Monthly Archives: agosto 2005

Das casas amaldiçoadas e do que elas escondem

Terror tem que assustar. Isso é mérito máximo para filmes do gênero, mas num ano cheio de tentativas, o número de sustos foi insatisfatório. Na falta deles, durante boa parte da projeção de Chave Mestra, fiquei me questionando sobre talento. Kate Hudson, por exemplo, depois de sua encantadora performance como a Penny Lane de Quase Famosos (Cameron Crowe, 2000), onde foi elogiadíssima, quase ganhou um Oscar e tudo mais, nunca mais fez nada que justificasse tomá-la por grande atriz, ou pior, por boa atriz. Gena Rowlands, pelo contrário, mesmo renegada a papel de vilã em filme de terror, nunca aparece menos que muito eficiente. No filme de Iain Softley, é ela quem dá alguma intenção à história.

Em meio a um gênero quase que totalmente dominado por material escrito no Japão com crianças cabeludas que vêm e vão, é um certo alento assistir a um filme que foge deste gueto, mesmo assinado pelo roteirista que fez a releitura americana para Ringu (Hideo Nakata, 1999). O sobrenatural é quem domina as coisas por aqui mais uma vez: uma espécie de magia negra praticada no sul dos Estados Unidos e sua estranha relação com uma propriedade onde mora um casal de velhos. Softley, em primeira experiência no gênero, filma tudo de uma maneira muito asséptica, apesar da bela direção de arte. A “casa amaldiçoada” nunca parece muito assustadora, embora a elegância da performance de Gena Rowlands tente contribuir para isso. O melhor é o final, que surpreende.

Por falar em casa maligna, vamos a uma das mais famosas. A refilmagem de A Cidade do Horror, clássico do cinema sobrenatural de 1979, tem as assinatura de Michael Bay na produção, o que nunca é um bom sinal, mas, ao contrário do remake gratuito de O Massacre da Serra Elétrica (Marcus Nispel, 2003), também produzido por ele, é um filme surpreendentemente muito bom, dono de alguns dos melhores sustos do ano. O diretor Andrew Douglas se aproveita da tática das aparições-relâmpago para apresentar seus fantasmas, mas não tem vergonha de mostrá-los, deixando-os ao alcance dos olhos o suficiente para garantir os calafrios. O roteiro ainda explora os temores primários, experiências verdadeiramente apavorantes, sobretudo para as crianças. A cena da ida do pequeno Michael ao banheiro é especial.

Lembro pouquíssimo do filme original, visto numa sessão da antiga TV Manchete, mas sei que levei muitos sustos, mérito que se repete aqui. Mas, além de ser assustador, Horror em Amityville elabora um curioso, ainda que insatisfatório, ensaio sobre uma família que tenta estar inteira, completa. Isso é especialmente notado no papel de Ryan Reynolds, que ganha as vezes de vilão involuntário, antes mesmo de conquistar seu posto de herói na sua própria casa. E, em seguida, na cansativa operação de Melissa George para afastar todos os seus do “mal”. A dicotomia de que quem deveria proteger se transformou em inimigo faz o filme pontuar.

Chave Mestra
The Skeleton Key, Estados Unidos, 2005.
Direção: Iain Softley.
Roteiro: Ehren Kruger.
Elenco: Kate Hudson, Gena Rowlands, John Hurt, Peter Sarsgaard, Joy Bryant, Maxine Barnett, Fahnlohnee R. Harris, Thomas Uskali, Forrest Landis, Jamie Lee Redmon, Ronald McCall, Jeryl Prescott, Trula M. Marcus, Tonya Staten, Deneen Tyler, Marion Zinser.
Fotografia: Daniel Mindel. Montagem: Joe Hutshing. Direção de Arte: John Beard. Música: Edward Shearmur. Figurinos: Louise Frogley. Produção: Daniel Bobker, Michael Shamberg, Stacey Sher e Iain Softley. Site Oficial: Chave Mestra. Duração: 104 min.

Horror em Amityville
The Amityville Horror, Estados Unidos, 2005.
Direção: Andrew Douglas.
Roteiro: Scott Kosar, baseado no roteiro de Sandor Stern para A Cidade do Horror (1979), e no livro de Jay Anson.
Elenco: Ryan Reynolds, Melissa George, Jesse James, Jimmy Bennett, Chloe Moretz, Philip Baker Hall, Rachel Nichols, Isabel Conner, Brendan Donaldson, Rich Komenick, Annabel Armour, Danny McCarthy, José Taitano.
Fotografia: Peter Lyons Collister. Montagem: Roger Barton e Christian Wagner. Direção de Arte: Jennifer Williams. Música: Steve Jablonsky. Figurinos: David C. Robinson. Produção: Michael Bay, Andrew Form e Bradley Fuller. Site Oficial: Horror em Amityville. Duração: 90 min.

nas picapes: As Ugly as I Seem, The White Stripes.

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Parece, mas não é

Parece um filme ousado, mas não é tão ousado assim (ou ousadia é mudar o material do filme, fazer filme de plástico?).

Parece um filme muito cheio de referências com sua trilha ora eletrônica, ora retrô (toca até a melhor música do Duran Duran, Ordinary World), mas não é tão
cheio de referências assim (ou elas seriam meio óbvias?).

Parece um filme muito moderno com seus filtros publicitários, sua câmera em movimento, sua montagem rápida, mas não é tão moderno assim (ou você ainda cai nessa?).

Parece um filme inteligente com seus diálogos cheios de brincadeiras, com seu roteiro intrincado, daqueles em que se tem que fazer muito esforço para não se perder nada, mas não é tão inteligente assim (ou reviravoltas e violência estilizada já são provas de vida inteligente? Em Marte, talvez).

Parece com Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Guy Ritchie, 1999), do qual o diretor deste foi produtor, e que já perdeu seu frescor. Parece mesmo. Seis anos depois.

Nem Tudo é o que Parece parece original, mas não tem nada de original.

Nem Tudo é o que Parece
Layer Cake, Grã-Bretanha, 2005.
Direção: Matthew Vaughn.
Roteiro: J.J. Connolly, baseado ems eu livro homônimo.
Elenco: Daniel Craig, Tom Hardy, Jamie Foreman, Sally Hawkins, Burn Gorman, George Harris, Tamer Hassan, Colm Meaney, Marcel Iures, Francis Magee, Dimitri Andreas, Kenneth Cranham, Garry Tubbs, Nathalie Lunghi, Marvin Benoit, Rab Affleck, Sienna Miller, Jason Flemyng, Michael Gambon.
Fotografia: Ben Davis. Montagem: Jon Harris. Direção de Arte: Kave Quinn. Música: Ilan Eshkeri e Lisa Gerrard. Figurinos: Stephanie Collie e Anna Palmgren. Produção: Adam Bohling, David Reid e Matthew Vaughn. Site Oficial: Nem Tudo é o que Parece. Duração: 105 min.

nas picapes: This Magic Moment, Lou Reed.

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“Perdão, eu não fiz nada”

A linhagem da qual Hotel Ruanda faz parte geralmente produz filmes muito chatos, dispostos a “passar a limpo” a história. Há uma meia dúzia de longas sobre o apartheid da África do Sul, por exemplo, que enchem mais o saco do que são necessariamente interessantes enquanto filmes. O último trabalho de Terry George segue essa proposta, denunciando a omissão do mundo frente ao massacre de um milhão de pessoas em Ruanda, no início dos anos 90, mas, mesmo com essa contaminação de filmes-expiação não pode ser chamado de mau cinema. George consegue imprimir um ritmo eficiente de thriller ao filme, que é tenso durante boa parte da projeção, embora nunca consiga o impacto que pretende. Don Cheadle, grande ator que deveria ter concorrido ao Oscar desde O Diabo Veste Azul (Carl Franklin, 1996), segura bem o papel, apesar do bom mocismo às vezes exagerado de sua personagem. Não vou nem entrar no mérito da importância histórica ou social do filme, nem no burocrático, que muitas vezes parece querer tomar conta da história. Hotel Ruanda funciona quando se resume a contar uma história (ou uma versão dela), mas se embola feio quando se mostra como pedido de desculpas.

Hotel Ruanda
Hotel Rwanda, Estados Unidos/Itália/África do Sul, 2004.
Direção: Terry George.
Roteiro: Keir Pearson e Terry George.
Elenco: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Desmond Dube, Hakeem Kae-Kazim, Tony Kgoroge, Neil McCarthy, Nick Nolte, Fana Mokoena, Lebo Mashile, Antonio David Lyons, Leleti Khumalo, Kgomotso Seitshohlo, Lerato Mokgotho, Mosa Kaiser, Mathabo Pieterson, Ofentse Modiselle, David O’Hara, Joaquin Phoenix, Lennox Mathabathe, Mothusi Magano, Jean Reno, Rosie Motene.
Fotografia: Vincent G. Cox e Robert Fraisse. Montagem: Naomi Geraghty. Direção de Arte: Johnny Breedt e Tony Burrough. Música: Rupert Gregson-Williams, Andrea Guerra e Martin Russell. Figurinos: Ruy Filipe. Produção: Terry George e A. Kitman Ho. Site Oficial: Hotel Ruanda. Duração: 121 min.

nas picapes: Million Voices, Wycleaf Jean.

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Nem Tudo é o que Parece

Parece, mas não é.

Parece um filme ousado, mas não é tão ousado assim (ou ousadia é mudar o material do filme, fazer filme de plástico?).

Parece um filme muito cheio de referências com sua trilha ora eletrônica, ora retrô (toca até a melhor música do Duran Duran, Ordinary World), mas não é tão cheio de referências assim (ou elas seriam meio óbvias?).

Parece um filme muito moderno com seus filtros publicitários, sua câmera em movimento, sua montagem rápida, mas não é tão moderno assim (ou você ainda cai nessa?).

Parece um filme inteligente com seus diálogos cheios de brincadeiras, com seu roteiro intrincado, daqueles em que se tem que fazer muito esforço para não se perder nada, mas não é tão inteligente assim (ou reviravoltas e violência estilizada já são provas de vida inteligente? Em Marte, talvez).

Parece com Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, do Guy Ritchie, do qual o diretor deste foi produtor, e que já perdeu seu frescor. Parece mesmo. Seis anos depois.

Nem Tudo é o que Parece parece original, mas não tem nada de original.

Nem Tudo é o que Parece EstrelinhaEstrelinha
[Layer Cake, Matthew Vaughn, 2005]

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2 Filhos de Francisco

2 Filhos de Francisco

A pequena história de uma família, um pequeno retrato do Brasil. A cinebiografia da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano é exatamente isso: um filme pequeno. Isso não necessariamente ruim já que, na maioria das vezes, as histórias pequenas são mais interessantes do que as histórias grandes. Mas a pequena história dos irmãos resolveu virar filme numa sala de um executivo (ou algo parecido com isso) da indústria fonográfica nacional, que rende alguns milhões de reais para a dupla há uns bons anos. Então, a dimensão da história já não é mais tão pequena assim.

Ora, se Zezé di Camargo e Luciano venderam vinte milhões de cópias (e o filme adora falar em milhões), o que credencia a dupla um quê de imensamente popular, há muitos outros milhões de brasileiros que não compraram dos discos dos irmãos goianos. Muitos porque provavelmente não têm condição de ficar comprando discos. Mas muitos outros porque simplesmente não gostam muito daquela música, que é ruim mesmo. Então, o filme tinha muita gente a conquistar. O caminho foi apostar na identificação.

2 Filhos de Francisco é exatamente o que dizem: a luta de um pai sonhador em dar um futuro para seus filhos. Mas o diretor Breno Silveira, que estréia com disposição na direção de um longa-metragem, trabalhou então com um modelo de trajetória bem sucedida, de modelo a seguir. Primeiro ponto. O segundo é embalar com propriedade este modelo (fotografia bem cuidada, direção de arte bonita, som de qualidade, música – sertaneja – de raiz para não ferir ouvidos mais eruditos). E mais: um elenco bom o suficiente para dar consistência ao roteiro, que, mesmo com muito apreço a um certo maniqueísmo, é, sim, bem escrito e, sim, consegue momentos emocionantes sem necessariamente recorrer a sentimentalismo barato.

O problema é que é só isso: 2 Filhos de Francisco é um filme correto e só. Aliás, um filme bonzinho. Por sinal, o grande mérito é justamente não ser ruim, o que todo mundo esperava que acontecesse por causa da contestada qualidade da obra de seus retratados. Mas não ser ruim tem tanto mérito assim? Porque, a certo momento, aquela história comprida demais, todo mundo é bonzinho demais, o filme começa a ficar pasteurizado demais, produto demais. Ser produto não é ruim, ainda mais quando isso faz parte da essência do objetivo do filme: vender-se. Os Bradescos e afins da vida não me incomodaram tanto quanto o final, onde os idealizadores-retratados não resistiram a uma “participação especial”. Onde a auto-louvação surge redentora, mesmo que pareça sincera, justificada e merecida. Onde o esforço para dar mérito ao filme diminui. Onde o longa dá sua reviravolta: revela que foi feito para fãs. Onde o filme perdeu uma estrela.

2 Filhos de Francisco EstrelinhaEstrelinha½
[2 Filhos de Francisco - A História de Zezé di Camargo e Luciano, Breno Silveira, 2005]

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A Promessa

No Panorama do Cinema Mundial, que terminou na semana passada, em Salvador, aconteceu uma retrospectiva da obra dos irmãos Dardenne. Bem completa, por sinal. Os horários não foram muito dóceis comigo então só pude assistir a dois dos trabalhos da dupla; dois dos mais famosos. Um foi Rosetta. O outro, A Promessa, de 1996, mostra a temática dos irmãos ainda engatinhando. No filme, o embate com o inevitável se dá quando o jovem resolve se rebelar contra os métodos do pai, com os quais ele nunca concordou muito, mas que nunca haviam o incomodado tanto.

A partir daí, a história sobre imigração ilegal se transforma numa pequena batalha de ideais, onde o homem puro tenta fugir do homem corrupto. Fugir e desfazer os atos do outro. A condução, por vezes, tropeça em algumas fórmulas e na limitação do jovem ator, mas os Dardenne conseguem resolver o filme muito bem, com uma mudança completa de prisma, onde a africana clandestina decide que sua “missão” importa muito mais do que seu futuro. O espectador não vai ver, mas é ali que começa a guerra pela justiça.

A Promessa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[La Promesse, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, 1996]

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Rosetta

Émilie Dunquenne

O cinema dos irmãos Dardenne parece ser o cinema sobre o embate entre o homem e o inevitável. Em O Filho (2002), o inevitável surgia na impossível relação desenhada entre o homem, o habitué Olivier Gourmet, e o garoto. O desfecho daquele filme, mesmo que a história queira nos propor o acaso, parecia cristalizar um certo conformismo com conceitos como “destino”. O que não é, o que não é para ser. Parecia, inclusive – e eu peguei algumas brigas por dizer isso -, uma solução de certa forma vingativa. Um desfecho-punição que não apenas impossibiliza uma relação fadada ao fracasso como surge como alento para a dor do protagonista.

Já Rosetta, filme de 1999, obra mais conhecida dos irmãos, Palma de Ouro em Cannes, é um círculo. A personagem-título é a conformista, por natureza. Sua vida, seu dia-a-dia, seus problemas são tudo o que ela tem. Quando se vê sem eles, Rosetta perde seus parâmetros, seu conforto, é obrigada a transformar sua rotina, seu passo-a-passo. Aos poucos começa a reconstruir sua vida e a adotar novos hábitos, um novo cotidiano. Os Dardenne filmam num esquema de ultra-realismo, onde a câmera que nunca pára funciona muito melhor do que nos filmes do Dogma, mas com uma função completamente diferente: lá ela era reformista, aqui serve para humanizar as personagens.

Os irmãos são meio impiedosos com sua personagem. Rosetta não tem escrúpulos quando o assunto é resgatar o conforto. Impiedosa, faz o que pode para reestabelecer seu posto no mundo. Rosetta quer muito existir, mas não exatamente significar. Tanto que, quando surge a primeira oportunidade de voltar a sua condição inicial, a moça não pensa duas vezes. Rosetta são os Dardenne reiterando sua crença no inevitável, na pessoa que é para o que nasce. Mas nunca o conformismo foi tão bonito, tão triste, tão de verdade. Um filme muito revelador.

Rosetta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Rosetta, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, 1999]

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A Vida Secreta dos Dentistas

Segredos de família

Não que eu seja um especialista no diretor, mas A Vida Secreta dos Dentistas parece ser o melhor filme de Alan Rudolph. Aqui, apesar da invenção narrativa, o tom pedante que se sobressai em outros longas do cineasta é completamente diluído no bom texto e nas boas interpretações de Campbell Scott e Hope Davis, nesta crônica sobre fidelidade e casamento. Ao contrário de outros filmes que chegaram aos cinemas neste ano e versam sobre o mesmo tema, a traição não é o foco da história contada por Rudolph, mas a relação de parceria e dependência entre o homem e a mulher. Fugindo de um esquemático modelo melodramático comum a histórias do tipo, o filme se estrutura num clima entre o nonsense, o melancólico e blasé, onde as personagens revelam suas fragilidades pouco a pouco. O viés psicológico de se aproveitar de elementos do seu dia-a-dia para rearranjar uma ordem realista funciona muito bem, embora a personagem de Denis Leary aparece exageradamente. Campbell Scott tem uma interpretação surpreendente: praticamente segura o filme nas costas já que o papel de Hope Davis, bem também, vai diminuindo a cada momento. O filme mais estranho do ano. Inclusive porque é muito bom.

A Vida Secreta dos Dentistas
The Secret Lives of Dentists, Estados Unidos, 2002.
Direção: Alan Rudolph.
Roteiro: Craig Lucas, a partir da novela The Age of Grief, de Jane Smiley.
Elenco: Campbell Scott, Hope Davis, Denis Leary, Robin Tunney, Peter Samuel, Jon Patrick Walker, Gianna Beleno, Lydia Jordan, Cassidy Hinkle, Adele D’Man.
Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Andy Keir. Direção de Arte: Ted Glass. Música: Gary DeMichele. Figurinos: Amy Westcott. Produção: Campbell Scott e George VanBuskirk. Duração: 104 min.

rodapé: o curta Vinil Verde, de Kléber Mendonça Filho, é ótimo. Simples, muito bem editado, sonorizado e fotografado (embora não exiba nenhuma grande novidade); um pequeno conto de horror para crianças narrado em off num tom absolutamente encantador.

nas picapes: Mandy, Barry Manillow.

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Quanto Vale ou é por Quilo?

O próximo passo do cinema de Sérgio Bianchi talvez seja o da metalinguagem. Um dos intertítulos de Quanto Vale ou é por Quilo? é “A Denúncia como Negócio”. Seria uma extensão natural de seu cinema tão socialmente engajado, tão sarcasticamente questionador se ele mesmo colocasse em cheque tudo o que ele fez até hoje. Mas infelizmente o tempo do verbo ainda é seria porque Bianchi não parece muito disposto a ressaltar os maiores deméritos de sua obra. O novo filme do diretor se leva muito a sério mesmo com tom de farsa que adota o tempo todo para tecer sua crítica ao terceiro setor, em primeiro plano, e à sociedade brasileira, num objetivo mais ambicioso.

Sim, Bianchi não gosta muito do Brasil. Para ele, o país se enveredou por um caminho de inversão de valores do qual ninguém escapa, que está intrinsecamente ligado à cultura brasileira. Desde o tempo em que a história ainda engatinhava na civilização instalada no Brasil, a corrupção e suas conseqüências estão espalhadas por todos os lugares. Bianchi recorre ao Arquivo Nacional para dar densidade a sua denúncia. Como todos os filmes-denúncia que infestam os cinemas hoje em dia, Quanto Vale ou é por Quilo? assume um tom documental para fazer verdade o discurso de seu autor. Não importa o quanto este tom custe o que há de cinematográfico num filme para cinema. Bianchi ergue seu filme numa estrutura de especial televisivo tipo os que mostram o quanto Michael Jackson é pedófilo.

O diretor decide não poupar seu espectador de nada e, para tamanho feito (que implica num certo convencimento do público do quão significativa e importante é seu trabalho), apela para as mesmas táticas que se mostra disposto a rechaçar. Como, por exemplo (há uma lista imensa), quando abusa em imagens que mostram mendigos que vomitam e crianças acorrentadas. Sob a égide do real, o justiceiro Bianchi explora os excluídos na mesma moeda que seu inimigos camuflados, a sociedade brasileira, a elite que corrompe até a professora da escolinha.

Sem conseguir dar muita consistência a uma personagem sequer, o roteiro aposta na pulverização, o que, invariavelmente, reforça a idéia de como o Brasil está contaminado pelos conceitos deformados de ética, justiça, ajuda ao próximo. Há muitos e muitos atores. Muitos atores bons até. Nenhum com um papel decente. Tudo por causa da concepção do texto, que muitas vezes parece saído de candidato derrotado à presidência de diretório acadêmico de curso de comunicação.

Há um patético Herson Capri limpando o paletó quando a velhinha faxineira vem agradecer o emprego, há uma gordinha deslumbrada que sonha com seu futuro alternativo e não pára de arregalar os olhos, há Joana Fomm e Ariclê Perez, duas damas que interpretam duas damas num dos diálogos mais constrangedores do filme, e, por fim, há Lázaro Ramos tentando arrancar alguma densidade do presidiário intelectual engajado que surge para fazer justiça social. Não que o filme de Bianchi seja filho único na última safra do cinema brasileiro, tão preso, tão profundamente dependente de temas que evocam o Cinema Novo, que imprimia a sua feitura a revolução que clamavam seus autores. Qual é mesmo a importância de Amarelo Manga, Contra Todos e Cama de Gato, filmes que gritam, gritam e não sabem muito bem o porquê de estarem gritando?

Em Quanto Vale ou é por Quilo?, não é muito diferente, mas a farsa orquestrada como ópera bufa por Bianchi, que parece ser o primeiro a não acreditar muito no que está dizendo, tem algo de revelador: a “verdade” parece só poder aparecer sob a forma do absurdo. Seria o circo pelo circo, o circo pegando fogo. Não parece ter alguma nobreza em sua altiva denúncia. Mas há uma cena que revela dignidade por parte do diretor. É quando são entregues os computadores numa escola pobre. Depois da inauguração oficial, a molecada invade a sala onde estão os pecês e manda ver nos teclados, monitores e CPUs, empurrando alguns deles no chão. São animais em frente a um brinquedo novo que eles não entendem nem querem entender. Primatas em guerra com a máquina pelo prazer da anarquia. É nessa cena que Bianchi assume que pensa muito parecido com os vilões que seu filme elege. É nessa cena que ele se mostra tão canalha quanto os canalhas que ele quer muito denunciar.

Quanto Vale ou é por Quilo? Estrelinha
[Quanto Vale ou é por Quilo?, Sérgio Bianchi, 2005]

rodapé: vi dois curtas baianos durante o Panorama do Cinema Mundial, que terminou na quinta-feira, em Salvador. Capôra, de Jairo Eleodoro, que tem preocupações ecológicas até inocentes assume uma acertada forma de mistura entre documentário sobre a exploração da Mata Atlântica e ficção sobre a exploração do homem, com câmera digital bastante criativa. Já O Anjo Daltônico, de Fábio Rocha, com muito mais dinheiro, feito em película, com fotografia cuidadosíssima, se perde com tanta propriedade em suas intenções intelectuais (“o sertão é plural”; “quem nunca contou uma mentira não conhece a verdade”) que estraga quase todos os seus méritos.

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Bens Confiscados e Bendito Fruto

A próxima página do cinema brasileiro

“E você, gosta de cinema?”. O menino de uns de 16, 17 anos fez uma cara que não, mas logo disse que tinha feitos uns testes. “Ah, você quer ser ator…”. Nos bastidores dos festivais de cinema, conversas de todos os tipos. Eu, provavelmente, vou conseguir ver pouca coisa no Panorama do Cinema Mundial, que acontece em Salvador até o dia 18. Culpa dos meus horários, como sempre. Mas no fim de semana passado, vi meu primeiro filme na mostra. Logo na chegada para a sessão de Bens Confiscados, último longa de Carlos Reichenbach, poucas pessoas esperavam na ante-sala de onde o filme seria projetado.

Entre elas, uma mulher de quem eu sentei próximo. Um café e um catálogo depois, eu já estava do outro lado da sala. Quando ouvia outra conversa sobre a criação de um pólo de cinema na Bahia, meus ouvidos e os ouvidos das outras pessoas que estavam no local foram invadidos por “pelas ruas onde andas / onde mandas todos nós / somos sempre mensageiros / esperando tua voz”. Era Dona, do Sá & Guarabyra, num lugar onde o máximo que eu esperaria era um Bob Marley ou um Los Hermanos, sei lá. A voz era a da moça que estava sentada perto de mim. Moça que logo fez alguma amigas, talvez por seus dotes vocais (teve Cidade Marvilhosa e Demais, da Verônica Sabino, no cardápio).

Elas falaram sobre o curta que seria apresentado antes do filme de Reichenbach. A Velha e o Mar, de Petrus Cariry (não sei qual o parentesco dele com o Rosemberg Cariry…). As garotas perguntavam o que esperar do filme. A moça, em tom de ameaça, mandou que elas não se deixassem levar pelos códigos que o diretor pudesse lançar para a platéia para, segundo ela, em outras palavras, dar um tom intelectualóide ao filme. Tenham suas próprias conclusões, intimou. “Eu defendo a inteligência como uma mãe defende seu filho”, completou. Fiquei com medo. Do filme, não. Da moça. Mas ela era inofensiva. E o filme não era diferente. O curta de Cariry sobre a velha senhora cuja vida levou para à beira do mar, de onde tira seu sustento faz aquela linha “o personagem que se explique” e nada mais. Não é ruim, mas bom está longe de ser. E aí eu segui para o Carlão.

Bens Confiscados tem, a meu ver, as mesmas falhas de Garotas do ABC, filme anterior do diretor, de que eu não gostei muito. E estas falhas passam, diretamente, pelo roteiro, que não raramente tem uns momentos truncados, e pelo texto, que usa algumas frases feitas e lugares comuns. Mas o último trabalho de Reichenbach tem um trunfo impressionante: um acertadíssimo tom melancólico que vai das histórias e movimentos das personagens à fotografia cuidadosa. É como se a paisagem das frias praias do sul fosse absorvido pelo filme como um todo, seja na câmera, seja na condução dos atores.

O mérito não é exatamente do elenco, que de uma maneira geral, está bem fraco, mas da intenção do filme de criar esta atmosfera triste. Betty Faria usa sua canastrice como arma para criar uma personagem frágil. Assim como sua atriz, Reinchenbach não teme se aproximar da farsa (como na roupa da estilista ou nas atuações de André Abujamra, ruim, e Beth Goulart, acima do tom) para dar base para a história que pretende contar. No final, o romance que surge é o que menos interessa. O pequeno encontro, que acontece sem intenção, serve para que os protagonistas reflitam sobre suas próprias angústias. Todas as cenas à beira-mar reforçam esses momentos de reflexão. Se algumas vezes, a palavra é usada em demasia onde poderia haver apenas imagem, Bens Confiscados parece muito sincero em seu propósito de parar e pensar.

Antes de ir para casa, resolvi dar uma chance ao cinema carioca. Bendito Fruto tinha entrado em circuito e o cinema é bem pertinho de casa. No Cinema do Museu, em Salvador, há várias revistas (sobre cinema em si ou sobre cultura em geral) à disposição dos espectadores. Peguei a Bravo! que falava sobre o cinema brasileiro de hoje, que lembrava das estréias de Walter Salles e Fernando Meirelles em língua inglesa. Materinha correta, o que me chamou a atenção foi a sobriedade da entrevista com o Meirelles, que me pareceu bem lúcido e bem pouco deslumbrado. Na entrevista, ou na reportagem, não lembro direito porque li muito rapidinho, alguém disse que os temas do cinema brasileiro continuavam os mesmos do cinema novo: a vida no sertão, as mazelas sociais nas grandes cidades. Achei curioso que eu estava ali justamente para ver um filme que fugia dessa temática.

O trailer induzia o espectador a acreditar que o filme de Sérgio Goldenberg era uma comédia de costumes com aquele acento tipicamente carioca, onde a malandragem parece um conceito muito particular para o Rio de Janeiro e que soa, de certa forma, distante do resto do país. Foge também daquele esquema de peças engraçadinhas com trocadilhos no título que infestam os teatros brasileiros. Bendito Fruto segue uma linha bastante diversa destas, ampliando seu alcance como pequena crônica do cotidiano, fugindo de estereótipos e com algumas soluções muito cinematográficas para as armadilhas propostas.

O texto, que sempre é acessível e popular, não apela para o vulgar e tem um timing para comédia muito eficiente. Há um belo número de piadas, algo que geralmente soa depreciativo, durante a projeção. De boas piadas… que se inserem numa história que trata com delicadeza temas como a diferença e o preconceito. O que mais funciona é que isso acontece sem nunca se pretender profundidade ou assumir tom panfletário. O filme, uma comédia essencialmente, tem muitos momentos tristes e, no geral, tem um clima melancólico.

A escalação do elenco também é um acerto, desde a inusitada escolha de Otávio Augusto como protagonista. Quem domina o filme, no entanto, é Zezeh Barbosa, bem distante da versão maluquinha que a consagrou na televisão. Pena que, a certo ponto, o roteiro a abandone um pouco. De resto, há um Eduardo Moscovis correto, uma Camila Pitanga perfeita e uma Lúcia Alves, atriz bem boa que o mundo deixou pra trás, num belo papel, com clima de flashback de rádio FM. O filme é um mosaico surpreendente e bastante funcional. Bendito Fruto pode não ser grande, mas é bem maior do que o Rio de Janeiro.

BENS CONFISCADOS
Bens Confiscados, Brasil, 2005.
Direção: Carlos Reichenbach.
Roteiro: Carlos Reichenbach e Daniel Chaia, com argumento de Reichenbach.
Elenco: Betty Faria, Renan Augusto, Werner Schünemann, Antônio Grassi, Eduardo Dussek, Márcia de Oliveira, Marina Person, Fernanda Carvalho Leite.
Fotografia: Jacob Sarmento Solitrenick. Montagem: Cristina Amaral. Direção de Arte: Luís Rossi. Música: Ivan Lins e Nélson Ayres. Produção: Sara Silveira e Betty Faria. Site Oficial: Bens Confiscados. Duração: 108 min.

BENDITO FRUTO
Bendito Fruto, Brasil, 2005.
Direção: Sérgio Goldenberg.
Roteiro: Rosane Lima e Sérgio Goldenberg.
Elenco: Otávio Augusto, Zezeh Barbosa, Vera Holtz, Lúcia Alves, Camila Pitanga, Eduardo Moscovis, Evandro Machado, Enrique Diaz, Thelmo Fernandes, Mariana Lima.
Fotografia: Antônio Luís Mendes. Montagem: Flávia Celestino e Jordana Berg. Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto. Música: Fernando Moura. Figurinos: Angéle Fróes. Produção: Martha Ferraris. Site Oficial: Bendito Fruto. Duração: 90 min.

nas picapes: Nem Dawn Fades, New Order & Moby.

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