportunismo? Nostalgia? Apego às personagens? Não sei dizer, mas me pereceu, além de cômodo, pouco justificável. Albergue Espanhol era bem bonitinho. Bonecas Russas, nem isso.

[bonecas russas ]
direção e roteiro: Cédric Klapisch. elenco: Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou, Cécile de France, Kevin Bishop, Evguenya Obraztsova, Irene Montalà, Gary Love, Lucy Gordon, Aissa Maïga, Martine Demaret, Pierre Cassignard, Olivier Saladin, Pierre Gérald, Zinedine Soualem, Hélène Médigue. fotografia: Dominique Colin. montagem: Francine Sandberg. música: Loïc Dury e Laurent Lavesque. desenho de produção: Marie Cheminal. figurinos: Anne Schotte. produção: Matthew Justice e Bruno Levy. site oficial:
bonecas russas. duração: 125 min. les poupées russes, frança/inglaterra, 2005.

nas picapes: [regret, new order]

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Curtinhas sobre filmes vistos antes

Quase nada dos textinhos abaixo é inédito: são comentários rápidos sobre filmes vistos nos festivais do ano passado, que chegaram nas últimas semana ao circuito comercial (uma maneira golpista de atualizar o blogue).



[árido movie ]
direção: Lírio Ferreira

Não gostei muito do final, que se rendeu a “mudernidade”. Mas a volta de Lírio Ferreira aos longas depois de nove anos rendeu um filme “do caralho”: texto pop e redondinho, com sacadas inteligentes e devaneios muito bem encaixados no contexto. Filmado em digital, tem uma ótima fotografia (observem a cena dos retrovisores). Guilherme Weber, eu acho um equívoco, mas o resto do elenco está bem demais, com destaque para a trupe de amigos do protagonista (Gustavo Falcão, Selton Mello – gordão, ótimo – e Mariana Lima, com um sotaque perfeito). Muita maconha, alguma filosofia e a uma boa sensação de ver cinema no sertão sem mostrar as agruras da vida do sertanejo.



[crianças invisíveis ]
direção: Spike Lee, Katia Lund, Emir Kusturica, John Woo, Stefano Veneruso, Mehdi Charef e Jordan & Ridley Scott

Filme-ONG por excelência, com a maioria dos diretores presos a uma didática tão tola quanto não-funcional. Spike Lee é o mais radical: nos minutos finais de seu curta, assume seu trabalho como “filme de serviço” sem dó nem pena. Longa em episódios sempre é um problema. Charef e Veneruso querem mostrar o problema e só. John Woo quer o mesmo, mas filma melhor (embora recorra a um maniqueísmo choroso de última). Os Scott recorrem ao fantástico para fazer um filme que se pretende lindo e soa artificial. Kusturica faz filme de verdade, corretinho. Curiosamente, é do Brasil que vem o melhor episódio: Katia Lund mais neo-realista que qualquer coisa, apenas acompanha seus personagens, sem maniqueísmo, sem interferências.



[estrela solitária ]
direção: Wim Wenders

Vão me linchar, mas eu acho o melhor filme do Wim Wenders em muito, muito tempo (se bem que isso talvez não seja muita coisa, quase nada). Tem um ponto de partida bem parecido com o de Flores Partidas, do Jarmusch, mas segue caminhos diferentes. A busca pelo que pode mudar a visão que o protagonista tem da vida seria o que há de mais comum entre os dois filmes. Gosto muito da personagem da Sarah Polley, que surge e some na falta de uma explicação completa. O texto do Sam Shepard com o Wenders tem belos momentos e também muitas partes fracas, mas até delas eu me agradei. Me parece um filme assumidamente falho, talvez o máximo que o diretor consiga fazer hoje em dia. Eu nunca, ou quase nunca, gosto do Wenders. Acho que foi isso. Ou talvez alguma dó.



[tapete vermelho ]
direção: Luiz Alberto Pereira

Surpresinha boa. Nachtergaele reprisa o Jeca Tatu com precisão, se a gente perdeu a visão preconceituosa de que aquilo é uma cópia. A pequena jornada dele e de sua família (Gorete Milagres, ótima!!!) em busca de um filme de Mazzaroppi (lúdico, ingênuo) e o choque com o mundo moderno e a cidade grande, o que poderia se transformar isso aqui num filme-denúncia chatinho consegue, a partir de algumas belas idéias que passam por não ser veemente em quase nada, um resultado muito além. Não é nada espetacular, mas é bem bonitinho.

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O Novo Mundo

O Novo Mundo

Há filmes que são o que são e há filmes que são mais. Este é o caso de O Novo Mundo, novo longa-metragem de Terrence Malick, para o qual parecem ter sido criados termos como cineasta bissexto, cineasta maldito. Em mais de trinta anos de carreira, este é apenas o quarto filme do diretor. Uma obra que, como prova de coerência com seus trabalhos anteriores, é de difícil assimilação imediata para um público acostumado a uma linhagem narrativa mais ortodoxa ou, quando não, mais facilmente subvertida. A subversão de Malick é totalmente à parte. Em vez de malabarismos estéticos ou do esfacelamento da montagem tão em moda hoje em dia, o cineasta se pronuncia pelos enquadramentos e pelo que talvez seja mais estranho para os olhos do espectador: a abolição da ação.

Em O Novo Mundo, há pelo menos uma dezena de momentos em que as personagens centrais assumem uma condição muito próxima da de narradores, quando, em off, se afastam da ação. Mas quando se espera a tradicional postura de análise do fato, Malick entra em cena com uma proposta diferente. As intervenções são íntimas, com os protagonistas em momento de auto-reflexão, num tom mais do que pessoal, metafísico, algo que permeia o cinema do diretor. Há belíssimas passagens que, se não contribuem necessariamente para o contexto da história, abrem novos prismas de conversação com o público.

E entre uma cena e outra, Malick resolve falar sobre a América, aliás, sobre colonialismo. Aliás, sobre algo anterior, mais universal, que eu não saberia classificar muito bem. Sua Pocahontas nunca nomeada é o país que se encanta com a chegada do novo, do diferente. O diretor se afasta do maniqueísmo que seria condenar as personagens a estereótipos como mocinhos e vilões. Não se trata da inocência perdida, vai muito além. Malick investiga o processo da transformação e o quanto ele tem de conseqüência natural dos eventos. E como esse processo se dá numa velocidade quase imperceptível, bem próxima da velocidade do cinema do cineasta.

Com tempo para desenvolver sua história, Malick se dedica à cada imagem, à cada significado oculto em cada enquadramento, em cada movimento de câmera. Ele troca sua protagonista de posição num movimento tão calculado quanto suave. As palavras abrem caminhos para novos hábitos, novas roupas, uma nova maneira de organizar o pensamento. O amor que surge como agente catalisador desta transformação aos poucos dá lugar à acomodação com os novos costumes. A indiazinha aceita seu novo papel sem mágoa ou ressentimento. Ela é seu povo que se deixa ser seduzido. Ela é sua terra, que se entrega com tranqüilidade. É o curso da mundo que se constrói pela justaposição de culturas, pela sobreposição de histórias, mesmo que uma termine matando a outra.

O Novo Mundo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The New World, Terrence Malick, 2005]

 

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Top anos 80

[os melhores filmes dos anos 80]

1 Um Tiro na Noite (81), de Brian De Palma
2 Touro Indomável (80), de Martin Scorsese
3 O Rei da Comédia (83), de Martin Scorsese
4 Caçadores da Arca Perdida (81), de Steven Spielberg
5 Conta Comigo (86), de Rob Reiner
6 Fanny e Alexander (82), de Ingmar Bergman
7 O Iluminado (80), de Stanley Kubrick
8 Zelig (83), de Woody Allen
9 O Homem Elefante (80), de David Lynch
10 Os Intocáveis (87), de Brian De Palma

11 Blade Runner (82), de Ridley Scott
12 Uma Cilada para Roger Rabbit (88), de Robert Zemeckis
13 O Ilusionista (83), de Jos Stelling
14 Não Matarás (87), de Krzysztóf Kieslowski
15 Akira (88), de Katsuhiro Otomo
16 Cabra Marcado para Morrer (84), de Eduardo Coutinho
17 Os Vivos e os Mortos (87), de John Huston
18 O Fundo do Coração (82), de Francis Ford Coppola
19 When The Wind Blows (86), de Jimmy R. Murakami
20 Black Rain, a Coragem de uma Raça (89), de Shohei Imamura

21 Memórias (80), de Woody Allen
22 Veludo Azul (86), de David Lynch
23 O Selvagem da Motocicleta (83), de Francis Ford Coppola
24 Depois de Horas (85), de Martin Scorsese
25 E.T. – O Extraterrestre (82), de Steven Spielberg
26 Paisagem na Neblina (88), de Theo Angelopoulos
27 Nascido para Matar (87), de Stanley Kubrick
28 A Noite de Varennes (82), de Ettore Scola
29 Asas do Desejo (87), de Wim Wenders
30 Adeus, Meninos (87), de Louis Malle

Considerados: O Baile (83), de Ettore Scola + Ran (85), de Akira Kurosawa + E La Nave Va (83), de Federico Fellini + A Hora da Estrela (85), de Suzana Amaral + Bagdad Café (88), de Percy Adlon + A Noite de São Lourenço (82), de Paolo e Vittorio Taviani + Drugstore Cowboy (89), de Gus Van Sant + Vidas Sem Rumo (83), de Francis Ford Coppola + Sangue Ruim (86), de Leos Carax + A Rosa Púrpura do Cairo (85), de Woody Allen + Paris, Texas (84), de Wim Wenders + O Cão Branco (82), de Samuel Fuller + Videodrome (83), de David Cronenberg + O Retorno de Jedi (83), de Richard Marquand.

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O Signo do Caos



[o signo do caos ]
direção: Rogério Sganzerla

Gostaria bastante de tecer apenas elogios sobre o filme. Adoro como as cenas se comunicam umas com as outras. É um filme-exemplo sobre a montagem como essência da linguagem no cinema, herança do cineasta homenageado no longa: Orson Welles. Teria votado na montagem para o Alfred, caso tivesse visto o filme em tempo hábil. E Sganzerla ainda é muito hábil em criar dentro dos planos, na composição das cenas, na disposição de corpos e objetos. O que me incomodou um pouco foi a encenação, perdida no tempo. Não vi muita coisa do diretor, e mesmo que se possa classificar esta opção de condução das interpretações como uma marca sua, ela me parece deslocada, excessivamente vanguardista. Em todo caso, é um réquiem digníssimo para um cineasta de idéias.

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V de Vingança

[fúria explosiva]

Há alguns anos, eu e meus amigos mais próximos criamos uma lista de discussão. Era uma lista bem restrita. Tinha dez membros, mais ou menos. O objetivo era manter o contato entre o grupo já que a vida terminou mandando um para cada lugar. E foi nesta lista que a gente – a maioria, jornalistas – comentou junto os ataques do 11 de setembro. E foi lá que eu briguei feio com uma amiga minha, que defendeu com veemência aquela ação. Eu tenho uma opinião bem simples sobre o terrorismo: eu acho o terrorismo uma merda. Acho completamente injustificável matar pessoas, sob qualquer pretexto que seja.

É por isso que V de Vingança, de Alan Moore, foi tão impressionante para mim. Porque Moore, com toda a bizarrice que se poderia esperar de uma trama do tipo, conseguiu me convencer da importância daquela figura caótica e de suas ações em nome “de um bem maior”. Eu finalmente tinha entendido o terrorismo embora ainda não conseguisse concordar com ele ou aprová-lo, embora minha opinião sobre ele continuasse a mesma. O texto de Moore é muito competente ao dar consistência à lógica do pensamento de V.

A versão da HQ para o cinema é a primeira obra adaptada de um material de Moore que merece o título de bom filme. Os anteriores (o insípido Do Inferno, 2001, e o grotesco A Liga Extraordinária, 2003) não faziam jus ao escritor. Mas V de Vingança é bem-sucedido ao transpor para a tela a complexidade do texto de Moore. O discurso do filme é bem fiel ao original e eficiente ao apresentar as idéias da personagem para a platéia. A grande questão é que sempre parece que o diretor James McTeigue (ou os irmãos Wachowski) apenas reproduz esse discurso e não necessariamente acrescenta algo a ele.

O processo é mecânico, embora eu reconheça um certo frescor na transposição. O longa parece apaixonado pelo texto, mas há concessões. Muitas vezes, o filme político dá lugar ao filme de ação, ao filme de efeitos visuais herdeiro de Matrix. Há cenas em que a busca pelo impacto visual flerta com o kitsch, como nas seqüências finais nas ruas. Esse flerte se reflete às vezes no texto, que no geral é muito bom, mas que cria alguns diálogos sentimentalóides desnecessários. O tal do embate de ideológico é verbalizado em excesso.

Hugo Weaving, mascarado do começo ao fim, é o melhor ator do filme, apesar das boas performances de Natalie Portman e Stephen Rea. É ele o maior responsável por dar credibilidade a V. Se fosse menos boa, sua interpretação poderia desqualificar a ousadia do filme, que merece elogios pela coragem de levar às telas um tema tão controverso. Eu ainda não concordo com assassinato, mas não é este o caso. Eu ainda acho muito boa a obra original, mas isso não vem ao caso também. Mas V de Vingança, o filme, embora sem o mesmo impacto e a mesma eficiência de sua fonte de inspiração, é um bom filme porque, no fim, é a idéia que conta.

[v de vingança ]
direção: James McTeigue. roteiro: Andy e Larry Wachowski, baseado nos personagens criados por David Lloyd e Alan Moore. elenco: Natalie Portman, Hugo Weaving, Stephen Rea, John Hurt, Roger Allam, Clive Ashborn, Sinéad Cusack, Nicolas de Pruyssenaere, Stephen Fry, Selina Giles, Rupert Graves, Ben Miles, Tim Pigott-Smith, Cosima Shaw, John Standing, Natasha Wightman. fotografia: Adrian Biddle. montagem: Martin Walsh. música: Dario Marianelli. desenho de produção: Owen Paterson. figurinos: Sammy Sheldon. produção: Grant Hill, Joel Silver, Andy e Larry Wachowski. site oficial:
v de vingança. duração: 132 min. v for vendetta, estados unidos/alemanha, 2006.

nas picapes: [polly, nirvana]

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Filhos do Carnaval

[filhos do carnaval ]
direção geral: Cao Hamburger

O nível de elaboração de Filhos do Carnaval está muito além da forma. A série, cujo último capítulo foi ao ar ontem no HBO, é coisa rara na teledramaturgia brasileira. Uma obra que reúne os méritos de uma extrema competência tecnológica com um roteiro tão bem escrito quanto bem amarrado, que utiliza com maestria elementos clássicos geralmente subaproveitados, como a temida narração em off. A série é boa demais. O último capítulo quase força a barra com as resoluções paralelas do emaranhado de traminhas que se intercalam, mas a força do texto atravessa tudo. A cena do enterro de Anesinho, no primeiro episódio, é maravilhosa. O grandão Thogum é o grande ator da vez.

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