Monthly Archives: novembro 2005

Oscar Buzz

Minhas apostas, as notícias, os prêmios dos sindicatos e dos críticos: tudo relacionado ao Oscar num endereço novo.

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Harry Potter e o Cálice de Fogo

Harry Potter e o Cálice de Fogo

O que não muda nos livros ou filmes de Harry Potter talvez seja o que mais cative na obra de J. K. Rowling. Além da magia, dos seres mitológicos, de todo o universo fantástico que circula a escola de Hogwarts, existe a história de um garoto crescendo. Pode ser, e é, muito clichê se debruçar sobre isso (tanto que praticamente tudo o que se escreve sobre este ou sobre o último filmes passa pela supresa em encontrar personagens mais maduras e uma história menos infantil. Surpresa?), mas é exatamente este o trunfo de Harry Potter. Seus dramas e os de seus amigos são de verdade. Identificação.

Primeiro, temos Harry. Ora, Harry é o Superman – ou alguém não percebeu? Ele é o cara íntegro, deslocado da família, cheio de poderes, mas mesmo inocente, completamente responsável no uso deles. Um mauricinho para muita gente já que ele é tão certinho que não comete faltas muito graves. Mas Harry tem, mal comparando, o mesmo peso que o Superman tem. Ele precisa ser certo porque, quer ele queira ou não, ele é o exemplo, uma espécie de líder natural. E ao mesmo tempo, Harry é uma criança. Ou melhor: um adolescente… crescendo, descobrindo o mundo. Claro que o mundo de Harry é bem mais legal do que o dos adolescentes da idade dele. Ele voa e há dragões. E há a magia. E Harry, como o Superman que é, precisa liderar, estar à frente, ser herói. E ainda ser criança, ser adolescente, descobrir como se convida a garota que ele achou bonita para ir ao baile. A vida de Harry não é fácil.

Tem também o Ronnie. Ronnie não é um herói ao contrário do Harry. Ronnie é o melhor amigo. É aquele que sempre estará lá, mesmo que não queira. Melhores amigos, ninguém escolhe. Eles aparecem e assumem seu posto. Ronnie é o Jimmy Olsen do Superman Harry Potter. Ele guarda os segredos de seu amigo-herói, garante a retaguarda, é a segurança, mesmo sendo um adolescente quase assustado, inseguro, careteiro. Segurança nem sempre se define com alguém que bate quando o inimigo se aproxima. Ronnie é porto. Acolhedor. O Harry precisa dele porque Ronnie é praticamente a família dele. E Ronnie, além dessa cansativa função de melhor amigo, é também um adolescente. Ele também precisa ter coragem para chamar uma garota para o baile. Talvez tenha medo de chamar a garota certa. Talvez ainda não saiba muito bem. Ora, é difícil – e muito – ser adolescente.

E tem Hermione. Inteligente, completamente hábil em suas especialidades, espertíssima, quase uma estrategista. Numa história com Supermans e Jimmy Olsens, Hermione não tinha muito o que fazer a não ser ser uma Lois Lane. Forte, decidida, impulsiva, provavelmente sagitariana, briguenta, resmungona, ela nunca se dá por vencida. E se Ronnie é o abraço de Harry, Hermione é seu escudo. É aquela que sempre estará lá para ajudar a resolver a questão. Um fardo grande para uma garotinha. Aliás, para uma jovem. Hermione, além de segunda melhor amiga, também está crescendo, também quer que o menino certo (embora ela mesma não esteja tão certa assim) a convide para o baile. Ela quer estar linda porque as adolescentes sempre querem muito estar lindas (quando não se vestem de preto e ouvem Black Sabbath – tá, estas também querem). Hermione está crescendo também. Ela pode enfeitiçar ogros e retirar encantos, mas imagine como deve ser complicado demonstrar interesse por um garoto da sua idade!

 

O Prisioneiro de Azkaban, o filme, era sobre Harry, Ronnie e Hermione. Três amigos aprendendo a lidar com o mundo, começando a entender o que é deixar de ser criança. O filme de Alfonso Cuarón mudava completamente o foco da trama, que deixava de ser a história de três garotos numa escola de magia e passava a ser a história de três garotos. Quase não havia cenas sem um dos três protagonistas. Na verdade, quase não havia cenas com qualquer fala importante que não viesse de um dos três. Como não havia um torneiozinho para garantir a glória eterna ou um daqueles esquemáticos “trabalhos de Hércules” que resolviam a trama nos primeiros livros/filmes, o foco pode ser voltado para as personagens. Cuarón pôde desenvolvê-las, explicá-las melhor aos espectadores.

Em O Cálice de Fogo, Mike Newell devolve o caráter mais amplo à série, inclusive porque a história pedia isso. É obviamente delicioso – mais uma vez – acompanhar Harry nos mirabolantes desafios mágicos do torneio que virou a espinha dorsal do longa. Há inclusive uma cena maravilhosa, debaixo d’água, quando descobrimos quais os tesouros que Harry tem que recuperar numa das provas. Mas com tanta historinha para contar e um vilão para fazer ressurgir – por sinal, Ralph Fiennes, assustador, ótima escolha – os protagonistas não ganharam um tratamento mais dedicado, o que era o maior trunfo do filme anterior. Sim, há todo o dilema do baile, que nos coloca a par dos pontos fracos de nossos heróis e que é um capítulo à parte no seu crescimento, mas parece pouco perto do que foi apresentado antes.

Eu, provavelmente, nunca vou deixar de gostar de um filme ou de um livro de Harry Potter. Não que eu seja um grande fã, que eu tenha aquele vício de comprar e ler tudo relacionado à personagem. Não. Provavelmente eu nunca vou deixar de gostar de um filme ou de um livro de Harry Potter porque ele conversa comigo. Talvez minha infância seja mal resolvida – geralmente acham isso de quem coleciona bonecos de super-heróis – mas eu, nunca avaliação bem pessoal e, por isso mesmo, parcial acredito que o material é muito bom, as personagens são muito reais, as situações são de verdade. E acompanhar as histórias de três pessoas crescendo, virando adultas, descobrindo como devem reagir ao que a vida traz, é uma coisa verdadeiramente muito prazerosa para mim. Ver Neville Longbottom perder o medo e aparecer acompanhado no baile foi muito importante para mim. Eu fiquei orgulhoso.

Harry Potter e o Cálice de Fogo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Harry Potter and the Goblet of Fire, Mike Newell, 2005]

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Flores Partidas

Pé na estrada e alguma melancolia

O status quo, quebrado por uma carta. A vida ganha nova dimensão, novo prisma, novas possibilidades. Pé na estrada numa busca cujo objetivo pode ser justamente a busca em si, o movimento, a consciência da imobilidade de até então. A solidão de Don Johnston sempre esteve lá. Faltava só alguém dizer. E alguém disse. É então que ele percebe que tem a chance de continuar, de perpetuar, algo assim meio orgânico (inclusive mais orgânico que romântico). A busca pelo futuro se dá no passado ou que no ficou dele. Jarmusch não tinha outra maneira se não abraçar a melancolia, com a habilidade de não transformá-la em prisão.

Curiosamente, Flores Partidas tem um ponto de partida muito próximo ao do novo filme de outro diretor, Wim Wenders, o belo (e injustamente massacrado por alguns) Estrela Solitária. A busca por um filho desconhecido toma, em cada filme, rumos diferentes, mas cheios de semelhanças. Nos dois filmes, importa menos o encontro com o filho e mais o terremoto que isso provoca no protagonista, o quanto ele passa a questionar sua relevância. Nesse aspecto, Jarmusch é mais feliz do que Wenders porque, se Sam Shepard tenta transitar entre o sóbrio e o clown, Bill Murray não apenas faz isso, mas mora nesse intervalo.

A redescoberta de Murray no fim dos anos 90 foi uma das mais belas do cinema recente. É um ator circular, raramente sai da forma que vemos em seus últimos filmes, mas sempre consegue delicadeza. Aqui, repete trejeitos e fórmulas, amplificando sua releitura de Chaplin, mas concede tanta graciosidade a sua personagem que é impossível não se apaixonar por Don Johnston. As piadinhas que enfeitam toda a narrativa só são possíveis porque é ele que está em cena. E só existem em função dele. Murray é a tradução perfeita do que pretende Jarmusch. É o palhaço que se revela melancólico. Aquele que implode para não perder o sorriso. E que, quando tenta explodir, numa das cenas mais lindas e tristes do ano, dá de cara com o fato de que o mundo nem sempre permite ser amado.

Flores Partidas
Broken Flowers, Estados Unidos/França, 2005.
Direção e Roteiro: Jim Jarmusch.
Elenco: Bill Murray, Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange, Tilda Swinton, Julie Delpy, Jeffrey Wright, Mark Webber, Chris Bauer, Alexis Dziena, Larry Fessenden, Suzanne Hevner, Pell James, Christopher McDonald, Chloë Sevigny, Heather Simms.
Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Jay Rabinowitz. Direção de Arte: Mark Friedberg. Música: Mulatu Astatke. Figurinos: John A. Dunn. Produção: Jon Kilik, Jim Jarmusch, Jean Labadie e Stacey E. Smith. Site Oficial: Flores Partidas.Duração: 105 min.

rodapé: a única coisa boa do meu fim-de-semana de plantão foi dar umas espiadas em Simplesmente Amor, de Richard Curtis, exibido no Telecine. O filme é maravilhoso mesmo, sem vergonha de seus clichês (e ele dobra muitos deles), com um elenco que acredita muito no que está fazendo e algumas cenas lindas de tão bobas, de tão possíveis.

nas picapes: God Only Knows, Beach Boys.

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Liga dos Blogues

Novos membros para a Liga dos Blogues Cinematográficos. Candidatos, aqui.

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Flores Partidas

O status quo, quebrado por uma carta. A vida ganha nova dimensão, novo prisma, novas possibilidades. Pé na estrada numa busca cujo objetivo pode ser justamente a busca em si, o movimento, a consciência da imobilidade de até então. A solidão de Don Johnston sempre esteve lá. Faltava só alguém dizer. E alguém disse. É então que ele percebe que tem a chance de continuar, de perpetuar, algo assim meio orgânico (inclusive mais orgânico que romântico). A busca pelo futuro se dá no passado ou que no ficou dele. Jarmusch não tinha outra maneira se não abraçar a melancolia, com a habilidade de não transformá-la em prisão.

Curiosamente, Flores Partidas tem um ponto de partida muito próximo ao do novo filme de outro diretor, Wim Wenders, o belo (e injustamente massacrado por alguns) Estrela Solitária. A busca por um filho desconhecido toma, em cada filme, rumos diferentes, mas cheios de semelhanças. Nos dois filmes, importa menos o encontro com o filho e mais o terremoto que isso provoca no protagonista, o quanto ele passa a questionar sua relevância. Nesse aspecto, Jarmusch é mais feliz do que Wenders porque, se Sam Shepard tenta transitar entre o sóbrio e o clown, Bill Murray não apenas faz isso, mas mora nesse intervalo.

A redescoberta de Murray no fim dos anos 90 foi uma das mais belas do cinema recente. É um ator circular, raramente sai da forma que vemos em seus últimos filmes, mas sempre consegue delicadeza. Aqui, repete trejeitos e fórmulas, amplificando sua releitura de Chaplin, mas concede tanta graciosidade a sua personagem que é impossível não se apaixonar por Don Johnston. As piadinhas que enfeitam toda a narrativa só são possíveis porque é ele que está em cena. E só existem em função dele. Murray é a tradução perfeita do que pretende Jarmusch. É o palhaço que se revela melancólico. Aquele que implode para não perder o sorriso. E que, quando tenta explodir, numa das cenas mais lindas e tristes do ano, dá de cara com o fato de que o mundo nem sempre permite ser amado.

Flores Partidas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
Broken Flowers, Estados Unidos/França, 2005.
Direção e Roteiro: Jim Jarmusch.

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Cinema, Aspirina e Urubus

A história de um encontro

Quando o Nordeste chega ao cinema brasileiro, você já sabe bem o que vai encontrar: cangaceiros, miséria, fome e alguns elementos e personagens clássicos do folclore e da cultura da região, que deixam tudo mais palatável. Nordeste é sinônimo de sertão, de denúncia, de engajamento social. É bem triste ver como a pobreza da região se transforma numa absoluta pobreza temática. O sertão e suas mazelas são um buraco negro do qual ninguém é capaz de evitar. Nos últimos tempos, alguns cineastas nordestinos, que poucas vezes têm boas chances de fazer um longa-metragem e de ganhar uma boa distribuição no país, tentam mudar essa história.

Cláudio Assis, com toda sua arrogância primária, já tinha mudado o foco da denúncia ao se enveredar pela miséria da metrópole em Amarelo Manga (2003). Neste ano, Sérgio Machado deixou o denuncismo de lado para apostar num cinema urbano, factual, bem longe dos estereótipos caros ao homem nordestino no belo Cidade Baixa. No ainda inédito Árido Movie, Lírio Ferreira inverte o caminho do nordestino: sai da cidade grande para o sertão de hoje: sexy, marginal e maconheiro. Todos, de uma forma ou outra, negam uma espécie de tradição rústica do cinema nordestino. É – e não é – o caso do mais bem-sucedido deles.

A primeira vez que eu ouvi o título Cinema, Aspirina e Urubus, confesso que fiquei bastante desconfiado, mas bastam os primeiros dez minutos para saber que o longa de estréia do pernambucano Marcelo Gomes é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos. Primeiro, ao contrário de seus colegas, Marcelo não nega o sertão humilde, atrasado, exótico aos olhos de fora. A diferença é que o sertão não é personagem aqui. É cenário. Marcelo Gomes explora as particularidades com graça invejável, sem nunca espetacularizá-las, usando-as apenas como suporte para contar sua história. E fazia tempo que o cinema – brasileiro – não contava tão bem e de maneira tão simples uma história.

O encontro entre o alemão que fugiu da guerra para vender aspirinas no meio do Brasil com o nordestino que sonha em escapar da seca é um filme de personagens, que se baseia quase que exclusivamente no seu texto. Um filme de amigos, de parceiros, que tem o mérito – extraordinário no cinema brasileiro – de nunca querer chamar atenção para si mesmo. É a delicadeza do roteiro e as belas performances dos dois protagonistas que transformar Cinema, Aspirina e Urubus na pérola que ele é. O destaque é, obviamente, João Miguel, que dribla com majestade as armadilhas de uma personagem muito fácil de se gostar, o nordestino simpático e engraçadinho. Mas sua atuação só ganha a dimenssão que tem pela química acertada com Peter Ketnath.

Mas a direção delicada, o texto sutil e vigoroso e as interpretações cativantes ganham reforço de uma bela embalagem técnica, desde a fotografia assumidamente estourada à cuidadosa direção de arte, passando pela bela trilha. Tudo discreto e eficiente; moldura para um punhado de cenas bonitas: a guerra entre os protagonistas, a carona para a jovem expulsa de casa, o monólogo do nordestino solitário. Seqüências tão genuínas, tão despojadas que pedem por identificação. O maior mérito de Cinema, Aspirina e Urbubus talvez seja o quanto ele parece de verdade. Um filme bom todo.

Cinema, Aspirina e Urubus
Cinema, Aspirina e Urubus, Brasil, 2005.
Direção: Marcelo Gomes.
Roteiro: Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz, inspirados em relato de viagem de Ranulpho Gomes.
Elenco: João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes, Oswaldo Mil, Irandhir, Fabiana Pirro, Verônica Cavalcanti, Daniela Câmera, Paula Francinete, Sandro Guerra, Madalena Accioly, Arílson Lopes, José Leite, Zezita Matos, Francisco Figueiredo, Mano Fialho, Lúcia do Acordeão, Jorge Clésio, Nanego Lira.
Fotografia: Mauro Pinheiro. Montagem: Karen Harley. Direção de Arte: Dedete Parente Costa. Música: Tomás Alves de Souza.
Figurinos: Beto Normal. Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr.. Site Oficial: Cinema, Aspirina e Urubus.Duração: 90 min.

nas picapes: Horizonte Distante, Los Hermanos.

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Uma Vida Iluminada

Em busca da origem triste e colorida

Acredito que muita gente deva se interessar pela proposta leve do filme de estréia de Liev Schreiber, baseado num livro que vendeu pra caramba, mas eu realmente não consegui ter qualquer grau de envolvimento. Primeiro, me parece muito esquemático todo o trabalho visual do longa, dono da fotografia com as cores mais vivas dos últimos tempos, e a direção de arte que é fundamental para ressaltar a esquisitice do protagonista e dos que cruzam seu caminho. Protagonista que até é bem defendido por Elijah Wood, mas que é tão interessante quanto a mania do seu tio de colecionar selos africanos ou soldadinhos de plástico… Errr… bem, quem sou eu para questionar as pequenas (ou grandes) obsessões do outros?

Schreiber – e antes dele, Jonathan Safran Foer – tenta justificar a excentricidade de sua personagem, o próprio Froer, por sua origem. Jonathan, o protagonista, volta para a velha e boa Ucrânia para tentar descobrir uma mulher no passado de seu avô, e lá entra em contato com um povo e um país tão excêntricos quanto ele mesmo. Ou seja, descobre suas raízes, mergulha na sua verdadeira essência. Que lindo, né? Não, isso não é bom. As particularidades sempre surgem travestidas de exóticas e servem para conquistar o carinho do público pelo diferente, pelo primário, por aquele sentimento de “olha que fofinhos que são os primitivos”. Um olhar que muitas vezes é aplicado ao Brasil.

Por sinal, Uma Vida Iluminada só não pode ser chamado de carnavalesco porque a idéia é sensibilizar, da trilha sonora tristonha (e étnica) à composição de muitas cenas. É um filme feito para que as mocinhas encham os olhos de lágrimas, para que os velhinhos lembrem de seus entes queridos, para que todos aqueles que se sentem diferentes, excluídos, minorias se sintam identificados. Na verdade, eu não acho que Liev Schreiber, que é um bom ator, tenha premeditado esse filme como o plano malvado que ele se tornou. Eu acho que ele caiu no conto do vigário. Ele também chorou ao ler o livro, lembrou de seus entes queridos e se sentiu identificado. Ele não fez por mal. Uma Vida Iluminada não é ruim e nem é perverso, é apenas esquecível.

Uma Vida Iluminada
Everything is Illuminated, Estados Unidos, 2005.
Direção: Liev Schreiber.
Roteiro: Liev Schreiber, baseado em livro de Jonathan Safran Foer.
Elenco: Elijah Wood, Eugene Hutz, Boris Leskin.
Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Andrew Marcus e Craig McKay. Direção de Arte: Mark Geraghty. Música: Paul Cantelon. Figurinos: Michael Clancy. Produção: Peter Saraf e Marc Turteltaub. Site Oficial: Uma Vida Iluminada.Duração: 90 min.

nas picapes: Let’s Get Lost, Elliott Smith.

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Cinema, Aspirina e Urubus

Cinema, Aspirina & Urubus

Quando o Nordeste chega ao cinema brasileiro, você já sabe bem o que vai encontrar: cangaceiros, miséria, fome e alguns elementos e personagens clássicos do folclore e da cultura da região, que deixam tudo mais palatável. Nordeste é sinônimo de sertão, de denúncia, de engajamento social. É bem triste ver como a pobreza da região se transforma numa absoluta pobreza temática. O sertão e suas mazelas são um buraco negro do qual ninguém é capaz de evitar. Nos últimos tempos, alguns cineastas nordestinos, que poucas vezes têm boas chances de fazer um longa-metragem e de ganhar uma boa distribuição no país, tentam mudar essa história.

Cláudio Assis, com toda sua arrogância primária, já tinha mudado o foco da denúncia ao se enveredar pela miséria da metrópole em Amarelo Manga (2003). Neste ano, Sérgio Machado deixou o denuncismo de lado para apostar num cinema urbano, factual, bem longe dos estereótipos caros ao homem nordestino no belo Cidade Baixa. No ainda inédito Árido Movie, Lírio Ferreira inverte o caminho do nordestino: sai da cidade grande para o sertão de hoje: sexy, marginal e maconheiro. Todos, de uma forma ou outra, negam uma espécie de tradição rústica do cinema nordestino. É – e não é – o caso do mais bem-sucedido deles.

A primeira vez que eu ouvi o título Cinema, Aspirina e Urubus, confesso que fiquei bastante desconfiado, mas bastam os primeiros dez minutos para saber que o longa de estréia do pernambucano Marcelo Gomes é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos. Primeiro, ao contrário de seus colegas, Marcelo não nega o sertão humilde, atrasado, exótico aos olhos de fora. A diferença é que o sertão não é personagem aqui. É cenário. Marcelo Gomes explora as particularidades com graça invejável, sem nunca espetacularizá-las, usando-as apenas como suporte para contar sua história. E fazia tempo que o cinema – brasileiro – não contava tão bem e de maneira tão simples uma história.

O encontro entre o alemão que fugiu da guerra para vender aspirinas no meio do Brasil com o nordestino que sonha em escapar da seca é um filme de personagens, que se baseia quase que exclusivamente no seu texto. Um filme de amigos, de parceiros, que tem o mérito – extraordinário no cinema brasileiro – de nunca querer chamar atenção para si mesmo. É a delicadeza do roteiro e as belas performances dos dois protagonistas que transformar Cinema, Aspirina e Urubus na pérola que ele é. O destaque é, obviamente, João Miguel, que dribla com majestade as armadilhas de uma personagem muito fácil de se gostar, o nordestino simpático e engraçadinho. Mas sua atuação só ganha a dimenssão que tem pela química acertada com Peter Ketnath.

Mas a direção delicada, o texto sutil e vigoroso e as interpretações cativantes ganham reforço de uma bela embalagem técnica, desde a fotografia assumidamente estourada à cuidadosa direção de arte, passando pela bela trilha. Tudo discreto e eficiente; moldura para um punhado de cenas bonitas: a guerra entre os protagonistas, a carona para a jovem expulsa de casa, o monólogo do nordestino solitário. Seqüências tão genuínas, tão despojadas que pedem por identificação. O maior mérito de Cinema, Aspirina e Urbubus talvez seja o quanto ele parece de verdade. Um filme bom todo.

Cinema, Aspirina e Urubus EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Cinema, Aspirina e Urubus, Marcelo Gomes, 2005]

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Uma Vida Iluminada

Acredito que muita gente deva se interessar pela proposta leve do filme de estréia de Liev Schreiber, baseado num livro que vendeu pra caramba, mas eu realmente não consegui ter qualquer grau de envolvimento. Primeiro, me parece muito esquemático todo o trabalho visual do longa, dono da fotografia com as cores mais vivas dos últimos tempos, e a direção de arte que é fundamental para ressaltar a esquisitice do protagonista e dos que cruzam seu caminho. Protagonista que até é bem defendido por Elijah Wood, mas que é tão interessante quanto a mania do seu tio de colecionar selos africanos ou soldadinhos de plástico… Errr… bem, quem sou eu para questionar as pequenas (ou grandes) obsessões do outros?

Schreiber – e antes dele, Jonathan Safran Foer – tenta justificar a excentricidade de sua personagem, o próprio Froer, por sua origem. Jonathan, o protagonista, volta para a velha e boa Ucrânia para tentar descobrir uma mulher no passado de seu avô, e lá entra em contato com um povo e um país tão excêntricos quanto ele mesmo. Ou seja, descobre suas raízes, mergulha na sua “verdadeira essência”. As particularidades sempre surgem travestidas de exóticas e servem para conquistar o carinho do público pelo diferente, pelo primário, por aquele sentimento de “olha que fofinhos que são os primitivos”. Um olhar que muitas vezes é aplicado ao Brasil.

Por sinal, Uma Vida Iluminada só não pode ser chamado de carnavalesco porque a idéia é sensibilizar, da trilha sonora tristonha (e étnica) à composição de muitas cenas. É um filme feito para que as mocinhas encham os olhos de lágrimas, para que os velhinhos lembrem de seus entes queridos, para que todos aqueles que se sentem diferentes, excluídos, minorias se sintam identificados. Na verdade, eu não acho que Liev Schreiber, que é um bom ator, tenha premeditado esse filme como o plano malvado que ele se tornou. Eu acho que ele caiu no conto do vigário. Ele também chorou ao ler o livro, lembrou de seus entes queridos e se sentiu identificado. Ele não fez por mal. Uma Vida Iluminada não é ruim e nem é perverso, é apenas esquecível.

Uma Vida Iluminada EstrelinhaEstrelinha
[Everything is Illuminated, Liev Schreiber, 2005]

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Curtas

Curtas

Dona Flor e Seus Dois Maridos resiste bem ao tempo. É um bom filme. Bruno Barreto possivelmente nunca conseguiu um resultado tão interessante, embora nunca excepcional exceto, talvez, na cor . Interessante como vê-lo agora, que o cenário das ruas do Pelourinho me é familiar, faz dele um filme mais caseiro, mais gostoso. O Intercine Brasil, das segundas-feiras, é uma realmente uma bela pedida.

Locaram Madagascar aqui em casa e eu revi a primeira parte, antes do grupo sair de Nova York. O filme, num balanço geral, é fraco e perde absurdamente o timing depois disso, mas há momentos hilários e belamente construídos. A seqüência na estação de trens é muito, muito boa e as discussões me parecem bem interessante (origem, natureza, etc.).

Como sempre, eu peco pela impulsividade. Minha lista de melhores filmes da Mostra de Cinema de São Paulo trazia O Mundo, de Jia Zhang-ke, no topo, mas havia dois filmes melhores do que ele na seleção deste ano. Marcas da Violência cresce a cada momento na minha memória e tem meu voto certo para o Alfred entre os melhores filmes do ano. E Reis e Rainha é a obra-prima completa.

Acabei de descobrir que há duas músicas inéditas de Elliott Smith em Impulsividade, de Mike Mills, que estréia nas próximas semanas. Vi o filme na Mostra e gostei muito, mas tenho certeza de que muita gente vai cair de pau. Ele tem o clima meio “perdido na chuva” de Hora de Voltar, mas com o timing e a melodia certas. E boa parte disso se deve à música, bela, triste, melancólica.

Favela Rising, que conta a história do Afroreggae, é pré-candidato ao Oscar de documentário. Taí o tipo de filme que não me interessa. Passou no Rio e em São Paulo, nos festivais, mas não me despertou o mínimo interesse. Essa história de filme que dá exemplo me enche o saco, embora eu não queira aqui questionar nada das atividades do grupo ou da existência do filme. Só não me interessa.

2 Filhos de Francisco aparece em várias listas de sites de apostas entre os prováveis indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Bombadíssimo. Pior que tem cara de Oscar mesmo. Eu acho o filme apenas bem feitinho. Neste ano, o cinema brasileiro fez pelo menos quatro filmes muito melhores: Cabra-Cega, Casa de Areia, Cidade Baixa e Cinema, Aspirina e Urubus. Todos com “c”, vejam só.

Salvador vai receber, mais uma vez, o Festival Varilux de Cinema Francês. Vai ser a partir do dia 25, no Clube Bahiano de Tênis. Entre os filmes, o novo do Chabrol, A Dama de Honra, o clássico de Jacques Demy, Pele de Asno, e Agentes Secretos, de… bem, o diretor pouco importa quando a estrela é Monica Bellucci.

Não sei não, mas King Kong me parece genial…

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