Monthly Archives: fevereiro 2006

O Assassinato de Richard Nixon

Um desfile de porquês

Caro maestro Leonard Bernstein,

acabei de sair do cinema e estou particularmente confuso. Gostaria de entender qual é a relevância de se contar a história de O Assassinato de Richard Nixon. Gostaria muito. Não se foi a inexperiência do diretor estreante Niels Mueller ou a incompetência do roteiro, mas aquele que seria, a meu ver, o principal motivo para a realização do filme simplesmente não é levado em conta. Por que o protagonista fez tudo aquilo? O longa me afirma que a única razão é a perturbação da personagem.

Então, caro maestro, me surge a dúvida: dar voz a uma pessoa perturbada, contar a história dela, que não realizou um grande feito, não participou de um evento significativo, não tem verdadeiro valor histórico, não seria dar uma voz ao inexplicável? Não seria meio irresponsável? E, mais além, teria que mérito, que valor? Afinal, sobre o que é O Assassinato de Richard Nixon já que ele nem tenta humanizar a personagem?

Na minha opinião, caro senhor Bernstein, esta é a pior interpretação do Sean Penn. A versão careteira, cheio de tiques, deste um grande ator, menospreza a visão do protagonista. Ele é reduzido a apenas um homem com problemas mentais. E a direção de Mueller não o trata de maneira especial, não existe qualquer carinho com a personagem, nem nenhuma preocupação com identificação. Eu acho, inclusive, maestro, que um pouco de clichê na caracterização, de lugar comum na composição das cenas, seria altamente benéfico para este filme apático.

A sensação que fica é de querer se livrar logo. Da história, do protagonista, do problema. O filme termina e muitas dúvidas ficam no ar: o que queria a personagem? Por que tratá-lo tão sem paixão? O que queria o diretor? Por que fazer este filme? E a maior de todas elas, caro maestro Leonard Bernstein, por que, caramba, usar o senhor como fio condutor da história se não há a mínima justificativa para isso? Provavelmente vou ficar sem respostas.

um abraço,
cordialmente,
Chico.

O Assassinato de Richard Nixon
The Assassination of Richard Nixon, Estados Unidos/México, 2004.
Direção: Niels Mueller.
Roteiro: Kevin Kennedy e Niels Mueller.
Elenco: Sean Penn, Naomi Watts, Don Cheadle, Jack Thompson, Brad William Henke, Nick Searcy, Michael Wincott, Mykelti Williamson, April Grace, Jared Dorrance, Jenna Milton, Mariah Massa, Derek Greene, Joe Marinelli, Lily Knight.
Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Jay Lash Cassidy. Direção de Arte: Lester Cohen. Figurinos: Aggie Guerard Rodgers. Música: Steven M. Stern. Produção: Alfonso Cuarón e Jorge Vergara. Site Oficial: O Assassinato de Richard Nixon.Duração: 95 min.

rodapé: notas de zero a dez para todos os filmes lançados comercialmente neste ano aqui.

nas picapes: Take Me Out, Franz Ferdinand.

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Terra Fria

Justiça para todas

Considerando que Encantadora de Baleia (2004), longa anterior da diretora, é um dos filmes mais maniqueístas dos últimos tempos. Considerando que a história deste filme tinha tudo para repetir este feito, com tom moralizante, liçãozinha e “o bem vence o mal”. Considerando, que mesmo com um Oscar, Charlize Theron não tinha demonstrado ser uma atriz mais do que correta, este filme é uma surpresa. Não que ele seja um grande trabalho. Terra Fria dá conta do recado. Surpreendentemente. A música, do mesmo Gustavo Santaolalla de Brokeback Mountain, tem o mesmo tom do filme. Triste, melancólica, mas sem o clima de fundo do poço caríssimo a este tipo de filme.

A personagem de Charlize Theron é, sim, uma Norma Rae dez anos depois (o filme se passa em 89, uma década depois do filme que deu a Sally Field o Oscar de melhor atriz), mas a construção que ela impõe a sua interpretação não se apóia nos clichês de mulher forte, de líder, de lutadora. A busca pela justiça me pareceu bastante natural, espontânea. Charlize, ainda sem ser uma grande atriz, está bem no papel. É ela que puxa o filme para um plano mais cotidiano e menos afetado. Não dá para negar que Niki Caro evoluiu na linguagem: há algumas cenas, como a da violência sexual, em que ela revela um domínio de soluções cinematográficas inesperado para o histórico da diretora.

Terra Fria
North Country, Estados Unidos, 2005.
Direção: Niki Caro.
Roteiro: Michael Seitzman, baseado em livro de Clara Bingham e Laura Leedy.
Elenco: Charlize Theron, Elle Peterson, Thomas Curtis, Frances McDormand, Sean Bean, Woody Harrelson, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, James Cada, Rusty Schwimmer, Linda Emond, Michelle Monaghan, Jillian Armenante, Amber Heard, John Aylward.
Fotografia: Chris Menges. Montagem: David Coulson. Direção de Arte: Richard Hoover. Figurinos: Cindy Evans. Música: Gustavo Santaolalla. Produção: Nana Greenwald, Jeff Skoll e Nick Wechsler. Site Oficial: Terra Fria.Duração: 126 min.

nas picapes: Van Diemen’s Land, U2.

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Homem-Aranha 3

Homem-Aranha 3

O uniforme é negro mesmo. E o Venom aparece neste filme…

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Curtas

A nova Paisá

A edição nº 1 da Revista Paisá chegou às minhas mãos na semana passada, mas eu ainda não tive tempo para comentá-la. Me pareceu ainda melhor do que o número zero – que já era ótimo – inclusive com uma ampla cobertura sobre os filmes de Ang Lee, puxada Brokeback Mountain, capa (enquanto a SET ignorou o filme do mês e colocou o George Clooney na capa provavelmente porque ele é mais vendível, né?). Há belas resenhas sobre os filmes novos e uma lista de melhores do ano, prato cheio para qualquer cinéfilo. Material de primeira, mais uma vez. Parabéns ao Sérgio e à equipe.

E os filmes:



O Aviador (2004) , de Martin Scorsese.

Rever o filme inteiro é ter certeza da excelência da direção de Scorsese, que transforma uma trajetória individual num inventário sobre a recente história dos Estados Unidos. Leonardo Di Caprio pode ter muitos detratores, mas aqui ele pisa em todos eles porque é um ator genial, com pelo menos umas cinco cenas memoráveis. Todo o cuidado técnico é invejável, mas a fotografia de Robert Richardson não tem parâmetros. É provavelmente uma das melhores que eu já vi.



Crimes e Pecados (1989) , de Woody Allen.

Segunda revisão. O contraponto entre as histórias de Martin Landau e de Woody é fundamental para que um equilíbrio muito particular entre drama e comédia. Neste filme, a personagem neurótica não dá o tom, apenas faz parte do contexto. Há uma certa dissertação sobre a culpa que é cristalizada num diálogo inteligente entre os dois protagonistas. A evolução da personagem de Mia Farrow é interessantíssima já que frusta às expectativas no melhor estilo do diretor, mas de uma maneira sutil, sem pressa.



De Repente 30 (2004) , de Gary Winick.

Uma bobagem deliciosa de assistir. Jennifer Garner nem sempre consegue segurar as pontas, mas Mark Ruffalo é um ótimo parceiro. O texto é simples, mas o filme exibe uma sinceridade, uma espontaneidade que faltam hoje no gênero, que confunde ingenuidade com burrice. Este filme não apenas defende a ingenuidade, como a exalta.



Encontro de Amor (2003) , de Wayne Wang.

Pareceu, a meu ver, que ele foi injustamente atacado quando foi lançado nos cinemas, possivelmente por causa da presença de Jennifer Lopez, uma atriz ruim, mas que funciona como uma luva no papel de Cinderela moderna. O conto de fadas ganha legitimidade pela presença de Raplh Fiennes e pela condução leve que Wayne Wang imprime ao filme. Não é nada demais. Mas nem de longe é de menos.

A Morte do Demônio (1981) , de Sam Raimi.

A inventividade da câmera está lá. É o rascunho inicial de quem viria a ser um grande diretor, um cineasta conceitual. No entanto, é um filme que se apega muito ao grotesco, às gosmas, líquidos e todo e qualquer material nojento (inclusive custando alguns desafetos com a continuidade). Há uma inegável diversão, sobretudo para o adolescente, alvo imediato do filme, mas não vai muito além disso. Com mais dinheiro, recursos e uma equipe mais profissional, Raimi refez o filme em 1987.



O Mundo em Perigo (1954) , de Gordon Douglas.

Esperei tanto tempo para ver este filme, mas ele é muito fraquinho. Todas as resoluções são apressadas. Não preocupação qualquer com a narrativa. A curiosidade pelo tosco existe, mas não justifica o filme, que até é bastante ousado ao criticar a política atômica dos Estados Unidos, mas as reflexões são superficiais.

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Ponto Final

Love and pain (and the whole damn thing)

Eu fui ao cinema esperando um outro filme, mas Woody Allen me enganou. Ponto Final discute temas bastante caros ao diretor, como culpa, crime e castigo, mas, pela primeira vez (pelo menos que eu lembre), Woody, que é um dos cineastas com marcas mais evidentes em sua obra, renega esses artifícios que se transformam em pontos de identificação com o espectador. No novo filme, não há grande espaço para o humor, para a piada. Elas aparecem em cenas específicas – e são muito poucas – e nunca servem de amarração para as histórias. É Woody Allen em reinvenção, eu diria.

Nem em Crimes e Pecados (1989), com o qual este filme é constantemente comparado – um filme sério, digamos – o diretor abdica da piada e de se fazer representado na história que conta através de uma personagem neurótica (que às vezes cabe a ele interpretar, mas que em outros filmes ganha faces diferentes). Não há neurose em Ponto Final. Pelo menos aquela que reconhecemos como a neurose de Woody Allen. Por sinal, a comparação entre os dois filmes é fácil por causa de semelhanças na trama, mas é injusta. São obras completamente diferentes.

Para começar, o novo filme é uma história de amor, amor romântico. E nesse contexto, Allen é muito sutil quando começa a decifrar suas personagens. Jonathan Rhys-Meyers poderia tranqüilamente ganhar ares de vilão – inclusive seria natural no contexto em que ele é apresentado – mas, ao usar o conceito de sorte como fio condutor da trama, Woody consegue desenhar uma personalidade muito mais rica do que qualquer outro faria aqui. O que é questionável em sua trajetória ganha o equilíbrio de seu amor verdadeiro pela personagem de Scarlett Johansson. A história do casal é de defesa do par, do “outro”, do “dois”.

Woody se demonstra muito apaixonado ao defender a paixão, o desejo, o amor mesmo. E, ao mesmo tempo, completamente desprendido para não dar importância à temas como traição, por exemplo. O modo como conduz seu filme, um drama clássico em sua maior parte, promove um outro tipo de identificação no espectador, que passa a torcer pelo casal, pela consumação da bela história que você sabe que é real, que você acompanha, que você conhece. Está formada a relação de cumplicidade entre cineasta, protagonistas e espectador. Eles se apaixonaram e o espectador se apaixona por eles.

Quando o filme se reescreve, num terceiro ato completamente à parte, muda tudo. Muda o tom, que fica mais sombrio; muda o gênero, que se torna uma espécie de Hitchcock sem pretensão de ser Hitchcock; mudam alguns conceitos básicos que você tinha desenvolvido pelo filme, mas não muda uma coisa, seu amor pelos protagonistas. Woody Allen talvez não aprove, mas defende suas crias até o fim. E ele impõe, sutilmente, que nós também as defendamos. Mesmo quando ele parte seu coração, pouca coisa muda em relação aos protagonistas. Seu maior desafio era conseguir amarrar toda a trama. Ele conseguiu.

Ponto Final
Match Point, Grã-Bretanha/Estados Unidos/Luxemburgo, 2005.
Direção e Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Alexander Armstrong, Matthew Goode, Brian Cox, Penelope Wilton, Simon Kunz, Geoffrey Streatfield, John Fortune, Rupert Perry-Jones, Miranda Raison, Rose Keegan, Zoe Telford, James Nesbitt, Paul Kaye, Mark Gatiss.
Fotografia: Remi Adefarasi. Montagem: Alisa Lepselter. Direção de Arte: Jim Clay. Figurinos: Jill Taylor. Produção: Letty Aronson, Lucy Darwin e Gareth Wiley. Site Oficial: Ponto Final.Duração: 124 min.

nas picapes: My Babe Just cares for Me, Edward Norton e Natasha Lyonne.

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Resultado da enquete
Quais os 5 melhores filmes de 2005?



1 Menina de Ouro (7,20%) (84 votos)
2 Marcas da Violência (6,69%) (78 votos)
3 Oldboy (4,72%) (55 votos)
4 O Jardineiro Fiel (4,63%) (54 votos)
5 O Aviador (4,12%) (48 votos)
6 Closer (3,95%) (46 votos)
7 Cinema, Aspirina e Urubus (3,86%) (45 votos)
8 Um Filme Falado (3,69%) (43 votos)
8 Sin City (3,69%) (43 votos)
10 Mar Adentro (3,26%) (38 votos)



11 King Kong (2,83%) (33 votos)
12 Clean (2,66%) (31 votos)
12 Reis e Rainha (2,66%) (31 votos)
12 A Vida Marinha com Steve Zissou (2,66%) (31 votos)
15 O Clã das Adagas Voadoras (2,49%) (29 votos)
16 Terra dos Mortos (2,40%) (28 votos)
17 A Noiva-Cadáver (2,23%) (26 votos)
17 Sideways (2,23%) (26 votos)
19 A Queda! (2,14%) (25 votos)
20 A Fantástica Fábrica de Chocolate (2,06%) (24 votos)
20 A Menina Santa (2,06%) (24 votos)



22 Batman Begins (1,97%) (23 votos)
23 Cidade Baixa (1,80%) (21 votos)
23 Guerra dos Mundos (1,80%) (21 votos)
25 Ninguém Pode Saber (1,72%) (20 votos)
26 Casa Vazia (1,63%) (19 votos)
26 2 Filhos de Francisco (1,63%) (19 votos)
28 Bom Dia, Noite (1,37%) (16 votos)
28 A Vingança dos Sith (1,37%) (16 votos)
30 O Castelo Animado (1,29%) (15 votos)



31 Crash (1,20%) (14 votos)
31 Herói (1,20%) (14 votos)
33 Nossa Música (1,03%) (12 votos)
34 Jogos Mortais (0,94%) (11 votos)
34 Manderlay (0,94%) (11 votos)
36 O Signo do Caos (0,86%) (10 votos)
37 The Brown Bunny (0,77%) (9 votos)
37 Flores Partidas (0,77%) (9 votos)
37 Kung-Fusão (0,77%) (9 votos)
40 Em Boa Companhia (0,69%) (8 votos)
40 O Virgem de 40 Anos (0,69%) (8 votos)



42 Bens Confiscados (0,51%) (6 votos)
42 Contra a Parede (0,51%) (6 votos)
44 Amor em Jogo (0,43%) (5 votos)
44 Hora de Voltar (0,43%) (5 votos)
44 Mistérios da Carne (0,43%) (5 votos)
47 Exílios (0,34%) (4 votos)
48 Desejo e Obsessão (0,26%) (3 votos)
48 Kinsey (0,26%) (3 votos)
50 O Fim e o Princípio (0,17%) (2 votos)

Total: 1166 votos.

*As estrelas são minhas avaliações pessoais sobre os filmes.

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Alfred 2005

O ano de 2005 foi um ano exemplar para o cinema. Foi o ano em que chegaram ao Brasil pérolas de grandes diretores do mundo todo e em que o cinema brasileiro teve sua safra mais sólida. Foi o ano em que Martin Scorsese contou a saga de um dos homens mais interessantes do nosso tempo, foi o ano em que Clint Eastwood subverteu os clichês para falar de um amor entre pai e filha. Foi também em 2005 que Chan-wook Park nos trouxe do outro lado do mundo uma intrincada saga de vingança e foi a vingança que também deu o tema da mais nova – e melhor – história de David Cronenberg. Foi em 2005 que Manoel de Oliveira nos explicou que é a intolerância que constrói as sociedades.

A Liga dos Blogues Cinematográficos divulga nesta segunda-feira, às 22h30, horário de Brasília, os vencedores da terceira edição do maior prêmio da blogosfera cinéfila do Brasil, o Alfred 2005.

Confira ao vivo, online, em www.ligadosblogues.blogspot.com.

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Syriana

George Clooney, Alexander Siddig, Matt Damon, William Hurt
Eu geralmente me sentia meio burro quando saía de um filme como Syriana, cuja dezena de micro-histórias têm tantos meandros, ora conspiratórios, ora jurídicos, ora sei-lá-o-quê, que eu nunca consigo entender tudo plenamente. Por isso, já faz algum tempo eu decidi que não teria mais vergonha de olhar para um filme deste tipo como um todo, mesmo que tenha deixado um ou outro detalhe escapar. E Syriana, a segunda experiência de Stephen Gaghan na direção, é um bom filme, embora geralmente queira ser bem mais do que isso.

Gaghan, que por tudo o que foi divulgado na imprensa, teve bastante dificuldades para realizar o filme, que tem por objetivo ser uma visão multilateral do funcionamento da indústria do petróleo, que o subtítulo brasileiro deixa, como de praxe, tão obviamente explícito. Pois bem, enquanto retrato da complicada questão, que, bem além do petróleo, envolve política, religião e cultura, Syriana é um exercício bastante satisfatório. Quase todas as histórias são bem apresentadas e resolvidas. O mosaico pode não ter tanta profundidade, mas dispara para todos os lados e geralmente acerta em algum lugar bem parecido com um alvo.

O que mais se pode louvar no filme é como ele não tenta seguir a fórmula de um thriller político, com uma historieta central que vai prender a atenção do espectador até o final. Não há um assassinato a evitar, um culpado a prender, uma notícia para ser levada aos jornais. Não é um Todos os Homens do Presidente ou um A Conversação, dois belos filmes (o último um excelente filme). Syriana tem tantas personagens – e seus “episódios” são tão completamente importantes para alcançar o painel proposto por Gaghan – que o filme se aproxima mais de um Robert Altman, sobretudo porque não há exatamente esse eixo central.

O texto é bastante, digamos, engajado, mas passa ao largo de ser panfletário. Gaghan apresenta muito bem a história do garoto árabe que, aos poucos, se envolve numa luta religiosa que não é sua e assume um discurso que não é seu. Há momentos em que pincela tentar ser definitivo, como no discurso empostado sobre a corrupção e como ela é importante. O texto é bem escrito, mas a vontade de dizer a “verdade” atrapalha um pouco seu intento.

A história menos bem resolvida é a de Matt Damon, justamente a mais fácil de entender, a mais linear. Em determinado momento, fiquei questionando o porquê da personagem. Seria para que fosse possível aquela cena final? Ou seria para apresentar o príncipe de Alexander Siddig, de longe o melhor ator do filme, que bem que merecia mais espaço. Seu diálogo com Damon sobre o que ele pretende para seu país é uma das melhores cenas. E George Clooney, Oscar de coadjuvante, me surpreendeu. Em que bom ator ele se transformou. Aqui, renega toda sua “linha de representação”, despindo-se do quê sedutor para fazer um homem obcecado, sem um pingo de exagero.

Syriana – A Indústria do Petróleo
[Syriana, Stephen Gaghan, 2005]

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Boa Noite e Boa Sorte

David Strathairn, George Clooney, Patricia Clarkson, Robert Downey Jr., Jeff Daniels, Frank Langella

George Clooney, que se revelou um diretor surpreendente em Confissões de uma Mente Perigosa, aproveitou parte da equipe técnica de Syriana, pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante, em sua segunda incursão na direção. Com um tema como este (história real, fato político-histórico), outro cineasta faria um filme de três horas, mas ele fechou o seu na metade deste tempo. Curioso que ele pareça ter muito mais (não numa avaliação aborrecida) por causa da quantidade de material que apresenta. Veja como é o preconceito… minha próxima frase é: “impressionante como isso vem de um ator revelado como galã de seriado de TV”.

George Clooney parece ser um cara muito legal. Seu carisma se reflete na tela e nas entrevistas que dá aqui e acolá. Mais que isso, é um artista consciente de um certo papel social, o que pode soar bobo e utópico, mas que ele converte muito bem na forma de um filme. Aproveita com precisão de imagens, depoimentos, entrevistas, gerando um longa quase documental, que poderia ter sido retirado de um belo arquivo de uma emissora de TV. Eu, que trabalho numa há um bom tempo, sei o quanto é difícil usar com parcimônia esse material e, mais ainda, conceder-lhe uma linha narrativa, que mesmo que pareça ingenuamente em busca da ética, é sempre muito honesta.

(Aparte: “honesto” virou uma palavra daquelas para se riscar de textos opinativos sobre obras de arte, não é? Falar que um filme é honesto parece simplista e redutor, mas eu sinceramente acho que há um grande exagero em depreciar uma palavra tão bonita.)

O tema é o macarthismo, o vilão não ganhou performer, a luta é simples: certo contra errado. Tá, o que é certo? O que é errado? Isso cada um decide para si. Clooney decidiu o que é o certo dele. E ele defende seu certo muito bem, com um filme econômico e direto, impecável tecnicamente (fotografia habilidosíssima e boa montagem). David Strathairn está perfeito. Ele é o herói da vez, o herói de verdade. Eu gosto de heróis, eu preciso de heróis.

Boa Noite, e Boa Sorte. ½
[Good Night, and Good Luck., George Clooney, 2005]

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Orgulho & Preconceito

Orgulho & Preconceito

Existem algumas palavras que você aprende quando é criança, mas que raramente usa depois que cresce. Cada um tem seu próprio repertório. No meu, há espaço para termos como caudaloso e frondosa. Por isso, eu comemoro bastante quando surge alguma oportunidade para usá-los. E escrever sobre Orgulho e Preconceito é uma grande desculpa para falar de frescor. A mais recente adaptação do romance clássico de Jane Austen é um impressionante exercício de como revigorar uma obra com recorte histórico tão exato, com um tema tão banal para os dias de hoje quanto o amor entre pessoas de classes sociais diferentes.

Há de se celebrar o material original: o texto de Austen, apesar de retratar uma época específica, não tem data de validade, é extremamente inteligente e eqüilibrado. Não é, digamos, um texto de mulherzinha. Contudo, a quantidade de grandes obras de contemporâneos seus, ou da própria escritora, cujas adaptações cinematográficas resultaram em verdadeiros tours-de-force para o espectador por sua pobreza de tradução, pelo excesso de respeito ou pela apatia, é enorme. Este filme poderia ganhar o mesmo destino, mas a mão do diretor estreante Joe Wright expurga qualquer resquício de filme datado. Wright não é um diretor de paisagem, como James Ivory, o papa dos filmes de época, quase sempre é.

O vigor que sua direção impõe ao filme é inexplicável. Orgulho e Preconceito parece um filme moderno, apesar de ser fiel à obra original. Eu diria que é até luminoso e isso se reflete também na concepção técnica do filme, que desta vez não se limita às tradicionais categorias de arte (cenografia e figurinos). A fotografia, inquieta, cheia de travellings, câmera movimentada, jogos de luz dá imenso frescor – olha a palavra aí – para o longa. A trilha sonora é linda, no piano. E a celebrada interpretação de Keira Knightley, que realmente está encantadora, nem é a melhor do filme. Há sempre aquelas personagens periféricas pontuais (com belos momentos para Brenda Blethyn e Donald Sutherland), mas o que mais me surpreendeu foi como Matthew Macfadyen encarna com perfeição o homem romântico, com um olhar triste perpétuo, em contraponto com a efusiva personagem de Keira. Um filme que tinha tudo para dar errado, mas deu muito certo. E eu não sei bem explicar o porquê.

Orgulho & Preconceito EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Pride & Prejudice, Joe Wright, 2005]

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